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Rogério Medeiros

Italianos

Historiador revela razões da migração


Agostino Lazaro, historiador

O historiador Agostino Lázaro revela, nesta entrevista, as condições econômicas e sociais que determinaram a vinda dos italianos para o Brasil e para o Espírito Santo. Neto de italianos, ele interpreta as reações dos imigrantes diante de várias circunstâncias como, por exemplo, a repressão sofrida pelos italianos por ocasião do movimento integralista e da Segunda Guerra Mundial. Ele dedica grande parte de suas pesquisas às revoltas dos imigrantes no seu processo original de fixação no Espírito Santo.

- Quais foram os fatores que determinaram a vinda dos italianos para o Espírito Santo?

- A vinda para o Brasil obedece a várias circunstâncias. Devemos de saída observar as condições da região de que eles procedem: Vêneto, Lombardia, Trento. Saíram também de outras regiões da Itália, mas em menor escala. O avanço do capitalismo na Itália, notadamente no campo, foi motivo da transferência deles para o Brasil.

- Por que razões o capitalismo atingiu tão duramente o campo?

- É que a introdução do capitalismo no campo se deu de uma forma traumática. Atingiu o camponês economicamente e também culturalmente. Como ele se implantou de forma irregular, num primeiro momento o capitalismo gerou uma migração dentro da própria Itália e depois uma emigração para outros países da Europa.

- Mas por que provocou tamanha reação?

- O capitalismo atingiu uma estrutura agrária milenar, provocando miséria com suas leis e novos tributos. Estes, então, eram verdadeiros confiscos de terra. Houve um empobrecimento imenso, levando o camponês ao estado de total miserabilidade. Ele perdeu sua propriedade, ou, quando muito, conseguiu vendê-la por preço aviltado. Mas a taxa sobre a propriedade foi o terror do pequeno proprietário rural. E fator fundamental para entender o processo migratório do italiano.

- Quer dizer que o italiano que nós recebemos veio empobrecido e massacrado?

- Eles viviam em braças de terras na Itália, mas sabiam sobreviver nelas. Não conseguiram resistir quando o país desejou implantar o capitalismo, produzindo regras para facilitar seu ingresso, sobretudo no campo, numa evidente articulação com os grandes latifundiários da época. Em função desse jogo, os camponeses perderam seus terrenos para os grandes proprietários, dando início ao processo capitalista na Itália. Após a perda de suas propriedades, eles foram obrigados a se empregarem, nas vilas e nas cidades, como mão-de-obra barata.

- Não havia possibilidade de eles se adaptarem às mudanças produzidas pelo ingresso do capitalismo?

- A massa de desempregados era tão gigantesca que não havia mais con-dições de oferecer trabalho. Muitos camponeses passaram a empregar-se em construções, outros viraram marceneiros, etc. Mas os empregos criados eram insuficientes. A fome invadiu todas as comunidades camponesas. A solução era o pai, por exemplo, mandar a filha para a Europa Central para trabalhar até em ferrovias, algo inimaginável na vida de um camponês. Outras moças eram amas de leite em cidades ou vilas italianas. Ao regressarem para suas casas, esses filhos voltaram com uma outra visão do mundo, provocando choques familiares e alterações de comportamentos sociais e de padrões culturais e morais. Essa situação não se passava somente na Itália, mas também em outros países do continente europeu. Esse exército de banidos foi tão grande que exigiu outras saídas. Convém não esquecer que estamos falando da introdução do capitalismo vindo com o processo de unificação da Itália.

- Explique um pouco esse processo de unificação da Itália.

- A guerra pela unificação levou toda a massa camponesa a apoiá-la e a participar de suas lutas. Mas os promotores da reunificação deixaram de cumprir suas promessas com a população. E as lideranças políticas, ao atingirem o poder, mudaram todo o projeto político original. Partiram para introduzir o capitalismo, para substituir as pequenas propriedades por espaços industriais, numa conexão com os latifúndios. Essa situação instalou-se a partir de 1860. O Brasil passou a ser, então, a solução dessa gente, que se havia transformado numa massa de excluídos sociais.


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