A posição astral para 2017

 

Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros
Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros

 

Entra ano, sai ano, e se dezembro é o mês das boas intenções, janeiro é o mês da culpa. Passamos os 31 dias do novo ano com insônia e consciência pesada,  porque tudo que foi cuidadosamente decidido na passagem de ano se revela impossível ou impraticável, mal retiramos as luzinhas do ano velho. Mais 28 dias escorrem na ampulheta do tempo, como se dizia no tempo em que se contava as horas em ampulhetas, e como tudo continua na mesma, fevereiro é o mês das decepções.

 

Mas com a auspiciosa chegada da primavera tudo volta ao que era antes, e março é o mês da paz. Essas coisas Neide anota no caderninho, fazendo uma séria avaliação – suas boas resoluções não conseguem ultrapassar os obstáculos dos dois primeiros meses do ano. Quais sejam: fazer regime, se mexer mais e gastar menos. Simples, práticas e úteis, e no entanto, tão complicadas. Mas Neide não está sozinha – essas intenções de fim de ano são as mais populares e as menos alcançadas. Então o que está errado não são as metas, mas a forma de interpretá-las.

 

Esse ano Neide decide fazer tudo diferente, abordando a situação por um ângulo mais compatível com a realidade prática. A começar pelo sonho de 10 entre dez seres humanos: manter a boa forma sem regimes radicais. Com toda a evolução moderna, com tantas maravilhas da ciência e da tecnologia criadas todo dia, ainda não descobriram uma pilulazinha que nos faça perder peso sem perder o apetite, sem efeitos adversos e sem culpa. Em 2017, portanto, radical mudança de rumo.

 

Na primeira semana de janeiro Neide põe o Gugu pra fora de casa. Sumariamente. “Mas o que te deu na cabeça, mulher? Jogar no lixo dez anos de bom relacionamento sem aviso prévio?”  Bom relacionamento para quem? Pensa ela, mas nem se dá ao trabalho de responder. Durante dez anos o Gugu tem sido um peso em sua vida, portanto, a primeira resolução de fim de ano se cumpriu ainda em janeiro. E anota no caderninho uma nova intenção para 2018: não se deixar explorar nos próximos relacionamentos.

 

A segunda intenção, se mexer mais, também foi beneficiada com a retirada do Gugu do cenário familiar. Motivada pela solteirice repentina, Neide passou a frequentar a academia da esquina, pagando três meses adiantado. Assim não vai faltar. Na segunda semana de janeiro já perdeu meio quilinho.  É muito pouco, é quase nada, que nem naquela música do Gonzagão, mas é a primeira vez que a balança não se mantém teimosamente estancada no famigerado excesso de peso.

 

A terceira intenção, reduzir gastos,  também foi obtida, sem o Gugu se exercitando o dia todo no trajeto computador – geladeira.  Mas não foi suficiente, e as contribuições de começo de ano para o retorno às aulas dos sobrinhos sofreu um corte radical, sob protestos de Lina, a irmã pobre. “Sem aviso prévio, Neide? Sempre contei com sua ajuda nas despesas das crianças!”  Neide não se deixa demover, “Contenção de despesas, querida. De agora em diante, presente só no Natal e aniversários”.

 

O ano mal começou, e muita água ainda vai rolar até chegarmos a 2018. Com as bênçãos divinas,  escapando de balas perdidas, dengue, zica, planos econômicos mirabolantes, atentados terroristas, poluição ambiental e outros senões inesperados. Sem nem falar nos sempre esperados. Mas não se desespere – pela posição dos astros, já sabemos que 2017 será um ano muito bom para meus leitores e leitoras.

 

Deus foi ao cinema

Deus foi ao cinema

Gastando-se mais tempo no ir e vir do trabalho do que trabalhando, a distração é identificar e decifrar as placas personalizadas dos carros. Nova tela onde tudo é possível, desde que se pague um pouquinho mais. Ajudam a passar o tempo e para o usuário têm múltiplas funções: prestam homenagens, transmitem recados, ideias e conceitos e são fáceis de memorizar. Com tantos carros iguais no estacionamento do shopping,  como identificar o seu?

