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Século Diário
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| Rogério Medeiros
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Pomeranos
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Câncer veio com desmatamento
colono pomerano tem a pele clara, mas curtida pelo sol forte que enfrenta diariamente
Uma das advertências mais sombrias do falecido cientista e combatente
ecológico Augusto Ruschi, realizada com persistência ao longo dos últimos dez anos de sua vida, apontava para as graves conseqüências que sofreriam os seres vivos por causa da continuada destruição da cobertura da Mata Atlântica no Espírito Santo, em especial no Norte do estado. Para desespero de muitos pomeranos de Vila Pavão e Praça Rica, em Nova Venécia, ela não demorou muito a se confirmar.
Expostos continuamente a forte luz do sol devido a ausência de sombras
nas áreas agrícolas, os pomeranos, com sua pele branca e delicada, acabaram se tornando vítimas de uma doença de pele conhecida como fotodermatose e de outra, mais grave, o câncer cutâneo. Corroborando opiniões de estudiosos do assunto, o dermatologista Douglas Puppin, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, conclui:
"0s casos de câncer cutâneo são devidos unicamente a ação maléfica da luz solar. De cada cem pessoas examinadas, 90 são portadoras de fotodermatose ou de câncer cutâneo - devendo-se considerar que a fotodermatose é pré-cancerosa. Tudo isso ocorre porque aquilo está virando deserto, agora só falta passar o trator."
De fato, segundo estudos realizados por Ruschi, o violento desmatamento do Norte do estado estava produzindo a desertificação de toda a
região, que compreende metade do território capixaba. Em algumas áreas,
a terra já havia passado de floresta para pastagem e, logo depois, se tornaria caatinga.
0s números são os mais devastadores: a cobertura florestal da região, antes ocupando uma área de 18.300 km2 havia-se reduzido a não mais que 400 Km2. 0 rio Doce, outrora caudaloso, viu-se assoreado e com sua fauna consideravelmente reduzida. Na verdade, pouca coisa restava das 709 espécies de aves e 570 famílias de variados animais catalogados antes por Ruschi. 0 técnico do Bandes, Paulo Fraga, confirmando os resultados dos estudos de Ruschi, descreve um quadro trágico: "0s terrenos estão entregues ao domínio de pragas privilegiadas que perderam seus predadores naturais no momento em que foi rompido o equilíbrio ecológico".
A marcha do desmatamento também coincide com a implantação da lavoura cafeeira na região, abertura de pastos para o gado e a consolidação da indústria de madeira. Antigos moradores se lembram de que, ao chegarem a Vila Pavão vindos de Santa Teresa, encontraram ótimos terrenos planos e muita mata para derrubar. No início, madeiras nobres como peroba e jacarandá foram queimadas, pois não havia estrada ligando a vila a Nova Venécia, para transportar as toras.
Somente na década de 60, com várias serrarias instaladas na região, o
comércio de madeira tornou-se mais intenso, mobilizando inclusive pomeranos na derrubada das árvores. Como diz um velho pomerano, descrevendo o seu enfrentamento diário com a tragédia ecológica produzida pelo desmatamento, "a gente vai lá no pasto e vê a cigarra comendo o capim do boi. Dá um pulinho no pomar e encontra o bichinho comendo tudo que é folha e frutas. Eu levei a vida toda na roça para saber, depois de velho, que dá bichinho no mamão".
"Eu sou analfabeto, mas vejo as coisas", continua. "Onde os meus avós passaram a cavalo eu passo de carro, mas a vida hoje é pior do que a do meu avô.
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