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Século Diário
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| Maciel de Aguiar
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Chico Pombo
O Arrulho pelas ruas da Cidade
À
memória do farmacêutico
Roberto Arnizaut Silvares,
que desde criança se emocionava
com a história de Chico Pombo,
um ex-escravo que arrulhava
pelas ruas da aristocrática
e escravista São Mateus,
e que ficou em suas lembranças
como uma dor eterna.
A história de Chico Pombo - um ex-escravo que após ser alforriado andava pelas ruas de São Mateus arrulhando feito um pombo - está ligada a um dos mais perversos crimes praticados na região, quando uma sinhazinha se apaixonou por um escravo de propriedade de seu pai, inscrevendo-se na páginas das histórias dos amores impossíveis com uma versão popular recheada de ódio, perseguição e crueldade jamais vistos em toda a região do Vale do Cricaré.
O farmacêutico Roberto Silvares - que recebera o ofício do pai e que durante meio século manteve uma farmácia na Ladeira do Ricardo, também conhecida como São Gonçalo, que ligava o Porto à Cidade Alta - perdia horas relembrando o que ouvira dos mais velhos, notadamente dos "pretos antigos, ex-escravos que vinham consultar-se e, na puxada da conversa, acabavam contando o que sabiam sobre os casos ocorridos na espreguiçadeira, sempre rodeado de amigos e correligionários. "Pode ser que nem tenha acontecido desse jeito, mas o povo falava com convicção sobre o acontecido, e Chico Pombo viveu muito tempo arrulhando pelas ruas, como uma prova irrefutável", afirmava.
Fala a história que um fazendeiro muito rico, chamado Manoel Francisco dos Santos - proprietário de uma sesmaria de terras e "uma centena de escravos"-, havia chegado da Bahia no princípio do século XVX, quando São Mateus "florescia no cenário do país como um dos maiores produtores de farinha de mandioca", e instalou, mucamas e a única filha do casal, de nome Esmeralda. "Dizem que era uma moça que fazia jus ao precioso nome da pedra, prendada, pronta para esposar um daqueles sinhozinhos escolhidos pelos senhores para ser o seu marido, como de costume", dizia Roberto.
Os negócios do pai iam muito bem, produzia farinha e vendia para várias cidades do país, faltava-lhe um genro, de preferência, "um moço vistoso, também rico, para que pudesse continuar dando à sua filha a mesma segurança e o mesmo conforto que recebia do pai".
O fazendeiro, quando vinha do Porto, para o embarque de sua produção, fazia questão de vistoriar tudo, saco por saco, enquanto os navios esperavam a maré cheia para seguir viagem até à embocadura da Barra e ganhar o mar.
Nessas vindas trazia, vez por outra, a jovem Esmeralda, "acho que até mesmo para exibir os dotes belos da moça e, quem sabe, conseguir-lhe um bom partido, entre os sinhozinhos ricos da cidade", arriscava Roberto.
O certo é que a bela Esmeralda não tinha olhos para os sinhozinhos, pois de tanto vir ao Porto com o pai - observando aqueles catraieiros de músculos salientes e fortes carregando na cabeça os sacos de farinha - apaixonou-se por um negro alto, jovem, dentes brancos como a alvura do leite, sorriso largo. Parecia um rei de ébano, que passava à sua frente servindo ao pai com dedicação e prazer. O suor escorrendo pelo corpo liso fazia sua pele de negritude brilhar ao sol e aos olhos da jovem e bela Esmeralda. A goma da farinha caindo-lhe sobre o dorso nu fazia ressaltar os seus músculos e sua força na "pisada firme, levando ora na cabeça ora sobre o ombro aquelas sacas de farinha, produto da fazenda do abastado senhor", enfatizava Roberto.
Um outro negro, escravo de confiança do fazendeiro, acompanhava a sinhazinha por todos os lugares e era por ela chamado por Chico, mas na certidão de compra e venda constava o nome de Francisco Onorato, que estava sempre atento aos desejos do fazendeiro e de sua bela filha passeando pela praça do Porto, sob a proteção da sombrinha contra o sol escaldante das tardes de verão.
Chico logo desconfiara dos olhares da sinhazinha para o jovem negro catraieiro, acompanhava-os com os olhos no sobe-e-desce da rampa do navio, incansável em sua força privilegiada e seu porte. Aquele negro também se apercebeu dos belos olhos da sinhazinha procurando sempre por sua negritude, mas seria muito arriscada qualquer insinuação, um sacrilégio, um negro de flerte com a filha do senhor de escravos, pronta para desposar um daqueles filhos dos outros senhores, "gente endinheirada e possuidora de muitos bens", testemunhava o mestre Zoroastro Valeriano Rodrigues.
Mas, com a cumplicidade do escravo Chico Onorato, talvez fosse possível mandar-lhe "uns gracejos, umas palavras de elogio à sua beleza, tão cativante", mas o medo do senhor, na contagem das sacas de farinha sobre a rampa de pedra do cais, anotando num caderno o carregamento precioso de sua fazenda, intimidava o negro e impossibilitava qualquer tentativa.
O tempo se encarregou de solidificar essa paixão, só visível em seus olhares e na "cumplicidade de Chico Onorato, que tentava em vão, desde o início, tirar da cabeça da sinhazinha aquele amor impossível entre os dois". Parecia que Chico estava adivinhando que suas vidas seriam marcadas para sempre, fruto da impossibilidade, do preconceito e do ódio alimentado pelo fazendeiro, após a descoberta do caso.
Mas nada podia demovê-la da vontade de olhar para aquele negro forte, que "reluzia ao sol como um deus africano", e ele a essa altura já retribuía os olhares sem temer a ameaça permanente da presença do senhor, na contagem das sacas de farinha de mandioca.
Dizem que o fazendeiro já havia "apalavrado a mão de sua bela filha para um sinhozinho, filho de um grande comerciante, gente da Corte, no Rio de Janeiro, que ela nunca tinha visto de se olhar ou de se pegar", lembrava Zoroastro Valeriano. Tinham até data para o noivado, e "um ano depois vinha o casamento, na fazenda da moça, com uma festança pra ninguém botar defeito", afirmava.
Muitos outros sinhozinhos da cidade, encantados com a sua beleza, tentaram o "comprometimento do pai, mas como seu interesse era muito maior, preferiu o moço da Corte, gente grã-fina e com possibilidade de pedir ao Imperador um título de Barão da Farinha para atender aos seus anseios de riqueza e poder", justificava Roberto Silvares.
A vida daquela jovem era cercada de zelo e cuidados, estava sendo educada para ser uma esposa "submissa, prendada, parideira e fiel ao seu marido", como bem estabeleciam os princípios da organização familiar da aristocracia rural da época. Ela seria "tão escrava quanto aquele negro que brilhava ao sol, carregando as sacas de farinha na cabeça", sem que lhe fosse permitido escolher o seu amado e muito menos viver a sua vida em liberdade. Os dois se pareciam muito na ansiedade e no sofrimento, pois ambos não podiam ser donos da própria vontade, não escolhiam seu destino, não deviam fazer parte de seus anseios os mais ternos sentimentos que traziam no coração.
Guardadas as proporções, ambos eram escravos do mesmo sistema senhorial, que estabelecia as normas obedecendo os critérios da dominação dos mais fracos e dos menos favorecidos pela sorte. Não havia uma grande diferença na forma de escravidão entre os dois, eram escravos do interesse pelo poder, do capital, do sistema autoritário e cruel que a todos dominava com indisfarçável crueldade.
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