| PERFIL HUMANO
E PROFISSIONAL |
Alemão,
grandalhão, talentosíssimo
Homem e
artista em grau superlativo
Érico
Hanschaild, fotógrafo fiel ao amor que dedica à sua querida Leica
Rogério
Medeiros: texto e fotos
Quando ele chegou ao pequeno auditório do
Museu de Arte do Espírito Santo, no Centro da cidade de Vitória, já iam longe os
relatos dos seus companheiros de Fotoclube sobre a fotografia no Estado. Foi uma emoção
o reencontro dele com velhos e queridos companheiros, ainda dos idos 40. Fazia 30 anos que
não se viam. Foi a festa dos vovôs da fotografia. Vovôs no bom sentido, pois se
encontrava naquele recinto a geração dos melhores fotógrafos do Espírito Santo.
Magid Saad, Quintas, Pimenta, Paulo Bonino,
Marinho Carlos, Jorge Sagrilo e Antonio Carlos (os dois últimos eram dentes de leite do
grupo), fora os que se foram deste mundo, como Rebouças, Reblin, Manoel Martins, Roberto
Viana e o sempre lembrado e celebrado Pedro Fonseca, reconhecido como o maior fotógrafo
capixaba. Mas o nosso personagem neste celeiro, que provocou todo esse reboliço de afeto,
é outro: Érico Hanschaild.
Um alemão grandalhão, quase dois metros
de altura, que, aos 84 anos de idade, continua firme na fotografia e fiel ao amor que
dedica à sua querida Leica 3-A (uma câmera fotográfica de procedência alemã) cujo
modelo juntou-se a ele há 54 anos. Esse seu amor pela fotografia acabou custando-lhe
muito caro: a família e o dinheiro. Há, inclusive, quem diga, como o amigo, escritor e
jornalista Eliezer Nardoto, que volta e meia ele é surpreendido trocando palavras
carinhosas de afeto com a sua Leica.
Tem tudo a ver: Érico era considerado no
Fotoclube do Espírito Santo o papa da natureza (a exposição do Fotoclube no Museu de
Arte do Espírito Santo exibe verdadeiras obras-primas dele). Natural do Rio Grande do
Sul, ele chegou ao Espírito Santo por acaso. Morava em Novo Hamburgo e acabara de sair do
Seminário Jesuíta de Santo Leopoldo, quando foi escalado para acompanhar a mãe a
Vitória, para visitar uma irmã que estava prestes a se casar com um capixaba.
Resolveu ficar. Fez um curso de
classificador de café e começou a trabalhar numa empresa de origem americana: Hard Rand.
Depois passou para a Coser. Ele chegou ao Estado em 1941. Junto com Magid e outros, fundou
o Fotoclube, em maio de 1946. "Quando ele chegou já tinha noção de fotografia. Mas
se aprimorou no Fotoclube, onde a natureza era a tendência de todos nós", comentou
Magid Saad, memória viva da entidade que continua a presidir até hoje.
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Uma de suas festejadas
fotos |
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A primeira máquina do Érico foi uma Agfa.
Como era bem de vida na época, resolveu comprar uma melhor. Ouvira falar que era a Leica.
Telefonou para a Mesbla, no Rio de Janeiro, e mandou vir uma. Era um modelo 3-A com uma
lente 50 mm. Mas, como para todos do Fotoclube, a fotografia era uma atividade de fim de
semana. Só que eles iam quase todas as noites à sede do Fotoclube para discutir
fotografia ou jogar uma partida de buraco.
Já Érico, que tinha carro, rodava o fim
de semana por estradas de chão batido, atrás da natureza para fotografar. Tinha
preferência por Guarapari, Marataízes, Vale do Canaã e Itaúnas. As viagens geralmente
eram longas por causa das condições precárias das estradas. Mas não havia estrada ruim
que impedisse Érico de chegar a uma beleza natural para fotografar.
Atrás de uma boa fotografia, ele subiu
muitos morros. O Penedo ele escalou várias vezes e o mesmo fez com o Morro do Moreno. Era
também um grande andarilho. Mas chegou o tempo em que passou a sentir-se infeliz, pois
situações adversas no trabalho passaram a afastá-lo da fotografia. Foi quando resolveu
romper com tudo e fazer uma opção, que estava dentro dele: dedicar-se à fotografia
a que preço fosse.
