Comment


Comment

Fugindo dos objetivos
Caetano Roque

+ COLUNAS

Comment

Despistou
Renata Oliveira

Comment

A farra dos tratores
EDITORIAL


     

  • Edição
  • |
  • Cadernos
    • Atrações
    • Veículos
  • |
  • Agendas Culturais
    • Vitória
    • Nova Venécia
  • |
  • Sócioeconômicas
  • |
  • Arquivo
  • |
  • Expediente
  • |
  • Anúncio

REPORTAGEM ESPECIAL

Enviar por email | Imprimir matéria | Comente a matéria | Fale Conosco | Fale Conosco | Fale Conosco

23/1/2010

Novas concepções de poder demonizam a cultura popular


Rogerio Medeiros
Foto capa: Rogerio Medeiros

   Fotos: Rogério Medeiros
Depois de um revés e tanto para o eucalipto, causador de uma diáspora de brincantes, o folclore na região norte do Estado se vê agora diante de um ataque frontal das igrejas evangélicas, num veloz recrutamento de integrantes de várias de suas manifestações, ao ponto de se afirmar que não existe mais por lá uma única família que não tenha perdido um de seus membros para uma dessas igrejas, sequer escapando o mestre Terto Balbino, à frente de uma das principais manifestações negras do Espírito Santo, o Ticumbi de São Benedito, de Conceição da Barra.

Para se ter ideia da dimensão desse novo estrago no folclore do norte do Estado, são, aproximadamente, cerca de 380 igrejas operando na região, com maior presença em São Mateus e Conceição da Barra, onde, coincidentemente, concentram-se, também, as maiores manifestações de folclore do norte do Estado. Dados em poder da própria Igreja Católica dão conta de que, nos últimos 10 anos, a população de católicos caiu de 78% para 47%, crescendo o número de agnósticos: 21%.

Além dos prejuízos debitados na centenária cultura popular da região, não se pode deixar de consignar a derrota sofrida pela poderosa Igreja Católica. Pois, em matéria de adeptos, as igrejas evangélicas caminham para suplantar os católicos. Uma situação que mexeu inclusive com a estrutura da diocese de São Mateus, que trocou um bispo italiano por um negro, adequando-se à região, pois nela a população negra é muito superior à branca.

A escalada de conquista na região se dá por diferentes métodos. As igrejas mais tradicionais, como o caso da Batista, se fazem presentes dentro dos seus cânones, sem correr atrás ou abrir combate ao folclore. Enquanto ela foi rival da católica, na companhia da Pentecostal, travou-se sempre o bom confronto. Elegante. Mas, com a chegada das novas, com os seus deuses aterrorizantes, a situação mudou. Ganhou outra proporção. Os brincantes do folclore são apresentados como se fossem demônios e os pastores com palavras como armas, como se fossem pistolas automáticas.

Demonizaram também os santos da Igreja Católica, principalmente São Benedito. As novas igrejas, com diferentes nomes, foram surgindo com assédio permanente, indo além do templo, às casas. O êxito foi de tal monta que as mais organizadas, como a Assembléia de Deus, foram crescendo em adeptos e no patrimônio também. A igreja dessa crença em São Mateus é maior e mais rica do que a dos católicos.

Já as de denominações mais recentes foram tendo êxito no corpo-a-corpo e ganhando adeptos nos bairros periféricos das cidades. Elas foram as que mais arregimentaram seguidores, impondo uma linha sectária. Criaram o devoto sectário, o que não deixa de ser um fundamentalismo explicito.

Tornou-se comum na região norte encontrar manifestações folclóricas que perderam integrantes para essas igrejas. Houve casos de Reis de Bois que acumularam perdas que resultaram no fim do grupo. Outro ponto a considerar é que também segurou quadros novos que normalmente integram o grupo quando chegam à idade ideal.

Os tambores de São Benedito, que há anos circulam pelos bairros periféricos e vilas em busca de esmola para a festa do santo em suas comunidades, diminuíram. Os que ainda arriscam, como o que o repórter encontrou nas imediações da sede do município de Conceição da Barra, não têm mais o êxito de antigamente. Poucas são as casas que hoje se abrem para o seu ritual, que consiste em a dona da casa receber o oratório com o santo e percorrer as dependências da casa, abençoando-a. Em troca, ela coloca no oratório a sua esmola.

De seus roteiros: o São Benedito, do lado do Espírito Santo,  esmola no sul da Bahia, e o do sul da Bahia faz o mesmo no Espírito Santo,  para arrecadar fundos para a sua festa na Bahia. Ele tem como instrumento principal um tambor bem rústico, diferente de todos os demais, e toca acompanhado de um violeiro (que pode ser substituído pelo sanfoneiro) e dois tocadores de pandeiro. Viaja com o grupo um gerente que toma conta das esmolas e trata das hospedagens. Pois o grupo, onde se hospeda para passar a noite, toca o que eles chamam de samba. O dono da casa tem o direito de convidar amigos e vizinhos para dançar o samba de São Benedito. Um privilégio.