 

Os mais comuns são nomes de pessoas ou mix de nomes, como JOHNISA, de John e Isa; nomes de times esportivos e países –  tem BRASIL 1 e BRASIL 2, pois se o nome é repetido põem números.  Meu favorito, I FORGOT. O que foi esquecido de tão importante pra gravar numa placa que dura a  vida toda? E é bom lembrar disto antes de pôr o nome da pessoa amada, nesses tempos em que os amores acabam mais depressa que sorvete.  Quem não perdoou: MORON. Os pedidos de casamento aqui tentam surpreender, portanto, não foi surpresa deparar com essa joia: MARRYME.

 

Tem manifestações religiosas, como BUDA, e como não poderia faltar, GOD. Acho que Deus é o mais popular, porque já vi GOD 666. Portanto, alegrai-vos: a fé ainda resiste a tempos tão materialistas. Mesmo quem não reza lembra dele toda hora: Ai meu Deus, Deus nos acuda, Deus ajuda quem cedo madruga, Deus é testemunha, Juro por Deus, Só Deus sabe,  Fé em Deus e pé na tábua; o homem põe e Deus dispõe, Deus é grande, Deus é pai… Sem falar que ainda vemos muitos carros com terços pendurados no espelho retrovisor, mesmo se Deus nunca andou de carro.

 

E embora sem nunca ter ido ao cinema, Deus é um dos personagens favoritos da sétima arte, sempre muito lembrado e explorado, como O Todo Poderoso (2003), Êxodo (2004); A volta do Todo Poderoso (2007); Noé (2014), para citar apenas alguns mais recentes. Tem até Deus é brasileiro (2003), um segredo bem guardado pelos brasileiros. Em 2016 foram lançados vários filmes sobre Deus, com destaque para O Jovem Messias. Mas ter Deus como personagem não garante as bênçãos divinas: o filme Deus não morreu (2016), é um pecado mortal.

 

Mesmo confiando em Deus, sugiro trancar as portas e dirigir com cuidado. Não esqueça o cinto de segurança e se beber não dirija nem digite. “Melhor deixar sem resposta do que morto”, gritam os outodoors das  highways, lembrando que a dobradinha volante e celular está expressamente proibida pela lei de Deus. Mas quem é Deus? A Bíblia diz que é o criador do universo, o que Camões lindamente explica: “Quem fez esse rotundo globo / e sua superfície tão limada / é Deus, mas quem é Deus ninguém entende / que a tanto o engenho humano não alcança”.

O Rei morreu; viva o Rei!

O rei morreu, viva o rei

ano-novo

Assistindo à auspiciosa chegada do 15º ano do século da tecnologia e do milênio da devastação ambiental, o que temos para comemorar? A penicilina, o rádio, a televisão, o carro, o avião, o computador, o celular, a aspirina, Madona, o microondas, o restaurante a quilo, as academias, a comida congelada, a água encanada, a rede esgotos, a eletricidade, as novelas da Globo, a Gisele Bundchen. A lista é longa, felizmente, e ficamos imaginando o que virá de novo nos próximos 365 dias que aguardamos esperançosos. Cruzem os dedos!

 

Sem contar as obras em pedra, mármore e bronze que ainda resistem ao passar do tempo, o que veio do século passado e continua na crista da onda – como se dizia no tempo em que o rádio navegava nas ondas curtas? O que veio do primeiro milênio da era cristã, ou dos muitos milênios AC  em que andamos sobre a terra e não foi ainda sumariamente descartado pela modernidade? O que temos dentro de casa, nos armários e nas prateleiras que vieram de antanhos tempos?

