Jeanne Bilich
Via e-mail
Para: Denise Zandonadi
Sempre discreta e inteligente amiga:
Surpresa & júbilo. Essas as sensações que me assaltaram ao ler
sua mensagem. Que bom minha "conversa" última com Amylton de Almeida ter
provocado esse reencontro, Denise! Ainda que restrito ao universo gráfico. Pensando
melhor... não tenho razões para lamúrias. Porventura, não somos nós
incluindo-se aí AA criaturas gráficas, por excelência? Não é a escrita nossa
linguagem primeira, via de comunicação preferencial com o mundo? Então, do que me
queixo eu? Escrevo para Amylton, escrevo para você, escrevo para os amigos, escrevo para
"ganhar a vida" e inaudito! escrevo até para mim mesma. Sim
senhora, nos meus cadernos de anotar a vida.
Bem cantou mestre Fernando Pessoa, a quem me sei: eu screvo. Ou,
ainda, Cervantes que, com sagacidade ímpar, grafou no genial Dom Quixote: "a pena é
a linha da alma". Com certeza! Para escrevinhadores compulsivos como nós
ainda que permutada a pena pela digitação no teclado escrever é um jeito
especial de conversar. De vazar idéias, emoções e sentimentos. Desnudar-se. Pôr-se
inteiramente a nu.
Se para os aficionados da imagem a escrita pode representar estorvo ou
tédio, para nós trata-se de mero efeito colateral, conseqüência do acúmulo
progressivo de leituras. Ah... os livros! Voraz paixão. Perfumes. Quando não, eficaz
remédio contra as dores do mundo como bem chamou-as mestre Schopenhauer no título
da sua obra pistas infinitas para os vôos da imaginação. Não existissem os
livros, Denise, não me teria sido possível sobreviver. E não exagero. Ler para viver.
Assim entendia Flaubert. Assim, eu, na minha modéstia, ouso sentir...
Nossas histórias de vida repousam sobre idêntico patamar: livros.
Enraizaram-se de tal forma no cerne de nossas existências que hoje é impossível
dissociar quem somos do que lemos. Amálgama perfeito! Paixão tão avassaladora que
determinou nossos destinos. Duvida? Então responda: seria você jornalista e quão
talentosa caso não houvesse esbarrado, aos 7, 8 anos, em Robinson Crusoé? Leitura
regrada, duas únicas páginas ao dia, para que o livro ja mais chegasse ao fim. Você
própria contou-me, lembra-se? A perspectiva de não dispor de outros na Venda Nova do
Imigrante de então deixava-a prostrada.
Assim, a obra de Daniel Defoe foi lida adotando-se homeopático
critério. Comportamento que se repetiu oh! Numes por mais duas dezenas de
vezes. Depois, a gloriosa descoberta da coleção Clássicos da literatura. Mas, em
edição luxuosa, fazia-se imprópria ao manuseio de mãos infantis. Oh, tolos conceitos
adultos! Finalmente, o livre acesso a Machado, José de Alencar, Hemingway, Scott
Fiztzgerald, Somerset Maugham. Enfileirados nas escassas prateleiras da biblioteca
escolar. E pensar que você jamais se esqueceu do diálogo mantido com o diabo em Os
irmãos Karamazov, hem? "Como uma única pessoa pode escrever duas linhas de
pensamento tão díspares?" Interrogava-se, perplexa, a menina de 13 anos.
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Sabe, Denise, apesar dos 10 anos a mais que você e ter passado a
infância na urbis Rio e Belo Horizonte , meu garimpo pelo mundo dos livros
também exigiu-me, a certa altura da vida, significativa cota de sacrifícios. E ousadia!
A despeito do eclodir da paixão haver se dado em condições altamente favoráveis.
Conto-lhe.
Quando completei 2 anos, meu pai instituiu o hábito de levar-me, todas
as manhãs de domingo, à banca de jornais. Ali comprava o "Correio da Manhã",
"O Estado de S. Paulo", "Jornal do Brasil" e, mais tarde, quando a
família transferiu-se para Belo Horizonte, adicionou "O Estado de Minas".
