Algo de novo no ar

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Um voo entre a cidade do sol e a cidade dos ventos, ou seja, Miami-Chicago não é muito longo, mas sugiro levar um livro ou o kindle, pois nada acontece de interessante. A não ser que algo inusitado aconteça. Atenção Senhorita Anise Brooklin, por favor apresente-se na cabine de comando; tivemos um pequeno problema com sua bagagem. A garota chamada Anise, de 21 anos, se levanta da poltrona 57, quer dizer, no final da aeronave, e caminha apressada e preocupada até a cabine na entrada.

 

 

Em lá chegando é recebida pelas assistentes de bordo, outrora chamadas aeromoças. Acho que mudaram o nome porque, com a entrada dos homens no páreo, ficava chato falar aeromoços. Ditas assistentes, com seus melhores sorrisos, põem na cabeça da garota uma coroa feita com  legumes (alfaces, brócolis, espinafres), desfraldam a tradicional faixa Happy Birthday Anise, e cantam o infalível Parabéns pra você, acompanhadas entusiasticamente por passageiros  e passageiras.

 

 

Com certeza uma brincadeira de amigos, amor, família. O problema é que a aniversariante não recebeu bem a inusitada homenagem, e ficou lá na frente emburrada, sem sorrir e sem agradecer a gentileza do gesto. Devia ser tímida, acho.  Para piorar seu estado de ânimo, voltou para a poltrona sob aplausos e vivas dos outros passageiros. Parece que ninguém percebeu que a garota não gostou do mico, mesmo se lhe foi servida uma refeição especial.

 

Nessa época em que as empresas aéreas cada vez mais diminuem o que chamam de privilégios do usuário, esse evento foi uma exceção, provavelmente paga. Ou estão adicionando o Parabéns nas regalias de bordo? Na verdade não, porque uma senhora sentada nas primeiras filas se levantou, Eu também faço anos hoje. Perguntaram quantos e ela disse estar completando 88 anos, e todos cantaram outra vez a musiquinha. E a reação dela foi oposta: cantou junto, dançou e saiu pelo corredor recebendo cumprimentos.

 

 

Eu não estava no voo mas repasso o que me contaram, a fonte é fidedigna. A empresa em questão é a Southwest, que inova com serviços melhores e preços mais baratos. Consequentemente,  voos sempre lotados e + lucros. Não estão me pagando para fazer propaganda da empresa, na qual nunca voei, mas o Google informa que ela tem sido inspiração para outras linhas aéreas de pequeno porte, e seu modelo de negócios é copiado no mundo todo.

 

 

O melhor exemplo é não cobrar as alterações de voo, como as outras fazem. Outra novidade que atrai os viajantes é  o inovador sistema de embarque, como define o site da empresa: Temos um processo de embarque rápido, fácil e eficiente. Procure em seu cartão de embarque qual é seu grupo (A, B, C) e sua posição (1-60). Quando seu grupo for chamado, vá para a coluna que tem seu número e espere sua vez de entrar.   

 

 

Há muitos motivos para se viajar, e a maioria deles é ao mesmo tempo estimulante e relaxante. Não preciso listar as vantagens e benefícios de uma viagem, seja para Guarapari ou Guadalupe, Paris ou Parati, uma vez que todo mundo já viajou e sabe bem. Mas as empresas aéreas, as maiores beneficiadas com nossos deslocamentos, fazem tudo para complicar o trajeto. Eu não gostaria que a atendente anunciasse meu aniversário em um avião lotado, mas uma vez que a passagem está paga, por que não posso repassá-la para outra pessoa se não posso viajar?

 

P.S. Nenhum animal foi sacrificado para escrever e publicar essa coluna, a não ser o frango do almoço.

Halloween diet

fca4ce85-0b3b-4b59-b288-0ab3d781338a-1024x789Quando desconfiam que alguma mercadoria vai faltar, todos correm para armazenar para o futuro imediato. Basta um boato de um banco quebrar e todos correm para retirar seu dinheiro; quando avisam que o preço da gasolina ou do álcool vai subir, correm todos para encher o tanque, embora nem dê tanta diferença assim. E isso vale para tudo, como nas ameaças de furacão. Mesmo assim, causou espanto a notícia de que houve um grande aumento nas vendas de armas de fogo depois dos trágicos eventos em Las Vegas. Querem estocar antes que proibibam as vendas, a) para vendê-las depois com o preço triplicado; b) para usá-las num próximo ataque?

