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Rogério Medeiros

Italianos

Historiador revela razões da migração



Um armazém do inicio do século, onde se vendia
de tudo, do fumo de rolo aos tecidos


- A saída deles, na intensidade que se deu, trouxe problemas para a implementação do capitalismo na Itália, ou facilitou?

- Havia um entrosamento entre o império austro-húngaro e o império brasileiro, que tinham inclusive ligações por laços de parentesco. Existe um jogo aí. Para o Brasil era muito interessante receber mão-de-obra qualificada para a lavoura, enquanto para a elite italiana, subjugada pelo império austro-húngaro, era extremamente conveniente se livrar dessa massa de camponeses que estava criando problemas para o desenvolvimento do capitalismo. Além do mais, o movimento socialista do Norte da Itália já era forte e agia em cima dessa massa que vivia em penúria, causando insegurança à elite que havia estabelecido seu projeto econômico e político a partir da unificação do país.

- Como a gente qualifica politicamente os italianos que, por essa época, vieram para o Espírito Santo?

- Existe muito equívoco em relação a esses italianos por causa do fascismo, que ocorreu, com Mussolini à frente, muito tempo depois da chegada dos primeiros imigrantes. Os camponeses que vieram para cá ou eram anarquistas ou clericais, ou então socialistas. Mas não era uma coisa homogênea. Principalmente por causa do momento que viviam na Itália, onde as contradições, estabelecidas com a entrada do capitalismo, já estavam bem afloradas

- Quer dizer então que, por parte do imigrante, havia conhecimento das condições em que deixavam a Itália?

- A saída deles da Itália resolveria para as elites um grande problema. Para o camponês foi interessante vir para cá e refazer o mundo perdido. Essa não é uma visão minha, mas de sociólogos e pesquisadores italianos também. E uma luta travada por eles para não se proletarizarem. Eles não vieram para criar partidos políticos e muito menos revoltas. Não havia essa possibilidade num país como o nosso, que era um grande vazio demográfico. Eles optaram por construir, aqui, o seu mundinho nas montanhas, planícies e vales, abandonando o mundo de agitação política que haviam presenciado na Itália.

- Vamos entrar na chegada deles ao Espírito Santo...

- Foi com a criação da Fazenda Nova Trento, em Santa Cruz, em 1874. São os primeiros, é bom que se diga, que chegaram em massa ao Estado. Seu fundador é Pietro Tabacchi, mas ele não é um camponês. Trata-se de um membro da classe dominante italiana, que veio para o Brasil, segundo a versão mais correta, depois de um grande calote na praça de Trento. Chegou em Santa Cruz fugindo de seus credores, e instalou-se em privilegiadas terras. Ele é o primeiro estrangeiro no Espírito Santo que percebe, pelos vazios do Estado, as condições de trazer estrangeiros para povoá-lo e de lucrar com esse negócio. Dadas suas origens sociais, Tabacchi articulou-se muito bem com o poder no Espírito Santo. Como as condições de trabalho eram péssimas e o contrato assinado pelo camponês um logro, os imigrantes acabaram se revoltando e a experiência fracassou. De qualquer modo, na Itália considera-se oficialmente essa expedição a primeira do processo de emigração para o Brasil.

- A batalha aqui foi vencer a floresta ou lutar pela própria sobrevivência?

- Aqui a batalha era contra a natureza, enfrentar a floresta e suas ciladas. Mas não foi essa a condição que os agenciadores lhes ofereceram na Itália. Eles diziam aos camponeses que iam encontrar aqui todas as condições favoráveis para reconstruir sua vida no campo. Alguns acreditaram que até ouro iam encontrar.

- O que ocorria no país por ocasião do processo imigratório italiano e especialmente no Espírito Santo?

- Havia condições especiais no Brasil que não podem deixar de ser relacionadas com essa imigração. Refiro-me ao período que antecedeu à abolição da escravatura. São Paulo percebeu imediatamente essa possibilidade e tomou medidas para suprir a mão-de-obra que inevitavelmente faltaria com a abolição. Já no Espírito Santo, apesar do esforço do governo, os fazendeiros escravocratas rejeitaram, inicialmente, essa mão-de-obra de origem européia, achando que estavam bem abastecidos. Isso ocorre principalmente com as fazendas na região de Cachoeiro de Itapemirim. O Norte capixaba estava ainda praticamente inabitado, assim como parte da sua região central. Essa atitude dos fazendeiros capixabas mostrou que eles estavam totalmente isolados do contexto nacional.

- Depois do episódio Tabacchi, como ocorreu a vinda dos demais imigrantes italianos?

- A partir da Colônia Nova Trento, o governo do Espírito Santo se organizou para trazer os imigrantes italianos, criando um setor especialmente para esse fim. Havia uma massa numerosa de italianos querendo vir para o Brasil. O governo então passou a oferecer aos fazendeiros do Sul do estado essa mão-de-obra para suprir a falta de mão-de-obra escrava. Eles, como foi dito antes, rejeitaram.Com o advento da abolição, foram surpreendidos e algumas fazendas foram fechadas. Os fazendeiros que resistiram à crise passaram a pressionar o governo para dirigir italia-os para suas fazendas. O governo atendeu seu pleito e acabou enviando grande número de italianos. Demonstra isso que o governo estava preocupado com a manutenção das fazendas escravocratas.


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