Atrasada, como sempre

Atrasada, como sempre

Desde que o homem entendeu que o sol sumia do céu mas voltava com uma certa frequência, medir e contar esse período de tempo passou a ser uma necessidade básica das sociedades em formação. Os relógios apareceram há 3.500 anos AC – de sol, de água, de flor, de vento, a ampulheta, e singelezas outras. Era um tempo em que medir o tempo era uma necessidade apenas para sábios, religiosos e governantes. “Por que contar o tempo? perguntavam os práticos.

O primeiro relógio foi o de sol: sombra para um lado é de manhã; sombra muda de lado é de tarde; sem sombra é meio dia; não vê o relógio é noite. A ampulheta desbancou o relógio de sol e se tornou tão popular que ainda hoje representa o Senhor Tempo. Consiste de um vidro de cintura fina, ou um ralo estreito no meio, com areia em um dos lados. Vira de um lado e a areia escorre lentamente durante uma porção de tempo equivalente a uma hora… aí vira para o outro lado.

Se hoje com toda a tecnologia moderna esquecemos de carregar o celular, imagina virar a ampulheta a cada duas horas – ou doze, pois havia ampulhetas em vários tamanhos para atender a todas as necessidades: amamentar o bebê a cada 3 horas; tomar o remédio contra verme a cada 4 horas; dar milho às galinhas a cada 6 horas; tirar o pão do forno em uma hora. Sempre havia vagas para o cargo de virador de ampulheta.

Atração turística na Irlanda, a pedra do tempo consiste de uma pequena pedra pendurada por um fio e ao relento – se está seca, não chove; molhada, está chovendo; se faz sombra no chão, tem sol; se está branca no topo, tem neve; se não vê a pedra, tem neblina; se balançar, tem vento; se pular pra cima e pra baixo, tem terremoto; se desaparecer, tem furacão. Faria inveja aos incas.

Se essa pedra estivesse no Brasil e desaparecesse, seria porque foi vendida por algum político pelo dobro do preço; se desaparecesse nos Estados Unidos seria mais um complô pra derrubar o Trump. Os relógios modernos, ao contrário dos seus criadores, nasceram grandes e foram diminuindo até caberem no bolso. Dos homens, que nesse tempo não era de bom tom mulher usar relógio. Não precisavam, diziam, e os poucos relógios femininos eram apenas decorativos; não tinham que ser exatos.

Aí Santos Dumond inventou um jeito de prendê-los no pulso, e nos tornamos escravos do tempo. É como um filme de ficção científica em que um gigantesco olho onipresente controla tudo e todos: tictac, tictac. Ao invés de ajudar, essa pressão constante atrapalha, e estamos sempre atrasados. Culpamos o mau tempo, a highway engarrafada, o carro que não pegou ou precisou abastecer. Ou a vizinha que veio perguntar as horas – Faltou energia e os relógios caducaram.

A casa da minha infância tinha apenas um relógio, suficiente para controlar o tempo de uma família de seis pessoas. Na minha casa em Miramar nem sei quantos são, pois vêm embutidos em tudo, que nem gordura: no fogão, no microondas, na geladeira, na televisão, nos computadores e celulares, no carro. Mesmo assim usamos o relógio do sol, como na pré-história: se brilha no céu é dia, se desaparece é noite; se deu praia é tempo bom; se brinca de esconde-esconde é tempo chuvoso; quente até na sombra é verão; se não estou suando é inverno.

A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

No singelo jardim da casa de Jane – um metro por dois, se tanto, mais grama que planta – nada de interessante acontece. Pelo menos é o que ela pensa. No entanto, quebrando a mesmice que deve ser a vida das plantas, uma semente distraída navega o vento e ali decide se instalar. No princípio é apenas um ramo frágil, e precisa lutar desesperadamente para se impôr entre a folhagem que ali já demarcou seu espaço e não pretende dividir seus privilégios.

Outras vieram antes e não conseguiram sobreviver a essa primeira fase, massacradas por ventos fortes, chuvas intermitentes, muito frio ou muito calor, formigas destruidoras, o gato que tudo remexe. Muitas são estranguladas ainda no berço – a guerra no subsolo por espaço e alimento; a disputa no solo pela conquista por um raio de sol. Poucas conseguem vencer essa primeira etapa e seguir adiante, se esticando, se intrometendo e se impondo para sobreviver.