 

 

A mania americana de comprar armas combina bem com a principal atração de outubro – o Halloween, que é festa de horrores e pesadelos. O mês mal começou e os apressadinhos já nos divertem decorando as portas com caveiras e esqueletos, bruxas, fantasmas e tumbas com o tradicional R.I.P., que quer dizer descanse em paz. A televisão nos bombardeia com filmes apropriados para a data, ou seja, de terror.

 

 

Mas ao invés de assustar, o Halloween faz a alegria das crianças e dos fabricantes de balas, mesmo nesses tempos de excesso de peso, guerra ao açúcar e refrigerantes diet, que como dizem os entendidos, só os gordos tomam. Minha filha reclama da quantidade de balas que vai ter que comprar antes que os estoques se esgotem, e pergunto por que não dar algo mais saudável e diminuir a epidemia de obesidade que aflige a nação, Que tal lançar a moda do Halloween-diet?

 

 

Ela me olha como se eu tivesse acabado de desembarcar de um foguete espacial, Porque fica muito mais caro. Então é isso, balas em profusão porque com tantas crianças – e adultos – batendo na porta, as balas deixaram de ser uma tradição e se tornaram a opção mais barata. Agora imagina se o governo, preocupado com a saúde da população, proibisse a distribuição de balas no Halloween. Compraríamos nossos estoques com meses de antecedência ou cairíamos nas mãos dos contrabandistas de balas, que as venderiam a preços exorbitantes?

 

 

A recente correria para a compra de armas e munições é por temerem a proibição, que tal como aconteceu com a lei seca no passado, desencadearia a ação dos contrabandistas. Como a chamariam, lei da bala? Tudo porque, quando chacinas como essa acontecem – e com que frequência estão acontecendo – a pressão dos grupos pró-desarmamento ganha força. Mas dificilmente conseguiriam vencer com Mr. Trump no governo. Pró-violência.

 

 

Falando em balas não podemos esquecer da nossa especialidade, as balas perdidas, que como diziam no tempo em que um fio de barba valia como documento, quando vejo a barba do vizinho arder ponho a minha de molho. Justamente agora, quando as barbas voltaram à moda. Quem diria. Resta torcer para que retorne também a seriedade daqueles idos, quando a palavra empenhada era lei – Não fechou a transação ainda? Cancela e pago o dobro. Não posso, já empenhei minha palavra e sacramentei com um fio da barba.

 

 

Nem terminei a coluna lembrando à humanidade que o Halloween está no ar, abro a porta e vejo que a vizinha em frente já esparramou as luzinhas de natal no jardim. Aposto que é a primeira do país. E olha que nem retiramos ainda os protetores de furacão, e para sondar o que vai pela vizinhança tenho que abrir a porta: as janelas estão lacradas. O que é estranho – lá fora brilha o sol mas em casa reina a penunbra da noite.

 

 

E tudo parece combinar bem – Halloween e furacões ainda no ar, balas e balas em noites de terror. No entanto, a origem do Halloween era exatamente espalhar figuras de monstros e caveiras para afastar as bruxas. O que era amedrontador virou festa, e as festas estão virando pesadelos. Ao invés de evoluírmos estamos involuindo, e as bruxas, por mais que a gente reze, continuam soltas.

A mulher que engolia fogo

Antes de tudo existiam os circos, e nada a ver com a sofisticação do canadense Circo de Soleil. Eram os mambembes, sem pausa e sem pouso, rondando de um vilarejo a outro, e a data da partida era determinada pelo movimento da bilheteria. Ou quando algum participante se metia em encrenca, mor das vezes por um rabo de saia, como alardeava o palhaço. Por onde o circo passava vez em quando alguém ia junto, iludido pelo falso brilho das lantejoulas.

 

 

Zoira, recém-casada, foi das muitas que fugiram na calada da noite atraída pelos olhos negros de Althey, o atirador de facas. Por isso o marido não foi atrás. No mesmo lugarejo ficou Zilza, a mulher barbada, apaixonada pelo barbeiro. O mundo sob a lona não era exigente e sempre cabia mais um… ou duas, desde que soubesse fazer alguma coisa. Zoira fazia uma irresistível galinha ao molho pardo, mas galinhas eram escassas naqueles idos.

 

 

Sendo no entanto formosa e dona de um belo par de pernas, bastou-lhe um maiô prateado e um penacho emplumado para conquistar o distinto público. E porque era a professora do lugarejo deixado para trás, para sempre, criou o papel da paciente professorinha da roça, ensinando o be-a-bá e um-mais-um-dois no picadeiro ao aluno burrinho, ninguém menos que Authey vestido de Pinóquio.