Enquanto abastecia-se para a farta leitura dominical, instada por ele, eu folheava
com a curiosidade própria das crianças as revistas infantis. Tinha direito a
todas que escolhesse. Oh! delícia! O honroso encargo de transportar as publicações,
parte integrante da liturgia, cabia a mim. Aqui, na minha biblioteca, a prova material
desse relato: Miroslav Bilich uma das mãos presa à da pequerrucha a sobraçar, com pompa
e circunstância, uma pilha de jornais dobrados. O cenário? A Cinelândia dos anos 50. Ao
fundo, uma livraria e o cinema Império. Ora Denise, esse flagrante banal, colhido ao
acaso por anônimo fotógrafo, tem hoje especial sabor para mim.
O pequeno retângulo de papel concentra as grandes paixões da minha
vida: jornais, livros, filmes e a própria arte da fotografia. Sem mencionar-se, claro, a
figura paterna. Especialmente amada. De volta ao lar e corriam mesmo para mim,
tempos de "lar, doce lar" meu pai instalava-se na sua cadeira de leitura
e mergulhava na pilha de jornais. Os cadernos lidos iam sendo depositados no chão. Quem
lá estava, em reverente silêncio, sentada no tapete, a aguardar o gesto costumeiro?
Claro! A pequena Jeanne. Submergia literalmente naquele universo de letras entremeado de
fotos. Amava o cheiro do papel, encantava-me com as fotografias em branco e preto e, dali,
só saía à força, retirada por minha mãe, rosto e mãos enegrecidos pela tinta dos
jornais. Direto para um caprichado banho. E essa cerimônia incluía meus livros de pano.
Sim, senhora! Adorava levá-los comigo para o chuveiro.... especialmente, João Felpudo.
Na festa dos meus 7 anos, presentearam-me com As reinações de Narizinho, de Monteiro
Lobato. A capa permanece vívida em minha mente: uma ilustração da personagem nas cores
contrastantes amarelo e preto. Semanas depois, meu pai ofereceu-me uma coletânea de
diminutos livros, lindamente ilustrados: A pequena sereia, A vendedora de fósforos, A
princesa e a ervilha, Alice no País das Maravilhas, clássicos da literatura infantil.
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Já a leitura de Minha vida de menina, de Helena Morley, foi-me
indicada pela professora do Sacré-Coeur. Uau! Apaixonei-me perdidamente. Amor tão
profundo que, olhando pelo retrovisor do tempo, creio ali estar a semente, a gênese dos
cadernos de anotar a vida. No Natal de 1958, encontro sob a árvore ricamente adornada a
coleção Obras completas de José de Alencar. Devorei-a, por inteiro! Diva, Lucíola, A
pata da gazela, As minas de prata, O guarani, O tronco do ipê, Iracema... A despeito das
admoestações de membros da família, convictos de que "essa menina vai se perder,
lendo tanta coisa indecente nessa idade".
Minha mãe? Ouvidos moucos! A bem da verdade, um único livro foi-me
vedado: Lolita, de Wladimir Nabokov. Era o escândalo literário da época. Causou furor.
Meus pais trancaram-no no bar espelhado da sala. Inútil. Na ausência de ambos, presos
aos afazeres profissionais, descobri o esconderijo da chave e gastei tardes e mais tardes
a ler Nabokov. Não me despertou horror algum. Aliás, sequer consegui entender o motivo
de tamanho frisson entre os adultos. Ou quem sabe? não atentei, à época,
para a explícita pedofilia do livro.
Aos 12, desgraçadamente, meu pai adoeceu, vindo a falecer meses
depois. Na mesma ocasião, contraí uma pleurisia que, além de impossibilitar-me dar
seqüência ao ano escolar, prendeu-me ao leito por quase um ano. Intermináveis dias...
Descobri, então, que os livros podiam representar mais que encantamento e poesia. Eram
escapes perfeitos para a realidade adversa, analgesia eficaz para as feridas da alma. À
porta da minha biblioteca, Denise, está afixada uma das pérolas de Montesquieu: "Os
livros têm sido para mim o supremo remédio contra os desgostos da vida. Nunca tenho um
malogro que uma hora de leitura não me faça esquecer". Doente, pressentindo a morte
iminente do meu pai, lia furiosamente. Minha mãe cuidou-me com o desvelo e carinho
habituais: aplicava-me diariamente injeções e fornecia-me livros todos os que
pedia, sem restrições para manter-me em repouso, conforme prescrição médica.