Também no grande jardim humano, onde os espaços estão cada vez mais escassos e a disputa por um lugar ao sol é ainda mais acirrada, a chance de uma jovem modesta vencer são mínimas. Onde há vida há competição, seja no quintal de uma casa suburbana ou na revista em que Jane trabalha, ‘A vida das flores’, especializada em jardinagem. Embora o ciclo natural se renove constantemente, o poder tende a permanecer onde está – o diretor passa a direção aos filhos como a árvore espalha em volta suas sementes.

Jane chegou de mansinho, como quem não quer nada, e ela mesma acreditava nisso. Não tinha curso superior em jornalismo ou jardinagem, como exigia a chamada de emprego, mas era boa em computação e rápida nas pesquisas, e foi ficando. Gentil, tímida, prestativa, a supervisora se irritava, Menina, fala mais alto, faça-se ouvir, e Jane balbuciava, Quieta no meu canto não incomodo ninguém. Entrou como temporária, foi ficando, sem ambições, sem reclamações.

Jane mora em um condomínio fechado onde todas as casas são iguais e pintadas da mesma cor, com um pequeno jardim na frente com as mesmas plantas podadas uma vez por mês no mesmo tamanho e formato. Um dia qualquer, ao sair de casa Jane se surpreende ao ver um galhinho magricela despontando acima da folhagem verde-amarela do jardim. Foi aos poucos se esticando e numa bela manhã de sol, Jane vê brotar uma esplendorosa flor amarela acima da mesmice do canteiro.

Uma flor apenas, mas puro ouro, como um raio de sol vencendo um dia chuvoso. O jardineiro do condomínio passa com a serra elétrica, nivelando a liberdade dos canteiros. Jane pela primeira vez chega atrasada na redação, esperando por ele. “Não corte minha flor,” avisa. A flor amarela é uma aberração fora do contexto e será eliminada, avisa a síndica quando informada da estranha determinação da residente. Uma jovem sempre tão pacata, vai agora criar caso por causa de uma flor?

Jane explica que mesmo uma flor deve ser protegida, justamente por sua fragilidade. A senhora nada entende, e com o estatuto do condomínio em punho cita regras e normas que devem ser seguidas por todos, Ou viramos terceiro mundo, onde todo mundo faz o que quer. Jane rebate que uma pequena flor que sobrevive aos concorrentes mais fortes merece o privilégio de cumprir sua finalidade na natureza e desfrutar um raio de sol, breve que seja. Portanto, a flor fica.

A síndica convoca uma reunião do condomínio, onde nada fica decidido, como em todas as reuniões de condomínio. Recorre portanto à instância superior. Informada do impasse, a Administração geral do condomínio convoca uma reunião de emergência da diretoria, mas antes que tal aconteça, a flor morre por conta própria. No dia seguinte, Jane entra na disputa para a vaga de diretor gráfico da revista.

Brasileira expulsa de Miami

Primeiro de abril
Primeiro de abril

Fechamos o mês de março com uma terrível apreensão: quem vai me pegar nesse auspicioso dia primeiro de abril de sol e ventos brandos? Caindo num sábado, mais tempo terão os engraçadinhos de fazer graça às minhas custas, o que não será nem um pouco engraçado para mim. Não foi por falta do que fazer que criaram o dia dos tolos – somos todos tolos, na verdade, e um dia a mais ou a menos não faz muita diferença.

Nos meus tempos de criança o dia era levado a sério, e a gente saía de casa em estado de alerta, sabendo que uma pegadinha poderia acontecer a qualquer momento. Mesmo porque, na véspera a gente ia pra cama tarde, bolando quem pegar, e como. Hoje, com tantos aparelhinhos nos distraindo, o evento está caindo em desuso. Ou estamos perdendo a criatividade. Há várias versões das origens do dia dos tolos, portanto pesco na Internet a que mais me agrada. Ou a que considerei mais plausível.

Depois de intensas pesquisas, um professor da Universidade de Boston, em Massachusetts – onde minha neta se prepara para ser médica – encontrou uma versão até então ignorada. O dia dos tolos começou no reinado de Constantino, quando um grupo de bobos da corte disse ao imperador que eles poderiam administrar Roma melhor que ele. Constantino achou a ideia tão engraçada que nomeou um dos palhaços, chamado Kugel, rei dos romanos por um dia.

