O segredo

 

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As flores começaram a chegar em janeiro. Toda semana um buquê envolto em papel colorido. Lindos arranjos, mas nunca as mesmas flores. Daise investiga, pergunta a uns e outros, descobre qual é a floricultura… e fica nisso. Nada lhe é revelado. Em fevereiro as misteriosas remessas viram assunto entre os colegas de trabalho, todos dando palpites, sugestões, dicas de como descobrir o remetente. Ou a remetende, sabe-se lá, uma vez que se mantém anônimo ou anônima.

 

E as flores chegando. Daise é de poucos amigos, quase não sai de casa, o que torna as remessas ainda mais instigantes. Também não está interessada em admiradores, que com certeza não tem. Março aparece no calendário e as flores chegando. Ninguém veio informar que houve um engano, a gentileza é para a bonitona do segundo andar, bateram em sua porta por equívoco. Ou para a dondoca da cobertura, que todo mundo sabe,  recebe flores de todo mundo, menos do marido. Depois que o noivo a deixou a ver navios, Daise não recebia flores de ninguém.

 

A vida passa rápido mas os meses escorrem lentos. Em abril os buquês chegam duas vezes por semana, mesmo assim variando em estilo e tipo de flores. Nem sabia que existem tantas nos jardins da cidade. Tentando desvendar o florido mistério, em maio Daise resolve aderir à turma do escritório que frequenta o barzinho do sábado à noite – nenhuma pista. Em junho Daise aceita os convites da turma que vai a la praya aos domingos e dias santificados, seja por santos ou herois nacionais. Nada descobre, além do fato de que a turma é bem animada.

 

Em julho Daise está em desespero de causa, e adere à turma do prédio que frequenta a academia da esquina… Em agosto aceita o convite das primas para ir ao cinema. Setembro traz uma alteração – um cartão com um coração desenhado a mão. Rima demais, convenhamos, e mesmo assim infrutífera. Como também as idas constantes à floricultura. O dono é muito atencioso mas explica que existe um código de ética a ser respeitado, segredos do ofício a serem mantidos. Ou seja, em setembro Daise continua no mesmo estágio de janeiro – nada sabe e não desconfia de ninguém.

 

Mas reconhece que a vida melhorou e já nem se lembra do ex-noivo. Em outubro Daise muda o corte e cor do cabelo. Em novembro Ricardo, o dono da floricultura a convida para uma pizza.  Dezembro chega cheio de promessas e surpresas. Ricardo confessa que mandava as flores e tira do bolso as alianças. Mas antes avisou ao anônimo remetente semanal que a moça ficou noiva e ele não ia mais entregar os buquês. Perdeu um bom cliente, mas está feliz.

 

 

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