Edição Atual | Edições Anteriores | Revista Século | Expediente | Fale Conosco ----------------------


Século Diário

Primeira Página

Colunistas

Opinião

Caderno 2

Augusto Ruschi

Reportagens Especiais

Partidos do ES

Mosteiro Zen

Folclore do ES

Etnias do ES

A Saga Negra do ES

Veículos

Bichos do ES
 
Rogério Medeiros

Alemães

Colonos fugiram do desemprego



O professor Frederico Herdmann conta a história da
imigração e do gradual entrosamento entre culturas
tão diferentes como a alemã e a brasileira

Os primeiros imigrantes europeus que vieram para o Espírito Santo foram os alemães. Deixaram sua pátria por causa de uma lei de herança na região em que viviam na Alemanha, chamada de Hesse e Hunsruck (Costa de Cachorro, numa tradução literal, por causa da conformação, semelhante às costas de um cachorro, de uma montanha). Por essa lei de partilha de bens, só herdava o filho mais velho. A restrição aos demais irmãos criou inúmeras correntes de desempregados, já que a região era muito pobre. Essa e outras novidades sobre a imigração alemã no Espírito Santo estão nesta entrevista concedida pelo professor Frederico Herdmann, diretor do Instituto Teuto-Brasileiro do Estado e professor da Universidade Federal do Espírito Santo de Língua e Literatura Alemã:

- Gostaria que o professor assinalasse a região da Alemanha de onde vieram nossos imigrantes alemães.
- Eles vieram da região montanhosa, que fica no centro da Alemanha. Naquela época era uma das regiões mais pobres do país. Não havia indústria. E para prejudicá-la mais ainda, não era sequer passagem. Eram agricultores e partiram das localidades de Hunsruck e Hesse, na sua maioria.

- Era o tempo dos reinos alemães?
- Antes. Depois, em 1815, no Congresso de Viena, se decidiu dividir, dar liberdade aos países. Antes, quando se falava em impérios, era uma situação muito solta. Havia uma expressão debochada: o Santo Império Romano Alemão. Não era santo, não era império, não era romano e muito menos alemão, pois abrangia tchecos, húngaros, franceses, tudo isso. Não havia antes império que só abrangesse os alemães. Eram 38 Estados, chamados 38 Reinos, dos quais os mais fortes eram a Prússia e a Baviera. Eles tomavam territórios dos outros. Até que em 1869 fizeram a unificação da Alemanha, que se concretizou em 1871 em Versailles.

- Quer dizer que des vieram antes das mudanças básicas de fronteiras na Europa?
- Sim. Vieram dos lugares citados e também da Prussia Renana. Nesse último caso, quando se dirigiram para Santa Leopoldina, foram também juntos os luxemburgueses. Mas tratando-se de Santa Isabel, eles vieram mesmo de Hunsruck e Hesse. São os primeiros que chegam ao Espírito Santo, isso em 1847.

- Mas os hunsrucklers falam um dialeto próprio. São uma etnia, assim como ocorre com os pomeranos?

- Todos eles falam dialeto, era como se comunicavam antes do alemão alto. Depois da Reforma, o alemão alto foi somente adotado pela parte luterana. Mais tarde, todos o adotaram porque já era língua oficial do Império. O alto alemão, quando iniciou, começou em Praga, na Tchecoslo váquia. O rei da Boêmia foi eleito imperador, no século XV, então ele impôs essa língua. Era o francônio. Depois disso houve outras, o médio alemão, finalmente adotou-se o alto alemão. Alto porque vinha da região alta da Alemanha, próxima da Tchecoslováquia. Como Lutero era da mesma região, ele traduziu a Bíblia para essa língua. Ela então tornou-se usada por toda a Alemanha.

- Mas houve rejeição em regiões católicas.
- Munique e Viena, que eram cidades importantes, além de católicas, não quiseram adotar por ser muito popular. Mas mesmo assim a nova língua tornou-se o alemão oficial.

- Menos para os hunsrucklers, que continuam adotando o seu dialeto aqui em Domingos Martins e Marechal Floriano até hoje.
- Realmente, eles ainda falam o dialeto aqui. Eles vieram do Hunsruck, que fica no lado direito do Reno, na Alemanha. Vieram para cá falando esse dialeto, mas tendo a língua alta como a oficial. Mas eles entendem o alemão alto. Vieram 38 famílias e um rapaz solteiro. Eram 163 pessoas.