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Chorei oceanos lendo O diário de Anne Frank (quando estive em
Amesterdã, emocionei-me às lágrimas, percorrendo a casa da menina judia, hoje Museu
Anne Frank), fantasiei com as dezenas de açucarados romances de M. Delly, apaixonei-me
irreversivelmente pela Mitologia greco-romana, deliciei-me com As fábulas de Esopo,
aprendi a lutar pela justiça social em Máscara de ferro, A cabana de Pai Tomás, Os
três mosqueteiros, Ricardo Coração de Leão, As aventuras de Robin Hood, O conde de
Monte Cristo... E, prometi a mim mesma percorrer todo o planeta outra das minhas
paixões quando concluí a leitura de A volta ao mundo em 80 dias. Literatura
juvenil a fartar.
Ah... sim! Encontrei-me, também, pela primeira vez, com Machado de
Assis. Precisamente em A mão e a luva. Foi um período de intenso enriquecimento
intelectual, conjugado ao nascer de uma maturidade precoce, que só a dor tem o dom de
despertar. Minha tragédia adolescente, Denise, parecia não ter fim: logo recuperada a
saúde, vi-me, de inopino, na condição de aluna interna de um tradicional colégio de
Vitória. O Carmo. Assim cheguei à capital capixaba. A primeira visão, da janela do trem
Vitória/Minas, guardo ainda: as luzes das Cinco Pontes refletidas no mar enegrecido pela
noite. Como a alma da menina órfã. Absolutamente só, distante do lar, dos jornais, do
rádio (desde sempre ao lado da cama), da TV e tragédia máxima! sem acesso
aos livros. Mas isso só vim a descobrir depois.
Refém de rígidos horários, constatei, com desgosto, o escasso tempo
disponível para freqüentar a biblioteca do colégio. Que, por sinal, adotava severo
controle sobre as leituras, condicionando-as a critérios religiosos, além de faixa
etária precisa. Quanto a jornais, revistas, rádio e cinema... nem pensar! Nos
atormentados quatro anos que ali passei, conheci o que era viver em regime prisional.
Totalmente apartada dos acontecimentos do mundo. No limbo. Em contrapartida
observava, amarga o tempo consumido pelas preces beirava o infinito. Logo no
primeiro banho, obrigaram-me a vestir uma larga camisola xadrez, bordados em vermelho, as
iniciais do nome e o número de interna: JB 11. O objetivo? Impedir que eu visse meu
próprio corpo! Sacros Numes! Não, Denise, isso não ocorreu na Idade Média. O ano era
196l do recém-findo século XX.
A consciência de ser prisioneira ganhava força. Sentia-me personagem
dos campos de concentração nazista, como lera em Anne Frank e assistira em dezenas de
documentários na TV. O rigoroso sistema implicava, ainda, a censura à correspondência
das alunas. Extensivo às cartas dos pais. Todas, sem exceção, previamente abertas.
Violadas. E, não raro, o desprazer de deparar-se com trechos inteiros encobertos por
tarjas negras. No entendimento da direção do colégio "por incompatíveis com a
formação cristã". Só os Numes para entender tais ditames! Enfim, só me restava
uma saída. Escapar. Como? Ora, pela única via possível: a leitura. Fugir pela mente.
Assim, passei a devorar centenas de biografias de santos e mártires cristãos, principal
acervo da biblioteca, temperando com a leitura da velha e empoeirada enciclopédia.
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Belo dia, remexo aqui e acolá sempre sob a vigilância de uma
das irmãs deparo-me com uma lista impressa. Leio-a, sem entender direito. Índex
das Obras Proibidas pela Igreja. Refeita da surpresa, reponho-a no mesmo lugar. Tarde
seguinte, resolvo copiá-la. Disfarçadamente. Uma idéia ia forjando-se no meu espírito:
"Preciso ler esses livros". Noites em claro no dormitório coletivo tentando
descobrir a forma de ter acesso a pelo menos um deles. Fascinava-me, em especial, o
título Porque não sou cristão, de Bertrand Russel. Muito mais que O papa e o Concílio,
de Rui Barbosa. Não, não ria Denise! Abrigava, à época, a quixotesca idéia de que, se
pudesse dar combate ao cruel sistema que me aprisionava quem sabe? , estaria
no caminho da reconquista da liberdade perdida.
