O caso da pequena felicidade

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O caso da pequena felicidade

Quando iniciei no emprego atual, há 11 anos, encontrei na lixeira um vaso com uma planta meio murcha, descartado pela antecessora ao desocupar o recinto e voltar para a Venezuela. No depósito de descartáveis encontrei uma simpática mesinha de canto, e tive a feliz ideia de unir as duas desprezadas – a mesa e o vaso foram enfeitar o corredor. Não tenho o chamado dedo-verde e minhas plantas sofrem de morte súbita, mas essa planta aceitou meus desvelos e continua verde e viva.

Fim da primavera no hemisfério rico, verão quase chegando, e de repente minha planta adotada, após 11 anos de estéril convivência, elabora uma flor. Tem planta que floresce o ano todo, tem planta que floresce uma vez no ano, e tem planta que só floresce uma vez na vida. Não estarei outros 11 anos nesse emprego para saber se minha planta vai florescer em 2028 ou se essa foi sua única manifestação de felicidade.

A foto que hoje ilustra minhas tolices filosóficas comprova o fato narrado acima: minha bela flor existe, não é uma quimera. E não brotou de um dia para o outro, desde o final de maio a plantinha veio elaborando esse parto complicado, e agora conto os dias que ela vai durar. Já tem mais de uma semana. Por estranho que possa parecer, embora esteja instalada no corredor onde muita gente transita, os colegas nas outras salas do corredor até agora não perceberam o fenômeno.

Tal como as flores, a felicidade também tem muitos jeitos de se manifestar. Algumas são poderosas e só acontecem uma vez na vida; grandes felicidades podem acontecer uma vez no ano; as pequenas felicidades florescem em qualquer tempo e lugar. Mas são discretas, e para percebê-las temos que estar atentos. Essas pequenas manifestações diárias de contentamento são altamente contagiosas, e podemos espalhá-las ao nosso redor sem diminuir seus efeitos benéficos. Sim, estar feliz traz benefícios para a saúde.

Buda nos ensinou, “Milhares de velas podem ser acesas com uma única vela, sem diminuir seu tempo de vida. A felicidade também não diminui quando compartilhada”. Os grandes momentos felizes em nossas vidas são catalogados e armazenados nos escaninhos do coração, mas se não for resgatada, a pequena felicidade se dilui nas frivolidades do dia-a-dia. Tal como essa primeira vela, que se não for acesa, sua luz e a de outras mil velas se perderão.

O Google me informa que minha planta é uma variedade do lírio-da-paz, chamada Spathiphyllum Sensation, que raramente dá flores. Raramente pode indicar que floresce quando bem entende, ou nunca. Talvez precise de um pouco mais de luz. Essa planta é muito apreciada nos escritórios por sua bela folhagem verde escuro e porque exige poucos cuidados. Ah, entendi… Também é muito usada nas residências porque funciona como purificador do ar, removendo as toxinas do ambiente.

E para acender a primeira vela de hoje trago um provérbio esquimó: “Talvez não existam estrelas, mas pequenos buracos no céu por onde o amor das pessoas que perdemos transpasse e brilhe sobre nós, para sabermos que elas são felizes”. Uma explicação mais feliz que a dos astrônomos, sobre imensos globos-suicidas incandescentes correndo no firmamento para se atirarem em um buraco negro.

Helena e Elena

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Preparando as malas para a próxima temporada de férias, a família se assusta – Mas já? O tempo voa, mas não nos deixa esquecer que em junho, no século passado (1945), aconteceu o Dia D, assim chamada a Invasão da Normandia pelas forças aliadas, pondo fim à Segunda Grande Guerra. No entanto, o fato que encerrou um dos piores conflitos da história ganha pouco destaque na mídia, sempre ocupada com mazelas mais recentes.

 

Essa foi a maior operação de guerra já realizada até hoje , com 185 mil soldados americanos, ingleses e canadenses desembarcando em três praias da França. Mas guerras temos desde que o primeiro homídio cobiçou a mulher do vizinho, ou seja, a do segundo homídio. Ou vice-versa. Em 1184 AC, a cidade de Troia foi saqueada e queimada, de acordo com os cálculos de Eratóstenes, geógrafo e astrônomo grego, o primeiro a calcular com precisão a circunferência da Terra. Portanto, se ele disse…

Mas Troia teria mesmo existido ou é uma das maiores obras da ficção literária, que venceu o tempo e supera os best-sellers modernos? Talvez tenha existido uma cidade chamada Troia, que foi arrasada por uma guerra, uma vez que as guerras eram comuns entre as cidades-estados gregas. Mas a lenda superou a história. Esse foi o único conflito armado causado por uma rivalidade entre mulheres. Mesmo deusas, mas nessa guerra as mulheres tiveram papeis relevantes, como Helena.

