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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.





  PALAVRA DE MULHER

Receita contra as dores do mundo

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Jeanne Bilich
Via e-mail 

Para: Denise Zandonadi
Sempre discreta e inteligente amiga:

Surpresa & júbilo. Essas as sensações que me assaltaram ao ler sua mensagem. Que bom minha "conversa" última com Amylton de Almeida ter provocado esse reencontro, Denise! Ainda que restrito ao universo gráfico. Pensando melhor... não tenho razões para lamúrias. Porventura, não somos nós – incluindo-se aí AA – criaturas gráficas, por excelência? Não é a escrita nossa linguagem primeira, via de comunicação preferencial com o mundo? Então, do que me queixo eu? Escrevo para Amylton, escrevo para você, escrevo para os amigos, escrevo para "ganhar a vida" e – inaudito! – escrevo até para mim mesma. Sim senhora, nos meus cadernos de anotar a vida.

Bem cantou mestre Fernando Pessoa, a quem me sei: eu ‘screvo. Ou, ainda, Cervantes que, com sagacidade ímpar, grafou no genial Dom Quixote: "a pena é a linha da alma". Com certeza! Para escrevinhadores compulsivos como nós – ainda que permutada a pena pela digitação no teclado – escrever é um jeito especial de conversar. De vazar idéias, emoções e sentimentos. Desnudar-se. Pôr-se inteiramente a nu.

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Se para os aficionados da imagem a escrita pode representar estorvo ou tédio, para nós trata-se de mero efeito colateral, conseqüência do acúmulo progressivo de leituras. Ah... os livros! Voraz paixão. Perfumes. Quando não, eficaz remédio contra as dores do mundo – como bem chamou-as mestre Schopenhauer no título da sua obra – pistas infinitas para os vôos da imaginação. Não existissem os livros, Denise, não me teria sido possível sobreviver. E não exagero. Ler para viver. Assim entendia Flaubert. Assim, eu, na minha modéstia, ouso sentir...

Nossas histórias de vida repousam sobre idêntico patamar: livros. Enraizaram-se de tal forma no cerne de nossas existências que hoje é impossível dissociar quem somos do que lemos. Amálgama perfeito! Paixão tão avassaladora que determinou nossos destinos. Duvida? Então responda: seria você jornalista – e quão talentosa – caso não houvesse esbarrado, aos 7, 8 anos, em Robinson Crusoé? Leitura regrada, duas únicas páginas ao dia, para que o livro ja mais chegasse ao fim. Você própria contou-me, lembra-se? A perspectiva de não dispor de outros na Venda Nova do Imigrante de então deixava-a prostrada.

Assim, a obra de Daniel Defoe foi lida adotando-se homeopático critério. Comportamento que se repetiu – oh! Numes – por mais duas dezenas de vezes. Depois, a gloriosa descoberta da coleção Clássicos da literatura. Mas, em edição luxuosa, fazia-se imprópria ao manuseio de mãos infantis. Oh, tolos conceitos adultos! Finalmente, o livre acesso a Machado, José de Alencar, Hemingway, Scott Fiztzgerald, Somerset Maugham. Enfileirados nas escassas prateleiras da biblioteca escolar. E pensar que você jamais se esqueceu do diálogo mantido com o diabo em Os irmãos Karamazov, hem? "Como uma única pessoa pode escrever duas linhas de pensamento tão díspares?" Interrogava-se, perplexa, a menina de 13 anos.

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Sabe, Denise, apesar dos 10 anos a mais que você e ter passado a infância na urbis – Rio e Belo Horizonte –, meu garimpo pelo mundo dos livros também exigiu-me, a certa altura da vida, significativa cota de sacrifícios. E ousadia! A despeito do eclodir da paixão haver se dado em condições altamente favoráveis. Conto-lhe.

