Quem quer dinheiro?

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Não sei a razão ou o motivo, mas hoje resolvi escrever sobre dinheiro. O alheio, claro, que o meu não daria para escrever duas linhas. Mas não sei por qual razão ou motivo, com a matéria já escrita e revisada, decidi não dissecar as banalidades do vil metal. Vil, no caso, é uma clssificação injusta, uma vez que o dinheiro propriamente dito nunca fez mal a ninguém. Seria o mesmo que ofender a bala, que não mata por vontade própria.

 

Não sei porque temos essa atração pela vida e obra, mais precisamente pelos detalhes pessoais ou escabrosos dos ricos e famosos. Vejo no jornal duas notícias estampadas lado a lado na primeira página : 1 – Bill Gates tropeça no meio fio e cai quando visita o Rockefeller Center; 2 –  Funcionária do Walmart escorrega numa casca de banana e cai dos 102 andares do Empire State Building. Qual das duas notícias você vai ler primeiro?

 

Mesmo reconhecendo que a segunda notícia é mais instigante – Caiu como, tinha seguro, morreu, sobreviveu? Escorregou ou alguém empurrou? – vamos dar uma olhadinha primeiro na primeira notícia, porque o Walmart tem mais de um milhão de funcionários, enquanto os bilionários do mundo são apenas 1.500. A maioria deles, ou seja, 563 , são americanos, mas o grupo da Ásia ameaça superá-los em apenas quatro anos. Vamos aguardar.

 

Se as pessoas que mais nos interessam são as mais ricas, então tem mais gente interessante nas notícias citadas acima, e o mais rico não é o Bill. John D. Rockefeller, que construiu o Rockefeller Center, sobe ao pódio como o americano mais rico de todos os tempos. Outro bilionário participando nessa história, embora indiretamente, é o dono do Walmart, Sam Walton. Mas não se apresse em concluir que o americano mais rico de todos os tempos é também o homem mais rico do mundo.

 

Deu na Forbes: Mansa Musa I, de Mali, um rei africano do Século XIV, é o homem mais rico de todos os tempos. Com o ajuste da moeda para os valores de hoje, o africano acumulou 400 bilhões. O segundo lugar na lista ficou pobre. Mas sempre se fica com a pulga atrás da orelha, como se dizia no tempo dos mercados das pulgas, quando os mais ricos são cabeças coroadas, ou filhos/filhas deles. Questão de privilégios ou desvios, ou as duas coisas juntas. Somos especialistas no assunto.

 

Vamos dar uma olhada na queda do Walmart, ou melhor, da funcionária que deu azar em dobro: primeiro, por cair, segundo, cair na mesma hora do Gates. Pobre não tem vez mesmo. Joana Mirenes, porto-riquenha, três filhos pequenos, marido também funcionário do Walmart, quer dizer, também mal pago. Com sorte caiu sobre o toldo na entrada do prédio, tal como acontece nos filmes de ação, quebrou duas costelas e passa bem. O Sam lhe mandou uma cesta de frutas, sem bananas.

 

O que nos intriga nessa notícia não é o Bill Gates ir assistir ao acender das luzes da famosa árvore de natal do Rockefeller Center, bem no meio do povão, mas a Joana estar visitando o Empire State, com a entrada custando 36 dólares. A notícia não esclarece, mas se Joana levou os três filhos, imaginem quanto gastou para subir num elevador e ver a vista. Se não quiser enfrentar uma longa fila, paga dobrado.

 

Quanto ao agora famoso Mansa, não o julguemos por desvios de verbas apenas porque era rei. Segundo consta, o africano era bonzinho, tendo construído muitos centros educacionais e mesquitas em toda a África. Outra boazinha e também frequentadora das listas de bilionários da Forbes, a apresentadora Oprah Winfrey diz numa entrevista que a fortuna não mudou seu modo de ser, “Mantenho os pés no chão, mas o sapato é mais caro”.

Parece que foi ontem

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O tempo passa devagar, quase parando, e os dias se empurram uns aos outros sem pressa de virar passado. E de repente, numa esquina qualquer, deparamos com os primeiros sinais de que esse ano no qual vivemos perigosamente acaba ali no fim do mês. Perigo, aliás, está na ordem do dia – para todo lado que se olha depara-se com uma possibilidade de desastre, seja uma bala perdida ou um maluco bem armado, um novo escândalo no Brasil ou um novo trumpismo nos States… Equilíbrio precário.

