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Aventureiro deu início à imigração
Pietro Tabacchi
Um dos episódios mais controvertidos da história da imigração italiana no Espírito Santo tem como personagem principal um comerciante e aventureiro originário de Trento, Pietro Tabacchi, que deixou a Itália fugindo dos credores, após a falência dos seus negócios.
Estabelecido com a fazenda "Monte delle Palme", provavelmente desde 1851, em Santa Cruz, Tabacchi usou como pretexto para atrair imigrantes a idéia de que a produção de café no Espírito Santo teria um futuro certo. Os imigrantes iriam substituir a mão-de-obra escrava. Assim, pioneiramente, pôs em prática o que só seria feito alguns anos depois, com o êxito que ele não conseguiu ter, por centenas de latifundiários de São Paulo: trouxe lavradores europeus para suas terras ao pressentir os estertores do regime escravocrata.
A Expedição Tabacchi, como ficou conhecido esse projeto de colonização, envolveu 388 lavradores, um capelão e um médico, além de um auxiliar chamado Pietro Casagrande, que deixaram o porto de Gênova em janeiro de 1874, a bordo do veleiro "La Sofia", chegando 45 dias depois a Vitória para viver na colônia Nova Trento, entre Nova Almeida e Santa Cruz.
Conforme descrição de um pintor francês que esteve no Estado em 1858, Tabacchi "era magro, alto, com bigodes enrolados, um charuto na boca e na mão um longo bastão". Era conhecido pelo empenho com que se dedicava à derrubada de jacarandás, madeira altamente lucrativa e com certeza o principal objetivo do seu empreendimento comercial. Tanto que, na primeira proposta feita ao governo imperial para implantar uma colônia agrícola com condições de abrigar 50 famílias de imigrantes, solicitava, em troca dos serviços que ia prestar, o direito de derrubar 3.500 árvores de jacarandá. A proposta era singular, tendo em vista que ela partia de um particular. Até então, os empreendimentos de colonização eram patrocinados diretamente pelo Império, sem intermediação da iniciativa privada, O pedido de Tabacchi, porém, não foi aceito.
Em 1872, finalmente ele conseguiu seu objetivo. Conforme contrato assinado com o governo, Tabacchi recebeu para cada imigrante a importância de 200 mil réis, em duas prestações iguais: a primeira, logo após a posse da terra pelo imigrante e a segunda, um ano depois. Era um contrato muito vantajoso para Tabacchi, porque ele ganhava de um lado e do outro. Além de receber do governo pela "importação" de mão-de-obra, impunha aos imigrantes um contrato com cláusulas severas, que os transformava praticamente em semi-escravos.
Exploração provocou conflitos e fugas
Anna Fontoura Tabacchi, esposa de Pietro Tabacchi
Certamente, Tabacchi confiava no fato de que as queixas não seriam muitas no momento em que os lavradores tivessem conhecimento de outras ofertas de terras em condições mais vantajosas, pois eles se sentiriam acorrentados a um contrato desse tipo. De fato, nas outras colônias existentes no Estado, como a de Rio Novo do Sul, o lavrador tomava posse da terra sem ser obrigado a trabalhar para outros, recebia mais terras (entre 15 e 60 hectares) e pagava menos por elas num prazo muito maior do que o estabelecido por Tabacchi.
Menos de um mês após o desembarque dos imigrantes, Tabacchi já se dirigia ao juiz de Santa Cruz, dizendo-se ameaçado por colonos que pleiteavam a rescisão do contrato. Na verdade, conforme se constatou depois, o descontentamento se devia ao fato de Tabacchi não cumprir uma das cláusulas do contrato. Em vez das casas prometidas aos imigrantes, ele construiu um enorme galpão e obrigou-os a viver promiscuamente. Além disso, para alcançar a área agricultável, os imigrantes tinham que enfrentar uma viagem de seis horas por estradas em condições precárias, Os colonos queriam ir embora para outras terras.
Daí em diante, o conflito se instaurou de maneira irreversível. Tabacchi chegou a publicar anúncio num jornal de Vitória, em maio de 1874, ameaçando levar à Justiça quem contratasse os colonos que ele havia trazido da Itália. O que não impediu que gradativamente os imigrantes, com o apoio do governo, tomassem outro destino. Uns foram para Rio Novo, outros para Santa Leopoldina, alguns fundaram Santa Teresa e, finalmente, um pequeno grupo se deslocou para o Sul do país. Apenas 20 famílias decidiram continuar com Tabacchi.
Vislumbrando a falência do seu empreendimento, com prejuízos de grande monta (ele havia contraído dívidas para levar adiante o projeto de colonização), Tabacchi teve agravado o seu estado de saúde e morreu do coração em 1874.
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