Esse estalo deu-se em 1977. Partiu para
Nova Venécia. A natureza do norte exercia um imenso fascínio sobre ele. Achava que ela
era coberta de belos lugares naturais. Suas matas e principalmente seus rios. Mas viu logo
que não era Nova Venécia o paraíso natural imaginado. Desceu para São Mateus, onde se
encontra até os dias atuais. Fazendo o que mais gosta: fotografar.
Mas a opção pela fotografia custou caro
demais. Teve que fazer fotos 3X4, casamentos, aniversários, obras e festas da prefeitura,
para poder sustentar sua fotografia. Era o desprazer pagando o prazer de registrar os mais
belos cenários naturais da região. "O Mariricu (um rio) é um paraíso
fotográfico. O Cricaré (rio) é outra beleza, assim como o Guriri (praia)", comenta
ele, sobre suas preferências do lugar, com o repórter.
No início era só foto preto e branco.
Que, com o tempo, substituiu pelo colorido. "Como acabei com o meu estúdio, vendo
com mais facilidade as fotos de natureza, coloridas. E me deixa a continuar sonhando com
um belo pôr-do-sol, uma bela maré no Guriri. Continuo apaixonado pela natureza, uma
paixão que me deu condições de sonhar todos os dias, sem ver o tempo passar, diz num
rasgo de emoção, assim como quem justifica a vida solitária que vive na cidade de São
Mateus (ele mora num modesto cômodo nos fundos da residência de um amigo). Érico
confessa que livrar-se de seu estúdio em São Mateus foi um alívio: "Não gosto de
fotografar gente. Quando faço é em nome da sobrevivência. Mas resisto muito".
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Alguns de seus
trabalhos em exposição |
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Realmente a vida não tem sido fácil para
o velho Érico. Ainda mais agora que perdeu praticamente a audição. Ficou surdo com o
barulho dos trios elétricos, que era obrigado a subir para fotografar para a prefeitura
no carnaval e nas temporadas de férias no Guriri. "Não havia quem não tivesse me
advertido. Mas era um contrato bom e eu estava precisando de dinheiro. O pior é que, na
hora de pagar, a prefeitura achou caro, começou a discutir o preço comigo, demorou a
pagar, e pagou mal pelo serviço. E olha que foram quatro anos de trio elétrico. Até
hoje tenho a zoeira desses trios nos meus ouvidos".
O dinheiro nunca fez parte dos seus
objetivos. Alguns anos atrás ele acertou na Loteria Esportiva. Com o dinheiro do prêmio
construiu uma casa em Itaúnas, ao lado do seu amigo e também fotógrafo Quintas. E
comprou um carro do ano. Arrumou até um casamento. Mas durou muito pouco. O dinheiro da
loteria, que não era pouco, ele andou emprestando a conhecidos e o resto ficou preso com
a medida do Collor confiscando as poupanças". Ah! O casamento, diz ele, "durou
muito pouco, custou caro, e foi um belo de um erro. Não havia paixão, confessa".
O repórter, fã de carteirinha do velho
Érico, tentou mexer na emoção dele com a dica do casamento fracassado: "Não
pintou nesses anos todos uma morena para dividir seu afeto com a Leica?" Sim
ele respondeu, detalhando: "Conheci uma moça quando cheguei aqui em São Mateus. Mas
ela só tinha 17 anos e eu já estava com 60. A distância da idade cuidou de transformar
a paixão numa bela amizade. E quando nos encontramos, geralmente quando ela vem visitar a
mãe, é uma alegria imensa para mim".
Mesmo sem dinheiro, ele continua o
incorrigível amante da natureza, confiante na boa qualidade de suas fotos, proporcionadas
pela sua fiel Leica 3-A. "O paraíso que era São Mateus, quando aqui cheguei, não
é mais o mesmo. Mas a região tem ainda muita coisa para fotografar. É preciso acabar
com os ataques à natureza. Vou continuar andando pelos seus cenários, indo cedo ao
Guriri com a luz do sol e no seu fim de tarde com a suas nuvens refletidas nas espumas do
mar... numa hora dessa a gente sente a presença do Divino junto à natureza e vai embora
com ele em paz".
Assim esperam amigos e admiradores do velho
Érico, em recompensa à vida que dedicou à natureza. |