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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.





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  fatos e lendas do sertão - Adilson Vilaça

Casamento de cadum

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"Paris vale bem uma missa", dizem os franceses, em talvez atestado de fé. A frase paira em ares nebulosos: entre nuvens que professam vapores do fervor religioso, exaltação monumental da cidade e, de ângulo bem apreciado pelo sarcasmo francês, do somenos a que se deve relegar a questão religiosa.

dito é antigo, do cetro de Henrique IV — Paris vaut bien une messe. Soprou-a ao ouvido do Rei de França sua motivação, puramente devota a interesses políticos, para converter-se do protestantismo ao catolicismo. Os hereges que somos, vez a vez nos acomodamos à transigência de sua lição. Se a lagoa é bela, não custa engolir o sapo.

Já os dias de disputa pela posse da Serra dos Aimorés, mais os endereços vizinhos, não eram afeitos a transigir, a aceitar cardápio de lagoa. Nem sequer os religiosos engoliam hóstia de sapo. "Tinha padre que ameaçava arrancar a batina do outro", contou-me o amigo tropeiro Jovelino. Os padres que oficiavam no Contestado pareciam apóstolos do padre Vicente Pires da Mota, religioso que nos tempos imperiais presidiu a várias províncias. Conhecido por seu rigor, nem mesmo tolerava irmãos de altar que saíssem da liturgia do ABCDE.

Quando governava Minas Gerais, Pires da Mota foi assistir missa. Com a boa intenção de cair nas graças do irmão de batina e governador, o padre oficiante alongaria o sermão à salvação perpétua. Pires da Mota saiu da igreja pelas ventas, logo expedindo ordem de prisão contra o falastrão. Semana depois, ao libertar a eloqüência do discípulo de São Paulo (cujos sermões duravam até dois dias e, com certeza, tornaram-se fonte de inspiração a Fidel Castro), explicou-lhe como queria missa: "Será dita em voz Alta, será Breve, Clara, Distinta e Exata – ABCDE".

Porém duvido que Pires da Mota preceituasse cerimônia tão curta quanto a que teve de celebrar frei Inocêncio de Comiso, naqueles dias do Contestado. Não era missa, é certo. Mas creio que a Igreja Católica jamais tenha reeditado um casamento tão breve. Freada pelas rédeas da brevidade, a cerimônia durou menos de cinco minutos. O A foi abafado, o B foi ..., o C foi confuso, o D foi dê-me pernas e o E foi de escapada. É que frei Inocêncio de Comiso andava de sandálias escaldadas. No povoado de Santa Angélica, em maio de 1946, o capuchinho quase fora fuzilado por policiais capixabas, ao ser flagrado celebrando missa. Era perigoso ministrar em terrenos do padre Zacarias.

Elauro Zacarias de Oliveira era padre peculiar. De revólver à cinta, muita brabeza e metido na política regional até à tonsura, que só teve ao chegar a calvície. Quando seus devotos de baioneta quase fuzilaram Frei Inocêncio, o padre Zacarias já amealhara uma década no olho daquele conflito. Era pouco para frei Inocêncio, cujo turíbulo incensava o Contestado havia 30 anos. Catequizava índio, como os ferozes pojichás, botocudos da região da Prata dos Baianos (ES), e fincava igrejinhas de estuque, soalhadas a chão batido e atelhadas com folhas de palmito. Feito a arquitetura da igrejinha do Patrimônio do Quinze (Ecoporanga – ES), onde oficiaria o apressado casamento.

"Fui padrinho: um olho no vigário, outro na porta". O testemunho de Jovelino contou-me que o entrevero era o patrimônio ter caído em quartel capixaba. Melhor dizendo: era terreno do padre Zacarias. Mas os noivos queriam bênção da fé mineira. Tinha de ser no zás-trás! E sobreviveram àquela tropelia do 1949. Frei Inocêncio morreu de velhice, o casal comemorou bodas de ouro. "Nem sei, acho que foi o susto que me fez casar só de cadum". Fiquei intrigado com o neologismo. "Cadum?". E a sabedoria de Jovelino me esclareceu: "Não precisa de missa nem nada; e se não der felicidade, ninguém tem de engolir sapo: é cada um para seu lado".

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