 

O fogão a gás,  elétrico e  microondas superaram a lenha, o carvão, o fogareiro e o caldeirão pendurado no tripé, velharias que não combinam nas casas modernas, decoradas com aço temperado e vidro fumê. Mas em muitos lugares no mundo a cozinha continua rudimentar como na Idade Média.  Temos ar condicionado e geladeira, mas em muitos lugares e a eletricidade não chegou. Retrocedendo demais no tempo chegaremos nas cavernas, o primeiro abrigo humano depois do ventre materno ainda não destruídas pela pandemia do progresso. Hoje nelas vivem apenas os morcegos e hibernam os ursos. Ou talvez não, que vasto é o mundo e cheio de surpresas.

 

Das sete maravilhas do mundo antigo, apenas a mais velha continua de pé: a Grande Pirâmide de Giza. O Colosso de Rodes foi destruído por um terremoto, e quatro pela ação do homem. Quanto aos fabulosos jardins suspensos da Babilônia, ninguém sabe ninguém viu – supõe-se mesmo que nunca tenham exisitido, embora apareçam em várias listas da antiguidade clássica.

 

E o Homo Sapiens continua sobrevivendo – os milênios rastejam em câmera lenta, os séculos se arrastam sobre tartarugas, as décadas cavalgam lombos de burros, os anos giram em torno do sol, os meses correm na velocidade do som e os dias voam na velocidade da luz. E nóis aí, teimosos que somos, vencendo obstáculos feito atletas olímpicos, disputando medalhas diárias contra tudo e todos – a meta é chegar ao dia seguinte.

 

Na disputa contra o tempo usamos as armas recebidas na herança genética ou conquistadas ao longo da vida, jogando xadrês com a morte, como no filme Os Sete Selos, de Bergman. Tem gente que não sabe quem foram seus pais, tem gente, como a Rainha Elizabeth que cita de cor toda sua longa ancestralidade perdida nas brumas de Avalon. Cabeças coroadas cuja preocupação não era esticar o salário até o fim do mês, mas monitorar a saúde do rei e dos herdeiros na sua frente na linha sucessória. Minha vez chegará? E vigiar os herdeiros posteriores na corrida pelo trono –  Qual terá coragem de me eliminar da jogada?

 

 

Mesmo os reis, com todo o poder e mordomias, viviam com a espada de Dâmocles sobre suas cabeças, nunca sabendo ao se deitarem que acordariam no dia seguinte. Morrendo, recebiam ainda a última afronta, quando saudavam os sucessores – O rei morreu, viva o rei! Que nem os anos passando por nós:  mais um ano que morre, viva o ano que chega! Os que sobreviveram te saúdam.

Uma aspirina resolve?

Uma aspirina resolve?

Uma piada na Internet diz que não existem ateus em pane de avião. A experiência nos ensina que não existem ateus nos momentos de dor. Quando essa velha bruxa nos alcança, todos rezam, que se não cura, pelo menos alivia. Mas ao rezar pedimos que seja feita a Vossa vontade e não a minha. Pode parecer masoquismo, mas basta olhar em volta, e tem sempre alguém com uma dor maior. Devia haver um campeonato mundial de dor. Ou pôr a modalidade nas Olimpíadas.

Somos seres vulneráveis, vagando indefesos nesse planeta ora chamado vale de lágrimas, ora chamado paraíso, onde a única certeza é a incerteza.  A felicidade existe, que dela temos provas, portanto há que desfrutá-la quando nos alcança, que a dor, essa megera, espreita atrás das portas. O dicionário diz que a dor é uma experiência sensitiva e emocional desagradável… Ah, se fosse tão simples! Pois há tantas variações para a dor quantas são nossas impressões digitais.

Da dor de barriga à dor de cotovelo, da dor da vida à dor da morte. A dor inevitável e a dor adquirida. As decepções de amor e o vazio das ausências. A opressão e a solidão. Estamos no mundo para cumprir um ciclo comum aos seres vivos – nascer, morrer.  O que acontece entre esses dois extremos depende apenas de nós? Se tenho uma lesão na coluna é porque não fiz bastante exercício, se tenho um ataque cardíaco é porque não me alimentei direito.  Dói-me o dente e alma, porque não escovei direito.

