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Rogério Medeiros

ÍNDIOS, NEGROS E PORTUGUESES

Os primórdios da colonização



Na divisão do território do Brasil em capitanias, coube a Vasco Fernandes Coutinho o quinhão de 50 léguas de terra. Pertencia-lhe também qualquer ilha até dez léguas do litoral. O moço fidalgo que era companheiro de Afonso Albuquerque na Índia estava assim premiado por seus serviços de guerra por El-Rei D. João III. Em 23 de maio de 1535, ele chegou à capitania, com aproximadamente 60 pessoas, fidalgos uns, plebeus outros, que desde o início enfrentaram a oposição de indígenas, conforme o historiador Miguel Diegues Júnior. Devido à escassez dos recursos que havia trazido a bordo, Vasco Fernandes Coutinho encontrou grandes dificuldades, principalmente com os índios. Daí o escasso e lento povoamento da terra, enquanto outras capitanias, como as de Pernambuco e da Bahia, progrediam rapidamente.

Aos que o acompanharam, Vasco Fernandes fez doações de terras: a Ilha do Boi, a D. Jorge de Menezes; a dos Frades, a Valentim Nunes; a de Santo Antonio, a Duarte Lemos. Esta mais tarde se tornaria sede da capitania, recebendo o nome de Vila Nova. A distribuição da terra tinha como propósito basear o povoamento nos trabalhos agrários da cana-de-açúcar. De fato, no Espírito Santo, o donatário procurou repetir o que se fazia em outras capitanias, onde se deu prioridade à cana-de-açúcar. Os engenhos se tornaram, logo em meados do século XVI, as unidades demográficas e sociais da colonização e da vida brasileira, e não só, ou exclusivamente, da organização econômica, segundo Diegues Júnior. Relata o historiador em seu trabalho "Primórdios do povoamento do Espírito Santo": "Na terra capixaba, as canas se deram muito bem, embora a cultura canavieira não tivesse progredido, em decorrência da guerra que indígenas (goitacazes e tamoios, principalmente) fizeram à colonização: destruíram engenhos e queimaram canaviais, mataram gente. Naquele mesmo ano de 1545, se dará o primeiro embarque de cana-de-açúcar do Espírito Santo para Portugal".

A decadência dos engenhos de açúcar

O número de engenhos já havia caído na segunda metade do século XVI, com a população já atraída para as notícias de minas e abandono a que o donatário relegara a terra. Era sinal de decadência, levando-se em conta que o número de engenhos era parâmetro de progresso. Nessa época, já havia escravos no Espírito Santo, num total de 500, espalhados pelos engenhos. O trabalho agrário cedo reclamou a presença dos escravos em face da resistência do indígena. Porém, no final do século XVI, o número de engenhos voltara a crescer: eram quatro ou cinco, segundo Anchieta, em 1584, ou seis, de acordo com Fernão Cardim.

Havia mais de 500 moradores de origem portuguesa, além de muitas aldeias de gentio (as aldeias dos padres da Companhia de Jesus), segundo a "Relação das capitanias do Brasil", obra que Varnhaggen atribuiu aos princípios do século XVI. Dizia-se da terra que era bem cultivada e fértil, com engenhos de açúcar que rendiam, para os dízimos de Sua Majestade, 1500 arrobas. Outro aspecto importante: o de ser a capitania vizinha da Serra das Esmeraldas, onde se afirmava haver ouro e prata. Sem dúvida, os colonos interessaram-se pela penetração no sertão. No século XVII, houve necessidade de reanimar o povoamento da capitania: Francisco Gil de Araújo trouxe da Bahia vários casais, aos quais deu terras, auxílio e estímulo.



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