- A vinda deles foi em conseqüência do capitalismo, que foi introduzido na Europa?
- Não. Eles vieram mais por causa do regime de herança na região. Era só o filho mais velho que herdava a propriedade. Os outros filhos tinham que procurar outra coisa. E como não havia trabalho para eles, a saída era migrar. Não podiam mais contar com a terra, não havia indústria ou qualquer outra atividade. Mas o maior problema mesmo era a pobreza. Eles eram essencialmente agricultores. Não tinham o que dividir, com que trabalhar, tinham realmente que cair fora.

- Eles vieram então direto para o Brasil?
- Não. Houve correntes migratórias anteriores. Foram no século anterior para os Estados Unidos da América, a Austrália. Dois séculos antes tinham ido para o Baixo Danúbio, principalmente Hungria, e depois Rússia.

- Em que seqüência eles vêm para o Brasil?
- Quando a Rússia deixou de os receber, eles foram para os Estados Unidos. Quando os Estados Unidos dificultaram a sua entrada, vieram para o Brasil. Vieram principalmente por causa da imperatriz Maria Leopoldina de Hansburgo, cuja mãe era de Munique. Ela quis favorecer seus patrícios. Como ela sabia que a região do Renano era muito pobre, mandou o comandante Georg Von Shaeffer trazê-los. Ele era da Baviera e tinha uma força tremenda sobre a imperatriz Leopoldina. Já havia uma ligação do Brasil com a Alemanha, pois o Exército brasileiro havia sido treinado pelo coronel Boehme e importava também soldados alemães. Quando os primeiros alemães chegaram ao Rio Grande do Sul, vieram 29 soldados no meio de 223 colonos. Até 1870, Schaeffer trouxe dois mil soldados alemães para o Brasil.

- Schaeffer foi quem intermediou a vinda de todos os alemães para o Espírito Santo?
- Antes de cair em desgraça junto a Pedro II, ele deve ter trazido cinco mil alemães. Foi mandado embora e morreu na beira do Rio Doce, onde era proprietário rural. Existem hoje muitos descendentes seus no estado, principalmente na região entre Linhares e Colatina.

- Para que região foram os outros alemães de Schaeffer?
- Depois de Santa Isabel e Domingos Martins, eles foram para as colônias imperiais de Rio Novo e Leopoldina. Só que para essas regiões eles vieram de várias partes da Alemanha. Não foi o caso de Santa Isabel e Domingos Martins. Lá as correntes migratórias encerraram-se em 1857, na mesma época em que chegaram os suíços. É bom que se diga que os alemães vieram pobres para o Brasil.

- Os alemães vieram numa seqüência rápida?
- Vamos falar sobre isso. No ano de 1858, veio a grande leva de alemães saindo da Prússia, e entre eles havia quatro famílias de luxemburgueses. Havia também os austríacos do Tirol e os holandeses. Somente em 1859 é que chegam os pomeranos. Eram a grande maioria. Dos cinco mil alemães vindos para o Espírito Santo, quatro mil eram pomeranos.

- Mas os pomeranos não se consideram alemães. Até pela lógica, pois antes de o seu território ter sido anexado à Alemanha pertenceu à Áustria, à Suécia e à Polônia.
- Isso é por causa da língua. A deles é chamada língua baixa, por causa da planície que habitavam nos baixos da Alemanha. Por causa disso, eles sentiram-se rebaixados e não quiseram ser alemães.

- Deixemos de lado os pomeranos. Vamos aos alemães propriamente ditos. Eles não foram muito numerosos. Por quê?
- É que Bismarck estancou a saída de alemães através de um decreto de inspiração de seu ministro da Justiça. Ele é de 1868 e ficou conhecido pelo nome de seu idealizador, tal o impacto que causou na Alemanha e nas colônias alemãs em outros países do mundo. A sua principal intenção era a de conter a mão-de-obra para o seu processo de industrialização. Mão-de-obra barata. Quem saísse perderia a cidadania alemã e os que estavam fora, se não refizessem seu passaporte, perderiam também a cidadania. No Brasil, todos perderam. Os renanos que vieram para Santa Isabel e Domingos Martins eram culturalmente muito melhores que os pomeranos. Os que vieram em grande quantidade foram primeiramente os renanos, depois os pomeranos. Como a maior parte das outras etnias, renanos fizeram casamentos inter-raciais com pomeranos, o grupo mais numeroso de imigrantes, e adotaram também seu dialeto.