Um parenteses aqui para lembrar que Constantino criou Constantinopla, que foi capital do Império Romano; do Império Bizantino, também chamado Império Romano do Oriente; do Império Latino; e quando tomada pelos turcos, do Império Otomano. Na Idade Média, Constantinopla foi a maior e mais rica cidade da Europa. Nesse primeiríssimo primeiro de abril, Kugel determinou que o povo fizesse coisas absurdas. A brincadeira agradou e se tornou um evento anual, que depressa se espalhou pelo resto do mundo.

Essa explicação foi publicada em vários jornais no dia primeiro de abril de 1983, e bem aceita nos meios acadêmicos. Levou uma semana para a Associated Press descobrir que a história foi inventada – eles haviam caído num primeiro de abril. Mas ninguém foi executado, porque essas pegadinhas nos jornais eram comuns em tempos antanhos. Uma das mais antigas e famosas ocorreu em Londres, em 1698, quando publicaram a notícia de que ocorreria na Torre de Londres a cerimônia anual da lavagem dos leões.

O povo acorreu para assistir, mas obviamente não havia leões sendo lavados. A brincadeira agradou tanto que o povo a adotou, e a cada primeiro de abril as pessoas avisavam outras sobre o evento, principalmente turistas e visitantes estrangeiros. E uma multidão se formava no local – os que iam para ver a lavagem dos leões, e os que iam para rir deles. Mas aí os espertinhos começaram a vender bilhetes para a cerimônia.

Mas abril, espremido entre o esplendor de maio e a suavidade de março, tem outros encantos
e foi eleito o mês da poesia! E ainda dizem que a vida está perdendo a poesia, ou que a lira poética esteja se extinguido. Digitando ‘poesia’ no Google.br, encontrei 71 milhões de resultados. digitando ‘Poetry’, surgiram 160 milhões. O que não significa que uns sejam mais poéticos que os outros. Para comemorar, encerro a coluna com um trecho do poema Motivo, de Cecília Meirelles: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”.

Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

O Natal é apenas um feriado, como tantos outros que ajudam o ano a passar mais depressa, pensa Laura, se desviando dos pacotes de presentes empilhados em volta do pinheiro enfeiando a entrada do edifício onde mora. Tanto a árvore quando os pacotes embrulhados em papel brilhante são falsos. Mais tarde o condomínio se reúne para uma festa onde pratos calóricos e sem sabor vão ser servidos. Laura é a unica do prédio que não contribuiu com $50 para uma falsa noite de paz e amor. Laura também não participa das festas da repartição nem se reúne com familiares ou amigos.

Quanto ao troca-troca obrigatório de presentes comuns nessa data, prefere comprar ela mesma algo de que goste, em vez de receber alguma quinquilharia sem utilidade que vai entulhar os armários e sempre custa menos que o preço estipulado. Em troca, daria algo que a pessoa aleatoriamente imposta também não vai gostar. Cinismo? Não, experiência. O Natal é um dia comum, onde tudo que acontece nos outros 364 dias do ano pode acontecer também. Nascimentos e mortes; crime e assaltos; falcatruas e corrupção… E mais, traição, gente se unindo e se separando. Doenças, balas perdidas, mais uma guerra, um desastre, uma tragédia…

Para não parecer antipática, Laura explica que vai viajar, e se manda para uma pousada em Santa Leopoldina. Assim ganha dois presentes: descansa e fica livre do barulho e da sujeira que a festa de natal provoca.

Confirmando sua própria teoria, o carro enguiça na subida da serra, indiferente ao fato de ser um feriado quase universal ou outro dia qualquer. Na estrada não passa ninguém, todo mundo está festejando em algum lugar. O celular chama e ninguém atende – por certo tem muito barulho nas festas de natal. Nem a polícia, nem os bombeiros, nem seu mecânico. O jeito é dormir no carro, mas tem medo de passar a noite sozinha na estrada. Seja qual for o dia do ano, havendo chances os assaltantes não deixam de assaltar.

Laura faz uma busca nas imediações, talvez esteja perto de algum lugarejo com posto de gasolina e mecânico, ou um hotel, mesmo de péssima categoria. Por sorte vê luzes ao longe e enfrenta a subida íngreme, chão de pedregulhos dinvadido pelo mato. Chegando mais perto vê que é apenas a casa modesta de algum lavrador, meio escondida entre as árvores, com roupas de criança no varal e latas de plantas na entrada. Resolve arriscar, pior que passar a noite ao relento impossível.

