Vivem felizes e desembestados pelas fraldas da montanha, aos
magotes, com sua encantadora alegria, sua saudável peraltice e seus lindos olhinhos
vigilantes de montanheses. Têm nomes de plantas, de fenômenos da Natureza, de cores e de
muita outra imagem poética que a sensibilidade dos pais encarrega-se de fazer ecoar pelos
vales a cada vez que um daqueles pequenos queridos meninos e meninas tem seu nome chamado.
São tantos trepados numa mesma árvore, às vezes, e assim tão
pequenos, que parecem mesmo frutos daquele paraíso. São dos mais belos seres dessa
região tão rica em sua biodiversidade e que atende pelo nome de Parque Nacional do
Caparaó .
Seja na banda capixaba, inigualável em sua exuberância vegetal, seja
na mineira, também belíssima e mais estruturada por ter iniciado primeiro a exploração
turística do Parque, o que a região tresanda de essencial é um jeito esperto de sua
gente que com toda certeza está ligado à escolha da região como habitat. Escolha, no
caso, refere-se aos não-nativos, esteja claro. E eles são um considerável contingente
de famílias, boa parte dona de pequenas propriedades rurais, pousadas e albergues hoje
às voltas com processos de desapropriação, por conta da ampliação da área do Parque.
É uma gente que respira a plenos pulmões, a poder de tanto subir e
descer e subir serra de novo, tantas vezes até o topo do Pico da Bandeira no meio de
tantos odores bons, tanto verde, tantos aromas curativos, tantas essências
tranquilizadoras. E às vezes em meio a muito frio, também.
É gente de pernas fortes, de coração robusto, sorriso fácil e
atitudes solidárias. Em geral pessoas que optaram por retirar-se do automatismo da vida
das grandes cidades e que, tendo obtido sucesso no processo de adaptação ao novo lar,
continuam na maioria das vezes trabalhando duro, que assim está escrito, mas é uma gente
que tem tempo pra contar casos, pra ouvir o vizinho, pra andar a pé, pra sorrir de orelha
a orelha. E pra receber as pessoas de um jeito desarmado que convida o forasteiro a ficar.
E também, não se iluda o visitante, é uma gente profunda no sentir e
no pensar. Que afinal este é o efeito de regiões montanhosas de onde o vivente pouco
vislumbra do horizonte: a introspecção. Na montanha, o universo interior se adensa e se
enriquece. Convida ao refletir, ao examinar-se.
Como no caso da gente das beiradas e fraldas de montanhas do Caparaó.
São pessoas de variado perfil, alguns tão ciosos da necessidade da preservação
ambiental que pode tornar-se difícil a um urbanóide abrir mão de toda a parafernália
eletrônico-cibernética do nosso tempo e topar ser vizinho daquela boa gente que escolheu
viver como na canção "Riacho do Navio", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas:
"Sem rádio e sem notícia das terras civilizadas".
Mas que dá uma invejazinha danada daquela corajosa gente que escolheu
para si e para seus filhos respirar todos os dias aquele ar tão puro, dá sim. No caso do
cronista, fica por enquanto só na fantasia. Quem sabe um dia a coragem chega?