 
A bela nem precisava inventar – repetia para a honrada assistência as mesmas aulas que dava para as crianças do Fundo do Poço, e o público ainda ajudava, repetindo com ela as lições que o aluno-Pinóquio-palhaço não conseguia aprender. Ainda hoje corre pelo interior desses brasís maltratados o boato de que foi assistindo a uma das aulas da Zoira que Chico Anísio criou sua famosa Escolinha do Professor Raimundo. Não posso provar, apenas repito o que ouvi por aí.

 
Nem duvide que existe um lugarejo chamado Fundo do Poço, lá pelo interior de Bumiranga. Nunca estive lá, mas hoje em dia não exijo provas de nada que me contam. Na minha infância ouvia muitas referências a  outro lugar mágico chamado Onde Judas perdeu as botas, muito lembrado quando se perguntava onde está ou onde fica, e o perguntado não queria ou não sabia dar a direção correta, ou queria  indicar que era muito longe. Onde mora aquela Excelência que recusou a propina? Lá Onde Judas perdeu as botas.

 
Ficava eu intrigada com esse local misterioso mas sempre citado… teria Judas andado pelo mundo e veio perder as botas no Brasil? Outra indicação que me encantava era a famosa e nunca bem definida cor-de-burro-quando-foge. Quem nunca a ouviu, pelo menos uma vez por semana? Qualquer coisa que sumia ou que não se conseguia explicar, era definida como tendo a famosa cor de burro quando foge. Minha avó dizia que burro tem mesmo uma cor dúbia, nem preto nem branco, nem marron nem castanho, nem cinzento nem aguento.

 

 

Os mistérios que plantam na alma infantil… Tenho certeza que muitas crianças brasileiras sofriam como eu o maior enígma da nossa história – como D.Pedro II podia ser filho do D. Pedro I, se nos livros escolares o pai era jovem e bonito e o filho era um velho barbudo? O primeiro Pedro tinha fama de mulherengo e o segundo de sizudo, o que talvez explique a barba, para não ser confundido com o  pai mulherengo. Mesmo assim, dizem que o de barba caiu de amores por Anarê, trigueira índia guarani, quando veio ele em visita ao Espírito Santo.

 

 
Fosse Anarê americana, teria  muitos filmes baseados em sua vida, e se vivesse nos dias de hoje estaria casada com um dos Ronaldos e seria madrinha de bateria. Cada terra com seu uso. Naquele tempo, porém,  a glória era ser artista de circo, e Anarê seguiu um circo mambembe, apaixonada pelo dono,futuro fundador da Império Serrano. Com ele aprendeu o ofício de engolidora de fogo, e dela o brasileiro herdou essa capacidade de engolir tudo calado.

Turista acidental

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Retorno de meu exílio forçado de uma semana, no que posso chamar de turismo acidental. Embora as informações obtidas durante a ausência fossem tranquilizantes, encontro um desolador cenário de ruas sujas e outdoor destruídos, os farrapos dançando ao vento feito velas de navio fantasma. As mais afetadas são as árvores, coitadas, tombadas por toda parte, guerreiras derrotadas. Nas calçadas e estacionamentos, pilhas de troncos e galhos ressecados esperam seu destino final – serem tritutados e virar munch de jardim.

 

Quando um furacão enfurecido é detectado, os residentes em sua rota provável têm que fazer a difícil escolha – fugir ou enfrentar? A não ser que haja uma ordem de retirada, claro. Mesmo tendo, há os que teimam e ficam. Com o Irma a ordem foi de alerta, mas quem ficou teve que se fechar em casa: se saísse a polícia levava para os abrigos comunitários. Na esteira do furacão faltou água, luz e gasolina, poucos estabelecimentos abriram, e apenas durante o dia. Quase uma cidade sitiada.

 

Meu pequeno núcleo familiar decidiu pela retirada, e partimos para Navarre Beach, no Golfo do México, uma pontinha estreita no extremo noroeste da Flórida, que promete ser a praia mais sossegada do mundo. Quer dizer, sem badalação, com lojas e restaurantes fechando às 9, e tão distante que muda o fuso horário – são 10 a 11 horas em belas estradas muito bem cuidadas. No entanto, em nossa viagem pré-furacão, gastamos de 20 a 22 horas para chegar, tal o engarrafamento. Isso com postos de gasolina fechados e hotéis sem vagas.

 

Navarre e Navarre Beach, cidades irmãs, estão perto de Pensacola, a última cidade ao oeste na geografia do estado. Na história, porém, reclama o título de primeira cidade americana, fundada pelo espanhol Tristán de Luna em 1559. Mas teve vida curta, e Santo Agostinho, fundada em 1565 no leste da Flórida levou a fama, sendo considerada o primeiro núcleo permanente dos States. Os sacolenses acham uma injustiça.

