Nossa Terra, nossa gente

Nossa Terra, nossa gente

mindfully-share[1]

Dia 22 de abril é ou foi o dia da Terra, portanto semeio boas notícias, a ver se servem de exemplo e produzem bons frutos. Somente em janeiro desse ano 3.2 milhões de americanos deram adeus aos patrão e deixaram o emprego. Um sinal de que a economia está melhorando; se tem tanta gente pedindo demissão é porque foram trabalhar por conta própria ou arranjaram empregos melhores. Há outros bons motivos, claro, como ganhar na loteria ou arranjar um bom casamento, mas menos prováveis.

Parece que tem vaga sobrando para quem está bem preparado. O site Qz.com informa que existem atualmente 530 mil empregos disponíveis na área de informática no país, mas apenas 60 mil estudantes se formam em Ciência da Computação a cada ano. Um estudo do governo prevê que em 2020 haverá 1.4 milhões de vagas na área, enquanto a oferta de mão de obra será de 400 mil apenas. Os indianos estão preparando os passaportes.

FoxNews informa que o censo americano em 1950 listou 270 empregos que estariam extintos nos próximos anos. Errou: 32 empregos sumiram por falta de procura, e o único definitivamente extinto é o de ascensorista de elevador, embora o número de elevadores tenha aumentando consideravelmente. No Brasil essa ocupação continua escalando, mas por que manter uma pessoa sentada o dia inteiro num veículo que anda sozinho e todo passageiro sabe apertar o botão?

lembrando que todos os dias são dias de cuidar da casa, o globo que nos abriga, alimenta e protege. Portanto, continue dando sua ajuda. Uma boa dica do Google: reduza, reuse, recicle, exatamente nessa ordem. Reciclar gasta muita energia, portanto a melhor opção é reduzir o consumo e reusar o que for possível. Cuidar bem do planeta vai nos deixar tão felizes quanto os noruegueses? De acordo com Word Happiness Report de 2017, a Noruega é o país mais feliz do mundo. Por que não temos um planeta onde todos os países sejam igualmente felizes?

Um engenheiro da Apple criou um jeito diferente de ajudar os mendigos de sua cidade: montou uma lavanderia ambulante com máquinas de lavar e secar em uma camionete, e passa os fins de tarde e de semana rodando pela cidade, lavando e secando a roupa dos mendigos, no que ele chama de Loads of Love. Haja amor pra dar. Segundo ele, ‘A roupa limpa restitui a dignidade das pessoas’.

Pedro Viloria, que trabalha em um McDonald de Miami, teve seu dia de glória quando uma mulher desmaiou na fila do drive-thru com duas crianças no carro. O carro andou sozinho e Pedro pulou a janela do restaurante e correu atrás. Felizmente o carro parou numa curva antes que um acidente grave acontecesse. Viloria e outro funcionário socorreram a mulher, administrando-lhe CPR. Ele disse, “Se tivesse que morrer para salvar essa mulher, eu morreria.”

Numa sociedade assolada por corrupção e preconceitos, esses gestos simples nos mostram que ainda há esperança de uma vida melhor. Bom saber que um menino de 8 anos devolve o dinheiro que encontrou, que um modesto atendente de fast-food arrisca a vida para salvar outras, que um engenheiro gasta tempo e dinheiro ajudando o próximo. No dia da Terra, parabéns pra você que está fazendo o mundo melhor.

Promoção imperdível

promocao

Promoção imperdível

Professsora de português em Miami, Dalvinha vai garantindo o hamburguer de todo dia dando aula pra gringo, ainda mais que estão numa promoção imperdível, por $5.00, pague um e leve dois. O hamburguer, não os alunos. Procurando a gente acha – tem sempre alguma coisa com algum desconto: um é 10,00 – leve dois por 14.00. Mas quem resiste à campanha pró-excessos e leva apenas um, vai pagar o mesmo 7,00 no caixa. Sem faltar o free-refill dos sucos e refrigerantes, com três tamanhos a escolher, e mesmo podendo repôr à vontade, há quem pague pelo copo maior.

Dalvinha se inspira nas promoções imperdíveis e cria uma própria: “Aulas de Português, uma semana 200,00; duas 150.00. Cafezinho brasileiro e pão de queijo”. O fluxo de estudantes dobrou, e nenhum aluno reparou que o preço anterior já era 150,00 e que o cafezinho não é brasileiro, mas colombiano, vendido em todos os supermercados. Pelo menos o pão de queijo é brasileiríssimo, mas também está sendo vendido em qualquer supermercado. Congelado, mas que outra opção têm os expatriados?