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Chegamos em dezembro? Mas parece que ontem mesmo falamos tudo isso sobre 2016! Os adornos natalinos já brilham nas portas e janelas, aos poucos sendo superados pelos bonecos de plástico cada vez maiores e mais iluminados, cada vez mais cafonas, se é que tal expressão já não morreu também, extirpada do vernáculo por ser de péssimo gosto. Chegou o novo iPhone da Apple e a próxima princesa da família real britânica entra na história por entrar na linha de sucessão, mesmo se vier outro irmão depois dela.

 

Há cem anos era 1917, e o cinema ainda não tinha criado a festa do Oscar para incrementar as bilheterias. Nem precisava, porque a televisão ainda não havia invadido os lares e a distração era mesmo ir ao cinema. O sucesso de então era Charles Chaplin, e mesmo tendo passado 36.500 dias, ainda não inventaram um comediante melhor. Ler era a palavra de ordem  e o Prêmio Nobel de Literatura já existia. Em 1917, o vencedor foi Henrik Pontoppidan, da Dinamarca. Já leu alguma coisa dele?

 

Não sei se foi lembrado no Brasil como deveria, mas esse ano Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro completou cem aninhos, sendo ainda  cantado por gente famosa e admirado pela plebe. Pergunto, houve fogos de artifício e badalar de sinos para comemorar? Um especial de TV com artistas famosos cantando juntos e doando o apurado para a preservação e glória da música popular brasileira? Cem anos? Mas parece que foi ontem…

 

E porque andei meio distraída, passou despercebido pela colunista o primeiro aniversário deste blog. Um ano? Mas  ainda nem sei lidar direito com a coisa. Para comemorar vou ao shopping, ou melhor, ao mall mais próximo da residência, e na loja âncora da direita deparo com a vizinha que teve um bebê recentemente, e a menina já está noiva. Como assim? Parece que foi ontem! A mãe ri, Na casa dos outros as crianças  crescem depressa.

 


Na loja âncora da esquerda encontro a Leda abraçada com um desconhecido, pelo menos para mim. Ela apresenta o bonitão como o atual ficante, e levo um susto, Outro? Você acabou de casar com o Ledo! Ela ri, Que nada, amiga, isso foi em 2016, e em menos de seis meses vimos que não ia dar certo. Insisto, Mas parece que foi ontem! e desta vez ela não ri, Pra você, porque pra mim pareceu uma eternidade. Tal e qual, ontem mesmo comemoramos a chegada de 2017, e lá vem Papai Noel outra vez.

Versos misteriosos

 

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O verso apareceu na limpeza anual dos arquivos do irmão, em letras cursivas que, tal como as máquinas de datilografia, estão caindo em desuso: “Voltarei, tu me falaste; Respondi, Não esperarei. Mentiste, nunca voltaste, Menti, sempre esperei”. Foi preservado em um  amarelado caderno de poesias da irmã metida a escritora e chegou à era tecnológica. Compartilhado com o grupo familiar no WhatsApp, ganhou muitos elogios e foi repassado para amigos de outros grupos na usual reação em cadeia da Internete.

 

Lamentavelmente, porém, e embora o caderno e a elaborada letra sejam comprovadamente meus, o verso não é de minha autoria. A família recusou-se a acreditar, alegando que tendo provavelmente se passado um século desde que ali o registrei, devo ter esquecido. Buscando provas para me defender vou ao Google, mas não encontro qualquer referência ao adorável versinho que parece ter sido escrito numa previsão ao Twitter: uma história completa de amor e perda concentrada em apenas 13 palavras. Lindo!

 

Lá pelos meados do século passado, num tempo sem televisão, telefone, Internet e tudo mais que se seguiu, numa cidade muito alegre mas com parcas opções de leitura, era comum as jovens sonhadoras – e qual não era? –  manter os chamados ‘cadernos de poesias’, onde registravam não apenas suas modestas incursões literárias mas também tudo que achavam  em revistas e livros. Quando gostavam, claro. Usava-se também copiar os ‘achados’ umas das outras. No entanto, ninguém julgava necessário atar o nome do autor ou autora à obra escolhida.

