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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.
Esporte por esporte
Carlos Urbano Gonçalves Ferreira, o Carioca





  CAPIXABAS DE SUCESSO

Roberto Anselmo Kautsky, pesquisador, amante da natureza
O descobridor das maravilhas

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Texto: Marilza Bigio
Fotos: Ricardo Medeiros

Ele é talvez o capixaba de maior sucesso internacional. No entanto, quem vê aquele alemãozão em meio às suas orquídeas e bromélias, assim como em meio ao povo de sua cidade, simples e sempre alegre, não imagina a sua importância para a ciência. Como o sucesso científico não dá ibope, não enlouquece tietes, nem atrai as atenções da mídia com muita freqüência, ele passa assim despercebido, muita gente não conhece seu rosto, outros não conseguem ligar a figura simples à dimensão enorme que ele adquiriu para a pequena cidade de Domingos Martins e para o Espírito Santo.

Os estudos e descobertas de Roberto Anselmo Kautsky têm ressonância internacional. Seu trabalho mais conhecido no Brasil é A beleza exótica das orquídeas e bromélias, que por sua beleza e pelo conhecimento científico que expõe é fonte de pesquisa em universidades, aqui e no exterior. Mais importante, porém, para o mundo científico, é Orquidáceas brasilienses, publicado em 1975 e traduzido para o alemão e o inglês, no qual são analisadas 2.350 espécies de orquídeas brasileiras. Algumas de suas descobertas foram publicadas no Japão, Estados Unidos e Alemanha, e ele é citado em trabalhos de outros cientistas, com freqüência.

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O templo ecumênico
construído por Kautsky

Ele descobriu a maior begônia do mundo, que levou seu nome: é a Begonia kautskiana, que possui uma haste floral de 2,5 metros de altura. E a menor, a Neoregelia liliputiana, tem cerca de dez centímetros de altura e pode ser encontrada na floresta Kautsky, transformada em reserva biológica por causa de seus estudos. Seu nome foi dado também a outra de suas descobertas, a Cattleya Schilleriana de 3 labelos Memória Roberto Kautsky.

"A Cattleya costuma ter um só labelo, e uma planta dessas com três labelos é assim uma aberração, uma forma única na natureza", explica ele.

Seu nome é citado com respeito entre cientistas, e ele foi grande amigo de outro preservacionista e estudioso capixaba, o falecido Augusto Ruschi, o maior especialista do mundo em beija-flores – com quem trocava idéias e informações científicas.

Suas descobertas envolvem 107 novas espécies de orquídeas e bromélias (as últimas estão em estudos na Universidade de Campinas, e se forem publicadas elevarão esse número para 110).

Pesquisas e descobertas

Nas suas andanças na mata, ele fez descobertas também de alguns animais: um peixe do gênero Trichomycterus ("ainda não foi publicado, não é oficial...", diz Kautsky), um sapo diferente ("tem um coaxar esquisito", diz Kautsky), que ele enviou para o seu amigo Euclides Colnago, orquidófilo e pesquisador da vida silvestre, mas que também ainda não foi estudado suficientemente para publicação. "Outro espécime do mesmo sapo eu enviei para o João Luiz Gasparini, biólogo que vive em Vitória, e a revista "Trilhas" publicou matéria a respeito", diz Kautsky.

Gasparini é um dos pesquisadores que se correspondem com ele – muitos vêm visitá-lo em casa, e são recebidos no orquidário, onde ele cultiva centenas de espécies de bromélias e orquídeas. Colnago é um dos amigos de Kautsky que foi contagiado pelo seu interesse pela natureza, e, mais, pela sua obsessão pelas orquídeas e bromélias. Foi gerente da Refrigerantes Coroa durante muitos anos, e pouco a pouco nasceu entre os dois uma amizade baseada nesses interesses científicos.

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Parte da floresta em que
ele faz suas pesquisas

Outra descoberta interessante foi a de um macaco de cara escura, que Kautsky acredita ser de uma espécie inteiramente nova. Ele mostrou o macaco ao especialista em primatas Scott Lindenberg, brasileiro, quando este o visitou em sua floresta. Fotos do macaco estão em estudos na Funatura, no Distrito Federal, órgão ao qual Kautsky é associado. "Mas nada disso é oficial", adverte ele.

Oficial mesmo tem a Phyllodytes kautskyi, uma perereca que vive dentro das bromélias e come mosquitos, e a Phylodendo Kautskyi, que foi mandada para a Inglaterra. Ou a Cattleya, já citada, que foi mandada para a Alemanha, para os professores Paps e Dunks, mas que infelizmente os dois especialistas acabaram matando, porque a plantaram em um recipiente de isopor (aqui, Kautsky usa xaxim, e diz que o isopor é tóxico para a planta). "Mataram o único exemplar no mundo...", queixa-se Kautsky, que, no entanto, justifica os cientistas alemães: "É difícil lidar com essas plantas fora de seu habitat".

