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Rogério Medeiros

Poloneses

Eduardo: colono, caixa, escriturário e médico

A persistência da mãe na idéia de abandonar Águia Branca chegou a causar certa dificuldade na relação com o pai, como reconhece Eduardo, mas ele costumava consolá-la dizendo que uma nova guerra iria mostrar como fora acertada a vinda para o Brasil. Para Eduardo, a vinda para Águia Branca não representou sofrimento para sua família, pois desde a chegada ele não conheceu qualquer privação. Havia dificuldades, mas estas estavam mais na falta de assistência médica, principalmente pelo desconhecimento das doenças tropicais. Seu pai ganhava relativamente bem como sua oficina de ferreiro, plantava muitos cereais e ainda contava com a renda adicional proporcionada pelo moinho de fubá.

Alimentação, segundo Eduardo, nunca faltou, era de certa maneira até farta. A família contava também com as criações de porcos e galinhas e havia ainda caça abundante. A mãe de Eduardo aquietou-se 11 anos depois de sua chegada ao Brasil, por ocasião de Segunda Guerra Mundial. Logo chegaram notícias de mortes de inúmeros parentes. Uma tia muito chegada à mãe foi com sete filhos para a Sibéria e perdeu todos eles. Voltou sozinha para a Polônia. Antes de ser deportada, assistiu ao fuzilamento do marido e dos filhos maiores. "Minha mãe acabou aplaudindo o pai por nos trazer para o Brasil e o casal voltou a viver feliz", diz Eduardo.

A família era constituída de seis irmãos. Dois nasceram no Brasil e quatro na Polônia. Eduardo sentiu no Brasil a falta de escola, pois havia feito metade do curso primário na Polônia. Era obrigado a estudar isoladamente com livros que conseguia com conhecimento e não teve muita dificuldade com o português.

Eduardo trabalhou na lavoura até os 16 anos, mas não mostrava queda para essa área. Seu pai conseguiu um emprego para ele nos escritórios da Sociedade de Colonização em São Gabriel da Palha, a partir de onde ocorreu a expansão da colonização polonesa para Águia Branca. As duas regiões, nessa época, pertenciam ao município de Colatina. Só que em São Gabriel, quando os poloneses chegaram, a colonização já havia sido feita por italianos, tendo à frente Borto Malacarie. Somente em 1936 foi que a Sociedade de Colonização iniciou os assentamentos de poloneses em São Gabriel.

O primeiro emprego de Eduardo na Sociedade de Colonização foi como caixa de seus armazéns. Mas aos 18 anos já era gerente. Em 39, com o início da Segunda Guerra Mundial, a Sociedade de Colonização perdeu seus vínculos com a Polônia e foi se extinguindo. Para Eduardo, a colonização polonesa em São Gabriel foi bem mais fácil do que em Águia Branca. Serviu inicialmente de expansão de propriedades para os poloneses de Águia Branca. As propriedades não ficaram mais restritas aos 25 hectares, que foi o modelo adotado em Águia Branca. A guerra estancou o fluxo de poloneses e São Gabriel passou a receber gente de outras origens, atraindo muitos madereiros.

A vida dos imigrantes de São Gabriel foi sofrida também pela falta de assistência médica. Eduardo diz que o médico era o veterinário polonês Boleslaw Ruszczyeki. Ele aplicava injeções, tratava o impaludismo, extraía dentes na marra (quando muito, usava cachaça como anestésico). Eduardo aprendeu com ele tudo isso, acabou fazendo até partos Franciszek Sokól também atuava nessa área.


Na memória, animais exóticos

Eduardo tinha 10 anos quando veio com a família para o Brasil. Sua memória guardou cenas emocionantes da sua chegada ao Espírito Santo. Por exemplo, quando o caminhão que os conduzia para o aldeamento dos botocudos em Pancas atravessou a improvisada ponte sobre o Rio Doce, em Colatina, ele teve a nítida impressão de que ia morrer ali mesmo. Toda a família estava em cima da carga e ninguém avistava o chão porque a ponte eram somente dois pranchões de madeira. Parecia que eles estavam flutuando sobre o rio. O desespero tomou conta de todos , principalmente dos mais velhos , que tinham maior noção do perigo.

Outro registro forte em sua memória foi o pernoite, naquele mesmo dia, no aldeamento dos índios. Eles ficaram apavorados quando os índios iniciaram seus rituais religiosos, achando que iam ser trucidados e servidos em fatias num banquete. Afinal essa era a imagem que eles tinham do índio na Europa. Foi uma noite de terror inesquecível para Eduardo. Povoam ainda a memória de Eduardo e os animais que viu nesse trecho da viagem, especialmente os macacos que pulava de árvore em árvore. Enquanto Eduardo, na ingenuidade da sua infância, assistia extasiado ao espetáculo dos bichos da floresta, sua mãe demonstrava enorme pavor por tudo aquilo que via. Quando alguém enxergava uma cobra, ela sentia-se ameaçada e renovava ao marido o pedido de voltar à Polônia.


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