O Walmart tem uma ideia melhor: traga a revista, jornal, panfleto, flier, foto, com qualquer promoção de qualquer concorrente, e vendemos pelo mesmo preço. O que eles sabem: pouca gente se dá ao trabalho de recortar, pôr na bolsa e mostrar. O junk mail que vem pelo correio também está cheio de cupons com descontos, Save 1,00 na compra da pasta de dente, 0,50 no litro de suco de cramberry, 0,25 no pacote de pão integral… Tem cupons com descontos altos, mas claro, o produto deve custar cem pra ganhar desconto de dez. Mesmo o de graça sai caro.

Na leva de novos alunos chega o Jason, que não tem intenção de ir ao Brasil ou trabalhar em alguma empresa que exija o conhecimento da língua. Poucas, mas que existem, existem. Jason apenas não consegue resistir a uma promoção, mesmo se não precisa do produto. Imagine-se o excesso nos armários. Mas no melhor exemplo de pague um leve dois, Jason pagou a aula e levou o coração até então desapropriado da garota. “Sabia que tem descontos pela ocupação de áreas improdutivas?” ele pergunta, no capítulo Cultivos. Dalvinha demora a entender que ele se refere ao estéril coração da professora.

Entre olhares e sorrisos, elogios e discretos toques de mão, e outra rodada de pão de queijo e cafezinho, a escrivaninha de Dalvinha está sempre adornada com buquês de rosas que ele compra na esquina, “Quer levar dois, moço? Faço um desconto.” Dalvinha nota que algumas vezes as rosas fizeram estágio na geladeira, mas o amor é cego, a não ser que alguma ótica ofereça descontos na compra de bifocais. Até que, no capítulo da Conversa no Restaurante, ele a convida para saírem no sábado, um cinema e um jantar, “Para treinar conversação…”

Vão a um restaurante fino no point da moda, o que não deve surpreender. O rapaz não é sovina, ou um extremado pão-duro. Com bom emprego, boa educação, boa renda, ele apenas não resiste aos descontos e promoções que nos tentam por toda parte. Quando o garçon traz a carta de vinhos ele pergunta, “Degustamos um vinho?” Dalvinha diz que não bebe. Não por motivos religiosos ou morais, apenas não gosta. O rapaz se escandaliza, “Como assim? Nunca encontrei uma pessoa que não apreciasse um bom vinho.”

“Tudo tem sua primeira vez”, ela ri, sem entender a gravidade da situação. O rapaz examina com calma a lista de preços, e lá no finalzinho encontra a tentação, ‘Vinho da casa, pague um copo, beba dois’. E cria-se o impasse. Nada menos romântico que tomar vinho sozinho num jantar a dois, mas a oferta é imperdível. O garçom esperando. Dalvinha pede uma coca-cola, preço cheio, sem promoção e sem refil. Menos romântico impossível. Jason suando frio, olhos fixos na carta de vinho, entre o amor e a mania.

Olha pra garota, olha pro garçon, reexamina a lista.”E então senhor? Já escolheu? Temos uma promoção imperdível com o vinho da casa. Da melhor qualidade”. Dalvinha entende o dilema, “Olha, cancela a coca. Vamos experimentar o vinho, Jason?” O amor vence o primeiro round, no primeiro encontro, mas Dalvinha pensa lá com suas pulseiras, “Na próxima quem tem que ceder é ele”. E no final da noite teve que admitir, o vinho era mesmo bom.

Entre sustos e suspresas

Entre sustos e suspresas

Causou espanto a notícia de que a próxima espécie em extinção no linguajar escrito é a exclamação. Coitada, tão empenadinha. Essa não, exclamam os puristas, enquanto os que com nada mais se espantam resmungam, Finalmente. Segundo o famoso tio que virou dicionário, “(!) um sinal de pontuação que se utiliza para assinalar uma interjeição, ou uma frase exclamativa, notadamente na expressão de sentimento ou emoção, admiração, surpresa, susto.

A língua falada, como sabemos por uso próprio, foi criada pelo povo e para o povo, que a mantém viva e mutante. Já a linguagem escrita foi elaborada em tubos de ensaio por monges eruditos fazendo penitência nos claustros, entendiados de ouvir sempre os mesmos pecados nas confissões – Êta povo sem imaginação. Tinham tempo de sobra e foram elaborando acentos, regras, um ponto, três pontos, com o fim específico de castigar os pecadores. Já o ponto-e-vírgula, o defunto trema e a crase foram inventados como diversão. Para eles, claro.