 

O verso mais popular e presença obrigatória em quase todos os cadernos era uma ode ao pessimismo: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera.Somente a ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável!”  Demorei a descobrir que eram versos de Augusto dos Anjos, e sua inclusão nos cadernos de adolescentes sonhadoras era um mistério, visto que usualmente gostávamos apenas das obras românticos. Mesmo se trágicos.

 

Nos dias de hoje, porém, vivemos assolados por outros trágicos, tanto na literatura como nas demais expressões artísticas, principalmente o cinema. Nos sites como Netflix e HBO, 9 entre 10 chamadas dos filmes disponíveis mostram uma arma apontando para alguém. E se os joguinhos eletrônicos tão do agrado da nova geração são incentivos à violência, não sei porque se surpreendem quando mais um maluco deixa a toca e sai matando todo mundo.

Quanto ao belo verso da mentirosa no início da coluna, o mistério persiste, e continuo procurando quem foi o autor, embora possa também ser uma autora. Isso de esperar em vão por alguém que não vem parece mais feminino mesmo. Se você sabe quem escreveu ou quem não voltou, por favor me conta. A foto de hoje lembra a Black Friday, que em 2017 teve a maioria das vendas  online. A corrida às lojas depois do jantar de Thanksgiving está virando folclore?

Fuga do Paraíso

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Não pretendo fugir de meu status de imigrante com benefícios de cidadania, nem estou dizendo que a Flórida é o paraíso, embora algumas vezes até mereça. Estamos na era Trump, portanto, não é o caso. Em sã consciência, quem iria fugir de um lugar considerado paraíso? Um título às vezes pode ser enganoso, mas esse tem muito a ver com a Amazon/Kindle, que dispensa apresentações e sobe ao pódio por ter multiplicado o número de leitores no mundo todo. Principalmente a ala jovem, que aderiu incondicionalmente à facilidade e economia das opções online.

 

Portanto, com toda a pompa e circunstância necessárias para antecipar as grandes revelações, informo aos pacientes leitores que me acompanham nesses 17 anos de seculodiario, que já está disponível na  Amazon/Kindle meu romance Fuga do Paraíso, uma história de amor e guerra. Por que demorei tanto a aderir ao modismo? Porque embora leia muita coisa online, ainda sou viciada no livro impresso – sentir o peso e a textura, virar página por página… Até o cheiro influencia a história, se o livro não está velho e mofado.

 

A moderna tecnologia, porém, não pediu minha opinião se convinha mudar os hábitos de leitura do leitor moderno. O livro digital veio para ficar, e se não podemos derrotá-lo, melhor aderir. O nome Kindle significa acender o fogo, uma metáfora bem apropriada para os efeitos da leitura na mente e na alma. Somos seres mutantes e vamos nos adaptando às novidades que invadem nossa rotina com a velocidade da luz. A tecnologia está aí para nos servir, e se não trouxesse vantagens, sucumbiria. Os números da Amazon comprovam.

 

Portanto, prezado leitor e amiga leitora, se ainda não aderiram ao massacre virtual da Amazon/Kindle, que  pôs ao alcance de todos livros mais baratos e ecologicamente corretos, convido-os a começar com o romance Fuga do Paraíso, uma história de amor e guerra. E não é propaganda enganosa, em apenas 140 páginas você vai encontrar drama e humor, tensão física e psicológica, sacrifício e fraternidade… como o ser humano pode resistir e não perder a esperança, mesmo quando tudo sai errado.

 

Mas principalmente, como o amor, essa plantinha teimosa, pode vicejar nos terrenos mais áridos e nos momentos mais difíceis. Nenhuma árvore foi derrubada para pôr esse livro nas estantes virtuais. Você pode dar uma força divulgando meu romance nas suas redes sociais. Muito obrigada!

Voto em branco

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Numa pesquisa recente para saber quem o vulgo considera a classe mais mentirosa do mundo, o primeiro lugar foi para os políticos, seguidos de perto pelos advogados. Não sei porque os políticos levam a culpa de tudo, mas a pergunta deveria vir acompanhada de uma certa advertência: Quem dentre vós não mente, que jogue o primeiro voto. E já sabemos que não haveria voto nem pesquisa – na vida como na arte, quem não mente?

