De como um jovem idealista, depois de muita
luta, conseguiu reunir
índios e brancos num espetáculo de grande beleza
Maciel de Aguiar (especial para SÉCULO)
Fotos: Apoena
Debruçados sobre a balaustrada do avarandado da casa do farmacêutico
Roberto Silvares, naquele fim de tarde de março de 1968, com os últimos raios de sol
caindo sobre os telhados encardidos do casario do lendário Sítio Histórico Porto de
São Mateus, contemplamos por alguns eternos minutos os velhos sobradões de antanho,
palco de longas lutas de índios guerreiros e escravos valentes que se aquilombaram pelas
frondosas matas seculares do Vale do Cricaré, cujo rio caudaloso e belo, feito uma
serpente de esmeralda, ainda se enrosca na fralda do planalto como quem tenta retardar-se
para não se perder pela imensidão do mar: ali soube das histórias que iriam mudar tão
substancialmente a minha vida.
Após aquela eterna contemplação, ouvi, pela primeira vez, as
histórias de coragem dos povos das barrancas do Cricaré. Eram histórias tão bonitas
quanto as de Robinson Crusoé que lia nos livros, e menos distantes. As lutas dos valentes
aimorés contra o branco colonizador desde aquele ano de l558, quando Mem de Sá mandou
massacrar o gentio, em represália à morte de seu filho Fernão de Sá, às lutas dos
heróis negros que resistiram às leis do chicote e do castigo em praça pública iriam
fascinar aquele menino com olhos de aventura de modo que, naquele exato momento, pudesse
seguir outro rumo, enquanto Tiba e João, que por certo não liam as histórias de
Robinson Crusoé, nem foram chamados para aquela contemplação, seguiram os rumos da
maioria da nossa geração, no confronto armado contra o regime tirano, e beijaram a face
da eternidade.
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Sob a quase angelical proteção dos braços de Hermógenes Lima
Fonseca e Aldemar Neves, da balaustrada daquele avarandado, na crista do planalto sobre o
casario do Porto, ouvi, fascinado, duas propostas para o caminho a seguir: enquanto
Aldemar me instigava sobre a necessidade visceral das lutas contra o regime, Hermógenes,
já desencantado, dizia quase que sussurrando em meus ouvidos que de sofrimento da
clandestinidade já bastava o deles, embora ambos, velhos marxistas, acreditassem que
todas as formas de luta eram necessárias, justificáveis. Não tinha vivido nem ao menos
os meus primeiros 16 anos e já era preciso decidir o que fazer da vida.
Na última vez que vi Tiba e João, arregimentados para suas viagens
sem volta, ainda não tinha a convicção de que "devia ficar em São Mateus, lutar
pela revitalização do Porto, levantar as histórias dos escravos que enfrentaram as
atrocidades do sistema escravocrata, dos índios que foram chacinados pelos portugueses,
das moças-damas que viviam no Porto relegadas às mais humilhantes condições de vida e
dos contadores de histórias, barqueiros, violeiros, mestres de folguedos, cabuleiros,
rezadores, marujos, e de gentes da beira do cais, que faziam a vida do povo mais bela e
mais feliz".
Disse tudo isso para os meus amigos, na despedida de nossos olhos
cheios de aventura, utopias e sonhos, assim como me convencera Hermógenes. De Tiba ouvi
um convicto discurso leninista, de coragem e em tom quase ameaçador: "A história
não perdoa os que vacilam". De João ouvi a frase mais dura de meus poucos anos:
"Vamos dar nossas vidas para que outras vidas possam ter o direito à
liberdade".
Nunca mais os vi. Anos mais tarde li os seus nomes na Lista dos
Desaparecidos, do livro Brasil: Tortura Nunca Mais, onde se transformaram em Vitorino
Alves Moitinho e João Gualberto. A angústia de ver meu s amigos indo para o Rio de
Janeiro, sem que pudesse seguir o mesmo rumo, e as palavras de Hermógenes Lima Fonseca em
meus ouvidos atordoavam-me naqueles anos de sonhos e utopias no final da década de 60.
