"Paris vale bem uma missa", dizem os franceses, em
talvez atestado de fé. A frase paira em ares nebulosos: entre nuvens que professam
vapores do fervor religioso, exaltação monumental da cidade e, de ângulo bem apreciado
pelo sarcasmo francês, do somenos a que se deve relegar a questão religiosa.
dito é antigo, do cetro de Henrique IV Paris vaut bien une
messe. Soprou-a ao ouvido do Rei de França sua motivação, puramente devota a interesses
políticos, para converter-se do protestantismo ao catolicismo. Os hereges que somos, vez
a vez nos acomodamos à transigência de sua lição. Se a lagoa é bela, não custa
engolir o sapo.
Já os dias de disputa pela posse da Serra dos Aimorés, mais os
endereços vizinhos, não eram afeitos a transigir, a aceitar cardápio de lagoa. Nem
sequer os religiosos engoliam hóstia de sapo. "Tinha padre que ameaçava arrancar a
batina do outro", contou-me o amigo tropeiro Jovelino. Os padres que oficiavam no
Contestado pareciam apóstolos do padre Vicente Pires da Mota, religioso que nos tempos
imperiais presidiu a várias províncias. Conhecido por seu rigor, nem mesmo tolerava
irmãos de altar que saíssem da liturgia do ABCDE.
Quando governava Minas Gerais, Pires da Mota foi assistir missa. Com a
boa intenção de cair nas graças do irmão de batina e governador, o padre oficiante
alongaria o sermão à salvação perpétua. Pires da Mota saiu da igreja pelas ventas,
logo expedindo ordem de prisão contra o falastrão. Semana depois, ao libertar a
eloqüência do discípulo de São Paulo (cujos sermões duravam até dois dias e, com
certeza, tornaram-se fonte de inspiração a Fidel Castro), explicou-lhe como queria
missa: "Será dita em voz Alta, será Breve, Clara, Distinta e Exata
ABCDE".
Porém duvido que Pires da Mota preceituasse cerimônia tão curta
quanto a que teve de celebrar frei Inocêncio de Comiso, naqueles dias do Contestado. Não
era missa, é certo. Mas creio que a Igreja Católica jamais tenha reeditado um casamento
tão breve. Freada pelas rédeas da brevidade, a cerimônia durou menos de cinco minutos.
O A foi abafado, o B foi ..., o C foi confuso, o D foi dê-me pernas e o E foi de
escapada. É que frei Inocêncio de Comiso andava de sandálias escaldadas. No povoado de
Santa Angélica, em maio de 1946, o capuchinho quase fora fuzilado por policiais
capixabas, ao ser flagrado celebrando missa. Era perigoso ministrar em terrenos do padre
Zacarias.
Elauro Zacarias de Oliveira era padre peculiar. De revólver à cinta,
muita brabeza e metido na política regional até à tonsura, que só teve ao chegar a
calvície. Quando seus devotos de baioneta quase fuzilaram Frei Inocêncio, o padre
Zacarias já amealhara uma década no olho daquele conflito. Era pouco para frei
Inocêncio, cujo turíbulo incensava o Contestado havia 30 anos. Catequizava índio, como
os ferozes pojichás, botocudos da região da Prata dos Baianos (ES), e fincava igrejinhas
de estuque, soalhadas a chão batido e atelhadas com folhas de palmito. Feito a
arquitetura da igrejinha do Patrimônio do Quinze (Ecoporanga ES), onde oficiaria o
apressado casamento.
"Fui padrinho: um olho no vigário, outro na porta". O
testemunho de Jovelino contou-me que o entrevero era o patrimônio ter caído em quartel
capixaba. Melhor dizendo: era terreno do padre Zacarias. Mas os noivos queriam bênção
da fé mineira. Tinha de ser no zás-trás! E sobreviveram àquela tropelia do 1949. Frei
Inocêncio morreu de velhice, o casal comemorou bodas de ouro. "Nem sei, acho que foi
o susto que me fez casar só de cadum". Fiquei intrigado com o neologismo.
"Cadum?". E a sabedoria de Jovelino me esclareceu: "Não precisa de missa
nem nada; e se não der felicidade, ninguém tem de engolir sapo: é cada um para seu
lado".