 

O diretor da revista Vida Saudável conquista um anúncio de página inteira, contrato de um ano, mostrando as qualidades do novo leite em pó Vaquinha Risonha, com o slogan, ‘O que é bom pode ser barato’. Não tendo sido informada do vantajoso contrato, Eduarda, repórter da revista, escreve um artigo provando que o referido leite, além de não ter as qualidades que anuncia, também dá dor de barriga. Qual o diretor vai descartar?

 

Mas não chore as dores da Eduarda, que demitindo-se do emprego adere à economia informal vendendo saudáveis bolos caseiros cuja receita está na família há várias gerações. Slogan: ‘Feito com carinho com os melhores ingredientes’. Vendem feito celulares, e Eduarda está faturando mais do que ganhava na Vida Saudável. Segredos bem guardados: a receita foi tirada da Internet, e na compra dos ingredientes, adivinha qual leite em pó ficou mais em conta?

 

Os meios justificam o fim ou o fim justifica os meios? Nas sextas-feiras, quando Eduarda vai suar na academia, o marido aproveita para fazer serão até tarde. Segredo mal guardado: ele vai se encontrar com a amante Bilu, que por sua vez jura que ele é o único, e o pressiona para deixar a Eduarda e ficar com ela. O que ambos não sabem é que a Eduarda sabe, mas pra quê fazer escândalo? Divórcios custam caro e a mulher sempre leva a pior.

 

O que os amantes não sabem é que a Bilu pressiona os dois a abandonar as traídas, e faz apostas com as amigas sobre qual vai jogar a toalha primeiro. Não tem preferência, os dois estão no mesmo piso salarial. A família da Eduarda tem outros segredos bem guardados: a mãe usa peruca; a filha diz ter um ótimo emprego mas vive às custas do ficante, outro bem casado; o filho compra artigos usados e em bom estado e vende como novos em um blog muito popular.

 

Alda, irmã da Eduarda, diz que o marido trabalha em casa, o que não deixa de ser verdade; dá trabalho mudar de posição na poltrona e o canal da televisão o dia inteiro. Tem um filho na faculdade, mas não diz qual nem onde. Cadê o  menino? No tempo em que as ruas eram calçadas com paralelepípedos, diriam que ele era contador da prefeitura – o dia todo pra lá e pra cá contando os paralelepípedos. Agora que as ruas estão asfaltadas, acusam o rapaz de estar metido com drogas.

 

Existem mentiras de todo tipo e calibre, e na calada da noite todos os gatos são pardos. Os pais mentem para os filhos que se não comerem verduras não vão crescer; os filhos mentem para os pais dizendo que terminaram o dever de casa. Maria mente para José que o feijão é de hoje; José mente para Maria que o aumento não saiu. Fazer o quê? Quem tem seu estoque de mentirinhas na manga que vote em branco.

Nós, fantoches

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Uma chuvinha incessante atrapalha a programação do fim de semana e nos deixa sem Internet. Isso no sábado, quando os netos passam o dia, às vezes também a noite, com pizza obrigatória. E para comprovar nossa total e absoluta dependência da alta tecnologia, ficamos num barco sem remo e sem rumo – sem televisão, telefones celulares e fixo, joguinhos eletrônicos, e-mails, Netflix, HBO; e tudo mais que se conecta nas ondas virtuais. A turminha parece formiga que perdeu o caminho do formigueiro, se é que isso pode acontecer.

 

Ofereço meus dons criativos para contar uma história – aos netos, não à formiga. Era uma vez um tempo em que eles adoravam, desde que fossem os protagonistas principais. Mas neste sábado com cachoeiras escorrendo pelos vidros das janelas, a resposta é Não obrigado. Então vamos ler um livro, Não obrigado, já lemos os livros do mês na escola. E aí fico pensando se o tiro não está saindo pela culatra, e ao invés de estimular o hábito da leitura, as escolas estão tornando-o uma obrigação. Portanto, Não obrigado. Mas o mundo já girava antes da explosão virtual e sempre há o que fazer sem estar conectado a algum fio.

