Edição Atual | Edições Anteriores | Revista Século | Expediente | Fale Conosco ----------------------


Século Diário

Primeira Página

Colunistas

Opinião

Caderno 2

Augusto Ruschi

Reportagens Especiais

Partidos do ES

Mosteiro Zen

Folclore do ES

Etnias do ES

A Saga Negra do ES

Veículos

Bichos do ES
 
Maciel de Aguiar

Dançar e cantar o Jongo, acompanhando o Tambor de São Benedito pelas ruas da cidade ou pelo interior, era a única forma de diversão para os escravos, visto que, para os senhores, não havia risco de revolta, possibilidade admitida apenas às "brincadeiras" e festas que utilizavam-se de espadas e facões pro "apercebimento de guerra", como o Alardo de São Brás e o Baile de Congos. Com essa "diversão permitida" o Tambor pôde difundir o Jongo "por tudo quanto era lugá, no grotão da mata virge, nos beco, nas rua, nos quilombo, onde tivesse nêgo sambando tinha na boca a música do Jongo, e nos pé a dança preferida deles", contava Salvino.

Essa ligação do Jongo com os que buscavam a libertação dos escravos, valendo-se da música cantada quase de forma ininteligível aos ouvidos dos brancos, pode escrever páginas de muitos acontecimentos de grupos de negros que saíam com o Tambor de São Benedito anunciando festas e difundindo os anseios de liberdade amalgamados no sentimento de cada um daqueles negros, que viviam sob as rigorosas ordens de seus senhores.

Na época da escravidão "os verso do Jongo tinha coisa que nem nóis mesmo muito tempo despois pudia sabê do que se tratava, falava de lavá os pé na água limpa, de andá na ponta do pé, de prepará o pó de amansá o sinhô e de passiá pela ribêra. Nóis pricisava perguntá aos véio o sintido de cada coisa, tudo tinha um sintido, os branco nunca conseguiro discubrí, penso que eles achava que o Jongo era só uma dança como eles dizia, que era uma dança atrasada, de gente atrasada, gente nêga que nem sabia o que tava cantando", afirmava Salvino.

Com isso o Jongo pôde armazenar informações em suas músicas, que serviam para orientar os que lutavam em defesa da libertação dos escravos, particularmente os jovens abolicionistas e os negros aquilombados. Houve, também, outras tentativas de passar informações utilizando-se do grupo Barabandi, uma espécie de toada somente encontrada entre os africanos oriundos de Cabinda e Benguela, em Angola, e que tinha nas suas quadras um código secreto de fuga e de lutas pela libertação:

Ô Luanda maçangana,
ô pretinho de Guiné,
ô de ponta de pé, ô de carcanhá,
ô de ponta de pé, ô de carcanhá!...

Na noite de lua grande
na boca do corgo fundo,
no dia da Senhora Sant'ana
quero ir imbora desse mundo!...

O sinhô tá discansando
dibaixo do canaviá,
é hora de passá o sebo
nas canelas no quintá!...

Amansa o sinhô nho-nhô,
amansa o sinhô ia-iá,
que ele já pegô no sono
de tanto pó de amansá!...

O "pó de amansá" era um veneno extraído da cabeça da cobra Preguiçosa, "socada e torrada e colocada aos pouco na cumida do sinhô", e quando ele morria os negros comemoravam cantando o Barabandi com versos que falavam sobre os maus tratos sofridos e, sobretudo, das vinganças que eram praticadas contra seus senhores. Barabandi e Jongo traziam, assim, em suas melodias versos que passavam despercebidos do sistema escravocrata, criando uma corrente de conspiração e informações que, através da música aparentemente "feita por gente atrasada", chegava aos ouvidos dos negros, orientando-se sobre os acontecimentos.

O Jongo, em sua musicalidade contagiante, trazia em seus versos, "de passiá", "de roda" ou "de batuquinha" informações vitais para a concretização de fugas e denúncias dos maus tratos:

O galo já cantô bem cedo,
levanta que chegô a hora,
Capitão-do-Mato tá durmindo,
não chora por mim, não chora!...

O chicote cumeu no lombo,
coitado do nêgo fujão,
mais vale tentá fugí
que vivê na provação!...

Nos quilombos, os negros podiam dançar e cantar livremente as suas quadras, sem o perigo dos ouvidos dos senhores, deixando claro que valia a pena tentar a fuga a viver eternamente humilhados, sofrendo os constantes castigos sem terem cometido crimes, quando muitos eram surrados para servirem de exemplo aos outros. "Então era priciso cantá, que já que ele ia apanhá que apanhasse tentando fugí, tentando libertá os cativo", dizia Salvino.

O negro achava que, "se ficasse aceitando o chicote do sinhô, ele ia passá a vida toda apanhando, então era priciso tentá a fuga pros mato, onde vivia outros nêgo em liberdade nos quilombo. Se o Capitão-do-Mato pegasse ele e trouxesse de volta pra fazenda, ele ia apanhá na frente de todos, mais se não fugisse ele tombém ia apanhá pra sirví de exemplo; então era melhó tentá fugí", afirmava.

E o Jongo dava essa orientação, em sua forma quase ininteligível aos brancos, que não conseguiam entender "ao menos uma palavra". Com isso, o folguedo sobreviveu nesses longos anos de escravidão como uma "dança ou música de gente atrasada", que não oferecia perigo aos donos de escravos.

Mas, segundo Salvino, "esse Jongo da época da escravidão não mais é cantado, pois despois da libertação não tinha mais necessidade de fazê o nêgo fugí das fazenda, já tavam liberto; então o Jongo comecô a cantá a devoção do povo, fazê a Festa de São Binidito, ajudá na festa do santo dos outro lugá de muita pricisão, e ficô assim até os dias de hoje".

< < < Anterior | Principal | Próxima > > >

Primeira Página | Colunistas | Opinião | Caderno 2 | Augusto Ruschi | Reportagens Especiais | Partidos do ES
Mosteiro Zen | Folclore do ES | Etnias do ES | A Saga Negra do ES | Veículos | Bichos do ES
Edições Anteriores | Revista Século | Expediente | Fale Conosco

Século Diário responde pelo que publica: redacao@seculodiario.com - (0xx27) 325-3944
Século Diário Copyright© 2000 - 2002. Design by Gustafah Copyright© 2000 - 2002. Todos os direitos reservados.
Proibida sua reprodução total ou parcial.
www.seculodiario.com