Quando completei 2 anos, meu pai instituiu o hábito de levar-me, todas as manhãs de domingo, à banca de jornais. Ali comprava o "Correio da Manhã", "O Estado de S. Paulo", "Jornal do Brasil" e, mais tarde, quando a família transferiu-se para Belo Horizonte, adicionou "O Estado de Minas". Enquanto abastecia-se para a farta leitura dominical, instada por ele, eu folheava – com a curiosidade própria das crianças – as revistas infantis. Tinha direito a todas que escolhesse. Oh! delícia! O honroso encargo de transportar as publicações, parte integrante da liturgia, cabia a mim. Aqui, na minha biblioteca, a prova material desse relato: Miroslav Bilich uma das mãos presa à da pequerrucha a sobraçar, com pompa e circunstância, uma pilha de jornais dobrados. O cenário? A Cinelândia dos anos 50. Ao fundo, uma livraria e o cinema Império. Ora Denise, esse flagrante banal, colhido ao acaso por anônimo fotógrafo, tem hoje especial sabor para mim.

O pequeno retângulo de papel concentra as grandes paixões da minha vida: jornais, livros, filmes e a própria arte da fotografia. Sem mencionar-se, claro, a figura paterna. Especialmente amada. De volta ao lar – e corriam mesmo para mim, tempos de "lar, doce lar" – meu pai instalava-se na sua cadeira de leitura e mergulhava na pilha de jornais. Os cadernos lidos iam sendo depositados no chão. Quem lá estava, em reverente silêncio, sentada no tapete, a aguardar o gesto costumeiro? Claro! A pequena Jeanne. Submergia literalmente naquele universo de letras entremeado de fotos. Amava o cheiro do papel, encantava-me com as fotografias em branco e preto e, dali, só saía à força, retirada por minha mãe, rosto e mãos enegrecidos pela tinta dos jornais. Direto para um caprichado banho. E essa cerimônia incluía meus livros de pano. Sim, senhora! Adorava levá-los comigo para o chuveiro.... especialmente, João Felpudo. Na festa dos meus 7 anos, presentearam-me com As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. A capa permanece vívida em minha mente: uma ilustração da personagem nas cores contrastantes amarelo e preto. Semanas depois, meu pai ofereceu-me uma coletânea de diminutos livros, lindamente ilustrados: A pequena sereia, A vendedora de fósforos, A princesa e a ervilha, Alice no País das Maravilhas, clássicos da literatura infantil.

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Já a leitura de Minha vida de menina, de Helena Morley, foi-me indicada pela professora do Sacré-Coeur. Uau! Apaixonei-me perdidamente. Amor tão profundo que, olhando pelo retrovisor do tempo, creio ali estar a semente, a gênese dos cadernos de anotar a vida. No Natal de 1958, encontro sob a árvore ricamente adornada a coleção Obras completas de José de Alencar. Devorei-a, por inteiro! Diva, Lucíola, A pata da gazela, As minas de prata, O guarani, O tronco do ipê, Iracema... A despeito das admoestações de membros da família, convictos de que "essa menina vai se perder, lendo tanta coisa indecente nessa idade".

Minha mãe? Ouvidos moucos! A bem da verdade, um único livro foi-me vedado: Lolita, de Wladimir Nabokov. Era o escândalo literário da época. Causou furor. Meus pais trancaram-no no bar espelhado da sala. Inútil. Na ausência de ambos, presos aos afazeres profissionais, descobri o esconderijo da chave e gastei tardes e mais tardes a ler Nabokov. Não me despertou horror algum. Aliás, sequer consegui entender o motivo de tamanho frisson entre os adultos. Ou – quem sabe? – não atentei, à época, para a explícita pedofilia do livro.

Aos 12, desgraçadamente, meu pai adoeceu, vindo a falecer meses depois. Na mesma ocasião, contraí uma pleurisia que, além de impossibilitar-me dar seqüência ao ano escolar, prendeu-me ao leito por quase um ano. Intermináveis dias... Descobri, então, que os livros podiam representar mais que encantamento e poesia. Eram escapes perfeitos para a realidade adversa, analgesia eficaz para as feridas da alma. À porta da minha biblioteca, Denise, está afixada uma das pérolas de Montesquieu: "Os livros têm sido para mim o supremo remédio contra os desgostos da vida. Nunca tenho um malogro que uma hora de leitura não me faça esquecer". Doente, pressentindo a morte iminente do meu pai, lia furiosamente. Minha mãe cuidou-me com o desvelo e carinho habituais: aplicava-me diariamente injeções e fornecia-me livros – todos os que pedia, sem restrições – para manter-me em repouso, conforme prescrição médica.