 

Com os festejos do Halloween ainda recentes e o excesso de balas ainda entulhando potes e cestos, sugiro escreverem uma história de fantasmas em homenagem ao Dia de los Muertos dos mexicanos. Não foi assim que Mary Shelley bolou o Dr. Frankestein? Ficaram famosos, e nem existia o Kindle. Mesmo feio de cara e péssimo de caráter, desenvolvendo hábitos assustadores, no próximo ano nosso monstro favorito completa  200 aninhos.

 

Espalho sobre a mesa pincéis e tintas, lápis de todas as cores e crayons ídem, uma pilha de papel branco como sorvete de coco, e nada funciona além das frequentes visitas à geladeira. Até que finalmente faz-se a luz, ou melhor, a rede ressuscita. E se tudo está de algum modo conectado nas nuvens como fios invisíveis movendo fantoches, fico imaginando um futuro distópico, talvez não muito distante, em que tudo estará subordinado a essa nova força motriz que nos controla – Dona Internet.

 

Para dor de cabeça ou  mal de amor, para veias entupidas onde outrora o sangue fluía, para o Parkinson e a calvície, chegará o tempo em que a Internet que nos mantém catatônicos na frente de telinhas e telonas vai curar todos os males e resolver todos os problemas. O carro não precisa de gasolina, o fogão dispensa o gás, a comida não tem calorias. Dela virá a energia que faz motores, elevadores e computadores funcionarem, que clareia a escuridão e controla os sinais de trânsito. Hospitais sem médicos, tudo robotizado, da consulta à cirurgia.

 

Exagero? Uma pesquisa recente entre adolescentes apurou que 63% dos jovens consultados disse que não viveriam sem seus celulares; 30% disse que o mundo tornaria o caos; e a minoria restante disse que a vida perderia a graça. E falando em caos, um recente estudo apurou que a maioria dos jovens viciados em drogas vêm de famílias com bom poder aquisitivo e com as melhores notas nas faculdades. Também são os que continuam no vício depois dos 26 anos. O estudo foi feito nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Olha no mapa

 

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Uma amiga tenta me explicar os estragos que o furacão Ilma fez no jardim da sua casa, e como não deu para entender, sugiro que me mostre no Google Maps. Como assim? foi a pergunta espantada. Meu espanto foi ainda maior: como uma pessoa que trabalha em um ambiente cercado de tecnologia só usa os mapas virtuais para localizar um especifico endereço ou baixar instruções alternativas de chegar lá desviando-se dos engarrafamentos?

 

Pois já não há onde se esconder – nosso humble adobe está exposto a um ou dois toques no teclado,  para todo mundo ver. E não exagero, qualquer um, em qualquer lugar beneficiado com a parafernália tecnológica pode ver e localizar qualquer lugar no mapa mundi, como o consultório do médico antes de ir para a consulta, a casa do amigo que ficou rico,  o prédio onde mora o novo namorado da filha – pelo menos no instante em que as câmeras bisbilhoteiras passaram por lá. A renovação ocorre a cada dois anos.

 

Quando bate aquela saudade de um lugar que ficou na memória, a vontade de estar onde já estivemos, seja a casa da infância ou o sítio do tio, o mapa virtual praticamente nos põe lá. E quem não sofre um ataque de saudosismo de vez em quando? Bem, talvez não as pessoas normais, mas o imigrante é, por natureza, um ser dividido, querendo sempre estar em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo.

 

Indo muito além de simples curiosidade ou saudosismo, com muita sorte dá até para ver uma pessoa conhecida que por acaso estava na varanda ou na janela na hora que a van passou tirando a foto, e que talvez nem saiba que ficou lá, registrada e sacramentada como documento em cartório, parte integrante da história da cidade e daquele endereco, até que a foto seja atualizada. Mais uma vez não exagero, já soube de muitos casos.

 

Minha mãe falava sempre em um lugar onde morou na infância e não sabia se era Minas Gerais ou Espírito Santo, onde nunca mais voltou e nem sequer conheceu alguém que conhecesse, ou que estradas levavam e traziam de lá. Muitos anos depois, num dia de chuva e papo furado, lembra disso, lembra daquilo, os filhos reunidos em torno de uma canjiquinha com linguiça, alguém lembrou do fato e corremos para o mapa milagroso, Vamos ver se existe ou era um truque da memória.