Outra Elena, essa bem moderna, também provocou uma guerra, desta vez na área de marketing. Ou mais precisamente dos cosméticos, que vicejam no farto jardim da vaidade feminina. Modo de dizer, que os homens também. Parece distração de dondocas ociosas, mas a indústria dos cuidados da pele fatura por ano algo em torno de 121 bilhões no mundo todo. Só os americanos gastam 11 bilhões. Serão mais bonitos que nós? A Elena de hoje, bela como sua antecessora, foi ‘descoberta’ num shopping center, e não estava fazendo compras. Era faxineira.

Uma câmera distraída captou-lhe o rosto, e mais uma Cinderela faz história. O fotógrafo ocasional era um caça-talentos, gente que ganha a vida procurando gente para manter girando as engrenagrens do consumo desenfreado. Hoje isso se chama marketing, mas já se chamou reclame, anúncio, propaganda, publicidade. Rubem, fotógrafo mau caráter passando por uma crise de falta de sorte, percebe que seus dias de miséria chegaram ao fim. Não é a toda hora que se depara com uma Giselle pronta para a fama.

Convencendo a jovem a nomeá-lo seu agente exclusivo, Rubem vendeu o belo rosto não apenas para uma, mas duas empresas de cosméticos, obviamente rivais. Recebeu sua comissão adiantada e sumiu no mundo, deixando a bela com os nervos à flor da pele. A disputa foi parar nos tribunais, que como se sabe, são como o labirinto de Creta – depois que ali entram não saem mais. Após gastar horrores com propinas e advogados, a empresa mais esperta finalmente derrotou a rival, tirando-a sumariamente do mercado. Ou seja, queimando-a completamente.

Mas já era tarde demais para Elena – a eterna juventude existe, mas só para quem pode comprar bons cosméticos. Para compensar o prejuízo, a empresa vencedora lançou uma nova linha de creme rejuvenescedor, Helena de Troia, que está vendendo horrores. Enquanto isso, guerras piores nos afligem, como a invasão dos mosquitos. Procuro desesperadamente a vacina contra febre amarela nas farmácias, postos de saúde e clínicas médicas que nem Hermógenes – outro filósofo grego? – procurava um homem honesto: de lanterna na mão. As pessoas consultadas se espantam, “Febre amarela, o que é isso?” Pois é, em pleno século da tecnologia, tem muita gente que trabalha nas áreas de saúde e nunca ouviu falar em febre amarela. Se até Monteiro Lobato conhecia.

Alô, telefonista?

Alô, telefonista?

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Acordo com o suave piiiim do Whats’app familiar, e ao invés das habituais informações sobre as banalidades do dia, deparo com uma estranha mensagem: ‘Estejam todos informados que o telefone fixo de minha residência foi definitivamente desativado – a linha cancelada e o aparelho doado ao GoodWill, onde espero que outros dele façam bom uso. Desculpem o transtorno mas garanto que nenhum animal foi sacrificado no processo’.

Enquanto os demais recipientes dessa alarmante mensagem simplesmente apagaram o referido número de seus celulares, sem sequer derramar uma lágrima, essa que rabisca essas linhas ficou, e ainda está, em estado de choque, por razões fáceis de entender. O telefone ora inexistente estava em nossas agendas há 17 anos, colaborando ativamente na comunicação familiar. Atado a outros números constantemente usados, era quase um membro da família, extrapolando sua missão comunicante.

Quando enguiçava era um deus-nos-acuda; quando não atendido era uma ofensa. Muitas vezes um tira-teima, Mas te liguei mil vezes, diz um; Chequei a memória e não tem nehuma mensagem… diz o outro. Ou o contrário, Liguei, Não ligou… Checa seu telefone, tem 8 chamadas minhas não atendidas. E um frio aparelho eletrônico tem o poder de prova em juizo. Tinha, porque está morrendo, como o fogão a lenha e o aparelho de barbear com lâminas descartáveis gilete.

Com essa deserção fico sendo a última da família a manter um telefone fixo, hoje considerado obsoleto e acusado de ocupar muito espaço. Todos da minha descendência já aderiram ao celular como forma de interagir com o mundo, auxiliados pela parafernália de emails, mensagens de texto, redes sociais. Faço uma rápida pesquisa entre amigos e habituais suspeitos, e todos se espantam com meu espanto, “Qual o problema com seu celular?” Mudou o mundo ou não mudei eu?

