Dois homens se destacaram entre os descendentes de italianos no Espírito Santo, transcendendo, pelo impacto de suas ações, os limites de suas comunidades e transformando-se em personalidades conhecidas internacionalmente. O cientista Augusto Ruschi tornou-se famoso pela dedicação à conservação do meio ambiente, enquanto o madeireiro Rainor Grecco alcançou a notoriedade pelo esforço contínuo na destruição da natureza. Essa atuação conflitante evidencia como foi heterogênea a formação dos filhos e dos netos dos imigrantes italianos no Estado.
Rainor começou a ver a mata cair já aos seis anos de idade, como ele mesmo confessa, vendo o avô e o pai em Matilde, na região serrana do Estado, derrubando árvores para colocar lavouras em seu lugar. Em pouco tempo, era o próprio Rainor que estava ceifando árvores para satisfazer suas ambições de adolescente, como possuir carro do ano e freqüentar clubes da elite.
O hábito de esbanjar dinheiro passou a exigir-lhe cada vez mais árvores. Aos 30 anos, Rainor já era famoso entre os madeireiros pela competência em acabar com trechos inteiros de matas.
Desenvolveu apuradas técnicas para esse fim, e os seus serradores, geralmente, eram os melhores. Começou a fazer fortuna e a ter um apreço obsessivo pelo dinheiro. Em pouco tempo, ele estava na Europa garantindo aos industriais que era capaz de entregar-lhes grandes quantidades de jacarandá, para saciar-lhes a cobiça pela madeira mais disputada do planeta.
Com o advento da motoserra (inventada nos anos 60), Rainor derrubou, com enorme velocidade, o que ainda restava de floresta no Espírito Santo (sobram hoje somente 6% da cobertura florestal nativa no Estado). Neste momento, ele encontra-se no Araguaia, no Pará, fazendo o de sempre: derrubando árvores.
O herói da preservação ambiental
Augusto Ruschi, preservacionista
Fazendo contraponto a Rainor, a colônia italiana capixaba tem em Ruschi um herói das lutas pela conservação da natureza. Filho do imigrante José Ruschi, Augusto Ruschi, como Rainor Grecco, começou a freqüentar a mata ainda bastante novo, a princípio com a curiosidade natural do jovem, mas logo se tornaria um expert do assunto e um guardião intransigente do patrimônio natural.
Inaugurou uma nova modalidade de estudos científicos: extrair seus ensinamentos de dentro da própria floresta. Sua permanência nas matas capixabas levou-o a inúmeras descobertas. Revelou a existência de cem novas espécies do reino vegetal e realizou perto de 400 trabalhos científicos. Encantou-se com o beija-flor e dedicou-se a pesquisá-lo de tal forma que 60% do que se conhece desse pássaro são fruto de seu trabalho.
Ruschi foi professor do Museu Nacional e criou, na sua terra, em Santa Teresa, o Museu Mello Leitão, para servir também à ciência. Seu amor à natureza fez com que ele deixasse, várias vezes, o seu campo de pesquisa, para vir defendê-la com a valentia de um combatente revolucionário. Nesse campo, pode-se dizer, sem qualquer receio de incorrer em erro, que lhe cabe, também, o pioneirismo na defesa do meio ambiente. Morto há quase dez anos, ele se encontra enterrado na Estação Biológica de Santa Lúcia, em Santa Teresa.