"Em teu seio, oh liberdade". Melhor lutar que se postar
imóvel, amaldiçoando o infortúnio! Assim pensava a adolescente, assim pensa a mulher
que hoje navega nos mares da meia idade. Finalmente, traço um plano. O dinheiro da
mesada, enviado por minha mãe, passo a economizar com avareza. Mês a mês. O passo
seguinte implicará cumplicidade explícita: convencer uma das alunas externas as
aulas aconteciam em salas comuns a adquirir o livro e contrabandeá-lo para o
interior do colégio. Se ela falhasse, seria expulsa. Pena capital. Mas os deuses
conspiraram a favor: a missão revestiu-se de êxito. Entre uma aula e outra, recebo o
livro que, incontinenti, faço desaparecer dentro da blusa do uniforme. O coração aos
saltos! Lá estava o tesouro a comprimir minhas magras costelas. Gazua que me
possibilitaria abrir, enfim, o portão de ferro da minha infelicidade.
Restava-me, ainda, outro problema. Não menos sério. E perigoso.
Quando, como e onde lê-lo? Não poderia correr o risco de uma apreensão. A idéia
faiscou, quando, em fila indiana, rumávamos para a capela. E as velas do altar? O plano
desenhou-se, por inteiro, em minha mente. À noite, fugiria do dormitório, desceria os
três pavimentos, e roubaria as velas guardadas na sacristia. E, lógico, uma caixa de
fósforos. Mal ouvi os cânticos sacros entoados naquela noite, tal agitação se apossara
do meu espírito. Após uma prece última, já no dormitório, luzes apagadas, espero pelo
ressonar rítmico das colegas e das duas vigilantes. Levanto-me, então, tendo o cuidado
extremo de evitar o ranger peculiar das enormes tábuas do assoalho antigo. Sem ruído
algum, consigo girar a enorme chave na fechadura centenária. De camisola, pés
descalços, disparo pelas escadas, abaixando-me, quase ao rés do chão, quanto atinjo as
varandas de cada um dos andares. Escuridão densa, só quebrada pelo ponto de luz,
permanentemente aceso, na gruta artificial da Virgem de Lourdes. De grande valia para
orientar-me naquele breu.
Porta da sacristia aberta, encaminho-me diretamente à gaveta onde
ficam as velas usadas. Apanho algumas, atabalhoadamente, e lanço mão de uma caixa de
fósforos, esquecida sobre a mesa. Meu coração bate tão forte que tenho medo que o
barulho vaze para o mundo exterior. Qual nada... Volto, sem maiores problemas, ao
dormitório. Rasgo, então, um pedaço do tecido ordinário que reveste o colchão de
palha e aí deposito o produto da pilhagem. Junto com o tesouro maior, o livro de Bertrand
Russel. Tento acalmar a respiração ofegante. Poderá denunciar-me às colegas das camas
ao lado. Meu espírito canta... Vitória! Na noite seguinte, dou início à leitura em um
compartimento exíguo, construído para abrigar, com avareza ímpar, um solitário vaso
sanitário. Antes, tenho o cuidado de vedar as frestas da porta com um lençol, para
evitar que a luminosidade da vela, bruxuleante sobre a tampa da privada, vaze para o
exterior. E denuncie-me. O espaço é tão mínimo que me obriga a manter as pernas
dobradas, joelhos quase encostados ao queixo, enquanto o livro repousa diretamente sob o
lume. Assim, Denise, fui apresentada a Bertrand Russel (1872 1970). Assim, aprendi
a amá-lo e admirá-lo.
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Grande parte da sua vasta obra ocupa hoje lugar de destaque em minha
biblioteca. Extraordinário mestre! Sua sabedoria foi oxigênio, corrente de ar puro e
fresco, nos meus dias de masmorra. Estabelecido o método infrator, livros e mais livros
foram devorados em idêntica condição. Difícil era dar por encerrada a leitura, aos
primeiros albores da aurora. E ouvir mal recolhera-me ao leito a saudação
costumeira, impreterivelmente às cinco da manhã:
- Viva Jesus.