O jovem que a atende explica que não entende nada de carro nem tem como levá-la a lugar nenhum. A essa hora não se acha ninguém, nem mesmo se fosse um dia comum. A esposa não lhe dá atenção – está pondo a mesa para a ceia de natal: uma travessa de sopa fumegante, odor convidativo, e pão casesiro. Um menino brinca com seu presente de Papai Noel: um carrinho feito de lata de óleo. “A senhora pode se acomodar aqui com a gente, sim senhora. Já vamos mesmo comer umas coisinha. Casa de pobre, tá percebendo, mas tem um colchão a mais. Amanhã o ônibus passa cedo”. Sem esperar resposta, a moça põe mais um prato na mesa. Laura agradece, feliz – essa noite terá um natal de verdade.

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Esse ano, não sei por qual acordo nacional não sacramentado, o natal chegou mais cedo. Embora as lojas já comecem a vender os produtos habituais desde setembro, tradicionalmente a decoração natalina só era feita após o fim de semana da dupla Thanksgiving / Black Friday. Sobrava o sábado e domingo livres para desenterrar caixas e pacotes do fundo dos armários ou download do alto das estantes da garagem, onde hibernavam desde o ano anterior. Não mais que de repente, todo mundo pulou a decoração do final de novembro, investindo mais cedo nos vermelhos e dourados do natal.

Talvez efeito do El Niño, ou da eleição de um presidente contra o voto popular – Vamos começar o natal antes que o Trump invente um muro para banir a entrada do Papai Noel… Que, não sendo americano, trabalha ilegal no país. Como essa nova tendência começou ninguém sabe, mas todos aderiram. E por que não? O natal é mais bonito e dá mais trabalho de arrumar e desmontar, portanto, que fique mais tempo em cartaz. Parece até competição – quem começa a arrumar ou terminar de arrumar primeiro; quem põe mais brilho ou bonecos maiores nas portas.

Outra mania incutida na mente coletiva é tirar tudo no dia 31 de dezembo, dando lugar à decoração branca e prata da passagem de ano. Nos natais da minha infância, árvore e presépio eram retirados no dia 6 de janeiro, o dia dos Reis Magos. Outra festa, com os participantes das folias de reis batendo nas portas, e ninguém pensava que eram vendedores de enciclopédias. Tinha também boi pintadinho e mulinha, que era um sujeito ‘montado’ numa mula de madeira coberta com chitão. Essas práticas foram se perdendo com a debandada do povo das cidades pequenas para as metrópoles, mas em muitos lugares as crianças ganham presentes no dia de reis, e não no natal.

Quanto aos Reis Magos, sabemos que vieram do leste guiados por uma estrela, que pode ter sido o Cometa Haley. Seriam mesmo reis de reinos distantes? As referências a eles na Bíblia são vagas, sem lhes dar nomes ou especificar quantos eram – o número três se refere aos presentes que trouxeram para o menino: ouro, incense e mirra. E são os presentes que todos nós gostaríamos de ganhar – o ouro significa realeza; o incenso representa a fé, pela oração que sobe aos céus; e a mirra, usada pelos egípcios para embalsamar, simboliza a vida eterna. Foram esses misteriosos magos, talvez astrólogos, que nos legaram a tradição de dar presentes no natal.

Deviam, portanto, ser nomeados patronos do comércio e da indústria, que esses vendedores de ilusões estão esfregando as mãos, com os olhos brilhantes, faturando alto. E sabem nos induzir ao gasto desenfreado. Pesquisas indicam que a música ambiente é um poderoso agente de vendas – se o freguês gosta da música, entra; se for música lenta, demora mais tempo na loja. Pesquisas também indicam que o ato de comprar tem efeito direto nas áreas de prazer do cérebro, levando dopamina para o cérebro, tal como as drogas. Portanto, estamos perdoados por gastar demais numa loja – estamos drogados.

Por pior que andem as coisas, não há crise no Natal – todo mundo compra, uns mais outros mais ainda, tem ano melhor que o outro, mas a mágica da dopamina não falha. Apesar das compras online já estarem em 42%, a ida às lojas e shoppings ao invés de cair, cresce junto. O americano gasta, em média, 786 dólares nas compras de natal, portanto, tem alguém gastando minha cota. Atento às vantagens tecnológicas, o comércio usa imagens de satélite dos estacionamentos dos shoppings para avaliar como serão as vendas nos feriados.