 

Se a longa retirada foi uma via-crucis, o retorno foi mais rápido e mais tranquilo, mas ainda com muito movimento nas estradas e hotéis lotados. Entre a ida e a vinda, as férias forçadas foram um maravilhoso descanso num local paradisíaco e cheio de charme. Mas não devo me regozijar com nossa boa sorte, com tantos afetados pela fúria do tenebroso Irma.

 

A região do extremo sul, onde fica Key West, foi a mais atingida, com 25% dos imóveis destruídos. As estradas de acesso ainda estão fechadas e sem data de reabertura. Quem saiu não pode voltar tão cedo, mas quem teimou e ficou está em situação ainda pior, amargando falta de tudo. A pitoresca cidadezinha de Hemingway vai ter que renascer das cinzas, como aconteceu com Nova Orleans.

 

 

A foto que ilustra esse relato é de Navarre Beach, com um belo pier adentrando o golfo.  Na entrada tem um aviso: ‘$1,00 para caminhar; $7,00 para pescar. Pague na volta’. Fui com meu marido, que disse ter os dois dólares no bolso (estávamos caminhando na praia, que não tem vendedor de nada). Na volta, depois de intensa pesquisa para descobrir a quem pagar, Michel percebe que tem no bolso 2 reais. A cobradora aceitou o pagamento e pôs a nota sob o vidro do balcão – porque achou bonita e porque não existe nota de 2 dólares.

A visitante indesejada

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Mais um furacão ronda o Caribe e ameaça visitar nosso pacato reduto. A Flórida está em estado de guerra, com filas quilométricas para tudo que se precise e onde quer que se vá, e com os postos de gasolina com filas intermináveis a noite toda. O monstro é caprichoso, tanto pode vir aqui ou passar ao largo, diminuir de intensidade e virar ventinho ou inchar ainda mais. Se a quantidade de água que inundou Houston cair em Miami, tudo vai ficar em baixo dágua.

 

Embora tenha pago US 100 para colocar as placas de proteção nas minhas janelas (depois mais 100 para retirar), outro perigo nos espreita entre trovoadas e ventos enlouquecidos: os saques nos condomínios vazios. Até a polícia se manda, portanto, os corajosos agem livremente, como aconteceu na dramática passagem do Katrina em Nova Orleans. E se quase todo mundo vai pegar a estrada, imagine-se o tempo nas highways engarrafadas. Que na quarta já estão um horror.

 

Minha troupe pretende sair amanhã, com reservas em hotéis distantes da área de risco. No entanto, ninguém sabe ao certo quais são as áreas de risco, pois estamos sujeitos às variações que os furacões sofrem em suas jornadas terra a dentro. Pode ser que a gente esteja deixando uma área ameaçada e fugindo para onde Irma resolva atacar. Sua fúria já fez estragos nas Ilhas do Caribe, com ventos mais fortes que os provocados por um furacão de categoria cinco.

 

Enquanto isso, outro furacão, bem menos ameaçador, atacou Portugal – Madona mudou-se de mala e cestas para nossa Pátria Mãe. Alguns amigos estavam planejando fazer o mesmo, mas desistiram ao saber da novidade – antes era moda, agora está virando invasão. Esperemos que essa minúscula pontinha da Europa, por enquanto livre de terrorismo e das levas de imigrantes sofrendo com políticas mais violentas que os piores furacões, continue a doce terra dos fados. E talvez  Madona cante a velha Lisboa, cheia de encanto e beleza, em seu novo filme.

 

Se as previsões da foto acima se realizarem, Irma passará em Miami com a força destruidora da Categoria 4. Avança na minha direção, e as escolas já fechadas na quarta-feira, bancos e repartições públicas fechando na quinta e sexta, Espero estar bem longe, rezando para que tudo corra bem para todos, principalmente para os muitos que preferem enfrentar a fera a sair de casa. Se essa coluna for publicada, quer dizer que estou bem, obrigada.

O avesso do avesso

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Nelson não acredita na sorte porque a vida só lhe reservou o avesso, o que demonstra um temperamento pessimista. De acordo com a genética, ter nascido já foi muita sorte, ganhando essa primeira maratona contra milhões de adversários. E de acordo com os budistas, as chances de nascer como ser humano são ainda mais difíceis. Daí em diante entramos num jogo de sorte e azar em que cada minuto é uma vitória. Basta olhar em volta, ler jornal e ouvir o noticiário.