 

E de repente aparece na tela de um moderno computador, como obra de feitiçaria ou milagre da tecnologia, uma cidadezinha mineira com jardim florido, coreto e chafariz. Bateu uma tristeza imaginar a felicidade que ela teria ao ver surgir diante de seus olhos o lugar que guardou no coração por toda a vida. Ou talvez não, porque com tanto tempo passado, obviamente a cidade que ficou registrada em sua memória seria muito diferente da cidade registrada pelo Google.

 

Para mostrar aos netos a escola onde estudei em Alegre, apelei para o Google. O Grupo Escolar Professor Lellis foi construído em 1931 no estilo neocolonial, com o frontispício em azulejos portugueses. E faz parte da nossa história: na Revolução de 30 que pôs Getúlio Vargas no poder, a cidade foi invadida pelo chefe da força revolucionária, Comandante Barata, que usou o prédio como quartel das tropas rebeldes. A rua onde o prédio se instala se chamava Comandante Barata quando lá morei, depois mudado para Rodrigues Alves e atualmente Dr. Olívio Pedrosa.

Algo de novo no ar

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Um voo entre a cidade do sol e a cidade dos ventos, ou seja, Miami-Chicago não é muito longo, mas sugiro levar um livro ou o kindle, pois nada acontece de interessante. A não ser que algo inusitado aconteça. Atenção Senhorita Anise Brooklin, por favor apresente-se na cabine de comando; tivemos um pequeno problema com sua bagagem. A garota chamada Anise, de 21 anos, se levanta da poltrona 57, quer dizer, no final da aeronave, e caminha apressada e preocupada até a cabine na entrada.

 

 

Em lá chegando é recebida pelas assistentes de bordo, outrora chamadas aeromoças. Acho que mudaram o nome porque, com a entrada dos homens no páreo, ficava chato falar aeromoços. Ditas assistentes, com seus melhores sorrisos, põem na cabeça da garota uma coroa feita com  legumes (alfaces, brócolis, espinafres), desfraldam a tradicional faixa Happy Birthday Anise, e cantam o infalível Parabéns pra você, acompanhadas entusiasticamente por passageiros  e passageiras.

 

 

Com certeza uma brincadeira de amigos, amor, família. O problema é que a aniversariante não recebeu bem a inusitada homenagem, e ficou lá na frente emburrada, sem sorrir e sem agradecer a gentileza do gesto. Devia ser tímida, acho.  Para piorar seu estado de ânimo, voltou para a poltrona sob aplausos e vivas dos outros passageiros. Parece que ninguém percebeu que a garota não gostou do mico, mesmo se lhe foi servida uma refeição especial.

 

Nessa época em que as empresas aéreas cada vez mais diminuem o que chamam de privilégios do usuário, esse evento foi uma exceção, provavelmente paga. Ou estão adicionando o Parabéns nas regalias de bordo? Na verdade não, porque uma senhora sentada nas primeiras filas se levantou, Eu também faço anos hoje. Perguntaram quantos e ela disse estar completando 88 anos, e todos cantaram outra vez a musiquinha. E a reação dela foi oposta: cantou junto, dançou e saiu pelo corredor recebendo cumprimentos.

 

 

Eu não estava no voo mas repasso o que me contaram, a fonte é fidedigna. A empresa em questão é a Southwest, que inova com serviços melhores e preços mais baratos. Consequentemente,  voos sempre lotados e + lucros. Não estão me pagando para fazer propaganda da empresa, na qual nunca voei, mas o Google informa que ela tem sido inspiração para outras linhas aéreas de pequeno porte, e seu modelo de negócios é copiado no mundo todo.

 

 

O melhor exemplo é não cobrar as alterações de voo, como as outras fazem. Outra novidade que atrai os viajantes é  o inovador sistema de embarque, como define o site da empresa: Temos um processo de embarque rápido, fácil e eficiente. Procure em seu cartão de embarque qual é seu grupo (A, B, C) e sua posição (1-60). Quando seu grupo for chamado, vá para a coluna que tem seu número e espere sua vez de entrar.   