O telefone fixo que hoje ocupa 15 cm da minha estante nada tem a ver com os telefones que ocuparam espaços bem maiores nos muitos locais onde me acomodei nesses anos que vou desfrutando, repletos de outros espantos. No Alegre da minha infância não havia telefone – para comunicações urgentes ia-se à estação ferroviária, cujo aparelho se comunicava com as estações
de trem mais próximas.

No outro lado da linha, o agente mandava um moleque de recados levar a mensagem e trazer a resposta. Ou a passava para a próxima estação. Pelo menos esse serviço era gratuito. Fora isso, as comunicações importantes eram feitas por telegramas cobrados por palavra, eficientes mas caros. Quando o mensageiro chegava com a entrega, havia sempre uma expectativa –boa ou má notícia? Por telegrama fui informada que meu romance, O longo amanhecer azul, ganhou o 1o. Prêmio São Paulo de Literatura.

De surpresa em surpresa os telefones foram invadindo nossas vidas, e nos tornamos cada vez mais dependentes desse truque de Mandrake. Por que ir pessoalmente se posso usar o telefone? Mas quando Alexander Grahan Bell foi ao banco pedir financiamento para seu ‘mecanismo para transmitir voz e outros sons telegraficamente’, o motivo da recusa foi, “Por que usar um aparelho se posso falar pessoalmente? Frase essa listada entre os grandes erros da história.

A sombra

Enquanto uns sonham com um lugar ao sol, outros querem apenas sombra e água fresca. Os que estão sempre tentando ficar em baixo de uma árvore são vistos como preguiçosos, mas nada mais injusto, considerando-se as ameaças de câncer de pele e envelhecimento precoce. Assim pensa Jandira, mais conhecida nas redes sociais como Jajá, não apenas para abreviar o nome, mas porque tudo que lhe pedem responde, Mas já? Jamais diz É pra já.

No trabalho ou no lar, Jajá está sempre protelando. Diz um ditado, quando quiser alguma coisa feita, peça a quem está mais ocupado. Portanto, ninguém pede nada a Jandira, que de tanto não fazer nada, ganhou outro apelido: a sombra. Em havendo sol há sombra, fiel seguidora de sua forma real e onde você vai sua sombra vai atrás. Também pode ir na frente, mudar de lado, de posição e até de formato, mas sempre grudada em você. No entanto, alguém já viu a sombra fazer alguma coisa, simples que seja, como te avisar que tem um buraco na calçada?

Posta no cargo de agente fiscal graças a bons relacionamentos – leia-se um bem votado tio deputado, Jajá não veio ao mundo para multar ninguém. Questão de princípios, uma vez que tem bom coração e decidiu, se os políticos roubam e nada fazem, por que prejudicar quem rouba mas está servindo à sociedade, seja no comércio ou na indústria? Como vou comprar meu perfume francês se o comerciante pagar todos os impostos exigidos para importá-lo?

Mesmo porque, tendo a chance, todo mundo sonega. O acusado de suborno sonega informação, a dona de casa que compra na barraquinha da economia informal é conivente no mesmo crime. Quem vai fazer compras em Miami porque está mais barato do que na loja do shopping também sonega. Todos compram mais do que a cota permitida e declaram um preço menor pago pelo celular. Pra onde vai o dinheiro do imposto? pergunta Jandira, quando a acusam de incompetente.

Jajá também comete crimes de lesa pátria nas frequentes viagens a Orlando. Só em vinhos da Califórnia gasta mais de 500 dólares. Fora os perfumes, que ninguém checa uns vidrinhos tão pequeninos… E passa tranquila pela alfândega, arrastando o excesso de bagagem pelo qual também nada pagou – o tio deputado tem regalias que ela utiliza em benefício próprio. Se ele pode, por que eu não posso?

Jajá se considera honesta, pois não multa mas também não aceita subornos. E jamais sofreu da chamada dor de consciência por defender seu lugar à sombra. Se usando sua influência política para colocá-la no cargo o tio prejudicou alguém mais habilitado mas sem pistolão, a culpa é do sistema. Se não fosse eu, algum outro afilhado pegaria meu cargo. E como iria aos States com o mísero salário de professora que ganhava antes? Não compraria os vinhos que o marido tanto aprecia.