 
Nelson dos Anjos porém cansou de tudo – os amores deram errado, não gosta do emprego e com a família nunca se entendeu. Em 28 anos de amarga vida nunca deparou com o que as outras pessoas consideram uma boa comida, um bom fim de noite ou fim de semana, um bom programa na televisão ou no cinema, ou um bom livro: a vida só lhe reservou maus momentos.

 

 

Bom ou boa, aliás, são adjetivos que Nelson já eliminou de seu dicionário pessoal. Que dirá os derivados. Por isso desistiu de tudo e foi pras montanhas, fugiu do mundo. Mas não se hospedou em uma  pousada aconchegante servindo broa de milho no café da manhã e licor de jenipapo no jantar. Vou pro mato, me isolar do mundo e das interações sociais, levando apenas a mochila e o celular. Só volto quando a bateria acabar.

 

 

Então vai demorar, porque não chama nem é chamado. Morando no mesmo andar do mesmo edifício, Zilá sempre evita encontrar o vizinho, como todos os demais moradores. Mas um probleminha técnico no apartamento do indivíduo exige imediata atenção – o rádio ficou ligado a todo volume e ninguém consegue dormir. Embora tenham cortado a energia do apartamento, o rádio continua berrando, portanto funciona com bateria, que provavelmente não morre tão cedo.

 

 

Sendo a moradora mais próxima, Zilá é a que mais sofre, e tanto procura que encontra o número do celular do sujeito – o condomínio exige que todos os moradores preencham uma ficha ao se mudarem. Enquanto isso, uma enquete é feita no prédio para saber a opinião dos residentes sobre o problema: o indivíduo realmente esqueceu o rádio ligado ou foi de propósito? Cem por cento dos votos para ‘de propósito’.

 

 

Ruminando amarguras existenciais nas montanhas, Nelson dos Anjos leva um susto quando o telefone toca. Por que toca se nunca dei o número a ninguém? Nem no sigilo telefônico se pode confiar? Atendo ou ignoro? Ignorou, claro, mas como continuou tocando, atende. Uma voz de anjo denuncia a ocorrência, mas a resposta nada tem de suave, Quando voltar desligo. E quando volta? indaga a voz angelical, mas Nelson desliga.

 

 

Os moradores do prédio fazem um esquema de revezamento, ligando dia e noite para o sujeito – ou ele desliga o celular ou também não dorme. Nelson não desligou; não carregava um celular para falar com ninguém, mas além de ranzinza era também hipocondríaco e temia não ser socorrido caso adoecesse de repente. Portanto atende, e é outra vez a voz de anjo, informando que entrou no apartamento e desligou o rádio. Volte quando quiser ou melhor ainda, não volte.

 

 

Nelson, erroneamente chamado dos Anjos, leva um susto. Tem neura de assaltos e a porta do apartamento tem oito cadeados. Como entraram? Zilá explica que o chaveiro da esquina resolveu o problema num minuto. Nelson fica em estado de choque, vendo sua vida invadida e exposta  – não há mais segurança no mundo dito civilizado? Avisa que vai processá-la por invasão de domicílio, e volta correndo.

 

 

Nelson entra no prédio sob vaias dos moradores, e encontra Zilá esperando na porta do apartamento, com uma nova chave mas sem cadeados. O ar das montanhas lhe fez bem, ele emagreceu e ganhou um bronzeado, ficou quase bonito. Nelson se sente desarmado, talvez por perceber a fragilidade de suas técnicas de segurança, ou talvez pelo sorriso da vizinha… Como não reparou nela antes? A voz de anjo pergunta se não sentiu falta de uma comidinha caseira, Fiz um caldo verde, quer experimentar? O aroma vindo da cozinha é convidativo…

Imagem: Cadeados do amor expostos na Pont des Arts, Paris (Google, TV+)

Apagou

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“E no entanto, ela se move,”  Galileu Galilei

Houve um tempo que se acreditava que o sol girava em torno da terra, que ficava parada, a soberana no centro do mundo. Galileu tentou provar o contrário e se deu mal. Aparentemente desistiu, mas elaborou a frase acima, que entrou para a história. E no entanto, dizem que ele não disse, mas por que não acreditar? Quando essa verdade elementar foi finalmente aceita, muito do orgulho humano caiu por terra, mas nos restou ainda o consolo de um satélite girando submisso ao nosso redor. Nossa dama da noite, a lua, tem sido desde sempre alvo de nossas ilusões e fantasias.