Desesperado, até mesmo para a afirmação de que ficar na província "para defender
o Sítio Histórico Porto de São Mateus e as gentes do legendário Cricaré" era
mesmo a opção mais certa que fizera na vida, fui em busca das histórias do povo,
ouvindo a versão dos vencidos. Histórias de amor à liberdade tão bonitas quanto a
convicção de João. Histórias de heróis valentes e esquecidos pelos historiadores
oficiais, tão fascinantes quanto o fascínio de Tiba pelos que não vacilam diante de seu
tempo.
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Depois que ouvi dezenas de pessoas, cada uma com sua história tão
bonita quanto a dos meus amigos que nunca mais deram notícia, a cidadezinha de São
Mateus ficava, também, cada vez mais, pequena para mim. Tinha nas mãos as histórias de
negros e botocudos, homens e mulheres de coragem que, por longos anos, ouvi e registrei
com a mesma dedicação e força de vontade dos que escreveram seus nomes na Lista dos
Desaparecidos. Porém, precisava contá-las para alguém e não podia deixar de começar
por Hermógenes Lima Fonseca, responsável direto por aquela opção.
Nas longas tardes do Pixingolê, em Conceição da Barra, chorávamos
ao narrar as descobertas de lutas e vidas, tão sublimes quanto fascinantes, como as de
Benedito Meia-Légua, Clara Maria do Rosário dos Pretos, Constância de Angola,
Rosa-Flor, Mateus Puquerio, Zacimba Gaba, Negro Rugério, Viriato Cancão-de-Fogo e de
tantos outros heróis negros que a historiografia oficial encarregara-se de dissimular,
omitir e apagar.
No início da década de 70, saí em busca de meus amigos, para também
contar-lhes sobre os nossos heróis desconhecidos e suas lutas pela liberdade. Inútil
busca de um menino na cidade grande do Rio de Janeiro aos 18 anos procurando outros
meninos que não tinham medo de beijar a face da eternidade. Não os encontrei em parte
alguma para falar-lhes das minhas aventuras e lutas em defesa da liberdade sonhada por
todos nós diante daqueles anos de chumbo.
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Os tempos endureceram para nossa geração, os confrontos foram
inevitáveis e a clandestinidade para poder escrever poemas e histórias de heróis
esquecidos era o único caminho. Na cidade de São Sebastião, lia as manchetes diárias
dos jornais, que registravam prisões e mortes de nossos meninos. Nesse clima de terror e
medo freqüentes registrei os anseios de meus 20 anos em versos que pouca gente leu, mas
não desisti. Precisando contar as histórias das gentes de coragem do Vale do Cricaré,
fui atrás de outros cúmplices e fiz grandes amigos: Carlos Drummond de Andrade,
Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Rubem Braga, Josué Montello, Afonso
Arinos de Mello Franco, Gilberto Freyre, Oscar Niemeyer, Fernando Gabeira, entre tantos
intelectuais que deixaram tantas coisas importantes a fazer para ouvir atentamente as
histórias de negros e índios do Vale do Cricaré, além dos desesperados poemas que
produzia nas trevas.
Da amabilidade de todos recebi o afeto e o carinho. Escreveram textos
belíssimos sobre a necessidade de preservação do Sítio Histórico Porto de São
Mateus. De Drummond, que emocionou-me com uma crônica publicada no "Jornal do
Brasil", até Darcy Ribeiro, que dizia que o Porto de São Mateus "precisava ser
restaurado para registrar o massacre dos aimorés como sendo o primeiro genocídio
brasileiro", tinha o incondicional apoio para continuar as lutas em defesa da causa
do conhecimento e do resgate de nossos valores históricos, da liberdade e de nossos
heróis anônimos.