Jandira vai e volta acompanhada por sua sombra, fiel escudeira; nada faz mas também não atrapalha. De sombra vem sombria/sombrio, que indica um lugar ou situação onde o sol não brilha. Mas também define lucubrações, sonegações, maracutaias, e desvios outros. A diretora adverte Jajá que ela está seis dias atrasada com o relatório mensal. Mas já? Cheguei de viagem e trouxe um Chandon pra você… A diretora aceita o suborno, porque se punir o tio mexe os pauzinhos e tudo fica na mesma.

Vitamina C e ingratidão

Vitamina C e ingratidão

Apesar de todos os avanços da tecnologia, a gripe continua desafiando a decantada sabedoria humana. Pisamos na lua, já descobriram até as causas do mal de Alzeihmer, quase tudo no corpo humano pode ser trocado por outro órgão em melhores condições, mas a gripe continua desmoralizando a ciência, inabalável e teimosa. A prateleiras das farmácias estão cheias de ofertas tentadoras, que aliviam mas não evitam, e todas as vacinas já inventadas previnem a doença, menos a da gripe.

Vitamina C e cama, diz o povo, e os antigos diziam que canja de galinha era um santo remédio. No tempo da famigerada gripe espanhola, que nem espanhola era, os médicos apelaram para o caldo de galinha, por falta do que receitar. Em pouco tempo já não havia galinácio disponível, até galo virava sopa. Hoje a medicina moderna confirma a sabedoria popular: sopa de galinha é, de fato, um santo remédio para encurtar e amenizar os efeitos da gripe. E mais zinco e probióticos, mas só no começo.

Se gripe é ruim em todos os dias do ano, imagina no dia do casamento do filho único, quer dizer, nunca mais outra chance de brilhar na passarela. Foi o que aconteceu com Gladys, e embora todos acorressem com fórmulas mágicas infalíveis, nada conseguiu desligar o chafariz do nariz e interromper a tosse constante, que seriam agravados pelo excesso de flores no altar. A sugestão de remover as flores quase acabou com o noivado pouco antes de virar vida-a-dois.

De jeito nenhum, onde já se viu casamento sem flores? grita a noiva. Onde já se viu casamento sem a mãe do noivo? Vamos ter que adiar, ameaça o noivo. Tô indo pra igreja, quem quiser que me siga, ela determina. E todos a seguiram, a mãe sob uma dose cavalar de alguma poção que a deixou meio grogue, levando o filho para o altar sem tossir e assoar o nariz. Melhor dizendo, sendo arrastada. Gladys esperou o padre declarar diante de 200 testemunhas que o filho estava definitivamente casado, e desmaiou.

O filho a levou para o hospital e a festa se realizou num clube elegante, afinal já estava tudo pago e sem direito a reembolso. Sem o noivo, mas a noiva se divertiu bastante. Por pouco, esse seria o primeiro casamento desfeito por causa de uma gripe. O filho quis cancelar a lua de mel, Não posso deixar minha mãe no hospital com pneumonia, sou filho único. Outra vez a noiva fica irredutível, O hotel tá pago e sem direito a cancelamento, portanto, vou sozinha. Foi, e se divertiu bastante.

Assim como a gripe tem resistido aos avanços da medicina, o amor também tem resistido a muitos desafios. O casamento do filho da Gladys vai indo bem, e embora ela tenha pago a lua de mel do casal, não guardou rancores. Talvez no futuro criem uma vacina que erradique a gripe definitivamente, ou que elimine a ingratidão no coração humano. Difícil decidir qual das duas é pior. Gladys nunca reclamou da nora, mas comenta lá com seus bordados, Se fosse a mãe dela, meu filho teria ido sozinho pra lua de mel?

Nossa Terra, nossa gente

Nossa Terra, nossa gente

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Dia 22 de abril é ou foi o dia da Terra, portanto semeio boas notícias, a ver se servem de exemplo e produzem bons frutos. Somente em janeiro desse ano 3.2 milhões de americanos deram adeus aos patrão e deixaram o emprego. Um sinal de que a economia está melhorando; se tem tanta gente pedindo demissão é porque foram trabalhar por conta própria ou arranjaram empregos melhores. Há outros bons motivos, claro, como ganhar na loteria ou arranjar um bom casamento, mas menos prováveis.

Parece que tem vaga sobrando para quem está bem preparado. O site Qz.com informa que existem atualmente 530 mil empregos disponíveis na área de informática no país, mas apenas 60 mil estudantes se formam em Ciência da Computação a cada ano. Um estudo do governo prevê que em 2020 haverá 1.4 milhões de vagas na área, enquanto a oferta de mão de obra será de 400 mil apenas. Os indianos estão preparando os passaportes.