Mal falando e piormente escrevendo chegamos à era tecnológica, onde digitar é preciso e quanto mais rápido melhor. Portanto eliminando o incoveniente e o supérfluo. No banco dos réus está o famigerado ponto-de-exclamação, em vias de ser levado à forca, mesmo já vivendo de cabeça pra baixo. A defesa alega que fica bonitinho no final da frase, e quando o texto é fraco, acrescenta emoção. A acusação alega que seu uso é desnecessário – se alguém grita Ai meu Deus, sabe-se que está exclamando e não rezando.

Em efeito cascata, o ponto-de-interrogação está perdendo o sono, que nem figurão no Brasil – “Serei o próximo? Delaterei o ponto e vírgula”. Pois se digo, Quem é voce, desnecessário incluir o ponto contorcionista, a indagada pessoa sabe que faço uma pergunta. Tá sabendo que o ponto de exclamação será eliminado do vernáculo. Não. Impossível. Como vamos exclamar ou reclamar daqui pra frente. A acusação diz que por excesso de pontos e acentos muita gente abandona a escola e ingressa no sistema penintenciário. Ou larga bons livros no primeiro capítulo.

No caso das vírgulas, a acusação alega que cansam a leitura, mesmo sendo pausas para respirar. Mas quem lê alto hoje em dia? A defesa alega que, mesmo se algumas podem ser eliminadas sem prejuízo do texto, ou sem impedir que se advinhe quem é o assassino, casos há em que sem ela recebemos a notícia errada, a informação truncada ou o diagnóstico trocado. Morreu não, está vivo; Morreu, não está vivo. As mesmas palavras, escritas na mesma ordem, mas uma simples vírgula vai impedir que enterrem quem ainda não virou defunto.

Alegando clareza no texto e elegância de estilo, vamos distribuindo remanescentes dos hieroglifos aqui e ali, rezando para que se encaixem no espaço que lhes foi destinado, pelo menos a maioria deles. A premissa é, se você não sabe, quem vai ler sabe menos ainda, portanto, confie no seu instinto. Algumas vezes, porém, o bolo queima no forno. Na coluna Carta Enigmática (10 de março), parece que ninguém entendeu que estava me referindo ao filme Casablanca: Ilsa, Rick, Victor… Um bar, a estação de trem em Paris… Acho que faltou ponto de exclamação.

Sob o céu de Miami

IMG_0069
(Foto: Michel Sily, sem Photoshop)

Quando Fidel Castro tomou o governo de Cuba deu início à migração cubana para os Estados Unidos, mais precisamente, Miami aqui vou eu. Opção óbvia, pela proximidade geográfica e pelo clima. Entre os primeiros a chegar estava Juan Morales, com esposa e filha. Juan alugou um pequeno quarto e sala, comprou uns móveis usados, pôs a menina na escola pública e foi lavar pratos num restaurante, esperando o dia da volta – que nem nordestino em São Paulo, sempre sonhando em voltar pro Norte. Juan não estava sozinho; as primeiras levas de imigrantes cubanos tinham a mesma mentalidade – se adaptar como possível a uma vida temporária.

Um antigo costume americano, nas vésperas do Dia de Ação de Graças os patrões presenteiam os empregados com o peru para a tradicional ceia do Thanksgiving. Juan adorou, mas o presente lhe trouxe um problema – não havia na casa uma travessa suficientemente grande para servir o peru. Não ficaria bem esquartejá-lo, uma vez que o irmão viria de Nova York com a família para os feriados. Portanto, Juan Morales foi às compras, e encontrou uma travessa compatível com o tamanho do galináceo de honra de seu jantar. Tudo correu melhor que o esperado, mas terminados os festejos, Juan depara com outro problema – onde guardar a grandiosa travessa no exíguo apartamento?

Tal como o Sr. Morales da nossa história, todos os cubanos na América esperavam a situação em Cuba se normalizar para fazerem a viagem de volta, se não queriam deixar nada para trás. Mas a história escreveu diferente, e a vida do Juan foi mudando – arranjou um emprego melhor, a esposa começou também a trabalhar, a filha estava se adaptando bem na escola, e o armário da cozinha não tinha espaço para a imensa travessa que deveria sustentar o peru do próximo ano. Juan Morales ficou uma noite sem dormir, e no dia seguinte tomou uma decisão que mudou sua vida – tirou do banco as economias acumuladas para recomeçar a vida na pátria amada e comprou um terreno. Com a ajuda de amigos conterrâneos contruiu uma casa com três quartos e uma cozinha grande o suficiente para abrigar um bom armário, onde guardou a travessa do peru e mais um belo jogo de mesa completo – 130 peças, doze de cada tipo – que comprou por 12 dólares numa liquidação.