Esse que foi encontrado veio de Nova Viçosa, na Bahia, e já viajava há 18 dias. De ônibus ou de carona. Geralmente são trabalhadores rurais e pequenos proprietários. O que os une é a devoção ao santo. No seu trabalho ficam outros devotos e nas propriedades, também. Não há prejuízo para os seus familiares.

A indiferença ao tambor de São Benedito aponta para a realidade de que a Igreja Católica deixou os integrantes do folclore sem força religiosa suficiente para resistir a um assédio dessa natureza, que, embora lide também  com crença. Pois o folclore também foi vítima de perseguições dela. E que vem lá de trás, quando a Igreja Católica destruiu a principal religião dos negros, a Cabula - trazida pelos escravos da África. Cabula que rejeitou o sincretismo religioso, como ocorreu com as demais religiões de origem afro. Foi tenazmente combatida, a ponto de a Igreja Católica conseguir que o governo adotasse medidas policiais para acabar com ela. Diversos contingentes policiais foram deslocados para os sertões de São Mateus e Conceição da Barra para assassinar os seus cabuleiros. E assassinaram.

A cabula atravessou o Século XIX e entrou pelo Século XX. Importante na cabula foi que ela se manteve no seu original. Seu Deus chamou-se Baculo. Não aceitaram mudar, como ocorreu com as demais. O seu ritual foi sempre em afro. Assim ele existiu, assim foi exterminado. O que não aconteceu com as demais religiões. E com o folclore também. Pois no Ticumbi vence sempre o rei cristão contra o rei pagão. No Alardo de São Sebastião, idem.

Mesmo com tanta concessão da parte do folclore, as discriminações foram grandes. Especialmente ao tempo dos padres italianos, com os seus preconceitos contra os negros. Evitaram sempre que São Benedito tivesse lugar de destaque nas igrejas. Em Itaúnas, onde ele era forte, a ponto de o seu principal fazendeiro presentear a igreja com uma imagem de São Benedito, o barão de Thimboy, na hora da substituição do padroeiro por ele, que era São Braz, a igreja interferiu e escolheu um santo guerreiro e de branco, São Sebastião.

Na sede do município de Conceição da Barra, essa discriminação a São Benedito ocasionou a expulsão da paróquia pelos brincantes de um padre italiano de nome Regatieri. Ele não abria a igreja para que os brincantes pudessem homenagear São Benedito. E ele não foi o único. Outros também procederam da mesma maneira, obrigando o Ticumbi a construir uma igreja própria para o santo. Recentemente essa igreja voltou para as mãos da diocese, numa manobra que consistiu em criar uma irmandade para São Benedito, quando passaram a imperar integrantes da elite barrense e de cor branca, mas que se dizem também devotos de São Benedito.

São novas concepções de poder que estão chegando, criando novos conceitos sociais e religiosos, e que têm como alvo a cultura popular. Cultura que andou séculos sob o fogo da Igreja Católica, andando agora sobre a fogueira do fundamentalismo evangélico, que incendeia o Espírito Santo.



Comente essa notícia

O espaço de comentários do jornal eletrônico Século Diário tem como objetivo estabelecer um canal de interatividade com o nosso leitor, sempre bastante crítico e atento aos acontecimentos que se destacam no noticiário capixaba. Esclarecemos que este é um espaço democrático e livre para críticas, desde que o leitor respeite algumas regras básicas estabelecidas por este veículo de comunicação. Reservamos-nos ao direito de não publicar comentários ofensivos, xingamentos e que contenham teor discriminatório ou criminoso.

Nome Profissão:
E-mail Cidade Estado

Comentário Máximo de Caracteres permitidos:

Você já digitou caracteres.


| +Comentários

 JOEDIR FRANCISCO DE SOUSA, FUNCIONÁRIO PÚBLICO (Vitoria/ES)
Enviado em 24/1/2010 09:43:42

gostei muito da reportagem, parabens: esse crescinto do Evangélico se dá de forma muito simples para o entendimento daqueles que mal sabem ler, mais distinqui o bem e o mal. Só aqueles considerados inteligente, críticos profissionais lideres católicos, arcaicos, desesperados com o crescimento das denominações evangélicas por não conseguirem mais dominar, enganar o povo como faziam no passado com crentices que não leva a eternidade descrita no livro da vida que é a Biblia. Hoje, não há escravos religioso, as pessoas por mais rude que seja escolhe o que deve seguir, burros são aqueles que tentam usar o nome estrago, revés, o povo esta enganado para criticar as denominações evangélicas. abraço.