E tem a dor social, que deve ser escondida para não nos expor ao ridículo. Segundo Fernando Pessoa, os poetas entendem bem do assunto. “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. Para nós, pobres mortais, funciona ao contrário, devendo  fingir que não é dor a dor que deveras sente.  Concurso de miss, por exemplo. Uma é escolhida e ganha a coroa, enquanto as finalistas ficam lá no palco, morrendo de dor, mas com um largo sorriso no rosto.

O candidato derrotado dando entrevista após o resultado das eleições: O que acha de ter perdido a sua última chance de se candidatar a alguma coisa? pergunta o repórter. Outra vez o largo sorriso, Isso é democracia, portanto, que seja para o bem do povo. Também o atleta após a derrota, tendo que ir cumprimentar o vencedor, Venceu o melhor. O largo sorriso é fundamental, mesmo se o derrotado quer quebrar a cara do opositor. Noblesse oblige, dizem os franceses.

Lord Byron disse, A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor. Esquecemos os bons momentos mais depressa que os maus momentos. Esticamos a dor desnecessariamente, amargando derrotas, ressentimentos, frustrações, perdas ad infinitum. Ficamos felizes quando uma pessoa nos faz um favor, e ao agradecer dizemos, Fico lhe devendo a vida toda. Um mês depois a mesma pessoa nos nega um segundo favor, e a odiamos pelo resto da vida.

O homem chegou à lua e inventou o caixa eletrônico, mas não conseguiu ainda superar esse incidente físico ou emocional, imposto ou adquirido, que chamamos dor. Talvez a gente esteja  pagando nossos pecados com as nossas dores, portanto, sofrer é inevitável, deduz o pessimista. Ao que o otimista replica, Entre uma dor e outra, que tal tomar uma aspirina e ser feliz?

Mais um blog?

Mais um blog?

A Internet é o imenso mar oceano onde sites, blogs, emails, links e afins flutuam à deriva, esperando que algum desavisado internauta os acesse… Como a mensagem que o náufrago põe na garrafa e joga nas águas revoltas, esperando que alguém, em algum porto solitário, a encontre…
Mas não é assim também o amor?

Naufragada em Miami, dividida entre dois mundos e duas culturas diametralmente opostas, sentindo falta do nosso insubstituível calor humano, da polenta com couve e da língua pátria amada, meus pequenos retalhos de vida cotidiana são as mensagem que ponho na garrafa e jogo no ignoto mar cibernético, esperando que você, meu inconstante internauta, a pesque entre milhões de outras que vagam no espaço virtual e dela tire algum proveito.

Quando você acessa alguns desses mais de dois mil esboços dessa tragicômica saga humana – yin e yang – que venho rabiscando há 16 anos, estarei sendo resgatada, que náufragos virtuais somos todos nós.

Em casa de marimbondos

Em toda minha longa vida, não consegui usar todas as funções da palavra que…

Nunca soube que marimbondos, esses horríveis insetos mordedores  possam ser tema de qualquer trabalho de ficção. A não ser, claro, que façam um filme onde os desmandos ecológicos da humanidade provoquem uma super-população de vespas geneticamente modificadas, que atacariam alguma  cidade praieira da moda, bem no pico do verão. Enfim, são comedores de insetos, portanto, temos que respeitá-los.