FoxNews informa que o censo americano em 1950 listou 270 empregos que estariam extintos nos próximos anos. Errou: 32 empregos sumiram por falta de procura, e o único definitivamente extinto é o de ascensorista de elevador, embora o número de elevadores tenha aumentando consideravelmente. No Brasil essa ocupação continua escalando, mas por que manter uma pessoa sentada o dia inteiro num veículo que anda sozinho e todo passageiro sabe apertar o botão?

lembrando que todos os dias são dias de cuidar da casa, o globo que nos abriga, alimenta e protege. Portanto, continue dando sua ajuda. Uma boa dica do Google: reduza, reuse, recicle, exatamente nessa ordem. Reciclar gasta muita energia, portanto a melhor opção é reduzir o consumo e reusar o que for possível. Cuidar bem do planeta vai nos deixar tão felizes quanto os noruegueses? De acordo com Word Happiness Report de 2017, a Noruega é o país mais feliz do mundo. Por que não temos um planeta onde todos os países sejam igualmente felizes?

Um engenheiro da Apple criou um jeito diferente de ajudar os mendigos de sua cidade: montou uma lavanderia ambulante com máquinas de lavar e secar em uma camionete, e passa os fins de tarde e de semana rodando pela cidade, lavando e secando a roupa dos mendigos, no que ele chama de Loads of Love. Haja amor pra dar. Segundo ele, ‘A roupa limpa restitui a dignidade das pessoas’.

Pedro Viloria, que trabalha em um McDonald de Miami, teve seu dia de glória quando uma mulher desmaiou na fila do drive-thru com duas crianças no carro. O carro andou sozinho e Pedro pulou a janela do restaurante e correu atrás. Felizmente o carro parou numa curva antes que um acidente grave acontecesse. Viloria e outro funcionário socorreram a mulher, administrando-lhe CPR. Ele disse, “Se tivesse que morrer para salvar essa mulher, eu morreria.”

Numa sociedade assolada por corrupção e preconceitos, esses gestos simples nos mostram que ainda há esperança de uma vida melhor. Bom saber que um menino de 8 anos devolve o dinheiro que encontrou, que um modesto atendente de fast-food arrisca a vida para salvar outras, que um engenheiro gasta tempo e dinheiro ajudando o próximo. No dia da Terra, parabéns pra você que está fazendo o mundo melhor.

Promoção imperdível

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Promoção imperdível

Professsora de português em Miami, Dalvinha vai garantindo o hamburguer de todo dia dando aula pra gringo, ainda mais que estão numa promoção imperdível, por $5.00, pague um e leve dois. O hamburguer, não os alunos. Procurando a gente acha – tem sempre alguma coisa com algum desconto: um é 10,00 – leve dois por 14.00. Mas quem resiste à campanha pró-excessos e leva apenas um, vai pagar o mesmo 7,00 no caixa. Sem faltar o free-refill dos sucos e refrigerantes, com três tamanhos a escolher, e mesmo podendo repôr à vontade, há quem pague pelo copo maior.

Dalvinha se inspira nas promoções imperdíveis e cria uma própria: “Aulas de Português, uma semana 200,00; duas 150.00. Cafezinho brasileiro e pão de queijo”. O fluxo de estudantes dobrou, e nenhum aluno reparou que o preço anterior já era 150,00 e que o cafezinho não é brasileiro, mas colombiano, vendido em todos os supermercados. Pelo menos o pão de queijo é brasileiríssimo, mas também está sendo vendido em qualquer supermercado. Congelado, mas que outra opção têm os expatriados?

O Walmart tem uma ideia melhor: traga a revista, jornal, panfleto, flier, foto, com qualquer promoção de qualquer concorrente, e vendemos pelo mesmo preço. O que eles sabem: pouca gente se dá ao trabalho de recortar, pôr na bolsa e mostrar. O junk mail que vem pelo correio também está cheio de cupons com descontos, Save 1,00 na compra da pasta de dente, 0,50 no litro de suco de cramberry, 0,25 no pacote de pão integral… Tem cupons com descontos altos, mas claro, o produto deve custar cem pra ganhar desconto de dez. Mesmo o de graça sai caro.

