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Rogério Medeiros

Alemães

Um Poder sem limites e um rastro de violência
que aterrorizou Santa Teresa



O alemão foi um dos povos de cultura
mais sólida a emigrar para o Brasil


O poder de vida e morte que essa mulher tinha sobre os moradores do vilarejo deixava-os de tal modo intimidados que dona Marta não pensou duas vezes para transferir a sede do distrito de Vinte e Cinco de Julho para sua fazenda. Era pouco, porém. Na sua ousadia sem limites, mandou destruir a igrejinha da vila e construiu outra em sua fazenda. Só manteve intactas as imagens dos santo para entronizá-las na nova igreja. E ela nem era católica. Era uma luterana legítima, como quase todos os imigrantes alemães. Mas resolveu ter sua própria igreja, ainda que fosse católica, e costumava assistir missa ao lado do padre no altar. Sentada numa vistosa cadeira de vime, que seus capangas colocavam antes do culto, ficava todo o tempo da celebração de frente para o público, em lugar de acompanhar o culto.

Entre os moradores de Vinte e Cinco de Julho, quase todos vindos na época da Europa (geralmente da Alemanha, mas havia também italianos e suíços), ela era a maior fazendeira da região. Possuía extensas terras, cultivava lavoura de café, tinha gado e tropas de animais. Mas a sua principal fonte de renda era a comercialização de café. Todos vendiam suas colheitas de café a ela. Ai daquele que não o fizesse. Até o lazer dos moradores da vila era controlado por dona Marta. Os bailes da região eram realizados em sua casa. Ela não participava, mas ficava do seu quarto, por trás de uma porta de vidro, controlando o ambiente. Qualquer deslize ou avanço de sinal do cavalheiro era punido com a expulsão do recinto. Dona Marta pegava o infrator pelo colarinho e jogava porta afora, sempre com a escolta de seus fiéis capangas. Os bailes de dona Marta eram famosos pela elegância de seus freqüentadores, com as damas bem trajadas e os cavalheiros de paletó e gravata. Mas eles também representavam fonte de renda, pois num compartimento anexo funcionava um bar que vendia bebida aos freqüentadores. Que eram, de certa forma, controlados por seus jagunços, posicionados do outro lado da varanda, num cômodo que tinha, na época, a mesma função que têm hoje as guaritas de segurança nos prédios residenciais.

Tudo na vila de Vinte e Cinco de Julho tinha o seu controle ou a sua autoria. Na época, a região vivia uma frenética agitação por causa das boas colheitas de café e do movimento comercial. Tropas e mais tropas de burros cortavam os seus caminhos e trilhas. Por iniciativa de dona Marta, surgiu uma banda de música, a primeira da região, que era toda formada por imigrantes europeus. Era muito solicitada para animar as festas de outras localidades de Santa Teresa. Sua longa vida estendeu-se aos dias atuais: a anual banda do município tem origem naquela que é uma criação de dona Marta. Seu maestro atual veio de Vinte e Cinco de Julho, é o veterano Américo Loss.

O casamento de dona Marta terminou de maneira trágica em 1902, com o suposto suicídio de João Sebastião, por causa de um romance que ela iniciou com um de seus jagunços. Foi um período de muita humilhação para o marido, segundo a impressão dos mais antigos moradores de Vinte e Cinco de Julho, como é o caso do casal Vitório Corona. "Quem mandava na casa era ela", informam. Mas essa era uma situação muito natural para a neta Lídia, pois, segundo ela, nas famílias alemãs são as mulheres que ficam à frente dos negócios. "Quando o marido se envolve", explica Lídia, "ele tem que consultar a mulher. Mas no caso da minha avó, realmente ela mandava direto."

A violência era a face mais visível de dona Marta. Mas por trás da alemã de rosto duro vivia una alma piedosa que se preocupava com a saúde dos moradores da região. Dona Marta fazia as vezes de médica da localidade, distribuindo receitas homeopáticas, mas ninguém soube esclarecer se era formada em medicina na Alemanha, ou se apenas utilizava-se dos manuais desse método de tratamento nascido no século XVIII, pelas mãos do médico alemão Samuel Hahnemann. Ele publicou o seu "Dicionário Farmacêutico" entre 1793 e 1799. É possível que o manual fosse o bastante para dona Marta aplicar seus ensinamentos nos que buscavam sua ajuda.

Os que a conheceram quando tinha idade avançada, como Otávio Corona, descrevem a alemã como imponente, apesar dos cabelos brancos. Ela visitava sua fazenda sentada numa cadeira de vime em cima de um estrado puxado por duas juntas de boi. Pelo que descreveu o velho Otávio, é de se supor que era uma cena de rara beleza, digna de figurar nos grandes clássicos do cinema.

Dona Marta invariavelmente vestia-se de preto, fazendo um belo contraste com os cabelos brancos. Vestia casimiras vindas do exterior. Por onde passava, feito uma rainha, era saudada pelos moradores: as mulheres vinham à porta para acenar com a mão, enquanto os homens descobriam a cabeça.

Generosa com os pobres, costumava dar-lhes alimento e dinheiro. E acabou criando 18 crianças que não tinham mãe. "A vovó era uma bondade", suspira a bisneta Emalina, na varanda de sua casa. Emalina lembra um entrevero dela com Henrique Capitão (assim chamado por ser filho do capitão Bicher), por causa de um cravo apanhado no seu jardim. Dona Marta não perdoou Henrique e mandou dar uma surra nele "para não mexer mais nas coisas dos outros e muito menos na natureza, que ela gostava muito".


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