 

 

Há muitos motivos para se viajar, e a maioria deles é ao mesmo tempo estimulante e relaxante. Não preciso listar as vantagens e benefícios de uma viagem, seja para Guarapari ou Guadalupe, Paris ou Parati, uma vez que todo mundo já viajou e sabe bem. Mas as empresas aéreas, as maiores beneficiadas com nossos deslocamentos, fazem tudo para complicar o trajeto. Eu não gostaria que a atendente anunciasse meu aniversário em um avião lotado, mas uma vez que a passagem está paga, por que não posso repassá-la para outra pessoa se não posso viajar?

 

P.S. Nenhum animal foi sacrificado para escrever e publicar essa coluna, a não ser o frango do almoço.

Halloween diet

fca4ce85-0b3b-4b59-b288-0ab3d781338a-1024x789Quando desconfiam que alguma mercadoria vai faltar, todos correm para armazenar para o futuro imediato. Basta um boato de um banco quebrar e todos correm para retirar seu dinheiro; quando avisam que o preço da gasolina ou do álcool vai subir, correm todos para encher o tanque, embora nem dê tanta diferença assim. E isso vale para tudo, como nas ameaças de furacão. Mesmo assim, causou espanto a notícia de que houve um grande aumento nas vendas de armas de fogo depois dos trágicos eventos em Las Vegas. Querem estocar antes que proibibam as vendas, a) para vendê-las depois com o preço triplicado; b) para usá-las num próximo ataque?

 

 

A mania americana de comprar armas combina bem com a principal atração de outubro – o Halloween, que é festa de horrores e pesadelos. O mês mal começou e os apressadinhos já nos divertem decorando as portas com caveiras e esqueletos, bruxas, fantasmas e tumbas com o tradicional R.I.P., que quer dizer descanse em paz. A televisão nos bombardeia com filmes apropriados para a data, ou seja, de terror.

 

 

Mas ao invés de assustar, o Halloween faz a alegria das crianças e dos fabricantes de balas, mesmo nesses tempos de excesso de peso, guerra ao açúcar e refrigerantes diet, que como dizem os entendidos, só os gordos tomam. Minha filha reclama da quantidade de balas que vai ter que comprar antes que os estoques se esgotem, e pergunto por que não dar algo mais saudável e diminuir a epidemia de obesidade que aflige a nação, Que tal lançar a moda do Halloween-diet?

 

 

Ela me olha como se eu tivesse acabado de desembarcar de um foguete espacial, Porque fica muito mais caro. Então é isso, balas em profusão porque com tantas crianças – e adultos – batendo na porta, as balas deixaram de ser uma tradição e se tornaram a opção mais barata. Agora imagina se o governo, preocupado com a saúde da população, proibisse a distribuição de balas no Halloween. Compraríamos nossos estoques com meses de antecedência ou cairíamos nas mãos dos contrabandistas de balas, que as venderiam a preços exorbitantes?

 

 

A recente correria para a compra de armas e munições é por temerem a proibição, que tal como aconteceu com a lei seca no passado, desencadearia a ação dos contrabandistas. Como a chamariam, lei da bala? Tudo porque, quando chacinas como essa acontecem – e com que frequência estão acontecendo – a pressão dos grupos pró-desarmamento ganha força. Mas dificilmente conseguiriam vencer com Mr. Trump no governo. Pró-violência.

 

 

Falando em balas não podemos esquecer da nossa especialidade, as balas perdidas, que como diziam no tempo em que um fio de barba valia como documento, quando vejo a barba do vizinho arder ponho a minha de molho. Justamente agora, quando as barbas voltaram à moda. Quem diria. Resta torcer para que retorne também a seriedade daqueles idos, quando a palavra empenhada era lei – Não fechou a transação ainda? Cancela e pago o dobro. Não posso, já empenhei minha palavra e sacramentei com um fio da barba.

 

 

Nem terminei a coluna lembrando à humanidade que o Halloween está no ar, abro a porta e vejo que a vizinha em frente já esparramou as luzinhas de natal no jardim. Aposto que é a primeira do país. E olha que nem retiramos ainda os protetores de furacão, e para sondar o que vai pela vizinhança tenho que abrir a porta: as janelas estão lacradas. O que é estranho – lá fora brilha o sol mas em casa reina a penunbra da noite.

 

 

E tudo parece combinar bem – Halloween e furacões ainda no ar, balas e balas em noites de terror. No entanto, a origem do Halloween era exatamente espalhar figuras de monstros e caveiras para afastar as bruxas. O que era amedrontador virou festa, e as festas estão virando pesadelos. Ao invés de evoluírmos estamos involuindo, e as bruxas, por mais que a gente reze, continuam soltas.