Embora sem brilho próprio, a lua é uma guerreira que soube tirar proveito da luminosidade do sol para se destacar, no que não deve ser censurada, porque essa subtração em nada afeta a exuberância do nosso astro-rei, que continua nos mantendo vivos com sua luz e calor. Outra improbidade dos humanos, chamar de astro-rei o sol que nos aquece, que não é rei de nada – o incógnito infinito está cheio de astros muito maiores.

De vez em quando a lua sai de sua passividade e nos surpreende, como aconteceu agora com o eclipse solar. Uma festa aqui no hemisfério norte, embora em Miami não tenha sido tão exibido como em outras cidades do norte. Houve grande expectativa, e muitos pararam para ver, embora poucos tenham visto. Não fui assistir ao show, mas alguns dos departamentos da universidade onde trabalho ofereceram óculos especiais para que estudantes, professores e funcionários pudessem ver.

Esse foi um eclipse raro e não deveria mesmo ser desperdiçado. Na minha infância alegrense ocorreu um eclipse lunar total e lembro da população local acorrendo em massa para prestigiar o evento. Claro, nesse tempo não tínhamos óculos especiais para proteger os olhos, mas usava-se o truque de passar a fumaça de uma vela sob um vidro, tornando-o fosco. E toda a cidade estava nas ruas, de vidro no rosto, olhando para o céu. Dizem que radiografias fazem o mesmo efeito, mas não vi ninguém olhando para o sol com a foto do pulmão ou de uma perna quebrada.

O próximo só vai ocorrer daqui a 70 anos, portanto, não estarei aqui para escrever outra coluna. Quem viver verá. Como estou apostando que essa nova geração vai chegar aos cem anos com saúde e vigor, espero que meus netos o vejam. E provavelmente vão contar aos colegas que os pais deles viram o último eclipse com óculos especiais, e a avó viu o penúltimo através de um vidro enfumaçado.

Para nossa decepção, em Miami o dia não escureceu de repente, como muita gente esperava, mas lá no Oregon isso aconteceu, e os grilos começaram a cricrilar, pensando que tinha anoitecido. Suponho que as galinhas puseram mais um ovo, coitadas. Embora tenha sido aventada essa possibilidade, nenhuma catástrofe ambiental ocorreu durante as três horas em que a lua, sempre tão submissa, finalmente se encontra com o senhor da Via Lactea.

Que segredos teriam trocado nesse encontro jamais saberemos, mas por certo eles não iam desperdiçar o auspicioso encontro falando que a terra vai de mal a pior. Aposto que os eclipses são mais que simples ocorrências astrais, e portanto assistimos ao encontro amoroso dos dois astros que nos guiam, e nossa vã filosofia e tola incredulidade não alcança. Somos pequenos demais para tanta beleza.

Ele e ela vagam nos céus sem poder se encontrar, como nos antigos romances de amor, cheios de impedimentos para tornar o romance mais valorizado. Talvez uma terrível maldição celeste esteja separando os sol e a lua, mas permitindo um encontro a cada 70 anos, mais ou menos. E assim nascem as estrelas. P.S. Foto do sol quase encoberto pela lua, tirada por  Julia Marques no celular.

Sopa de Letrinhas

Entre o A e o Z se concentram todos os mistėrios da mente humana, no que chamam de síndrome do arroz: nossa mente comprimida entre esses dois extremos, como uma caixinha de comida chinesa. Esse complexo emaranhado de hieroglifos tem a capacidade de se esticar indefinidamente, criando – pasmem, com apenas 26 figuras, uma ode ao gênio humano ou um festival de burrice. Humana, claro, que o burro não sabe escrever. Na pegadinha, Qual a maior palavra do idioma português? a resposta correta é arroz, porque inicia no A e termina no Z.

Alinhadas como formigas a caminho do formigueiro, elas parecem uma despretensiosa sopa de letrinhas. No entanto, unindo-se e atando-se umas às outras, carregam a mastodôntica responsabilidade de preservar a cultura, a história, o conhecimento, as artes, a ciência e, obviamente, as letras. Têm ainda o dom de se embaralhar e trocar de posição e estilo, como ginastas em corrida de revezamentos, adaptando-se a todas à maioria das línguas escritas ou traduzidas no planeta.

Nós, mortais ditos letrados, temos uma relação de amor e dio com as letras, que hora posam de amigas fiéis e companheiras imprescindÌveis, hora são algozes que nos torturam. Pois as mesmas letras, trocando de posição trocam também de sentido, e tanto podem enunciar um prêmio da loteria como a cobrança de uma dívida; o auspicioso nascimento da primeira filha ou a morte de um ente querido.