-Tirando os pomeranos, quantos alemães temos hoje no Espírito Santo? (Quando falamos em alemães estamos falando também nos seus descendentes).
- Calculam que hoje, ao todo, devem ser 200 a 250 mil. Sem os pomeranos são 50 mil somente. Estamos lidando com números aproximados. Tribalizando os alemães, podemos dizer que vieram muitos bávaros, falaram o dialeto bávaro durante muito tempo, outros vieram da Saxônia. Consideram-se saxônicos os que viviam no Sul da Alemanha até a Tchecoslováquia. Do Baixo Reino, para o lado da Holanda, também. O que não se pode deixar de mencionar é que quando eles se estabeleciam junto aos pomeranos, por serem culturalmente mais avançados, tomavam a liderança. Por exemplo, os Berger. Eles não eram pomeranos, tornaram-se pomeranos nos casamentos que fizeram e hoje falam esse dialeto. Os Potratz também não eram. E assim várias outras famílias.

- Há algumas confusões no caso das imigrações que gostaríamos fossem explicadas. É o caso dos poloneses de Santa Teresa. Eles chegaram ao Brasil como poloneses, mas vindos da Ucrânia, que mais tarde passou a fazer parte da União Soviética e hoje é um país independente. No fundo, portanto, são mesmo ucranianos, não lhe parece?
- Exatamente. São ucranianos, mas ucranianos poloneses. A região de onde vieram era a Polônia. É a mesma coisa.

- Seria interessante que o senhor falasse um pouco sobre a religião dos imigrantes alemães que foram para Santa Isabel e Domingos Martins.
- É a única região do Espírito Santo em que eles são praticamente meio a meio, católicos e luteranos. Eles vieram assim. Lá no seus lugares de origem eles tinham suas vilas mais luteranas e outras mais católicas. Na Alemanha eles se davam bem, somente aqui é que começaram a criar problemas. Esse convívio difícil foi somente no começo. Já os pomeranos eram todos luteranos, pois a Polônia foi a primeira parte ao Norte da Alemanha que aderiu à Reforma de Lutero. O povo dessa região era todo luterano. Os senhores feudais é que eram católicos. Por isso é que os pomeranos têm problemas com os católicos. O católico para eles é o dominador polonês. Essa é a razão pela qual os pomeranos não admitem que possa haver relações entre eles e os católicos. Porque estariam se bandeando para o inimigo de várias gerações. Os alemães da Baviera são praticamente católicos. Os tiroleses eram católicos, os luxemburgueses também. Os holandeses eram da Reforma.

- Os luxemburgueses que se fixaram em Santa Leopoldina abandonaram seu dialeto, o que não ocorreu com os pomeranos e os hunsrucklers.
- Eles se consideram alemães, por isso falam hoje a língua alta. Isso ocorreu com os imigrantes que vieram junto com os alemães de outros países da Europa. Tudo isso está muito ligado às mudanças constantes de fronteiras na Europa. Os pomeranos viviam inicialmente numa região que era da Dinamarca. Goethe, a maior expressão da literatura alemã, também viveu nesta região que pertenceu por muito tempo à Dinamarca.

- Por que os alemães preferiram sempre os vales?
- Porque eles lá moravam também em vales. Os pomeranos, não. Eles viviam na planície. Já os alemães que viviam nos vales eram originários das montanhas.

- E de onde vieram os alemães de Vinte e Cinco de Julho, em Santa Teresa?
- Esses não vieram direto para Santa Leopoldina. Saíram para São Paulo e Rio Grande do Sul. Mas como desejavam um clima quente, conseguiram mudar de lugar e vieram para Vinte e Cinco de Julho. Quase que fizeram uma migração interna. Chegaram pelo fim dos anos 70, no século passado, depois que os italianos já haviam se estabelecido em Santa Teresa, mais precisamente em 1877. Mas muitos ficaram em Santa Leopoldina.


01 |02 |03 |04 |05 |06 |07 |08 |09 |10 |11 |12 |13 |14 |15 |16 |17 |18 |19 |20

< < < Anterior
Primeira Página | Colunistas | Opinião | Caderno 2 | Augusto Ruschi | Reportagens Especiais | Partidos do ES
Mosteiro Zen | Folclore do ES | Etnias do ES | A Saga Negra do ES | Veículos | Bichos do ES
Edições Anteriores | Revista Século | Expediente | Fale Conosco

Século Diário responde pelo que publica: redacao@seculodiario.com - (0xx27) 3325-4337
Século Diário Copyright© 2000 - 2002. Design by Gustafah Copyright© 2000 - 2002. Todos os direitos reservados.
Proibida sua reprodução total ou parcial.
www.seculodiario.com