Na leva de novos alunos chega o Jason, que não tem intenção de ir ao Brasil ou trabalhar em alguma empresa que exija o conhecimento da língua. Poucas, mas que existem, existem. Jason apenas não consegue resistir a uma promoção, mesmo se não precisa do produto. Imagine-se o excesso nos armários. Mas no melhor exemplo de pague um leve dois, Jason pagou a aula e levou o coração até então desapropriado da garota. “Sabia que tem descontos pela ocupação de áreas improdutivas?” ele pergunta, no capítulo Cultivos. Dalvinha demora a entender que ele se refere ao estéril coração da professora.

Entre olhares e sorrisos, elogios e discretos toques de mão, e outra rodada de pão de queijo e cafezinho, a escrivaninha de Dalvinha está sempre adornada com buquês de rosas que ele compra na esquina, “Quer levar dois, moço? Faço um desconto.” Dalvinha nota que algumas vezes as rosas fizeram estágio na geladeira, mas o amor é cego, a não ser que alguma ótica ofereça descontos na compra de bifocais. Até que, no capítulo da Conversa no Restaurante, ele a convida para saírem no sábado, um cinema e um jantar, “Para treinar conversação…”

Vão a um restaurante fino no point da moda, o que não deve surpreender. O rapaz não é sovina, ou um extremado pão-duro. Com bom emprego, boa educação, boa renda, ele apenas não resiste aos descontos e promoções que nos tentam por toda parte. Quando o garçon traz a carta de vinhos ele pergunta, “Degustamos um vinho?” Dalvinha diz que não bebe. Não por motivos religiosos ou morais, apenas não gosta. O rapaz se escandaliza, “Como assim? Nunca encontrei uma pessoa que não apreciasse um bom vinho.”

“Tudo tem sua primeira vez”, ela ri, sem entender a gravidade da situação. O rapaz examina com calma a lista de preços, e lá no finalzinho encontra a tentação, ‘Vinho da casa, pague um copo, beba dois’. E cria-se o impasse. Nada menos romântico que tomar vinho sozinho num jantar a dois, mas a oferta é imperdível. O garçom esperando. Dalvinha pede uma coca-cola, preço cheio, sem promoção e sem refil. Menos romântico impossível. Jason suando frio, olhos fixos na carta de vinho, entre o amor e a mania.

Olha pra garota, olha pro garçon, reexamina a lista.”E então senhor? Já escolheu? Temos uma promoção imperdível com o vinho da casa. Da melhor qualidade”. Dalvinha entende o dilema, “Olha, cancela a coca. Vamos experimentar o vinho, Jason?” O amor vence o primeiro round, no primeiro encontro, mas Dalvinha pensa lá com suas pulseiras, “Na próxima quem tem que ceder é ele”. E no final da noite teve que admitir, o vinho era mesmo bom.

Entre sustos e suspresas

Entre sustos e suspresas

Causou espanto a notícia de que a próxima espécie em extinção no linguajar escrito é a exclamação. Coitada, tão empenadinha. Essa não, exclamam os puristas, enquanto os que com nada mais se espantam resmungam, Finalmente. Segundo o famoso tio que virou dicionário, “(!) um sinal de pontuação que se utiliza para assinalar uma interjeição, ou uma frase exclamativa, notadamente na expressão de sentimento ou emoção, admiração, surpresa, susto.

A língua falada, como sabemos por uso próprio, foi criada pelo povo e para o povo, que a mantém viva e mutante. Já a linguagem escrita foi elaborada em tubos de ensaio por monges eruditos fazendo penitência nos claustros, entendiados de ouvir sempre os mesmos pecados nas confissões – Êta povo sem imaginação. Tinham tempo de sobra e foram elaborando acentos, regras, um ponto, três pontos, com o fim específico de castigar os pecadores. Já o ponto-e-vírgula, o defunto trema e a crase foram inventados como diversão. Para eles, claro.

Mal falando e piormente escrevendo chegamos à era tecnológica, onde digitar é preciso e quanto mais rápido melhor. Portanto eliminando o incoveniente e o supérfluo. No banco dos réus está o famigerado ponto-de-exclamação, em vias de ser levado à forca, mesmo já vivendo de cabeça pra baixo. A defesa alega que fica bonitinho no final da frase, e quando o texto é fraco, acrescenta emoção. A acusação alega que seu uso é desnecessário – se alguém grita Ai meu Deus, sabe-se que está exclamando e não rezando.