No segundo Thanksgiving que a família passou na Flórida, a casa estava pronta, com dois andares, murada e com piscina. Tal como o Sr. Morales, os outros cubanos foram entendendo que mesmo se a situação política e econômica na ilha mudasse, lá nunca teriam a vida que tinham aqui. As razões de cada um variaram – uma simples travessa que precisa de um armário maior, um filho que nasce, uma filha que se casa com um gringo, um negócio que começou do nada e de repente vai de vento em popa – aos poucos os cubanos aceitaram que nunca fariam a viagem de volta. Portanto, bateram estacas e criaram raízes, e nesse processo dominaram e mudaram o sul do país.

O próximo jogo de pratos comprado tinha 90 peças – 8 de cada – que para Juan simbolizava sua adaptação a uma vida imposta. Um furacão destruiu a casa e outra maior foi erguida, a cozinha também crescendo para mostrar o sucesso dos Morales, agora com a filha já trabalhando. Mas o jogo de pratos comprado desta vez tinha 50 peças – 4 de cada – indicando também como as famílias estavam encolhendo. A primeira travessa comprada pelo Morales, no entanto, continuou ocupando o lugar de honra do armário, e Juan agora repetia para os netos, “Nunca se esqueçam que tudo começou com essa travessa”. Que hoje está pendurada, ou melhor, entronizada, na parede da sala da filha, que tal como seus pais, nunca mais voltou a Cuba.

Carta enigmática

A carta enigmática
casablanca

Quando foi retirar contas e junkmails da caixa do correio, Ilsa leva o primeiro susto – uma carta! A não ser cobrança, ninguém mais recebe cartas hoje em dia; amigos e conhecidos se comunicam de forma mais civilizada, por emails, mensagens de texto, Facebook, Messenger, WhatsApp, Instagram, as chamadas sete maravilhas da idade tecnológica. No entanto, não mais que de repente, uma carta se mistura ao excesso de propaganda enganosa na caixa que o agente dos correios insiste em superlotar diariamente. Essa gente não descansa?

Mas aí, no meio do caminho aparece uma carta. O nome e endereço estão corretos, não deixando dúvidas sobre quem é a destinatária. Mas não há indicação de remetente, falha que os correios deveriam proibir, evitando muitos transtornos. Podemos abrir uma conta bancária, mesmo apenas para depositar ou receber o mínimo, sem Identidade e CPF? Entramos no avião para Miami sem passaporte? O voto é obrigatório, mas votamos sem tirar o título de eleitor?

Resta apenas uma pista: o selo. Ilsa examina minuciosamente esse pedaço de papel impresso, que embora minúsculo tem dons milagrosos – sem ele a carta não viaja. Alguns deles hoje descansam em redomas de vidro dos museus, mas esse que permitiu a essa estranha carta chegar às mãos da destinatária é dos mais insignificantes. Ou seja, foi reduzido a um simples carimbo, onde consta apenas a cidade e o estado. Para encurtar o suspense, Ilsa rasga nervosamente o envelope…

“Querida Ilsa, o trem chegou na gare e você não estava lá, como combinamos. Dá pra entender? Você não mandou explicações, e sua frívola atitude trará sérias consequências para todos. Além de viajar sozinho, perdi também o valor da sua passagem, que não foi barata nem fácil de obter, como você bem sabe. Eu que sempre fui um sujeito bom-caráter e responsável, diria até patriota, com sua ausência me transformei num Hulk social, ou seja, um indivíduo moralmente feio, cínico, indiferente aos eventos que andam rolando por aí. Você sabe quais são.

Ou seja, me transformei num canalha. Talvez um dia nos encontremos, só o destino decide. Talvez você se case com outro mais digno de sua dedicação, ou até já fosse casada e não me contou (PS: Ouvi uns rumores sobre um certo Victor, mas não acreditei, ingênuo que fui). Talvez eu compre um bar com o dinheiro que economizei para investir no nosso casamento. De qualquer forma, e apesar do chute, pelo menos em sonhos continuarei de olho em você, garota! Eternamente seu, Ricardo (Rick para os íntimos).

Ilsa lê e relê a carta, sem entender patavina, se é que tal palavra já não está extinta e enterrada com os alfarrápios ilustrados. Sou Ilsa, isso é certo, mas quem é Ricardo, ou Rick, esse bom sujeito que mudou de personalidade só porque peguei o trem errado, sem saber que alguém, o remetente dessa estranha carta – tinha as melhores intenções de se casar comigo… ou de comprar um bar, não entendi bem essa parte. Em qual local e quais bebidas pretende vender, não poderia ser mais específico?