A mulher que engolia fogo

Antes de tudo existiam os circos, e nada a ver com a sofisticação do canadense Circo de Soleil. Eram os mambembes, sem pausa e sem pouso, rondando de um vilarejo a outro, e a data da partida era determinada pelo movimento da bilheteria. Ou quando algum participante se metia em encrenca, mor das vezes por um rabo de saia, como alardeava o palhaço. Por onde o circo passava vez em quando alguém ia junto, iludido pelo falso brilho das lantejoulas.

 

 

Zoira, recém-casada, foi das muitas que fugiram na calada da noite atraída pelos olhos negros de Althey, o atirador de facas. Por isso o marido não foi atrás. No mesmo lugarejo ficou Zilza, a mulher barbada, apaixonada pelo barbeiro. O mundo sob a lona não era exigente e sempre cabia mais um… ou duas, desde que soubesse fazer alguma coisa. Zoira fazia uma irresistível galinha ao molho pardo, mas galinhas eram escassas naqueles idos.

 

 

Sendo no entanto formosa e dona de um belo par de pernas, bastou-lhe um maiô prateado e um penacho emplumado para conquistar o distinto público. E porque era a professora do lugarejo deixado para trás, para sempre, criou o papel da paciente professorinha da roça, ensinando o be-a-bá e um-mais-um-dois no picadeiro ao aluno burrinho, ninguém menos que Authey vestido de Pinóquio.

 
A bela nem precisava inventar – repetia para a honrada assistência as mesmas aulas que dava para as crianças do Fundo do Poço, e o público ainda ajudava, repetindo com ela as lições que o aluno-Pinóquio-palhaço não conseguia aprender. Ainda hoje corre pelo interior desses brasís maltratados o boato de que foi assistindo a uma das aulas da Zoira que Chico Anísio criou sua famosa Escolinha do Professor Raimundo. Não posso provar, apenas repito o que ouvi por aí.

 
Nem duvide que existe um lugarejo chamado Fundo do Poço, lá pelo interior de Bumiranga. Nunca estive lá, mas hoje em dia não exijo provas de nada que me contam. Na minha infância ouvia muitas referências a  outro lugar mágico chamado Onde Judas perdeu as botas, muito lembrado quando se perguntava onde está ou onde fica, e o perguntado não queria ou não sabia dar a direção correta, ou queria  indicar que era muito longe. Onde mora aquela Excelência que recusou a propina? Lá Onde Judas perdeu as botas.

 
Ficava eu intrigada com esse local misterioso mas sempre citado… teria Judas andado pelo mundo e veio perder as botas no Brasil? Outra indicação que me encantava era a famosa e nunca bem definida cor-de-burro-quando-foge. Quem nunca a ouviu, pelo menos uma vez por semana? Qualquer coisa que sumia ou que não se conseguia explicar, era definida como tendo a famosa cor de burro quando foge. Minha avó dizia que burro tem mesmo uma cor dúbia, nem preto nem branco, nem marron nem castanho, nem cinzento nem aguento.

 

 

Os mistérios que plantam na alma infantil… Tenho certeza que muitas crianças brasileiras sofriam como eu o maior enígma da nossa história – como D.Pedro II podia ser filho do D. Pedro I, se nos livros escolares o pai era jovem e bonito e o filho era um velho barbudo? O primeiro Pedro tinha fama de mulherengo e o segundo de sizudo, o que talvez explique a barba, para não ser confundido com o  pai mulherengo. Mesmo assim, dizem que o de barba caiu de amores por Anarê, trigueira índia guarani, quando veio ele em visita ao Espírito Santo.

 

 
Fosse Anarê americana, teria  muitos filmes baseados em sua vida, e se vivesse nos dias de hoje estaria casada com um dos Ronaldos e seria madrinha de bateria. Cada terra com seu uso. Naquele tempo, porém,  a glória era ser artista de circo, e Anarê seguiu um circo mambembe, apaixonada pelo dono,futuro fundador da Império Serrano. Com ele aprendeu o ofício de engolidora de fogo, e dela o brasileiro herdou essa capacidade de engolir tudo calado.