 Fernando Magno, (Vitória/ES)
Enviado em 25/1/2010 08:53:06

Excelente a matéria. Estamos vivendo o terror do fundamentalismo evangélico. E Zaratustra que viveu no século VII a.C, não permitiu culto à sua personalidade. Ele foi o primeiro, muito antes dos "iluminados" a propor um Deus único, dizia que a conquista do "céu" dava por boas ações e não sacrifício de animais. E alertava: “A oportunidade de praticar o mal aparece cem vezes por dia e a de praticar o bem uma vez por ano; que é melhor correr o risco de libertar um culpado que condenar um inocente”. Morreu assassinado a pauladas aos 77 anos por sarcedotes contrários as suas idéias.

 Antonina de Sales, Educadora Ambiental (Sete Lagoas/MG)
Enviado em 25/1/2010 09:17:32

Forte e real esta matéria.Imagine isso replicado pelo País inteiro; junte-se a fragilização da língua portuguesa sob o peso da inglesa. Ainda leio o livro "Os demônios descem do norte",assim que surgir a oportunidade. As informações que tenho é de ele explica este fenômeno da disseminação das religiões (ou seitas?) evangélicas como estratégia de dominação dos EUA sobre o mundo.

 Geraldo, farmaceutico (vitoria/ES)
Enviado em 25/1/2010 10:07:48

essa materia mostra a propria evolucao, pois as pessoas vao aos poucos entendendo que elas podem sim mudar de vida, de religiao, e que elas devem procurar a verdade, a paz pra elas.. e nao vejo problema algum nessa mudança cultural, assim como a materia fala que a religiao africana é uma "cultura local", a religiao catolica e evangelica vai se tornando a cultura moderna da regiao norte. o Povo vai se instruindo e vai deixando de seguir regras impostas por civilizacoes arcaicas e escravistas.

 João Augusto Faria dos Santos, Advogado (Cachoeiro de Itapemirim/ES)
Enviado em 25/1/2010 10:45:56

Caro Rogério, sou negro e evangélico, porém, acho que a "preocupação" do branco com a preservação do folclore dos afrodescendentes é também uma forma de dominação. Acho muito mais pertinente o negro hoje ocupar lugar na universidade, bem como nos centros de decisão da nossa sociedade. Como dizia Arnaldo Antunes: "A gente não quer só comida..."

 Pirilampo, (/ )
Enviado em 25/1/2010 13:48:04

Parabéns ao SD pela matéria. Belo resgate. E ainda assim insistem em não ver a gritante diferença de dificuldades impostas aos negros, desde o Brasil colônia até os dias de hoje, em pleno século 21. Isso não é lenda, peninha ou exagero poético...é fato!!! Insistem no discurso covarde (para dizer o mínimo) da "igualdade" e da "meritocracia". O maior mal do Brasil é a falta de equidade. Isso sim! Mas..... este ano tem eleição e.... no balanço das horas tudo pode mudar. Sds

 paulo, funcionario publico (guarapari/ES)
Enviado em 25/1/2010 15:10:11

È lamentavel este tipo de texto, a pretexto de defender o folclore, que não leva o homen a lugar nenhum, o povo evangélico é discrimido sendo considerado um povo de segunda classe. Extremamente preconceituoso. Ao autor da matéria, digo que graças a Deus o Evangelho biblico está sendo pregado e pessoas estão largando suas crendices e conhecendo um Deus vivo e real que transforma o homem em uma nova pessoa, libertando-os das supertições e de deuses que nada podem fazer por eles. Querido autor, conheça o evangelho biblico, pois é poder de Deus para aqueles que creêm em Jesus Cristo, o nome que é sobre todo o nome, TODO O NOME EU DISSE! E todo o joelho se dobrará diante dele e confessará que Ele é o Senhor para glória de Deus Pai.

 Mauro Ribeiro, Funcionário Público (Vitória/ES)
Enviado em 25/1/2010 16:21:42

Pelo visto a humanidade tem muito que evoluir para alcançar o Deus que muitos pregam, a dominação começou por aqui quando os portugueses viram o mito do paraíso na terra, quando encontraram os índios que aqui viviam nus e em comunhão com a natureza. Hoje a expansão da crença evangélica está fechando os olhos para a realidade do país, com a adoração cega e prometendo a salvação. Há pouco tempo tive problemas em uma Creche do Município de Vitória em que a uma diretora evangélica, recusou a realizar festas juninas por ser tratar de adoração a santos. Fé e crença com radicalismo somada à ignorância pode gerar uma sociedade sem futuro e sem referencias. Eu que sempre tive um Deus de amor no meu coração, jamais imaginei que identidade de meu povo poderia ser perdida por conta daqueles que destorcem tudo em proveito próprio. O Ticumbi, boi bumbá, congo, carnaval e muitas manifestações não sucumba na ignorância teológica.