A carta vai pro lixo, junto com o manancial de papel impresso que Ilsa rcebe e não lê, mas perde muita coisa por esse desinteressse. Como o fato do Uber estar entregando refeições do McDonald na sua porta, por uma taxa módica, ou que um novo bar foi inaugurado perto de sua casa. O dono, um certo Rick, sujeito frio e cínico, vende uísque fabricado com cereais não orgânicos, indiferente aos danos que essas plantações causam ao meio ambiente.

Algo de novo no ar

planeta

Finalmente acharam algo de novo no ar além de jatinhos levando políticos para suas bases. Eu sei, todos já sabem que os exoplanetas estão girando por aí; talvez não estejamos sós nesse deserto estelar com alguns trilhões de astros e planetas em constante expansão, até voltarem a se contrair, feito um ioiô cujas proporções estão muito além do nosso medíocre entendimento. Até agora, são 41 planetas em 20 sistemas estelares, e a gente nem desconfiava.

Passada a euforia das primeiras notícias, porém, uma questão mais profunda se alevanta – e depois? Segundo aprendemos nos livros de história, houve um tempo em que o mundo terminava na costa leste do Oceano Atlântico, esse que nos abençoa com lindas praias, até que um dia um certo Cristóvão Colombo fez a grande descoberta: “Encontramos outro continente até então ignorado! E talvez haja outros…” Não foi bem assim, mas foi o resultado final. Houve grande regozijo nas cortes europeias, não exatamente por amor à humana raça, mas pelas possibilidades de riquezas.

Deu no que deu: dominamos essas terras a preço de sangue e lágrimas, e receio que isso venha a se repetir em cósmicas proporções. Ou a vida imita a arte: no filme Avatar, achado outro planeta, a invasão e exploração foram inevitáveis. Consequentemente, a destruição. Vivemos em círculos, visto que moramos numa bola giratória, repetindo as experiências do passado. George Bernard Shaw avisou, “Aprendemos com a história que nada aprendemos com a história”.

Pelos exemplos da história, caso haja vida inteligente em alguns desses planetas, e se conseguirmos viajar até eles, as guerras de conquista das Américas podem se repetir, mas qual vai invadir qual eis a questão – eles cá ou os terráqueos lá? Winston Churchill, que comandou o domínio e exploração dos ingleses na India, disse, “Quem não aprende com a história está condenado a repeti-la”.

Ao invadir a Rússia, Hitler não aprendeu com a derrota de Napoleão. O que é bem explicado por Albert Speer no livro Inside he Third Reich: “Hitler nada sabia sobre seus inimigos e até se recusava a usar as informações disponíveis para ele. Ao contrário, confiava em seus instintos, não importa o quanto fossem contraditórios”. Naturalmente, cada megalomaníaco se acha melhor e mais inteligente que os anteriores; ou cada novo ditador ignora os erros dos anteriores. Hitler tirou a Alemanha do caos e transformou-a numa potência. Ficasse quieto em seu canto, poderia ter tido uma longa vida e deixado o país inteiro.

Soube recentemente que a Alemanha de hoje é o único país que ensina nas escolas, desde os cursos primários, os erros políticos do passado. Algum país colonizador hoje reconhece ter cometido genocídio em nome do cristianismo e no interesse dos seus monarcas? S.M. Singerson disse, “Uma nação que não consegue lembrar adequadamente os pontos mais importantes de sua própria história é como uma pessoa com Alzheimer. E essa pode ser uma doença social muito mais destrutiva”.

Mas vamos esquecer os exemplos do passado e ser otimistas – que pelo menos um desses longínquos planetas seja mais pacífico e mais justo que o nosso, e já tenha descoberto remédios para todas as doenças porque não desperdiçou a maior parte de seu orçamento em armamentos. Um país que nos ensine a viver em paz. É sonhar demais? Talvez sim, mas enquanto não chegarmos a eles, não saberemos. E mais uma vez ignorando os exemplos do passado, esperemos que Platão estivesse errado quando disse, “Só os mortos viram o fim da guerra”.

Pra se acabar na quarta-feira

Pra se acabar na quarta-feira

carnavalDepois de anos sem ir ao Brasil, Laurinha resolve tirar a diferença, “Esse ano, meu bem, vamos passar o carnaval no Rio!” Meu bem, no caso, é o Ronald, que tem dinheiro sobrando e está apaixonado. “Carnival?” pergunta o gringo, espantado, “Are you sure it’s safe?” Laurinha tem certeza que é seguro, e também muito animado. E explica que o Brasil tem 190 milhões de habitantes, e só não brinca o carnaval quem já morreu, como cantou Caetano. “Se não fosse seguro, estavam todos mortos”.

