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Rogério Medeiros

Italianos

Historiador revela razões da migração


A tradicional dona de casa italiana em seus afazeres domésticos

- Essas mortes acabaram determinando um receio muito grande por parte de outros imigrantes de tomarem o mesmo destino, não é verdade?

- Eles na Itália já tinham a noção das coisas no Brasil, principalmente no Espírito Santo, através de informações de cartas de parentes e de outros meios de comunicação. O conhecimento das mortes de italianos em Santa Leocádia ocasionou uma revolta de italianos recém-chegados ao Espírito Santo. Ao saberem, ainda no navio, que iriam para lá, resolveram não desembarcar. Prometeram uma revolta que só acabou quando o governo resolveu destiná-los para as regiões que eles desejavam.

- As rebeliões ocorreram em decorrência da falta de cumprimento de promessas do governo. Fale das que não possuem registros históricos.

- Havia realmente muitos conflitos nas colônias, alguns em nível de revolta, como a de Lombardia, em Santa Teresa, revelada há poucos anos por pesquisas realizadas pelo professor e historiador Luiz Biasutti. Realmente, grande parte delas se deu por conflitos com agentes do governo, muitos dos quais exploravam os imigrantes nas colônias que dirigiam. Havia ainda conflitos de colonos em fazendas por causa da exploração a que eram submetidos. O escritor Luiz Carlos Biasutti, no livro "Coração Capixaba", revela a existência de uma mulher, talvez a única a liderar uma revolta na época da imigração italiana. Chamava-se Maria Zanolo. Ela comandou uma rebelião na Colônia de Rio Novo. Pode-se dizer que a fase de assentamento dos italianos no Espírito Santo foi marcada por conflitos e exploração.

- Como o senhor vê o movimento integralista junto aos italianos?

- Eu vejo o seu êxito junto aos colonos italianos muito ligado à questão da terra. Esse povo deixou o seu país por causa da perda de suas propriedades e voltou a conquistá-las aqui no Brasil, com muito sacrifício e luta. O integralismo explorava muito a defesa da propriedade, colocando uma cons-tante ameaça diante dos movimentos políticos, principalmente dos comunistas. Outro ponto em que a mensagem integralista os atingia em cheio era a defesa da família. O imigrante italiano sempre teve na sua família o esteio de sua sobrevivência. Uma influência muito importante sobre eles era a Igreja, cuja adesão ao integralismo foi total. Havia também um fator de coação: os que não aderiam eram chamados de comunistas e discriminados. Quando se fala de integralismo não se pode ignorar a canalização que ele fez da energia da comunidade para a construção de estradas, de colégios e pontes.

- Quais as marcas do integralismo nas regiões habitadas pelos italianos?

- Levou os italianos ao mutismo, especialmente depois do decreto de Getúlio Vargas, ditador da época, que os proibiu de fazer reuniões e de ter atividades políticas, inclusive de se comunicar através do dialeto. Abriu uma temporada de perseguição aos imigrantes e seus familiares, com reflexos na sua cultura e no seu modo de vida.

- Saindo da turbulência provocada pela adesão ao integralismo, o imigrante italiano caiu na violência da Segunda Guerra , não é verdade?
- Talvez a violência praticada contra o italiano no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial tenha sido maior do que a experimentada na repressão ao integralismo. Além da repressão policial, que foi enorme, era permitido a qualquer cidadão brasileiro, ou luso-brasileiro, tomar medidas contra eles. Suas casas foram saqueadas e seus estabelecimentos comerciais, invadidos. Muitas famílias valeram-se da mata para fugir das perseguições. Era hábito para fugir dos maus-tratos colocar uma bandeira branca no alto da casa como sinal de trégua. Minha avó perdeu dois primos. Presos pela polícia, eles foram levados de Muniz Freire. Estão desaparecidos até hoje. A repressão em Muniz Freire chegou ao ponto de os imigrantes esconderem suas armas nas sepulturas do cemitério. Reputo esses dois episódios como determinantes para o estabelecimento de um quadro de terror permanente nas colônias italianas no Espírito Santo. Ele teve, de certa forma, relativo prosseguimento, com o advento do regime militar que durou 30 anos no país. Por todo esse tempo, desapareceram as tradicionais comemorações dos feitos de seus pioneiros. Valeram-se ainda do período para mudar o nome de várias localidades em italiano que existiam no estado. Trocaram por nomes brasileiros. A geração de minha mãe tinha receio de apresentar-se como descendente de italianos, somente agora é que uma nova geração age para recuperar a história e milita em entidades ligadas à sua cultura. Em busca, certamente, do tempo perdido, de modo que o imigrante italiano seja recolocado no seu devido lugar na história deste país.


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