Embora muitos pensem que a campeã das compras no país seja a Black Friday, na verdade o dia 23 de dezembro leva o ouro – é o dia que mais vende, com lojas lotadas abertas até meia noite, filas imensas nos caixas, corredores dos shoppings entupidos de gente carregando sacolas recheadas. E todos já compraram muita coisa com antecedência, quer dizer, dia 23 é o dia das ‘faltinhas’, ou para retribuir presentes inesperados. Outro mito é que os preços estão mais baratos na Black Friday – dia 23 também ganha. Quer dizer, quanto mais gente comprando, mais os preço baixam. Esssa é uma equação de causa e efeito que os comerciantes brasileiros usam ao contrário – sobem os preços já inflacionados quando tem mais gente comprando.

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Em tempos perdidos nas trevas de um mundo sem celulares e Internet, mal entrava dezembro e os correios faziam hora extra para dar conta dos cartões de natal enviados pela tradicional via bicho-preguiça. Com a evolução tecnológica, basta saber um dos muitos emails de cada um: 500 milhões de cartões desejando boas festas e um novo ano melhor que o velho voaram nas redes virtuais em 2015. E assim os velhos cartões coloridos viraram passado, certo?

Absolutamente. Com todas as facilidades das mensagens eletrônicas, a opção correio continua imbatível: dois bilhões de cartões são vendidos anualmente, apenas nos States. E as mulheres lideram, comprando 85% desse total. A Casa Branca iniciou a tradição de enviar cartões comemorativos a funcionários, correligionários e chefes de estado em 1927, mas os cartões de natal começaram a ser enviados pelo Presidente Eisenhower.

E não seria diferente no ano de 1953, mas o cartão escolhido foi mandado para a gráfica mais cedo: os Kennedys iriam para o Texas em novembro, numa viagem de 2 dias visitando 5 cidades. Feito especialmente para eles pela Hallmark, o cartão tinha a foto de um presépio napolitano do século 18 que ficava exposto na Casa Branca nos dois anos que eles viveram ali.

A mensagem era simples e elegante, como tudo que se referia à então primeira-dama: “ Nossos votos de um Natal Abençoado e Um Feliz Ano Novo”. O casal chegou a assinar 75 cartões, deixando os demais para assinar quando voltassem a Washington. E o resto é história: os cartões nunca foram assinados nem enviados, e um deles repousa hoje no Museu Nacional Smithsonian da História Americana.

Esse ano, o último cartão da família Obama na Casa Branca estampa a foto do casal com as duas filhas, e a mensagem: “Boas Festas. Quando nossa família reflete sobre os muitos anos felizes que passamos na Casa Branca, estamos gratos pelos amigos que fizemos”. A bela foto levantou controvérsias: Vestidos para um jantar de gala, o vestido de cada uma das filhas custou 20 mil dólares. O preço do vestido de Michelle, feito por Jason Wu, não foi revelado.

Talvez o polêmico próximo presidente comece a mandar seus cartões online, interrompendo a velha tradição e iniciando a próxima. Segundo as estatísticas, até 2020, o número de cartões de natal cairá para 21 milhões.

Um certo Werner Erhard, de São Francisco, é o campeão das remessas natalinas – em 1975 enviou 62.824 cartões pelo correio. O primeiro e mais caro cartão de natal da era moderna, desenhado por John Calcott Horsley em 1843, foi vendido em leilão, em 2001, por 35 mil dólares. Horsley, um artista plástico britânico, fez o cartão por encomenda de Sir Henry Cole – mil cartões impressos em preto e branco e coloridos à mão. O desenho mostrava um alegre grupo de pessoas segurando taças de vinho, mas ao invés de agradar, provocou polêmica – naqueles idos, misturar alcohol com as festas natalinas era um sacrilégio.

Síndrome de Estocolmo

Síndrome de Estocolmo

Antigamente os amores impossíveis alimentavam fartos romances e lacrimosos filmes. Hoje, quando nada mais é sagrado, o amor está cada vez mais impossível. Como no estranho caso de Nora e Nilton, que se encontraram numa feira de animais domésticos,  portanto, que não fiquem dúvidas, os dois são apaixonados por bichos. Mais precisamente, Nora ama Valdez, seu gato siamês, e Nilton não se desgruda de Daniel, seu cão spaniel.