Em efeito cascata, o ponto-de-interrogação está perdendo o sono, que nem figurão no Brasil – “Serei o próximo? Delaterei o ponto e vírgula”. Pois se digo, Quem é voce, desnecessário incluir o ponto contorcionista, a indagada pessoa sabe que faço uma pergunta. Tá sabendo que o ponto de exclamação será eliminado do vernáculo. Não. Impossível. Como vamos exclamar ou reclamar daqui pra frente. A acusação diz que por excesso de pontos e acentos muita gente abandona a escola e ingressa no sistema penintenciário. Ou larga bons livros no primeiro capítulo.

No caso das vírgulas, a acusação alega que cansam a leitura, mesmo sendo pausas para respirar. Mas quem lê alto hoje em dia? A defesa alega que, mesmo se algumas podem ser eliminadas sem prejuízo do texto, ou sem impedir que se advinhe quem é o assassino, casos há em que sem ela recebemos a notícia errada, a informação truncada ou o diagnóstico trocado. Morreu não, está vivo; Morreu, não está vivo. As mesmas palavras, escritas na mesma ordem, mas uma simples vírgula vai impedir que enterrem quem ainda não virou defunto.

Alegando clareza no texto e elegância de estilo, vamos distribuindo remanescentes dos hieroglifos aqui e ali, rezando para que se encaixem no espaço que lhes foi destinado, pelo menos a maioria deles. A premissa é, se você não sabe, quem vai ler sabe menos ainda, portanto, confie no seu instinto. Algumas vezes, porém, o bolo queima no forno. Na coluna Carta Enigmática (10 de março), parece que ninguém entendeu que estava me referindo ao filme Casablanca: Ilsa, Rick, Victor… Um bar, a estação de trem em Paris… Acho que faltou ponto de exclamação.

Sob o céu de Miami

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(Foto: Michel Sily, sem Photoshop)

Quando Fidel Castro tomou o governo de Cuba deu início à migração cubana para os Estados Unidos, mais precisamente, Miami aqui vou eu. Opção óbvia, pela proximidade geográfica e pelo clima. Entre os primeiros a chegar estava Juan Morales, com esposa e filha. Juan alugou um pequeno quarto e sala, comprou uns móveis usados, pôs a menina na escola pública e foi lavar pratos num restaurante, esperando o dia da volta – que nem nordestino em São Paulo, sempre sonhando em voltar pro Norte. Juan não estava sozinho; as primeiras levas de imigrantes cubanos tinham a mesma mentalidade – se adaptar como possível a uma vida temporária.

Um antigo costume americano, nas vésperas do Dia de Ação de Graças os patrões presenteiam os empregados com o peru para a tradicional ceia do Thanksgiving. Juan adorou, mas o presente lhe trouxe um problema – não havia na casa uma travessa suficientemente grande para servir o peru. Não ficaria bem esquartejá-lo, uma vez que o irmão viria de Nova York com a família para os feriados. Portanto, Juan Morales foi às compras, e encontrou uma travessa compatível com o tamanho do galináceo de honra de seu jantar. Tudo correu melhor que o esperado, mas terminados os festejos, Juan depara com outro problema – onde guardar a grandiosa travessa no exíguo apartamento?

Tal como o Sr. Morales da nossa história, todos os cubanos na América esperavam a situação em Cuba se normalizar para fazerem a viagem de volta, se não queriam deixar nada para trás. Mas a história escreveu diferente, e a vida do Juan foi mudando – arranjou um emprego melhor, a esposa começou também a trabalhar, a filha estava se adaptando bem na escola, e o armário da cozinha não tinha espaço para a imensa travessa que deveria sustentar o peru do próximo ano. Juan Morales ficou uma noite sem dormir, e no dia seguinte tomou uma decisão que mudou sua vida – tirou do banco as economias acumuladas para recomeçar a vida na pátria amada e comprou um terreno. Com a ajuda de amigos conterrâneos contruiu uma casa com três quartos e uma cozinha grande o suficiente para abrigar um bom armário, onde guardou a travessa do peru e mais um belo jogo de mesa completo – 130 peças, doze de cada tipo – que comprou por 12 dólares numa liquidação.

No segundo Thanksgiving que a família passou na Flórida, a casa estava pronta, com dois andares, murada e com piscina. Tal como o Sr. Morales, os outros cubanos foram entendendo que mesmo se a situação política e econômica na ilha mudasse, lá nunca teriam a vida que tinham aqui. As razões de cada um variaram – uma simples travessa que precisa de um armário maior, um filho que nasce, uma filha que se casa com um gringo, um negócio que começou do nada e de repente vai de vento em popa – aos poucos os cubanos aceitaram que nunca fariam a viagem de volta. Portanto, bateram estacas e criaram raízes, e nesse processo dominaram e mudaram o sul do país.