Desde criança na floresta

Daqui a pouco, 23 de maio, Kautsky estará completando 77 anos. Desde os 8, sua paixão sempre foram a floresta e as milhares de espécies – animais e vegetais – que nela habitam. Foi com o pai que aprendeu o respeito e a curiosidade sobre a natureza. As terras da família – cerca de 30 hectares - foram doadas pelo imperador dom Pedro II a seu avô, Antônio Ricardo Kautsky, quando da chegada deste à região, com uma das levas de imigrantes alemães que vieram colonizar o interior do Estado. Nessas terras, primeiro o avô plantou café, para depois seu pai, Roberto Carlos, se ver obrigado a erradicar as lavouras, por causa da baixa de preço que levou muitos agricultores à quebradeira.

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Kautsky no interior do templo ecumênico

O pai de Kautsky iniciou uma indústria de vinho de laranja, para aproveitar uma roda de moinho – único bem que havia sobrado da devastação financeira. A indústria cresceu e um de seus produtos, o guaraná Coroa, é hoje a marca mais vendida no Estado. Com o pai, Kautsky iniciou a recuperação das terras que antes abrigavam lavouras de café. Ele passou anos plantando espécimes nativas, refazendo a floresta original, fazendo renascer a Mata Atlântica em toda a sua exuberância nas terras de seu avô e seu pai.

Quando via algum desmatamento feito para iniciar plantações de café, Kautsky pedia autorização ao proprietário e ia colher mudas da mata derrubada, para plantar na sua floresta. Foi um trabalho diário de mais de 40 anos, até chegar ao que se vê hoje: a floresta densa, abrigando todas as espécies comuns da antiga Mata Atlântica, e servindo de pouso e abrigo para animais silvestres, insetos, pássaros, macacos, répteis, um sem número de vidas que muita gente vem até do exterior para conhecer.

No meio de seu povo

Vamos encontrar Kautsky num dia extremamente feliz para ele. Era o dia da inauguração da Capela da União, um desejo antigo – agora realizado – de seu filho Roberto Anselmo Kautsky Júnior, e também uma prova concreta da grande influência dos Kautsky na comunidade. A capela foi idealizada como um templo ecumênico, unindo as duas religiões mais fortes em Domingos Martins, a católica e a luterana. Na inauguração, um padre e um pastor luterano dividem o altar. Kautsky irradia felicidade: está em seu meio, com sua gente, num dia de emoção. A quem ouve, diz satisfeito: "Papai do céu é um só, temos que estar unidos no seu caminho".

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O arquidófilo Euclides Colnago

Mais de mil pessoas estão presentes, no pico mais alto da mata dos Kautsky, onde a capela se ergue, pequenina mas muito linda em sua singeleza, bem construída, com seu telhado branco e a cruz prateada recortados sob o céu. Dali se avista a serra e, ao longe, a Terceira Ponte é apenas um risquinho entre as montanhas que cercam Vitória e Vila Velha.

A subida da casa de Kautsky – uma construção de mais de 90 anos, muito bem conservada – até o pico onde fica a capela é por demais íngreme. São cerca de quatro quilômetros que as pessoas sobem em grupos – a maioria a pé, pois não é qualquer carro que enfrenta aquela pirambeira. Kautsky consegue a proeza de levar dez pessoas – inclusive repórter e fotógrafo de SÉCULO –, mais três crianças, tudo na sua Rural Willys antiga. É o seu carro do coração, que o leva por toda parte nessa mata fechada e pelas trilhas onde se embrenha para colher as flores mais lindas do mundo.

Lá em cima, cherokees, rangers, jeeps – belos espécimes do mais moderno out of road, aos quais a velha Rural Willys de Kautsky não fica a dever nadinha – vão chegando cheios de grupos alegres. Senhoras cortam montanhas de pãezinhos para o cachorro-quente que aguarda em meia dúzia de panelas. O guaraná Coroa e a água mineral Campinho (também produzida pela Refrigerantes Coroa) são de graça.

De pai para filho

De repente, uma cena incomum: um tremendo caminhão-jeep da Segunda Guerra Mundial chega, subindo com facilidade a ribanceira sob o braço forte de Kautsky Júnior, trazendo os músicos da festa. Claro, em festa alemã não podem faltar os músicos, certeza de alegria e da continuação das tradições de um dos folclores mais ricos do mundo, e que em Domingos Martins é cultivado com perseverança há mais de um século. Claro, alguém pode dizer: "Mas os Kautsky são descendentes de austríacos". Só que nesta cidade a cultura que predominou foi a alemã, envolvendo também os austríacos, e hoje é tudo uma comunidade só, sem diferenças de origem, até porque os casamentos ao longo do tempo uniram as duas nacionalidades.