 Vinicius Ricas de Farias, Estudante (Vitória/ES)
Enviado em 27/1/2010 02:20:59

E esse assédio sobre a cultura popular não acontece apenas no norte do estado, é uma pena!

 Cristian, Desenvolvedor de Sistemas (Florianópolis/SC)
Enviado em 28/1/2010 02:34:50

Meu caro, é lamentável ler uma notícia desta. Infelizmente os evangélicos estão sendo tratados como um nicho diferente das outras pessoas. Muitas vezes um subgrupo, alheio aos bons costumes da sociedade. Antes de sair criticando e escrevendo uma matéria assim, pergunte às pessoas/famílias convertidas o que mudou na vida delas após a conversão. Cultura, folclore são meros costumes, hábitos de cada povo e eles MUDAM. Infelizmente só "não devem" mudar quando tem evangélicos no meio. Uma pena a sociedade moderna subverter a visão cristã deste jeito. NUNCA se leu na bíblia que o povo deve ser ignorante, pelo contrário, ela ensina que deve ser sábio e cheio de conhecimento. Não faça parte desse conluio existente hoje, que tenta a qualquer custo segurar o crescimento evangélico. NUNCA se ouviu falar de uma denominação que tenha obrigado seus membros a frequentar a igreja. Ser crente é uma decisão de cada um, que aliás é uma árdua tarefa, apesar do que mídia nos diz ou induzem a pensar de que as igrejas são meras arrecadadoras de dinheiro. Existem pessoas mal intencionadas SIM. Não generalize. São milhões de pessoas/cidadãos/evangélicos que estão sendo ofendidos. Respeite a fé de cada um.

 Cristian P.J., Desenvolvedor de Sistemas (Florianópolis/SC)
Enviado em 28/1/2010 02:36:32

Meu caro, é lamentável ler uma notícia desta. Infelizmente os evangélicos estão sendo tratados como um nicho diferente das outras pessoas. Muitas vezes um subgrupo, alheio aos bons costumes da sociedade. Antes de sair criticando e escrevendo uma matéria assim, pergunte às pessoas/famílias convertidas o que mudou na vida delas após a conversão. Cultura, folclore são meros costumes, hábitos de cada povo e eles MUDAM. Infelizmente só "não devem" mudar quando tem evangélicos no meio. Uma pena a sociedade moderna subverter a visão cristã deste jeito. NUNCA se leu na bíblia que o povo deve ser ignorante, pelo contrário, ela ensina que deve ser sábio e cheio de conhecimento. Não faça parte desse conluio existente hoje, que tenta a qualquer custo segurar o crescimento evangélico. NUNCA se ouviu falar de uma denominação que tenha obrigado seus membros a frequentar a igreja. Ser crente é uma decisão de cada um, que aliás é uma árdua tarefa, apesar do que mídia nos diz ou induzem a pensar de que as igrejas são meras arrecadadoras de dinheiro. Existem pessoas mal intencionadas SIM. Não generalize. São milhões de pessoas/cidadãos/evangélicos que estão sendo ofendidos. Respeite a fé de cada um.

 , (/ )
Enviado em 28/1/2010 02:44:34

Meu caro, é lamentável ler uma notícia desta. Infelizmente os evangélicos estão sendo tratados como um nicho diferente das outras pessoas. Muitas vezes um subgrupo, alheio aos bons costumes da sociedade. Antes de sair criticando e escrevendo uma matéria assim, pergunte às pessoas/famílias convertidas o que mudou na vida delas após a conversão. Cultura, folclore são meros costumes, hábitos de cada povo e eles MUDAM. Infelizmente só "não devem" mudar quando tem evangélicos no meio. Uma pena a sociedade moderna subverter a visão cristã deste jeito. NUNCA se leu na bíblia que o povo deve ser ignorante, pelo contrário, ela ensina que deve ser sábio e cheio de conhecimento. Não esqueça que a liberdade religiosa é um direito assegurado pela constituição. Respeite a fé de cada um.

 Mário, (/ )
Enviado em 28/1/2010 09:43:30

Lamentável a posição jornalistica. Confundir folclore com práticas demoníacas é irracional. O jornalista precisa se informar mais, os evangélicos, católicos e todos os que pregam a palavra de Deus são muito mais úteis na sociedade do que qualquer pseuda manifestação folclórica. O que está por trás do "folclore" é que é perigoso. Isso sim é engano.




Leia também nesta edição

    © 2009 Século Diário, Design: - C O P R O S

    · Contato · Fale conosco · Expediente ·