Um ‘Seja benvindo ‘ ou um ‘Some da minha vista’. Graças a elas nos tornamos civilizados, ilustrados, eruditos. Mas quanto mais evoluÌmos, mais tentamos nos libertar desse jugo. Uma emocionada mensagem amorosa, por exemplo, em tempos remotos era transmitida em uma carta cheia de floreios e subentendidos. E havia as mensagens cifradas, sem letras mas cheias de encanto, com o abano de um leque ou na cor da flor oferecida.

Aí criaram o cartão postal e a mensagem escrita foi encolheu, não apenasa redução do espaço disponivel mas também na essência, pois um cartão não viaja sob a proteção de um envelope. Nesses tempos de alta tecnologia, reduzimos ainda mais o uso das letras na interação social. Uma foto vale mais que mil palavras, disse o fotógrafo. A velha carta hoje se comprime em 14 palavras; ou em uma cifrada mensagem de texto, reduzida em tempos de pressa. Entendemos, comprovando o milagre que, tal como a transformação da água em vinho, transforma 26 letrinhas no incalculável manancial do saber humano.

Com elas escrevo essa coluna, e se o conteúdo difere de tantas outras escritas por tantos outros colunistas, cada uma e cada um tem seu estilo e seus motivos, que serão expressos por essas mesmas figurinhas mágicas, que se tornaram a base de toda interação necessária para nossa sobrevivência na terra e no espaço. Esse poder de transmutação e adaptação afeta os nomes aos quais estamos atados e se tornaram nosso crachá social – Ana ou Zé, Bernardo ou Yara. Para facilitar ou complicar, criaram a famigerada ordem alfabética, causando transtornos emocionais e injustiças culturais. Na fase escolar, nomes começados com as primeiras letras são desastrosos para quem não estudou a lição ou não fez o dever de casa. Pior ainda, são os primeiros nas provas e apresentações orais.

Na vida real a situação se inverte, e nomes começados com as últimas letras deixam seus usuários em desvantagem qualitativa, pois nem sempre é pos[‘0,osível informar, como nos filmes, que os nomes estão em ordem alfabética. Quem se identifica com a inicial W fica por último. Parece que o alfabeto estancou nessa letra – ninguėm mais se chama Xidila ou Zukira. Os nomes das novas gerações no Facebook são estrangeirismos, começam com as primeiras letras. Quando assino Wanda estou informando não apenas meu nome, mas minha idade provável.

A árvore da via

A árvore da via

Retorno aos States depois de merecidas e revitalizantes férias no Brasil, mais precisamente, Vitória, cheia de glória, por falta de rima melhor, com muita chuva e as constantes preocupações com balas perdidas e febre amarela. Tudo correu sem transtornos, ou quase, que se escapamos dessas, somos atacados pela cachumba, ou assim pensamos. Foi alarme falso, felizmente, mas corremos o risco de disseminar a doença no país. Imagina se o Trump descobre.

Outra doença que já deveria estar erradicada, tal como dengue e febre amarela, uma vez que tem vacina. Só falta mesmo criarem vacinas contra balas perdidas. Mas de balas também não nos livramos, pois as malas voltam cheias delas, para alegria dos netos. Uma festa para os olhos, apenas – a gente traz, deixa saborear umas poucas, e logo desaparecem na calada da noite. Alta traição, eu sei, mas criança esquece depressa.

Miramar, de beleza sem par, voltei! No retorno também nos aguardam surpresas desagradáveis. Nem no primeiro mundo nos livramos delas. Pois ao retornar ao local onde labuto diariamente por um punhado de dólares, deparo com um vazio inexplicável, ou melhor intolerável. Pior, abominável – a bela e frondosa árvore que hoje ilustra essas fúnebres lucubrações filosóficas, desapareceu do cenário da minha varanda
.

E da minha vida. Bela e frondosa, a preciosidade foi sumariamente abatida na calada da noite, para evitar protestos e atos agressivos. Ficava ao lado do prédio de dois andares onde uma pequena varanda dá acesso à escada dos fundos. Ali tem um banco de madeira para quem quiser desfrutar dos 15 minutos de descanso que a lei permite no horário de trabalho. Como poucos usam essa entrada, o lugar é sossegado, e ali eu me sentava para apreciar a imensa matrona impoluta. Tinha o efeito repousante de uma meditação.

Na farta galharia apontando o céu aos apressados bípedes que sob ela transitavam morou uma pequena raposa, até que o serviço de desproteção aos animais a removeu, também sem explicações plausíveis, pois não havia atritos entre ela e os humanos. Pelo contrário, paravam todos para tirar fotos e até traziam os filhos para vê-la. Em todo caso, acho que a carnivora animalia estava acabando com a população de esquilos do campus, mas isso é parte da lei da natureza, na qual não devemos nos intrometer.