Para Nora e Nilton foi amor ao primeiro tropeção, pois assim se conheceram, esbarrando um no outro e derramando as cocas diet  e zero de cada um. Mas com Valdez e Daniel foi ódio ao primeiro latido e miado. Simultâneos. Enquanto os donos trocavam olhares lânguidos enxugando a roupa, as feras se atacavam. Nora e Nilton decidiram investir no romance, apesar do mau presságio do primeiro encontro e indiferentes  aos desentendimentos de seus bichinhos de estimação. E se chegaram sozinhos ao evento, ao saírem já estavam unidos até que os desvios da sorte se intrometam. Ou não.

 

No dia seguinte já estavam morando juntos, para desgosto de Valdez e Daniel, que tudo fizeram para demovê-los desse amor insensato. Nora e Nilton não se deixaram influenciar pelo mau humor dos pets, Com o tempo eles se acostumam, pensaram juntos. Vamos ver, pensam os mimados bichinhos, se é que cachorro e gato já pensam. Apesar de bem treinados e muito bem tratados, os dois nunca aceitaram a convivência forçada, e brigam o tempo todo.  No mesmo embalo, Nora e Valdez brigam também, mas sem deixar que os desentendimentos de hoje durem até  amanhã.

 

Você tem síndrome de Peter Pan, é muito dependente, não amadurece nunca! grita Nora; Você não se adapta à vida em comum, é independente demais, rebate Nilton. Cão e gato, se falassem, diriam a mesma coisa. Ou dizem, numa comunicação atávica lá entre eles. Valdez: eu não me deixo escravizar, sou livre; vou onde quero e sei voltar pra casa; você depende do dono pra tudo. Daniel: Eu sou útil; sei tomar conta de criança, da casa, perseguir caça, seguir pistas, guiar cegos, farejar drogas. Por isso eles dizem que sou o melhor amigo do homem.

 

Valdez: Isso é pura balela, pois além de te explorarem, ainda te fazem de palhaço, ensinando truques idiotas.  Eu não trabalho pra eles, eles é que trabalham pra mim. Daniel: A única coisa que você faz é caçar ratos, uma atividade não muito nobre, convenhamos. Valdez: Isso é lenda;  minha estirpe não se rebaixa a tanto. Acha mesmo que eles amam seus cachorros? Então por que chamam o diabo de cão? Chamar uma pessoa de cachorro não é elogio, é xingamento. E criaram expressões pejorativas: cachorro sem dono, cachorro doido, cachorrada, dia de cão, cão que ladra não morde, os cães ladram mas a caravana passa. Isso é falta de respeito!

Daniel: São modos de falar, apenas, sem intenção de ofender. Os gatos também são lembrados:  gato escaldado tem medo de água fria, gato preto é azar. Valdez: Mas chamar alguém de gata ou gato é elogio, chamar de cachorro é xingamento. Cachorrinho de madame é pejorativo, e ninguém diz gato de madame. E ainda nos deram mais seis vidas de presente!  Pode ser, mas quem chegou primeiro fui eu, rosna Daniel. Ao que mia Valdez, Pode ser, mas quem manda neles sou eu.

Daniel está certo, os cães chegaram primeiro, tendo migrado da Sibéria ou do Alaska há 35 mil anos. Hoje existem aproximadamente 85 milhões de cães domésticos nos Estados Unidos.  Mas Valdez está certo, os gatos ganharam a preferência popular – são 93 milhões, ou seja, 1/3 das residências americanas têm pelo menos um gato.  Os cachorros são mais inteligentes, ficando em terceiro lugar entre os animais, atrás dos macacos e golfinhos. O gato fica em 20º lugar. O gato tem melhor visão e os cachorros têm melhor olfato.

Os entendidos garantem que os gatos não são hóspedes nas casas dos donos, mas reféns que talvez um dia,  graças à Síndrome de Estocolmo, acabarão amando seus donos. O cachorro tem família, o gato tem empregados. O cachorro, se bem treinado, obedece cegamente. O gato aceita o jugo, mas não exijam truques e prestação de serviços. Quanto a Nora e Nilton, estão no mesmo ritmo –  ainda apaixonados, sabendo que nasceram um para o outro, mas continuam brigando feito cão e gato.

 

Serviço de utilidade pública do blog: Síndrome de Estocolmo é uma situação em que a pessoa submetida a maltratos ou submissão durante muito tempo, acaba criando amizade ou se apaixonando pelo agressor.