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Chorei oceanos lendo O diário de Anne Frank (quando estive em Amesterdã, emocionei-me às lágrimas, percorrendo a casa da menina judia, hoje Museu Anne Frank), fantasiei com as dezenas de açucarados romances de M. Delly, apaixonei-me irreversivelmente pela Mitologia greco-romana, deliciei-me com As fábulas de Esopo, aprendi a lutar pela justiça social em Máscara de ferro, A cabana de Pai Tomás, Os três mosqueteiros, Ricardo Coração de Leão, As aventuras de Robin Hood, O conde de Monte Cristo... E, prometi a mim mesma percorrer todo o planeta – outra das minhas paixões – quando concluí a leitura de A volta ao mundo em 80 dias. Literatura juvenil a fartar.

Ah... sim! Encontrei-me, também, pela primeira vez, com Machado de Assis. Precisamente em A mão e a luva. Foi um período de intenso enriquecimento intelectual, conjugado ao nascer de uma maturidade precoce, que só a dor tem o dom de despertar. Minha tragédia adolescente, Denise, parecia não ter fim: logo recuperada a saúde, vi-me, de inopino, na condição de aluna interna de um tradicional colégio de Vitória. O Carmo. Assim cheguei à capital capixaba. A primeira visão, da janela do trem Vitória/Minas, guardo ainda: as luzes das Cinco Pontes refletidas no mar enegrecido pela noite. Como a alma da menina órfã. Absolutamente só, distante do lar, dos jornais, do rádio (desde sempre ao lado da cama), da TV e – tragédia máxima! – sem acesso aos livros. Mas isso só vim a descobrir depois.

Refém de rígidos horários, constatei, com desgosto, o escasso tempo disponível para freqüentar a biblioteca do colégio. Que, por sinal, adotava severo controle sobre as leituras, condicionando-as a critérios religiosos, além de faixa etária precisa. Quanto a jornais, revistas, rádio e cinema... nem pensar! Nos atormentados quatro anos que ali passei, conheci o que era viver em regime prisional. Totalmente apartada dos acontecimentos do mundo. No limbo. Em contrapartida – observava, amarga – o tempo consumido pelas preces beirava o infinito. Logo no primeiro banho, obrigaram-me a vestir uma larga camisola xadrez, bordados em vermelho, as iniciais do nome e o número de interna: JB 11. O objetivo? Impedir que eu visse meu próprio corpo! Sacros Numes! Não, Denise, isso não ocorreu na Idade Média. O ano era 196l do recém-findo século XX.

A consciência de ser prisioneira ganhava força. Sentia-me personagem dos campos de concentração nazista, como lera em Anne Frank e assistira em dezenas de documentários na TV. O rigoroso sistema implicava, ainda, a censura à correspondência das alunas. Extensivo às cartas dos pais. Todas, sem exceção, previamente abertas. Violadas. E, não raro, o desprazer de deparar-se com trechos inteiros encobertos por tarjas negras. No entendimento da direção do colégio "por incompatíveis com a formação cristã". Só os Numes para entender tais ditames! Enfim, só me restava uma saída. Escapar. Como? Ora, pela única via possível: a leitura. Fugir pela mente. Assim, passei a devorar centenas de biografias de santos e mártires cristãos, principal acervo da biblioteca, temperando com a leitura da velha e empoeirada enciclopédia.

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Belo dia, remexo aqui e acolá – sempre sob a vigilância de uma das irmãs – deparo-me com uma lista impressa. Leio-a, sem entender direito. Índex das Obras Proibidas pela Igreja. Refeita da surpresa, reponho-a no mesmo lugar. Tarde seguinte, resolvo copiá-la. Disfarçadamente. Uma idéia ia forjando-se no meu espírito: "Preciso ler esses livros". Noites em claro no dormitório coletivo tentando descobrir a forma de ter acesso a pelo menos um deles. Fascinava-me, em especial, o título Porque não sou cristão, de Bertrand Russel. Muito mais que O papa e o Concílio, de Rui Barbosa. Não, não ria Denise! Abrigava, à época, a quixotesca idéia de que, se pudesse dar combate ao cruel sistema que me aprisionava – quem sabe? –, estaria no caminho da reconquista da liberdade perdida.

