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Século Diário
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| Rogério Medeiros
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Italianos
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Historiador revela razões da migração
O tradicional jogo de "boccia" reunia os homens italianos,
com torneios entre as famílias, como nesta imagem
do inicio do século, em Muniz Freire
- Quando do assentamento desses italianos, o Espírito Santo tinha duas realidades: ao Sul, as fazendas escravocratas; ao Centro e ao Norte, terrenos devolutos e cobertos de florestas para serem conquistados. Como se deu a distribuição dessa mão-de-obra?
- Cachoeiro (que nessa época abrangia praticamente todo o Sul do estado) já contava com italianos, mas poucos. A ida em massa para Cachoeiro ocorreu somente depois dos anos 80. O bastante para suprir totalmente a carência de mão-de-obra. Em face do regime de trabalho imposto pelos fazendeiros, os imigrantes acabaram se fazendo também escravos. Os escravos brancos. Eles vão trabalhar em fazendas de proprietários com tradições escravocratas. O tratamento dispensado a eles não se diferencia muito do que foi dado aos africanos. Eles são obrigados a vender sua produção ao seu patrão. Há ainda obrigação de fazer suas compras no armazém da fazenda, uma maneira de torná-los dependentes do fazendeiro. Foram mantidos sob esse regime por quase três décadas.
- O tempo transformou a maioria em pequenos proprietários nessa região de fazendas escravocratas. Como isso ocorreu?
- Por causa da crise do café, eles conseguiram se beneficiar e comprar terras de seus patrões. Eram fragmentos de terras, mas desenvolveram-se muito em suas mãos. A crise que atinge o fazendeiro é a mesma que beneficia o imigrante italiano. Esse episódio acaba mudando o panorama agrário do Sul do Estado. Grandes propriedades foram fracionadas e transformadas em inúmeras pequenas propriedades rurais. E essa crise que dá início ao regime de pequenas propriedades na região de Cachoeiro de Jtapemirim. Como foi assinalado antes, representa quase todo o Sul do Estado. Essa é a marca da presença do imigrante italiano na região.
- E o papel da Colônia Rio Novo na região Sul do estado?
- Duas historiadoras fizeram um trabalho muito grande sobre essa colônia: Gilda Rocha e Luciana Osório. As duas acham que a Colônia Rio Novo foi implantada com o objetivo de abastecer essa região de mão-de-obra. Ela foi localizada de propósito na vizinhança dessas fazendas escravocratas. Fazia divisa com Cachoeiro de Itapemirim. O imigrante que assentou-se nessa colônia tinha um pedaço de terra, mas as condições para tocá-la exigiam que ele trabalhasse como diarista nas fazendas próximas. A colônia passou por outras etapas também, é bom que se diga. Daí sai também o grupo que vai fundar Venda Nova do Imigrante e outras localidades no Centro e no Sul do estado.
- Quando essa colônia entra em declínio?
- Os imigrantes que chegam depois de 1889 não vão mais para essa colônia. Não havia mais terra para assentá-los. Eles são direcionados para outras regiões do Sul. Há, portanto, duas etapas: a primeira para a Colônia Rio Novo, e a segunda diretamente para as fazendas. Venda Nova foi diferente. Foram colonos de Rio Novo assentados em Araguaia que resolveram buscar melhores terrenos para fundar suas propriedades.
- Essas pequenas propriedades se desenvolveram bem até o momento em que surgem os filhos dos imigrantes em condições de constituir família. Isso exigiu o fracionamento da propriedade do pai, criando a necessidade de expandir-se para outros lugares a fim de não empobrecer toda a família, não é verdade?
- Exato. A partir das décadas de 30 e 40, eles vão migrando para o Norte do Estado. Por isso, você encontra as mesmas famílias do Sul do estado em Colatina e em outras localidades do Norte. Trata-se de uma migração interna. Os filhos foram desbravar terras devolutas, como fizeram seus pais.
- Antes da ida desse pessoal para o Norte do estado, só havia um núcleo em São Mateus, na localidade que é hoje Nova Venécia.
- De fato, é o núcleo de Santa Leocádia, que tinha também os mesmos propósitos estabelecidos para a Colônia de Rio Novo, ou seja, abastecer os fazendeiros escravocratas da região com nova mão-de-obra. Estamos falando da época paralela à abolição da escravatura. Foram para a fazenda do Barão de Aymorés. São eles que deixam essa fazenda para fundar Nova Venécia. Devido à dificuldade de acesso, essa região, apesar de colonizada pelos imigrantes italianos, ficou muito tempo isolada por se encontrar cercada por impenetrável floresta. Em face disso, não houve a mínima possibilidade de eles manterem contato com outras regiões colonizadas por italianos. Houve muitas mortes nesse núcleo por causa de impaludismo, freqüente na região.
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