Vão-se os anéis e os dedos

A notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

No dia do noivado, em vez do esperado anel de brilhantes, Vico oferece à futura esposa um anel da Pandora; caro mas inadequado –  diamantes são para sempre. O quase-noivo explica que pretendia comprar o anel exigido na ocasião, mesmo com parcos quilates, mas uma notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

Pois não é que justamente no auge da campanha presidencial, quando o único programa de governo do candidato republicano é ressuscitar o muro de Berlim no sul dos Estados Unidos, a Ford anuncia que está transferindo sua produção de carros populares para … (suspense) … Advinhou? O México! Trump quase arranca o famoso topete – Tanto país pobre no mundo, por que o México? Ficou chato, né?

Mas pode até ser que a mais tradicional fabricante do mais americano dos carros esteja ajudando o candidato em sua política separatista, justamente por semear empregos à mão cheia no terreno inimigo. Se, seguindo o exemplo da Ford, toda a indústria americana também se transferir para o México, teremos dois benefícios a curto prazo: carros mais baratos (mão de obra a preço de garrafinha de água mineral), e inversão da corrente migratória.

A Ford anunciou que vai investir 4.5 bilhões na produção de carros pequenos, mais econômicos porém massacrados pela concorrência de Hondas e Toyotas. Com essa transfusão de dólares na combalida economia mexicana, até los astecas vão deixar suas pirâmides e trabalhar na linha de montagem. Tudo porque a Ford quer se dedicar a seus produtos mais lucrativos –pickups e SUVs, que com a gasolina mais barata, são as preferidas de quem pode pagar.

O problema da imigração ilegal será transferido para o governo mexicano, e todos sairão lucrando. Enrique Peña finalmente vai aceitar pagar os custos do muro, como Trump promete e jura que vai acontecer. Para Vico, porém, a notícia é desastrosa. Trabalhando há anos na fábrica da Ford em Detroit, seus dias estão contados. Claro, a Ford já se espalha por vários países, inclusive o México, mas essa mudança é radical. Empregos andam difíceis, e vamos ter que mudar pro México? Triste ironia.

A quase-noiva recusa o pedido, Prefiro ficar sem anel do que mudar para o México e viver com 10% do seu salário. Vico vai à loja devolver o anel, e a vendedora o consola, Vão-se os anéis, ficam os dedos. Vico rebate, Foram-se os anéis, o emprego, a noiva, de que me adiantam os dedos?  A jovem insiste, Sem anel e sem emprego, mas talvez com outra namorada. Vico não pensa duas vezes, Mesmo se tiver que mudar pro México? pergunta, pegando o anel de volta.

Ana e o pássaro azul

Ana e o pássaro azul

Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado.

Feitas com papel de seda, pequenas e delicadas garças azuis, dobradas com o cuidado exigido pelo origami. Depois de bem dobradas, Ana decora as asas com elaborados desenhos –  flores, folhas ou ramos, anjos ou guirlandas, pássaros, peixes, nuvens. Ou apenas traços sinuosos, enroscando-se sensualmente uns nos outros, como um par romântico.   Ana cria suas aves com o mesmo cuidado com que os artesãos da Idade Média criavam os rococós que engalanavam suntuosas catedrais – para que os fiéis entendessem a beleza do paraíso. Condenamos a Igreja Católica pelos abusos e crueldades da Inquisição, ironicamente chamada de santa, mas devemos reconhecer que ela incentivou e patrocinou muitas das melhores obras de arte já criadas pelo homem. As mulheres nunca tiveram vez.   Isso pensa Ana, por nada mais ter que pensar enquanto cria as pequenas garças de papel de seda. A adição dos adornos é para realçar as excessões que até a natureza aceita. Quando prontas, Ana acrescenta sobre elas uma leve gota de perfume, para criar o toque de mistério.  Completando  a cota do dia – embora não haja uma quantidade específica para cada dia – Ana arranja os pequenos pássaros numa caixa, e está pronta para mais um dia em sua vida.

A garça azul é a mais clássica e popular figura do origami japonês – a arte de dobrar papéis. Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado. Por que não tentar? Missão cumprida, Ana almoça um sanduíche vegetariano, integral e orgânico,  assiste ao Vale a Pena rever na TV, veste a túnica azul e sai para a tarde ensolarada ou chuvosa, com brisa amena ou vento forte – qualquer que seja a previsão metereológica, mesmo que ilógica.