As raposas das áreas urbanas são chamadas de residentes urbanos carnívoros, e vivem mais que as raposas do mato. São muito comuns na Europa, onde demonstram hábitos modificados, com bandos maiores sobrevivendo em áreas menores. Nossa raposa vivia sozinha, e era meio exibida, acho mesmo que posava para nossas fotos. Foi-se, que a natureza humana tem estranhas vilanias, como derrubar minha velha amiga. Mas não morreu em vão – foi sacrificada para nos dar mais vagas no estacionamento. Viva o homem, gente.

Isso não foi postado no Facebook

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Uma Harley Davidson rodando pelo interior de Alegre, lá pelos idos da década de 50, já devia ser centenária, mas cumpria sua nobre missão de transportar o feliz proprietário, embora a marca não tivesse a fama que tem hoje… pelo menos naquelas ermas paragens. O uso da moto para transporte não foi uma preferência, era apenas falta de recursos para comprar um carro, mesmo velho. E chegou à aprazível cidade de Alegre vinda sabe-se lá de onde.

Criada em 1906, em Wisconsin, a Harley Davidson está em terceiro lugar na preferência dos motoqueiros, mas tem um charme que as outras não têm, como frequentes reuniões dos adeptos pelo mundo todo, sempre em couro preto e mais das vezes aos pares, e tem até museu. Em 1998 ela chega oficialmente ao Brasil, em Manaus. A primeira fábrica fora dos Estados Unidos, criada para atender o mercado do hemisfério sul.

Mas a moto que marcou minha vida chegou muito antes, e como já revelado acima, era bem velha, com os parafusos se soltando nas estradas cheias de costeletas, como pipoca pulando com o calor do fogo. Além de consumir pouco combustível, a poderosa enfrentava sem problemas qualquer estrada ou a falta de estradas, sendo muito apropriada para a incipiente carreira de caixeiro-viajante do proprietário, que superava qualquer obstáculo para vender seus produtos.

Hoje a profissão é chamada Representante Comercial, e seus adeptos não mais desbravam o interior do estado correndo atrás de possíveis fregueses. As viagens são na Internete. Na peça ‘A morte do caixeiro-viajante’, Tennessee Williams valorizou o ofício; antes tais abnegados eram chamados de mascates num sentido pejorativo, embora fossem uma evolução dessa forma de comerciar. Em mundos opostos, o caixeiro-viajante da peça sucumbe à depressão americana e percebe que vale mais morto do que vivo para a família.

O caixeiro-viajante em terras capixabas tinha dois objetivos: vender seus grampos de cabelo, Brilhantina Royal Briar, Leite de Rosas, Linha Clark, Lâminas de Barbear Gillete, mas também impressionar a namorada alegrense, então professora primária nos confins do município. Mas a moto não andava muito bem das rodas e na cidade havia um exímio mecânico, capaz de consertar qualquer tipo de veículo, de caminhão a carroça.

Sem problema, disse o mecânico, Deixa a moto aí e vem buscar amanhã. Dia seguinte lá vai o viajante, e encontra sua moto na calçada, como se atingida pela ameaça bíblica de Jerusalém – não ficará pedra sobre pedra. Ou seja, totalmente desmontada – peça por peça, parafuso por parafuso, tudo alinhadinho em perfeita ordem de espécie, tipo e tamanho. O moço põe a mão na cabeça, desesperado, Tem certeza que vai conseguir juntar tudo isso outra vez? Claro, volte amanhã.

O ‘Volte amanhã’ se esticou por semanas, depois meses, com as peças arrumadinhas na calçada sob o sol e sob a chuva, vento brando e ventania. O moço explicava que precisava da moto para garantir suas comissões mensais; já havia vendido para todos os comerciantes da cidade e precisava ir em frente. E o mecânico impassível, Pode confiar, volte amanhã. O moço teve que continuar sua romaria profissional da forma mais humilhante, chegando nas cidades e lugarejos de ônibus.

Mas voltava sempre para ver se sua moto, e constatava que as peças na calçada iam sumindo aos poucos – hoje um parafuso ou dois, amanhã um guidão, um pedal de freio… até restar apenas algumas manchas de óleo na calçada. A única a se beneficiar com o triste fim da primeira Harley Davidson a rodar nas ruas de Alegre foi a professorinha – com tantas idas e vindas do infeliz caixeiro-viajante para tentar recuperar sua moto, acabou fisgado para sempre – estamos juntos até hoje.