O próximo jogo de pratos comprado tinha 90 peças – 8 de cada – que para Juan simbolizava sua adaptação a uma vida imposta. Um furacão destruiu a casa e outra maior foi erguida, a cozinha também crescendo para mostrar o sucesso dos Morales, agora com a filha já trabalhando. Mas o jogo de pratos comprado desta vez tinha 50 peças – 4 de cada – indicando também como as famílias estavam encolhendo. A primeira travessa comprada pelo Morales, no entanto, continuou ocupando o lugar de honra do armário, e Juan agora repetia para os netos, “Nunca se esqueçam que tudo começou com essa travessa”. Que hoje está pendurada, ou melhor, entronizada, na parede da sala da filha, que tal como seus pais, nunca mais voltou a Cuba.

Carta enigmática

A carta enigmática
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Quando foi retirar contas e junkmails da caixa do correio, Ilsa leva o primeiro susto – uma carta! A não ser cobrança, ninguém mais recebe cartas hoje em dia; amigos e conhecidos se comunicam de forma mais civilizada, por emails, mensagens de texto, Facebook, Messenger, WhatsApp, Instagram, as chamadas sete maravilhas da idade tecnológica. No entanto, não mais que de repente, uma carta se mistura ao excesso de propaganda enganosa na caixa que o agente dos correios insiste em superlotar diariamente. Essa gente não descansa?

Mas aí, no meio do caminho aparece uma carta. O nome e endereço estão corretos, não deixando dúvidas sobre quem é a destinatária. Mas não há indicação de remetente, falha que os correios deveriam proibir, evitando muitos transtornos. Podemos abrir uma conta bancária, mesmo apenas para depositar ou receber o mínimo, sem Identidade e CPF? Entramos no avião para Miami sem passaporte? O voto é obrigatório, mas votamos sem tirar o título de eleitor?

Resta apenas uma pista: o selo. Ilsa examina minuciosamente esse pedaço de papel impresso, que embora minúsculo tem dons milagrosos – sem ele a carta não viaja. Alguns deles hoje descansam em redomas de vidro dos museus, mas esse que permitiu a essa estranha carta chegar às mãos da destinatária é dos mais insignificantes. Ou seja, foi reduzido a um simples carimbo, onde consta apenas a cidade e o estado. Para encurtar o suspense, Ilsa rasga nervosamente o envelope…

“Querida Ilsa, o trem chegou na gare e você não estava lá, como combinamos. Dá pra entender? Você não mandou explicações, e sua frívola atitude trará sérias consequências para todos. Além de viajar sozinho, perdi também o valor da sua passagem, que não foi barata nem fácil de obter, como você bem sabe. Eu que sempre fui um sujeito bom-caráter e responsável, diria até patriota, com sua ausência me transformei num Hulk social, ou seja, um indivíduo moralmente feio, cínico, indiferente aos eventos que andam rolando por aí. Você sabe quais são.

Ou seja, me transformei num canalha. Talvez um dia nos encontremos, só o destino decide. Talvez você se case com outro mais digno de sua dedicação, ou até já fosse casada e não me contou (PS: Ouvi uns rumores sobre um certo Victor, mas não acreditei, ingênuo que fui). Talvez eu compre um bar com o dinheiro que economizei para investir no nosso casamento. De qualquer forma, e apesar do chute, pelo menos em sonhos continuarei de olho em você, garota! Eternamente seu, Ricardo (Rick para os íntimos).

Ilsa lê e relê a carta, sem entender patavina, se é que tal palavra já não está extinta e enterrada com os alfarrápios ilustrados. Sou Ilsa, isso é certo, mas quem é Ricardo, ou Rick, esse bom sujeito que mudou de personalidade só porque peguei o trem errado, sem saber que alguém, o remetente dessa estranha carta – tinha as melhores intenções de se casar comigo… ou de comprar um bar, não entendi bem essa parte. Em qual local e quais bebidas pretende vender, não poderia ser mais específico?

A carta vai pro lixo, junto com o manancial de papel impresso que Ilsa rcebe e não lê, mas perde muita coisa por esse desinteressse. Como o fato do Uber estar entregando refeições do McDonald na sua porta, por uma taxa módica, ou que um novo bar foi inaugurado perto de sua casa. O dono, um certo Rick, sujeito frio e cínico, vende uísque fabricado com cereais não orgânicos, indiferente aos danos que essas plantações causam ao meio ambiente.