"Em teu seio, oh liberdade". Melhor lutar que se postar imóvel, amaldiçoando o infortúnio! Assim pensava a adolescente, assim pensa a mulher que hoje navega nos mares da meia idade. Finalmente, traço um plano. O dinheiro da mesada, enviado por minha mãe, passo a economizar com avareza. Mês a mês. O passo seguinte implicará cumplicidade explícita: convencer uma das alunas externas – as aulas aconteciam em salas comuns – a adquirir o livro e contrabandeá-lo para o interior do colégio. Se ela falhasse, seria expulsa. Pena capital. Mas os deuses conspiraram a favor: a missão revestiu-se de êxito. Entre uma aula e outra, recebo o livro que, incontinenti, faço desaparecer dentro da blusa do uniforme. O coração aos saltos! Lá estava o tesouro a comprimir minhas magras costelas. Gazua que me possibilitaria abrir, enfim, o portão de ferro da minha infelicidade.

Restava-me, ainda, outro problema. Não menos sério. E perigoso. Quando, como e onde lê-lo? Não poderia correr o risco de uma apreensão. A idéia faiscou, quando, em fila indiana, rumávamos para a capela. E as velas do altar? O plano desenhou-se, por inteiro, em minha mente. À noite, fugiria do dormitório, desceria os três pavimentos, e roubaria as velas guardadas na sacristia. E, lógico, uma caixa de fósforos. Mal ouvi os cânticos sacros entoados naquela noite, tal agitação se apossara do meu espírito. Após uma prece última, já no dormitório, luzes apagadas, espero pelo ressonar rítmico das colegas e das duas vigilantes. Levanto-me, então, tendo o cuidado extremo de evitar o ranger peculiar das enormes tábuas do assoalho antigo. Sem ruído algum, consigo girar a enorme chave na fechadura centenária. De camisola, pés descalços, disparo pelas escadas, abaixando-me, quase ao rés do chão, quanto atinjo as varandas de cada um dos andares. Escuridão densa, só quebrada pelo ponto de luz, permanentemente aceso, na gruta artificial da Virgem de Lourdes. De grande valia para orientar-me naquele breu.

Porta da sacristia aberta, encaminho-me diretamente à gaveta onde ficam as velas usadas. Apanho algumas, atabalhoadamente, e lanço mão de uma caixa de fósforos, esquecida sobre a mesa. Meu coração bate tão forte que tenho medo que o barulho vaze para o mundo exterior. Qual nada... Volto, sem maiores problemas, ao dormitório. Rasgo, então, um pedaço do tecido ordinário que reveste o colchão de palha e aí deposito o produto da pilhagem. Junto com o tesouro maior, o livro de Bertrand Russel. Tento acalmar a respiração ofegante. Poderá denunciar-me às colegas das camas ao lado. Meu espírito canta... Vitória! Na noite seguinte, dou início à leitura em um compartimento exíguo, construído para abrigar, com avareza ímpar, um solitário vaso sanitário. Antes, tenho o cuidado de vedar as frestas da porta com um lençol, para evitar que a luminosidade da vela, bruxuleante sobre a tampa da privada, vaze para o exterior. E denuncie-me. O espaço é tão mínimo que me obriga a manter as pernas dobradas, joelhos quase encostados ao queixo, enquanto o livro repousa diretamente sob o lume. Assim, Denise, fui apresentada a Bertrand Russel (1872 – 1970). Assim, aprendi a amá-lo e admirá-lo.

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Grande parte da sua vasta obra ocupa hoje lugar de destaque em minha biblioteca. Extraordinário mestre! Sua sabedoria foi oxigênio, corrente de ar puro e fresco, nos meus dias de masmorra. Estabelecido o método infrator, livros e mais livros foram devorados em idêntica condição. Difícil era dar por encerrada a leitura, aos primeiros albores da aurora. E ouvir – mal recolhera-me ao leito – a saudação costumeira, impreterivelmente às cinco da manhã:

- Viva Jesus.