O gringo é sistemático, gosta de tudo organizado e a horas certas, detesta improvisações e tumultos, calor e barulho. Laurinha explica que não tem barulho nem calor, menos ainda tumulto. O carnaval hoje é uma empresa que fatura bilhões, com turistas do mundo todo. Tudo muito organizado e tranquilo. Ronald não acredita, mas aceita. Afinal, são apenas sete dias, e ela não pode ir sozinha. God knows o que pode acontecer naquelas terras selvagens com sua garota!

Numa quarta-feira nebulosa e fria partem os dois pombinhos para os trópicos, trocando as neves do Oregon pelas ensolaradas praias cariocas. Aterrissam no meio do bloco Sovaco de Cristo, desfilando em frente do hotel onde vão se hospedar.! “Você disse que o carnaval é na semana que vem!” Laurinha também foi pega de surpresa, “Era, mas quanto mais, melhor!” Ronald não gosta de mudanças na programação, sua agenda é organizada com um ano de antecedência, mas vendo a felicidade de Laurinha, não reclama.

Cheia de animação, Laurinha cai no samba. Literalmente – escorrega, quebra a perna, e vai para o hospital mais próximo, onde tem que operar a perna. Passa o carnaval assistindo ao desfile das escolas de samba pela televisão, tal como fazia no Oregon. Pelo menos sem neve, e até os médicos do hospital trabalham fantasiados. O pobre Ronald tem que se dividir entre o hotel e o hospital, sempre a pé porque era impossível encontrar um taxi, a qualquer hora do dia ou da noite.

No primeiro dia Ronald depara com um calor infernal, total desorganização do hospital e falta de estrutura do hotel lotado. E o tumulto? Seu curto trajeto cruza com o Sovaco de Cristo, desfilando dia e noite numa barulheira infernal. E mais trânsito engarrafado, carros buzinando, brigas e assaltos bem nas vistas dos policiais. No segundo dia Ronald tira o palitó e a gravata, fica só de camiseta. No terceiro dia compra uma sandália havaiana e shorts – o menos exótico que conseguiu encontrar tinha estampas de fartos seios e traseiros idem.

Ainda suava, mas sentia-se melhor. Achar uma garrafa de água mineral gelada era impossível – todos os freezers do hotel estavam ocupados em manter gelado o estoque de cerveja. Portanto, aderiu. Mesmo quando passava na frente do hospital, os decibéis do carro de som da Sovaco não diminuem – ninguém consegue dormir. Além disto, o hospital não tem ar refrigerado central. Ronald compra um ventilador, mas mesmo assim tem que deixar as janelas abertas, para não derreter.

No quarto dia Ronald já cantarola o refrão da marchinha o bloco, e no quinto dia cai no sovaco de Lindaura, lindona, mulata seminua rainha do bloco. Literalmente. Ronald não vai mmais ao hospital, alegando que o barulho e o calor… Laurinha entende, pobrezinho do gringo! No sexto dia Laurinha deixa o hospital bem na hora que o Sovaco vai passando, e o que vê quase a leva de volta, com um ataque cardíaco ao ver o gringo e a Lindaura… No sétimo dia Deus descansou, mas a Sovaco continua desfilando e Laurinha volta sozinha pro Oregon

Flamingos no quintal

Flamingos no quintal

Vir à Florida e não ver os flamingos é o mesmo que ir a Paris e não comer brioches, ou ir a Roma e não comer spaghetti. Há mesmo quem diga que essas belas aves rosadas são apenas mito, como o uirapuru na Amazônia, ou o tigre usando bengala. Interessante é que o nome flamingo vem do português, flamengo, mas acalmem-se, flamenguistas, eles não ganharam o nome por torcer pelo mesmo time. Flamengo significa cor flamejante, vai daí…

As aves de penas flamejantes são bem mais antigas e mais nobres que nossos times de futebool. Há fósseis comprovando que elas existem há 7 milhões de anos. No antigo Egito, eram consideradas representação viva de Ra, o deus do sol. Na Roma antiga, língua assada de flamingo era prato finíssimo, servido nos palácios, apenas. O flamingo é a ave nacional das Bahamas, e os mineiros dos Andes usavam sua gordura no tratamento da tuberculose.