Mas ganharam até um ditado, Não mexa em casa de marimbondos… Se não quiser se meter em encrencas. Vendo uma, passe longe, pois onde se instalam são os senhores da área. Já vi belas mangueiras carregadas de mangas que ninguém ousava tirar. Por que não? Porque os marimbondos moravam num dos galhos. Mas nem todos os odeiam – no México os comem com casa e tudo, e garantem os apreciadores, são deliciosos. Tradicional cozinha exótica. Pior que marimbondo, porém, são as famigeradas funções do que – De quê? Do que está falando? pergunta um; O que são funções? quer outro saber; Que tragédia! replica a outra. Pois que existem, existem, que as gramáticas não me deixam mentir. Nos países de língua portuguesa existem estranhos seres que não apenas conhecem todas, mas que as aplicam no linguajar diário. Houve até um sábio monge que a elas dedicou toda sua vida. O monge de que vos falo estava no leito em que ia morrer, e seus discípulos, que muito choravam,  perguntaram que última lição lhes daria antes que partisse para o além. O que disse ele?  “Vivi mais que os outros homens, de pobre fiquei rico e de rico fiquei pobre porque doei tudo que possuía aos necessitados. Em toda minha vida, porém, não consegui usar todas as 270 funções da palavra que. Por mais que tentasse…” Suspirou e morreu. Que ideia interessante! diz um dos seguidores; Tem um quê de sinistro… diz outro. O que vamos fazer? pergunta mais outro; Vamos prosseguir na missão do mestre e procurar um sentido para as funções quesianas, diz o que mais chora; Nem sabia que existiam tantas, replica ainda outro; Um quê a mais ou a menos… ironiza outro. Melhor não mexer em casa de marimbondos, diz o que ficou por último.

Mesmo que tristes, melhor irmos cuidar do pão de cada dia, sugere o mais prático dos seguidores, que com a morte do mestre perderam eles a Bolsa Família. O que não vai ser fácil, replica um; O quê? indaga outro; Achar trabalho, responde  um terceiro; Quê que é isso? perguntam os outros em uníssono espanto. Trabalho? Que palavra feia essa! exclama o que nada tinha dito até aqui; Será que precisamos? indaga o mais preguiçoso; Melhor não mexer em casa de marimbondos, garante o mais cauteloso; Que tolos somos! dizem todos. P.S. Alguns erros de informação ou gramáticais não são propositais: a gramática tem prazer em me confundir. Quando os mestres do passado se reuniram para criar a língua portuguesa, exageraram no vinho e multiplicaram as  funções do que. Que quê? pergunta um leitor distraído; O que sabe você sobre os que vieram primeiro? pergunta um leitor mais antenado; Quantos quês que essa história tem? pergunta a mais curiosa; Teremos que contar… sugere a mais exigente.

As bruxas estão soltas

Quando ausente, ninguém se refere a ela como a diretora de marketing, ou a colega Mara.

Mara batalhou para chegar onde chegou. E para se manter no topo, tem que se esforçar mais que os 6 homens que participam com ela das reuniões da diretoria. E só dois são filhos do dono. Tivesse ele 7 filhos, a empresa já teria falido. Mara faz as contas: tem mais diplomas, mais tempo de empresa, e sempre apresentou melhores resultados que os 6 juntos. Chamam a isso de igualdade dos sexos.

Quando, há dois anos, seu nome foi anunciado como o novo membro da diretoria, foi imediatamente cognominada de Bruxa. Não abertamente, claro. Mas sabe que em sua  ausência, ninguém se refere a ela como a diretora de marketing, ou a colega Mara. Até as mulheres, que deviam se orgulhar quando uma delas consegue superar os obstáculos e chegar na frente. Minha pista sempre teve mais obstáculos que a dos outros, lamenta Mara.

Na vida real, homem mandando nos outros é chamado de doutor, mulher é chamada de bruxa, megera, caninana. Não é de hoje e não vai mudar amanhã.  Remonta às histórias infantis transmitidas oralmente desde tempos antigos. A donzela devia ser dócil e frágil, precisando de  um homem – príncipe ou mocinho – para se livrar das situações complicadas. As independentes eram bruxas.

Se conseguiam se virar sozinhas era porque tinham parte com o demo. Cleópatra, Maria Antonieta, Ana Bolena, Marquesa de Santos e outras mais foram odiadas e injustiçadas, e entraram para a História como bruxas. Erraram, pecaram, usaram influências para subir ou sobreviver na vida, tal e qual os homens com quem conviveram. No entanto, esses levaram as coroas de louros, enquanto elas – as bruxas – acabaram mal. Ou talvez por isso mesmo.