- Para sempre em nossos corações.
Resposta automática, enquanto saltávamos da cama.
A despeito da minha estratégia haver se revelado um sucesso,
torturava-me e quanto! o fato de prosseguir furtando as velas. Assim, certo
dia, ajoelhada no confessionário, revelo meu vital segredo ao capelão do colégio:
- Quais são os seus pecados, minha filha?
- Ah... eu roubo, padre.
- O quêêê? Você rouba, menina?
- Bem... só as velas usadas da sacristia.
- E para quê, em nome de Deus?!
- Para ler no quartinho, à noite...
- E por que não ler de dia, na hora do estudo?
- Porque as irmãs não deixam.
Pausa longa. O silêncio pesa. Tremo ante a perspectiva de ser
denunciada.
- Olhe, roubar é uma ação muito feia, minha filha.
- Bem sei, padre. Mas preciso ler mais do que tudo. Mais que comer, que
beber ...
As lágrimas começam a correr silenciosas. O padre comove-se:
- Então, façamos um trato. Eu mesmo vou lhe dar as velas usadas da
sacristia,
combinado?
- Mas, padre Cabral, as irmãs irão tomá-las de mim.
Novo silêncio. O padre considera gravemente a questão:
- De fato, de fato... Então, vou dá-las a você, escondido. Coloco-as
no bolso da batina e você passa a freqüentar a sacristia. Diga às irmãs que vai
tomar-me a bênção... Assim, entrego as velas disfarçadamente
a você.
Exulto. Um sorriso abre-se sob a cortina de lágrimas. Afogo-me em
agradecimentos entrecortados por soluços abafados:
- Puxa, padre Cabral, obrigada! De coração! O senhor é
maravilhoso... Obrigada, padre!
- Contenha-se, menina! Estamos no confessionário. Reze três Ave
Marias e um Padre Nosso.
Arregalo os olhos molhados, enquanto penso: "Mas é a penitência
de sempre". Levanto-me, encaminhando-me contrita para um dos bancos da capela. A
alma? Hum... a levitar de felicidade, risco de voar pelas frestas dos vitrais. Sabe,
Denise, essa sacrossanta aliança, firmada sob sigilo confessional, jamais foi rompida. O
"arranjo" persistiu durante todo o meu cativeiro. Mais: possibilitou-me
sobreviver a ele! Faço você, Denise, depositária desse segredo. Padre Cabral
bondoso e sábio homem da Congregação Salesiana ensinou-me, com a nobreza do
gesto humanitário, que há ações que podem iluminar para sempre uma vida. Não importa
que o autor tenha partido há muito.
Encerro. Um tanto abruptamente, bem sei! Mas, voltarei a falar da nossa paixão comum
no próximo e-mail. Aguarde. Estou a pesquisar o futuro do livro numa sociedade que
caminha para ser hegemonicamente dominada pela imagem. Ah... sim. Vou deixar aí, na
portaria de "A Gazeta", A história da leitura, de Alberto Manguel. Se é um
empréstimo? Claro que não! Sigo à risca o velho provérbio persa: "Quem empresta
um livro deveria ter a mão cortada; quem o devolve as duas". Não é ótimo? E, por
favor, não me agradeça. Trata-se de excelente pretexto para mais uma visita à Livraria
Dom Quixote, do amigo Antônio Carlos. Que me presenteou dias desses coincidência
ou não!? com o esplêndido O melhor de Bertrand Russel silhuetas
satíricas. Certamente para minorar a dor do luto materno... desconfio! Insone, gasto
madrugadas a refletir sobre O eterno retorno, de Nietzche. Convencida da veracidade da
teoria "de que tudo voltará uma vez mais". Não estou eu própria a divisar
tais sinais? Perplexa, partilho minha surpreendente descoberta com você. Um beijo.
Agradecimentos sinceros pelos perfumes gráficos enviados. Sua amiga de sempre e fiel
companheira do lúdico universo das letrinhas,