- Para sempre em nossos corações.

Resposta automática, enquanto saltávamos da cama.

A despeito da minha estratégia haver se revelado um sucesso, torturava-me – e quanto! – o fato de prosseguir furtando as velas. Assim, certo dia, ajoelhada no confessionário, revelo meu vital segredo ao capelão do colégio:

- Quais são os seus pecados, minha filha?

- Ah... eu roubo, padre.

- O quêêê? Você rouba, menina?

- Bem... só as velas usadas da sacristia.

- E para quê, em nome de Deus?!

- Para ler no quartinho, à noite...

- E por que não ler de dia, na hora do estudo?

- Porque as irmãs não deixam.

Pausa longa. O silêncio pesa. Tremo ante a perspectiva de ser denunciada.

- Olhe, roubar é uma ação muito feia, minha filha.

- Bem sei, padre. Mas preciso ler mais do que tudo. Mais que comer, que beber ...

As lágrimas começam a correr silenciosas. O padre comove-se:

- Então, façamos um trato. Eu mesmo vou lhe dar as velas usadas da sacristia,
combinado?

- Mas, padre Cabral, as irmãs irão tomá-las de mim.

Novo silêncio. O padre considera gravemente a questão:

- De fato, de fato... Então, vou dá-las a você, escondido. Coloco-as no bolso da batina e você passa a freqüentar a sacristia. Diga às irmãs que vai tomar-me a bênção... Assim, entrego as velas disfarçadamente
a você.

Exulto. Um sorriso abre-se sob a cortina de lágrimas. Afogo-me em agradecimentos entrecortados por soluços abafados:

- Puxa, padre Cabral, obrigada! De coração! O senhor é maravilhoso... Obrigada, padre!

- Contenha-se, menina! Estamos no confessionário. Reze três Ave Marias e um Padre Nosso.

Arregalo os olhos molhados, enquanto penso: "Mas é a penitência de sempre". Levanto-me, encaminhando-me contrita para um dos bancos da capela. A alma? Hum... a levitar de felicidade, risco de voar pelas frestas dos vitrais. Sabe, Denise, essa sacrossanta aliança, firmada sob sigilo confessional, jamais foi rompida. O "arranjo" persistiu durante todo o meu cativeiro. Mais: possibilitou-me sobreviver a ele! Faço você, Denise, depositária desse segredo. Padre Cabral – bondoso e sábio homem da Congregação Salesiana – ensinou-me, com a nobreza do gesto humanitário, que há ações que podem iluminar para sempre uma vida. Não importa que o autor tenha partido há muito.

Encerro. Um tanto abruptamente, bem sei! Mas, voltarei a falar da nossa paixão comum no próximo e-mail. Aguarde. Estou a pesquisar o futuro do livro numa sociedade que caminha para ser hegemonicamente dominada pela imagem. Ah... sim. Vou deixar aí, na portaria de "A Gazeta", A história da leitura, de Alberto Manguel. Se é um empréstimo? Claro que não! Sigo à risca o velho provérbio persa: "Quem empresta um livro deveria ter a mão cortada; quem o devolve as duas". Não é ótimo? E, por favor, não me agradeça. Trata-se de excelente pretexto para mais uma visita à Livraria Dom Quixote, do amigo Antônio Carlos. Que me presenteou dias desses – coincidência ou não!? – com o esplêndido O melhor de Bertrand Russel – silhuetas satíricas. Certamente para minorar a dor do luto materno... desconfio! Insone, gasto madrugadas a refletir sobre O eterno retorno, de Nietzche. Convencida da veracidade da teoria "de que tudo voltará uma vez mais". Não estou eu própria a divisar tais sinais? Perplexa, partilho minha surpreendente descoberta com você. Um beijo. Agradecimentos sinceros pelos perfumes gráficos enviados. Sua amiga de sempre e fiel companheira do lúdico universo das letrinhas,

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