Embora pareçam vaidosos por ficarem muito tempo se penteando com o bico, na verdade eles estão espalhando no corpo um óleo que impermeabiliza as penas. E embora existam em muitas partes do mundo, os flamingos da Flórida têm cores mais vivas, ou melhor, mais flamejantes. Vê-los, porém, ao vivo e em cores, não é muito fácil, embora vivam em bandos nos pântanos do Everglades. E estão em toda parte – na arte e na decoração, em papel de parede, quadros, jarros e estátuas; nos jardins, nas paredes e nos carros.

Como políticos honestos, que existem, existem, mas são também imigrantes, provavelmente provenientes das Américas do Sul e Central. Bem parecidos conosco, não? Há quase um século andavam escassos, mas parece que estão retornando ao calor da Flórida. Em 2014, um bando de 147 flamingos foi detectado em Palm Beach, sendo o maior bando já visto na Flórida desde 1800. Para quem duvida, há passeios turísticos para vê-los no Everglades em certas épocas do ano.

E houve o estranho caso de Anne, que veio do norte gelado e absolutamente não acreditava na existência dos flamingos. “Moro aqui há dez anos e nunca vi um sequer”. Talvez sejam lenda, ou foram extintos, como devagar vai acontecendo com muitas espécies que muita gente pensa que ainda caminham sobre a terra. Depois de vários dias chuvosos, o domingo amanheceu ensoladado, e Anne quase desmaia de susto ao deparar com um pequeno bando de flamingos ciscando a grama bem cuidada de seu jardim.

Liga para o filho, “Corre aqui!” O filho quer saber se alguém morreu ou está pra morrer, se a casa está pegando fogo ou se a santa mãe finalmente acertou na loto. “Nada disto, vem que é surpresa, traz a família e  a máquina fotográfica”. Quando o filho chega com esposa e filhos, os majestosos flamingos já tinham ido ciscar em outras bandas. Anne havia esquecido de carregar o celular e não tirou fotos, portanto, ninguém acreditou em sua história.

Imprescindivel sonhar

Imprescindível sonhar

BAHIA2

Grupo Balé Folclórico da Bahia, North America Tour 2017

(As mãos para o alto foi apenas coincidência)

 

A dramática situação vivida pelos capixabas, um quase estado de guerra, se parece muito com a situação vivida aqui na época dos furacões. No nosso caso, ficamos prisioneiros das intempéries, que não se sabe por quais caprichos, tornaram-se visitantes habituais, indesejados que nem os imigrantes mexicanos para Trump. Também por motivos não especificados pelas leis climáticas, sumiram sem deixar saudades.

 

Nos piores cenários, um furacão traz o mesmo transtorno que essa greve provoca: ficamos presos em casa por tempo indeterminado, com escassez de alimentos, sem eletricidade e com águas contaminadas, carros parados pelo perigo de sair de casa por causa de ruas alagadas ou cheias de entulhos, e por falta de combustível. Vivemos isso na tragédia Wilma e Katrina, dois dos maiores furacões que nos atingiram. E apareceram quase ao mesmo tempo, o que também foi inusitado.

 

Se não conseguimos ainda entender a humanidade, como entender o clima? Dirão os apavorados capixabas, Nossa situação é pior, porque estamos assolados por bandidos. Mas em Nova Orleans, com toda a tragédia pós catástrofe ecológica, abriu-se a caixa de Pandora, com saques, assaltos e assassinatos. Os ricos, as autoridades e a polícia se mandaram, deixando os pobres e desvalidos à mercê da má sorte.

 

Acompanho os fatos em Vitória, que parecem estar se alastrando feito epidemia por outros estados, e me envergonho dos humanos que, tendo uma chance,  tranforman-se em animais selvagens. Nem todos, nem todos. Temos ladrões aos borbotões, tanto diplomados como de pé no chão mas os honestos são maioria, e mesmo massacrados e explorados, vão em frente, suportando com admirável bom humor e criatividade o que de pior tem-lhes sucedido. Rir da própria desgraça é arte refinada.

 

E no entanto é imprescindível sonhar – que algum dia derrubaremos as grades das janelas e as trancas das portas, e andaremos tranquilos por ruas desertas a qualquer hora do dia ou da noite, porque todos terão segurança e boa qualidade de vida; que teremos governos sérios que não deem razões para situações como essa se repetirem. Enquanto isso não acontece, talvez criem leis que proibam a paralização total de atendimento público essencial nos hospitais e na polícia.

 

Mas assaltos acontecem em qualquer tempo e lugar, mesmo se a gente faz novena e sonha acordado. O show do Bon Jovi, essa semana em Miami, tem cadeiras vendidas a seis mil dólares! São 100 lugares privilegiados, e apenas um ainda está disponível. Portanto, quem puder e gostar muito do bom Jovi, ainda dá pra pegar um avião… se é que esses também não estão parados, com medo de assaltos e sequestros.

