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Rogério Medeiros

Poloneses

O sonho de voltar à amada Polônia foi
enterrado depois da Segunda Guerra

Helena Ptak

As irmãs Helena e Maria Ptak chegaram na adolescência a Águia Branca, onde hoje têm uma propriedade com gado leiteiro e lavouras de arroz, feijão e café. Helena casou, teve filhos e ficou viúva. Mais de 60 anos depois de ter desembarcado no Espírito Santo, ela mantém correspondência regularmente com parentes na Polônia e, sempre que recebe uma carta, suspira de saudade. "Se tivesse condições, eu voltava", diz Helena. Ela é um dos raros imigrantes a acalentar o sonho de retorno à Polônia. A adaptação ao novo ambiente foi muito difícil. "Uma vida muito dura, sem nenhum apoio do governo, sempre havia cobras e onças ameaçando a gente", lembra Helena, falando em português com bastante sotaque. Crise também atingiam famílias incapazes de enfrentar os novos desafios e muitas delas foram para o Paraná ou para outros países. A Segunda Guerra Mundial, em 1939, pôs em evidência de novo o sofrimento do povo polonês e quem estava no Espírito Santo, lutando para sobreviver no meio da floresta, acabou se conformando com seu destino.

Michal Piekarz, ex-funcionário de Colonização de Varsóvia, lembra que seus pais, quando tinham que ir a Colatina levando peles de animais e produtos agrícolas para vender, percorriam uma velha trilha usada pelos primeiros imigrantes para chegar a Águia Branca. Dormiam debaixo da ponte por falta de dinheiro, trazendo na volta remédios, alimentos e tecidos. As primeiras cabeças de gado a chegar a Águia Branca também usaram era trilha. "Era uma viagem extremamente difícil, devido à precariedade da rota", diz Michal. Ele perdeu todos os parentes na Polônia, na Segunda Guerra, com exceção do pai e três irmãos que tinham se colocado a salvo no Espírito Santo, por causa de uma trágica experiência na Primeira Guerra. O pai de Michal, Wojciek, em 1915, acabou capturado na frente russa e passou dois anos preso na Sibéria, sobrevivendo à fome que atingiu a população russa porque prestava serviços num terminal ferroviário onde descarregava alimentos. Quando voltou a Polônia, a devastação produzida pela guerra havia deixado o país na miséria mais absoluta e resolveu então partir com a família para o Brasil, onde morreu. A primeira igreja de Águia Branca foi construída por iniciativa de Edwar Chnielewski. "A princípio ninguém acreditou na idéia, mas depois todo mundo ajudou quando as paredes começaram a subir", conta ele. A igreja foi dedicada a Nossa Senhora de Montes Claros, padroeira dos poloneses. Quando jovem, Chnielewski participou de um grupo de danças folclóricas que costumava se apresentar principalmente em casamentos, mas ele também se lembra com tristeza de uma epidemia de febre amarela que exterminou aproximadamente 50 famílias numa vilazinha perto de Águia Branca. Depois dessa tragédia, o lugar ficou sem moradores por mais de cinco anos. Finados é uma das tradições mais celebradas por poloneses e seus descendentes. Os mais velhos comparecem religiosamente às homenagens no cemitério, onde costumam se lembrar das histórias dos primeiros dias de colonização. Maria Korda, polonesa da Segunda geração, sabe o nome de quase todos os que estão sepultados em Águia Branca. "Sempre venho aqui conversar com eles", diz Maria, como se fosse personagem de algum romance no estilo realismo mágico. "Falo com meus familiares, amigos e vizinhos que se foram, dou para eles notícias dos que estão vivos e sinto que eles gostam de ouvir."


Sem lutas, colonização foi um sucesso

A colonização polonesa gerou uma rica experiência no âmbito da agricultura, completamente diferente do que aconteceu no Sul do país, onde o tradicional relacionamento entre proprietário e empregado produziu um clima de ódio e crimes em conseqüência das disputas por terras. Vindos de um país de pouca extensão territorial, sempre sujeito a invasão nos periódicos surtos de guerra, os imigrantes trouxeram para o Espírito Santo a experiência bem-sucedida da pequena propriedade agrícola européia, sem lutas cruentas. Na prática, o projeto da Sociedade de Colonização de Varsóvia foi uma espécie de reforma agrária. Os colonos eram inicialmente instalados num galpão, e só depois da localização, medição e numeração do lote pela administração do núcleo de colonização, a família iniciava a derrubada da mata, fazia um barraco provisório par se abrigar, utilizando folhas de palmito na cobertura, e começava o roçado. Mais tarde, surgia uma casa de alvenaria com cobertura de telhas.


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