A Marquesa de Santos foi desprezada, humilhada e condenada ao  ostracismo. E ainda deu sorte. Das outras três, duas foram decapitadas, uma se suicidou. Cleópatra lutou pelo trono que lhe cabia, e se os romanos dominavam, juntou-se a eles com as armas que tinha. Se o grande César, um dos quatro maiores guerreiros da história, foi “induzido’ a se posicionar contra os interesses romanos, é porque Cleópatra era bruxa. Ele, o herói indefeso.

O mesmo para Ana Bolena, que a história registra como a malvada que levou Henrique VIII a praticar atos nefandos, mesmo se ele casou oito vezes, mandou decapitar duas e talvez envenenado duas mais. Mesmo odiada, o povo entendeu que a morte de Ana, o irmão e dois amigos, não teve bases concretas. Também odiada pelos franceses, Maria Antonieta foi mais vítima que algoz, e nunca mandou o povo comer brioches. Embora os tempos sejam outros, e já não existam monarcas absolutos (sic), Mara vive sempre no temor de ser também decapitada. Não literalmente, claro. Vive na berlinda, e mesmo se esforçando mais que os outros seis, qualquer deslize será, Vupt – Cortem-lhe a cabeça! Se tal acontecer, mesmo nesses tempos de igual-para-todos, a chance de outra mulher tomar seu lugar é de apenas 30%.

Ano 2000 – Primeira coluna

 Quem é a escritora:

Nascida em Muniz Freire – sul do Espírito Santo, Wanda Sily vai frequentar, a partir deste Domingo, diretamente de Miami – onde reside -, as páginas de SéculO DIÁRIO, para deleite de nossos internautas. Formou-se em magistério e 1961, casou-se mundando-se para Vitória. Na Capital teve contato com a pobreza da região, com a população carente e as catástrofes ocorridas à sua volta, lhe despertando a vontade de relatar o que vê. Publicou crônicas no Jornal A Gazeta dureante cinco anos. Wanda obteve o primeiro lugar em vários concursos de contos, crônicas, romance e infanto-juvenil.

De volta para o passado

Minha rua no centro da cidade, onde morei anos atrás, filhos ainda pequenos andando de bicicleta, brincando/brigando com as outras crianças, os moradores no final do dia levando as cadeiras para a calçada, um olho na vida dos vizinhos e o outro na televisão ligada na sala. O mundo deu suas voltas e a vida foi imitando essas reviravoltas, afetando o centro e a minha rua.

O tempo, os modismos, o milagre econômico, os planos econômicos, o desastre econômico, os caprichos da sorte foram desgastando e depreciando minha rua. As casas viraram mercearia, sapataria (ou sapateiria), salão de beleza, sede de campanha eleitoral, igreja evangélica, não exatamente ao mesmo tempo, não nessa ordem. A rua foi seguindo o triste destino de rua do centro, decadência foi o efeito colateral.

As famílias, como aves de arribação, partiram para os endereços da moda – Praia do Canto, Camburi, Goiabeiras, Itapuã, e outras tantas praias com nomes indígenas que se esticam pela orla cobiçada da cidade. A vida foi se deslocando, devagar mas sempre em movimento, como trânsito na hora do rush. Dei muitas voltas pelo mundo, e volto à minha rua.

Surpreendo-me ao rever nos antigos endereços as mesmas famílias que se foram outrora, aves de arribação que por motivos diversos ou iguais, retornaram. O comércio informal e ilegal foi banido, a rua é outra vez residencial e quieta, barulho só das crianças correndo em volta, filhos das crianças de ontem. Um bom indício? Talvez não.

A geração de hoje, dos computadores, da TV a cabo e fibra ótica, não está melhor que a precedente e talvez também não a próxima. O que o Brasil reserva aos nossos netos? Florestas destruídas, rios poluídos, água contaminada, ar irrespirável, favelas violentas…

Esse é o futuro que estamos deixando aos nossos netos, junto com o curso na Faculdade que não garante um emprego, junto com o emprego que não leva a uma carreira, junto com a casa no centro que vai estar sempre lá, esperando por eles.