Mas foi em um belo dia de sol, no centro do povoado SantAna, que
iniciei a viagem de volta. Ali, como que por uma provocação do destino, conheci uma
outra figura excepcional de meus caminhos, que desafiava-me para outra aventura: "Por
que você agora não volta?" Não consegui mais viver no Rio de Janeiro, e São
Mateus voltou a ficar imensa dentro de mim, ao mesmo tempo em que aceitava o desafio de
Rogério Medeiros: construíamos uma amizade que interligou todos os nossos sentimentos.
Depois de anos de lutas, nas décadas de 70, 80 e 90, fui levado à
condição de secretário de Estado da Cultura e Esportes do Espírito Santo. Recuperamos
o casario do Porto de São Mateus e estamos restaurando todo o patrimônio histórico
capixaba, construindo teatros, museus e realizando inúmeros projetos culturais jamais
vistos em toda a história do nosso Estado. Nessas andanças reencontrei-me com Amarílis
de Rebuá, autora da redução da ópera O Guarani, de Antônio Carlos Gomes, uma das
maiores sopranos do Brasil. Aceitou a aventura de produzirmos ao ar livre essa récita no
Porto de São Mateus como um marco para a história musical do nosso país.
Finalmente conseguimos montar, no mesmo local do primeiro genocídio
brasileiro, a obra monumental de Carlos Gomes, esse artista genial, que feito uma força
indômita resiste ao longo dos séculos na constelação dos gênios universais da
música, e que produziu um recital mágico e intangível, amalgamado no imaginário
coletivo do nosso povo como "A Voz do Brasil".
Fizemos O Guarani, como gostaria Darcy Ribeiro, "no mesmo local do
primeiro genocídio brasileiro", que pela primeira vez na história contou com a
participação dos nossos índios das aldeias guaranis do Espírito Santo, que, como uma
benevolência dos deuses dos aimorés, massacrados pelos colonizadores, se converteu, como
afirmou o ministro da Cultura, Francisco Weffort, "num dos mais representativos
produtos culturais existentes hoje no Brasil".
Foi o dia 7 de abril de 2001 que inseriu o Espírito Santo no cenário
histórico-cultural brasileiro, e o Largo do Chafariz, no Sítio Histórico Porto de São
Mateus, inteiramente restaurado, como sonhava Hermógenes Lima Fonseca, era o palco dessa
história de amor que, como um eco das florestas daquele Brasil menino, trouxe de volta a
saga de Ceci e Peri, que encantou várias gerações como uma das mais belas páginas da
história musical da humanidade. Foi um sucesso total. Cerca de 40 mil pessoas se juntaram
para ouvir e se emocionar com a mais brasileira de nossas histórias de amor e de
compreensão dessa nossa extraordinária aventura.
O sonho valeu a pena. Os amigos que se foram para que pudéssemos viver
hoje em plena liberdade, e que não leram as histórias de Robinson Crusoé, nem ouviram
as histórias de lutas dos nossos heróis esquecidos pela historiografia oficial, devem,
também, do longe de suas eternidades, ter ouvido a protofonia de O Guarani.
Os escravos, os cantadores, os catraieiros, os jogadores de capoeira,
os marujos, os cabuleiros, as moças-damas, os pescadores, os que foram açoitados em
praça pública e que não mais vivem no Porto de São Mateus também devem ter ouvido na
imensidão do universo a melodia libertária e emocionante dessa música que encantou a
todos.
Por fim, os índios aimorés, botocudos do Brasil, que foram
massacrados pelos colonizadores na Batalha do Cricaré, descrita pelo padre José de
Anchieta como um relato de crueldade, com seus corpos espalhados pelo vale, também devem
ter ouvido essa música sublime que os levou definitivamente aos céus naquela noite que
jamais será esquecida.
O Guarani, como "A Voz do Brasil", lavou as nossas almas e
encheu os nossos corações de esperança e convicção de que tudo valeu a pena.