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Alguns dos exemplares de orquídeas e
bromélias pesquisadas por Kautsky

Kautsky é o centro das atenções. É o inspirador e o guardião da cidade, sua maior figura, seu maior tesouro. Seu maior sucesso. Ele vai de grupo em grupo, sempre saudado com alegria. Quem vê não percebe o tanto de trabalho e de preocupação que deu a construção da capela, que levou cerca de três meses apenas. A trilha na mata teve de ser recapeada com concreto em vários trechos, para que os caminhões que traziam o material não escorregassem ou atolassem em dias de chuva. Claro, o filho foi o responsável maior por toda a trabalheira. Mas Kautsky não deixou de acompanhar tudo de perto, e de participar, com sua indefectível Rural, no transporte de material e nas providências para tornar viável aquela maluquice: a construção de uma capela em meio ao nada, em plena mata, no pico mais alto da cidade. Coisa que só o empenho kautskiano teve o condão de tornar possível.

Empenho que levou Roberto Anselmo Júnior a ser assediado para se candidatar à prefeitura de Domingos Martins. "Eu desaconselhei", diz Kautsky, "porque já fui vice-prefeito e vi que a política não se coaduna com o jeito de ser de nossa família".

O desejo de construir a capela mostra também que o filho de Kautsky – e também ele mesmo, depois, já fascinado pela idéia – quis aliar duas facetas da vida de seu pai, no que diz respeito à religião – e que na verdade estão presentes na maioria das famílias de Domingos Martins. Kautsky, como muitos dos filhos e netos de imigrantes, ficou dividido durante toda a vida entre a fé luterana e a católica. Tudo que aprendeu primeiro em sua vida, inclusive o catecismo, foi com sua mãe, Elisabeth Schwambach Kautsky, católica. Mas depois, já crescidinho, foi para o Colégio Teuto-brasileiro, onde prevalecia a fé luterana. Depois de casado com d. Mercedes, as duas religiões foram se misturando, ora se ia a um culto, ora se comparecia a uma missa.

A Capela da União teve projeto arquitetônico e urbanístico de Paulinho Patrocínio, também presente à festa, e feliz da vida pela concretização dessa obra tão significativa. Os dois sinos – nas notas si e sol –, que vieram de Santa Catarina, começam a tocar. E Kautsky sorri como criança. Apesar de todo o reconhecimento no mundo científico, e das alegrias que lhe dá a sua atividade de pesquisador, parece que este momento, em que é mais um – porém um alguém muito especial –, no meio do seu povo, significa para ele muito mais, e lhe dá muito mais alegria, do que todas as manifestações de admiração que já recebeu de especialistas e autoridades científicas do mundo inteiro.

Uma luta pela preservação

Garra, determinação e empenho são atitudes que a gente logo associa aos alemães. Para Kautsky, é preciso incluir também o preservacionismo. "O povo de origem alemã tem muito respeito pela natureza, ou pelo menos é isso que se vê aqui", diz, mostrando as matas quase intactas ao redor de Domingos Martins, ao contrário do que se vê em muitas regiões do Estado, onde o desmatamento é assustador.

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Kautsky e a inseparável Rural
em que ele percorre a mata

Talvez por ter no sangue essa característica, Kautsky sofre duplamente com a atitude do Ibama, o órgão fiscalizador do meio ambiente, cujos técnicos de vez em quando cismam de "mexer" com ele. O Ibama não dá autorização a Kautsky para coletar plantas em suas próprias terras, que por sinal são consideradas reserva biológica pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O amor de Kautsky pelas plantas e a busca de mais conhecimento sobre elas e seu ambiente levaram Kautsky a receber, nos anos 70, das mãos do padre Raulino Reitz, já falecido, na época diretor do Jardim Botânico do Rio, um documento que tornava a sua floresta uma reserva biológica. Isto lhe valeu uma autorização do antigo IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – para coletar espécies na mata de sua propriedade. Hoje, o pessoal do Ibama (o órgão que sucedeu o IBDF), como diz Kautsky, "implica comigo e não quer permitir que eu colete plantas para prosseguir meus estudos". O cientista mostra a autorização do IBFD, que para ele tem valor sagrado. "Essa autorização anda sempre no meu bolso", diz sorrindo.

A briga com o Ibama é antiga, mas Kautsky garante: "Eu só recolhi plantas não catalogadas, espécies novas, para que a ciência pudesse tomar conhecimento de sua existência. E, quando a gente age dessa forma, recolhe apenas uma unidade de cada planta, não é uma coisa predatória", argumenta. Com a proibição, o órgão governamental do meio ambiente está tolhendo as atividades de um dos maiores pesquisadores de campo que a história da pesquisa sobre a mata Atlântica e a fauna e flora tropicais já conheceu.

Um camponês, que quando menino vendia verduras e que depois virou empresário – administrando a Refrigerantes Coroa – e que há cerca de 20 anos se dedica somente a suas orquídeas e bromélias.

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