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Século Diário
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| Maciel de Aguiar
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Salvino Rodrigues
O Jongo de São Benedito
À memória
de Viriato Canção-de-Fogo,
Beatinho de São Benedito,
Júlio Tamanco,
Dona Vitória Rios e
Salvino Rodrigues,
que pelos séculos
mantiveram o Jongo
como um canto de
liberdade e devoção.
Dentre as tantas manifestações populares que resistem ao tempo na imensidão do Vale do Cricaré, arrebanhando incontáveis adeptos e admiradores, destaca-se o Jongo de São Benedito - tradicional folguedo remanescente dos séculos de escravidão, quando os negros, nas senzalas, cantavam e dançavam ao som dos tambores e das músicas cujas letras falavam de seus sofrimentos, anseios e esperanças, mas que eram ininteligíveis aos ouvidos dos seus senhores.
O Jongo teve um papel importante na preservação de informações advindas da África distante e que eram passadas aos nascidos brasileiros, mantendo, assim, os laços culturais com a pátria-mãe, além de difundir e caracterizar a raça negra pela sua musicalidade e, sobretudo, pelo prazer de se divertir e comemorar os dias santificados, extravasando o sentimento de liberdade, religiosidade e esperança.
Por aproximadamente trezentos anos, o Jongo foi responsável pela diversão permitida aos negros, mesmo que suas letras, cujas alusões denunciavam as atrocidades impostas pelo sistema escravocrata, fossem cantadas nas praças públicas, nas senzalas ou nos quilombos no meio da mata, visto que aos ouvidos dos feitores, capatazes ou dos donos de escravos, ressoavam sempre como "uma música de gente atrasada, que repete sempre a mesma coisa, cantando versos que nem eles mesmos entendem o significado", diziam dos negros os senhores de escravos ao verem o Jongo passando pelas ruas, quando a aristocracia rural do Vale do Cricaré dava sinais de empobrecimento.
Entender a música do Jongo durante os anos da escravidão parecia coisa impossível para os brancos, "purquê no tempo do cativêro ainda se cantava na língua dos africano, só mesmo os véio que intendia, os branco ficava procurando discubrí, até que proibiro o Jongo cantado em nossa língua; só era permitido que se cantasse na língua dos branco pra que eles soubesse o que os escravo tava cantando", dizia Salvino Pereira Rodrigues, um negro festeiro, considerado um dos maiores batedores de tambor da região, descendente direto de ex-escravos que pertenceram a uma das mais tradicionais famílias do Vale do Cricaré: os Andrades.
Salvino, desde criança, havia se interessado pelo Jongo, "tirava marcha de rua, tirava roda, tirava canto de batuquinha, mas gostava mesmo era de um tambô, ficava a noite intêra num batuque, num tinha vontade de saí, era minha diversão, parece que aquilo vinha de dentro de mim, quando entrava num podia mais pará, ia até o outro dia, no Jongo", dizia.
Durante a escravidão, a aristocracia rural de São Mateus havia sido surpreendida por inúmeras ações revolucionárias comandadas por negros fugidos que se aquilombavam nas matas frondosas, atemorizando os fazendeiros, libertando escravos e, sobretudo, anunciando o "dia da libertação". Esse dia havia sido tentado em várias ocasiões a partir de 1870, nas diversas investidas empreendidas, principalmente nos dias das festas populares, "quando os nêgo vinha pra cidade comemorá o santo da devoção, mas cada um tinha o sintido no grito de liberdade que pudia vim de qualqué lugá; diz os antigo que muitas festa fôro proibida, e tombém muitas brincadêra, purquê os branco tinha medo de acontecê um banho de sangue, ia morrê muita gente que devia e que num devia", dizia Salvino.
Nesse longo período, "o Jongo era a única brincadêra permitida, pois tinha só tambô, num tinha ispada, num tinha facão, num tinha musquetão, era só cantá e dançá, mais tinha que sê na língua dos branco pra não tê ninhuma trama de fuga ou de arrevanche", falava.
Muitas tentativas de libertar os escravos haviam fracassado em São Mateus nas várias ações praticadas por revolucionários negros em luta permanente contra o sistema escravocrata. "Era sempre com a mesma combinação, quando o povo sabia que tinha uma festa de Sant'Ana, de São Binidito ou de São Brás, ficava todo mundo aprevinido, pudia havê qualqué apercebimento de guerra, mas de guerra travada, não de guerra combinada, por isso que acabaro com as brincadêra do Alardo de São Brás, com a Marujada de Nossa Senhora de Sant'Ana e com o Baile de Congos durante o cativêro. Essas brincadêra só pudero se apresentá despois da Abolição da Escravatura, mesmo assim não foi logo logo não, foi muito tempo despois, creio que só uns vinte ano despois da Lei Aura, os preto tinha medo de sê preso", falava Salvino.
O certo é que o Jongo - como não oferecia perigo aparente aos senhores, sobretudo em função da não existência de espadas, facões ou armas de fogo - era permitido como "uma diversão vigiada, ninguém pudia se arriscá num verso meio fora de linha que tinha logo um feitô dizendo que o jonguêro pudia ir pros ferro. Por isso naquele tempo as brincadêra do Alardo, do Baile e da Marujada tinha acabado, e foi logo despois que os sordado acabaro com o Quilombo de Nêgo Rugério, lá no Povoado de Sant'Ana", acrescentava.
Mesmo com essa "diversão vigiada", o Jongo pôde ser a única forma de comunicação entre os negros aquilombados pelas matas e os da cidade, "quando o tambô andava pidindo adijutório pelos mato, pra festa de São Binidito, que era uma coisa muito antiga, bem antes da Igreja Católica proibí; o Jongo cantava na música o recado que os nêgo pricisava sabê, por isso que até hoje muita gente não intende o que o Jongo tá cantando; é que isso vem do tempo do cativêro e só os escravo sabia intendê cada verso cantado", lembrava.
Na verdade os negros, ao verem suas manifestações culturais proibidas, principalmente os folguedos simbolizando lutas entre nações africanas e a capoeira, utilizaram-se da musicalidade e da dança permitidas pelos senhores, que eram praticadas por um agrupamento de negros que andavam pelo interior dos municípios de São Mateus e de Conceição da Barra "tirando adijutório pra festejá o glorioso São Binidito", agrupamento que ficou popularmente conhecido como Tambor.
O Jongo era a música e a dança que acompanhavam o Tambor de São Benedito em suas andanças para conseguir os recursos necessários aos festejos de 27 de dezembro, mas "tombém era imprestado pra arranjá adijutório pras festa de outros santo, como Nossa Senhora de Sant'Ana e São Brás", lembrava Zoroastro Valeriano Rodrigues, principal mestre da Marujada, conhecido como o "Soberano Imperador da Mauritânia".
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