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Rogério Medeiros

Alemães

Sofrimento e medo na viagem


Elegância e cultura: os alemães mantiveram seus costumes e cultivaram na colônia, com o mesmo ardor, seu amor pelas artes, a literatura e a música

A viagem dos primeiros colonos alemães a chegarem ao Espírito Santo foi uma odisséia de sofrimento e medo a bordo de um navio a vela que levou 70 dias entre Dunquerque, na França e o Rio de Janeiro, segundo a pesquisa de Joel Guilherme Velten, descendente de uma das 23 famílias de camponeses que haviam se candidatado a uma nova vida no Brasil, após a visita de um funcionário do governo imperial. As famílias viviam em Hunsruck, uma região pobre da Alemanha. Enquanto aguardavam um navio em Dunquerque, gastaram tudo o que tinham e, ao serem embarcados, o funcionário brasileiro forneceu-lhes alimento e água apenas o suficiente para a viagem. Quando o capitão do navio perguntou o que fazer caso a comida acabasse no meio da viagem, o outro limitou-se a responder: "Jogue todo mundo fora do navio".

O destino inicial deles era o Rio Grande do Sul. Ao chegar ao Rio de Janeiro, no entanto, permaneceram longo tempo num barracão, aguardando decisão. Como isso não acontecia, decidiram pedir audiência a D. Pedro II. Três imigrantes foram recebidos por ele que, depois de ouvir suas queixas, explicou que havia recomendado a permanência do grupo no Rio porque os agrimensores do governo não estavam dando conta de medir os lotes no Rio Grande do Sul, em face do grande afluxo de colonos. "Vocês terão que esperar até que eu tenha terra ou lugar disponível de trabalho", afirmou o imperador. Os imigrantes, porém, retrucaram que precisavam trabalhar imediatamente e o imperador, finalmente, concordou em retirá-los do Rio de Janeiro, lembrando que no Brasil havia uma região parecida com aquela de onde eles tinham vindo. Lá teriam terra de graça. Alguns dias depois, os colonos viajavam num navio avela com destino a Vitória.

Das 23 famílias, 13 eram luteranas e as outras, católicas. Estas foram incorporadas à colônia que já existia em Santa Isabel. Os luteranos foram levados para a região de Campinho, onde já havia sido construído um barracão, às margens do Rio Jucu, para abrigá-los. A terra que prestava para plantar foi medida em braças e depois dividida em 13 partes. Cada lote recebeu uma estaca com um número. Depois esses números foram colocados dentro de um chapéu, em papéis dobrados, e assim, por sorteio, cada um obteve sua propriedade.

Trabalhando em conjunto, em seis meses cada família já tinha sua casa pronta, ainda que fosse bastante rústica, com paredes de barro e teto de folhas de palmeiras. Os homens permaneciam d Segunda a Sexta na lavoura, só convivendo com a família no fim de semana. A comida era pouca, mas na mata havia animais selvagens e palmito. Plantaram mandioca, café e milho. Faltavam, porém, os equipamentos agrícolas prometidos pelo governo, principalmente o alguidar, usado para tostar farinha. Apesar das dificuldades, os imigrantes dedicaram-se ao trabalho, ampliando as lavouras.

Três anos depois, suas casas toscas começaram a ruir, o que os obrigou a construir outras mais resistentes, no estilo usado no Hunsruck. Foram erguidas nas encostas das montanhas onde plantavam café, com varandas em torno. O teto era de taboinhas. Eram casas típicas e de aspecto agradável, que despertaram a curiosidade dos brasileiros. Até moradores de Vitória costumavam subir a subir a serra para vê-las. Um visitante ilustre foi o presidente da Câmara de Vitória, Luiz Pedreira, recebido com muitas homenagens. Impressionado com a recepção, Pedreira resolveu ajudar os colonos, prometendo-lhes uma estrada que tiraria a comunidade do isolamento em que se encontrava. Os próprios colonos participaram das obras, recebendo pagamento do governo do Estado. O dinheiro economizado e a estrada, por fim, permitiram que a região se desenvolvesse com mais facilidade, apesar das doenças tropicais que atingiram os colonos, matando alguns deles.


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