 

E furacão também pode ser coisa boa. No caso, o show do Balé Folclórico da Bahia, que fui ver e me encantou. A energia, o colorido e a alegria dos participantes atingiu a plateia como um furacão. Todos se levantaram e dançaram com eles, brasileiros e americanos, bem mais daqueles que desses, infelizmente. Terminado o show, a turma saiu dançando e fez o maior carnaval na entrada do teatro. Valeu Bahia.

 

 

Medo de avião

56676156 - yin yang balance religion traditional nature concept

Conheço muita gente que tem medo de avião, JC é o único que pode dizer que os aviões têm medo dele. E falo sério! JC já perdeu muitos negócios importantes, conecções difíceis de trocar, até amores, porque quando chega no aeroporto o avião que devia estar parado na pista, esperando por ele, já desliza  sbre trilhos de nuvens e as atendentes de bordo fazem as habituais instruções de segurança.

 

Nem sempre a culpa é do trânsito ou do mau tempo. JC consegue perder voos importantes porque demora a achar um banheiro ou porque vai para o portão errado, ou porque tem que comer alguma coisa antes. E não poucas vezes dormiu no setor de embarque. As atendentes da companhia aérea garantem que chamaram o nome do passageiro várias vezes e até esperaram alguns minutos, mas claro que JC refuta essa teoria, garantindo que o avião saiu antes da hora prevista. Já aconteceu várias vezes.

 
Essas eventualidades ocorrem com frequência, mas uma houve que ficou marcada para sempre no curriculum de JC. A empresa o enviou para fechar um grande negócio, envolvendo milhões de dólares e, por incrível que pareça, JC conseguiu pegar o avião antes que ele fugisse. Mas não chegou ao destino, e o concorrente no empreendimento abocanhou o negócio. Humilhante, mas pior foi ouvir o longo discurso recriminatório do patrão, que ignorou ou não aprovou as razões expostas.

 
Não que isso fosse abalar a estrutura da empresa, absolutamente, que é sólida e bem conceituada no mercado internacional. Perder algumas batalhas faz parte de qualquer guerra, e no mundo das  grandes transações guerras não faltam. Nem esse incidente pôs em risco sua posição ou seu salário; afinal, já estão acostumados, e se ainda o mandam fechar grandes negócios é, ou porque conhecem sua capacidade ou porque é o filho do patrão.

 
O chato foi perder um negócio que envolveu muita gente e muito dinheiro, mas na vida tudo tem duas faces- yin-yang – e se tudo deu errado comercialmente, na área emocional não poderiam ter sido mais compensadoras. Tudo porque, por obra do acaso ou do destino, senta-se a seu lado uma garota que tem medo de avião. Não dizem por aí que os opostos se atraem? A garota que tem medo de avião encontra o rapaz de quem os aviões andam fugindo!

 
Vendo a seu lado uma jovem nervosa, suando frio, JC tenta ser simpático – Não se preocupe, que se cair do chão não passa! Piadinha infeliz, que aí a garota desmontou de vez, tremendo e com falta de ar. “Eu queria vir de ônibus, mas todo mundo insistiu que eu precisava enfrentar minhas fobias. Primeira e última vez, se é que sobrevivo!” Que nem naquela estranha canção, foi por medo de avião que ele pegou na mão de Lizzy. E o resto é história…

 
Linda de encantar, e ele tenta acalmá-la, falando suavemente em seu ouvido. Se ele faria isso com uma garota feia, jamais saberemos.  “Feche os olhos e respire fundo, isso… esquece que está nas nuvens e pense em algo agradável… seu namorado, por exemplo”. Ela sussurra que não tem namorado, e ele sugere marido ou noivo ou ficante… qualquer um serviria nesse momento. E enquanto ela diz não a todas as opções, ele vai se sentindo nas nuvens, literalmente.

 
Na primeira escala ela se levanta, “Não dá, desembarco e pego um ônibus”. JC é um cavalheiro, e não ia deixar a garota sozinha, portanto, sai com ela. E como um alto executivo jamais chegaria a uma importante reunião de negócios cavalgando um ônibus, ele aluga um carro e vão juntos para o mesmo destino  –  tanto a cidade como a vida.  Como foi dito, as forças contrárias do yin yang atuaram –  JC perdeu um bom negócio e achou um grande amor. Mas se agiria assim se corresse o risco de de perder o emprego, jamais saberemos.