E lá vai Ana distribuindo sorrisos rua a fora, vida a fora.  Às vezes pega um ônibus, mais das vezes caminha a esmo, vira em qualquer rua ou segue qualquer rota, mas sempre nos locais mais feios, mais pobres, mais tristes. Pode ser uma escola cheia de goteiras ou um hospital precisando de anestésicos, ou um desses prédios escuros e mal-cuidados, com pequenos consultórios cheirando a desinfetante e lágrimas.

Ana distribui garças azuis como se fossem bênçãos ou biscoitos da sorte. A quem ou para quem? As aves de papel não têm destinatário e não transmitem recados ou mensagens, sejam explícitas ou cifradas. Mas tem seus critérios, e distribui seus pequenos trabalhos de arte a quem deles mais precise. Como discernir quem são essas pessoas precisadas de uma mensagem de paz, no entanto, é um dom que nem ela pode explicar – puro instinto.

Tá vendendo, moça? Não; pegue uma, traz sorte. É, ando mesmo muito precisada. Ana sabe disto, mas sorri apenas e nada diz.  Quando a tarde se dilui no abraço da noite e as ruas começam a se esvaziar da pressa e dos barulhos do dia, Ana volta pra casa com a caixa vazia e o coração cheio de paz. Está perto de completar as mil garças de origami que precisa fazer  para que seu desejo seja realizado. Mas quando acontecer, vai mesmo parar?

Lá vem o Matthew!

Lá vem o Matthew!

Plena quarta-feira, Miami está em estado de alerta  por causa da indesejada visita de um furacão, que ameaça comparecer com força total. Ou talvez não, pois são temperamentais e mudam de rota e de ideia como mudamos nós de senhas. Ou deveríamos. No trabalho fecharemos ao meio-dia de uma quarta-feira ensolarada, só voltando na segunda, se tudo correr bem.  As chuvas e ventos fortes devem começar essa noite.

E enquanto o monstro não chega, haja filas – os postos de gasolina têm filas dobrando os quarteirões. Os supermercados e afins estão com as prateleiras de produtos básicos totalmente vazias. O que acaba primeiro? água, banana, pão, queijos, enlatados, papel higiênico, velas e lanternas. Mais difícil, porém, é instalar nas portas e janelas os protetores de alumínio. Mais das vezes,  para nada.

Mas até que tivemos um bom descanso, pois desde 2005 não fomos incomodados pela fúria meteorológica. Esse trágico ano bateu os piores recordes da história – foram 15 furacões, e o maior número de furacões na categoria 5, a mais violenta:  Emily, Katrina, Rita, Wilma.  Os nomes dos furacões se repetem, mas quando um atinge proporções catastróficas, o nome é retirado – em 2005, mais de 5 nomes saíram da lista. Esse ano foi também campeão de prejuízos materiais – 150 bilhões de dólares.

O que fazer num prolongado feriado se o Matthew realmente aportar na nossa área? Sem energia elétrica não temos fogão, micro-ondas, televisão, internet, telefone. Água a gente estoca, tanto para beber como para uso comum – as banheiras ficarão cheias. Sem geladeira os perecíveis perecem, o jeito é comer sanduíches e enlatados. Cozinhar só na churrasqueira, quem tem quintal ou mesmo varanda, embora seja proibido. O mais é ler, conversar, fazer palavras cruzadas ou sudoko.  Se o tempo permitir, andar.

Os tanques dos carros foram devidamente abastecidos até o limite, e os mais cautelosos enchem latões com gasolina para reserva. As grávidas nos últimos meses de gestação podem ir para os hospitais, pois o aumento da pressão atmosférica pode antecipar a chegada dos rebentos. Sem aula, sem Ipads e joguinhos eletrônicos, as crianças descobrem uma opção há muito em desuso por essas bandas – sair para brincar na rua.

E assim vamos nós, os residentes da Flórida, nos adaptando a essa ameaça. Mais das vezes, essa trabalheira toda é desnecessária, e damos fracas a Deus. Mas se o pior acontecer, então é reunir a família, cachorros e papagaios, o kit sobrevivência e correr para os abrigos. Ou pegar o carro e fugir para regiões mais amenas. Até segunda.

Nota: Foto cortesia do Centro de Furacão dos Estados Unidos (National Hurricane Center) http://www.nhc.noaa.gov/