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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.





  NOVO HORIZONTE

Carapeba, do vício à virtude

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São Sebastião, a região que já foi o segundo maior prostíbulo do país e teve a maior renda per capita do Estado, hoje é Novo Horizonte, um bairro de gente humilde e religiosa, que cresce ao ritmo de fábricas e comércio diversificado

Texto: Fernanda Couzemenco
Fotos: Apoena

A placa, com letras garrafais azuis indicando a localização do restaurante Quem Dirias, está na avenida Brasil há apenas seis meses, desde que a baiana de Itabuna Norma Lúcia de Jesus Silva, 34, abriu o bar e restaurante em sociedade com a sobrinha, um sonho antigo. "Todo mundo da família falava: ‘Norma e Fabiana vão abrir um restaurante. Quem dirias!’ De tanto falarem, escolhemos esse nome", explica sorrindo.

Na memória de homens e mulheres que por ali passaram durante os anos 60 e 70, porém, a exclamação de surpresa remete a uma história ainda mais antiga e surpreendente.

Em vinte anos, o loteamento rural de 1.261.440 m² destinado, até 1965, a mineiros e capixabas de classe média interessados em comprar uma chácara perto da praia de Carapebus, transformou-se, em 1968, na vila de São Sebastião, também conhecida como Carapeba (ou São Sebastião dos Boêmios, como bem classificou o saudoso cineasta Amilton de Almeida, em vídeo-documentário de mesmo nome), local para onde o então governador Cristiano Dias Lopes transferiu os prostíbulos que funcionavam na região central de Vitória e tanto incomodavam as famílias.

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Vista do bairro Novo Horizonte

Tratava-se da segunda maior zona de meretrício do país (só perdendo para a área portuária de Santos, em São Paulo), com fama internacional e, segundo reportagem de março de 1973 da revista "Espírito Santo Agora", com a maior renda per capita do Estado, duas vezes maior do que a média nacional, na época de Cr$ 260,00.

"Ganhava-se realmente muito dinheiro", testemunha o pernambucano João Trindade, 76 anos, quase metade deles vividos em São Sebastião/Novo Horizonte. Presidente da associação de moradores local por três vezes (período em que transformou o bairro na principal célula de seu partido na Serra, o PC do B), ex-comerciante e corretor de imóveis, Trindade afirma que trabalhava dia e noite em sua barraca, onde vendia comidas e bebidas. "A família inteira tinha que ajudar, para dar conta do movimento", lembra.

O período áureo começou a se esgotar no final da década de 70, sendo sepultado em 1982, com o fechamento de todas as casas. Os moradores apontam, entre as causas do declínio, o inchaço do bairro, provocado pelo aumento no número de ladrões e marginais que invadiam os lotes vagos.

A maior parte dos invasores era oriunda da Bahia e Minas Gerais. O lugar começou a ficar famoso entre baianos e mineiros durante a construção da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), que entrou em operação em 1983. Um batalhão de 15 mil peões vindos dessas regiões foi atraído pela promessa de emprego. Quando as obras acabaram, muitos permaneceram no bairro, desempregados, iniciando um surto de vadiagem e banditismo.

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Norma Luciade Jesus em seu restaurante

A família de Joventina Sena da Cruz, 71 anos, a dona Santa, se lembra dessa história. Ela, o marido e os filhos chegaram em Carapeba em 1981, quando a chamada "Vila Baiana", onde se aglomeravam os peões, ainda existia. "As prostitutas, mesmo, não incomodavam. O problema era esse pessoal de fora que fazia bagunça", conta.

Histórias como a de Maria Tomba Homem, Maria Capeta e Marleninha ficavam restritas aos freqüentadores das casas de sexo. "Eram mulheres muito bravas, que davam facada em qualquer um, sem muito motivo", recorda João Trindade, citando um caso de ciúmes de Maria Capeta. "Uma moça colocou um chiclete na cadeira onde um homem a quem Maria Capeta amava ia se sentar. Ele achou graça da brincadeira e fez o mesmo com ela. Maria Capeta, quando descobriu, ficou com muita raiva e matou o pobre a facadas".

Valter Rodrigues de Paula, o Sargento Valter, vice-prefeito da Serra e morador do bairro desde 1982, ao estudar a história de Novo Horizonte concluiu que outra causa do fim da vila do pecado foi o surgimento, também no início dos anos 80, das primeiras casas de massagem em Jardim Camburi, que passaram a atrair os clientes mais abastados.

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Elza Mendes como vive hoje

De qualquer forma, o fim da maior zona de meretrício do Estado foi sendo decretado sem que suas prostitutas, garçons e demais trabalhadores pudessem fazer alguma coisa. O despreparo intelectual e profissional fez com que a maioria daquelas pessoas se tornassem vítimas do crescimento e da decadência de São Sebastião.

Ana Maria da Silva, 47 anos, é um exemplo. Chegou no bairro, mais precisamente à boate Escandinave, em 1970, aos 16 anos, pelas mãos de um amigo que a conheceu no prostíbulo em que trabalhava em Governador Valadares, sua cidade natal, desde os 15 anos. "Morava com minha mãe, que era analfabeta e lavadeira. Só pude estudar até a segunda série primária. Lá em casa, o dinheiro mal dava para o feijão com arroz. Isso me revoltava, saí de casa e acabei caindo nessa vida", resume.

Com o fim das boates, Ana, assim como todas as meninas de São Sebastião – com exceção das que conseguiram um "bom casamento" e foram embora – se viram sem casa, sem emprego, sem perspectiva.

Depois que o marido – ex-garçom da Escandinave – a abandonou, há cinco anos, o filho mais velho foi quem passou a ajudá-la no orçamento familiar, sustentado pela venda de chup-chup, salgados, roupas e produtos de beleza. "Não quero mais saber de homem. Estou decepcionada e sei que nenhum vai me compreender. Não existe homem decente. Ou é trabalhador e cachaceiro, ou é vagabundo e cachaceiro. Com uma semana eles já querem mandar em você, na sua casa, nos seus filhos. Eu não quero mais isso para mim", sentencia.

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Odila Tavares e sua leitura
preferida, a Bíblia

Trajetória semelhante teve Manoel Rodrigues Rezende, 51 anos. Homossexual, trabalhou com serviços gerais em diversas boates, cuidava de crianças, cozinhava. Hoje vive de favor em um cortiço onde funcionou a boate Veneza. O sustento é garantido por uma pequena aposentadoria recebida pelos poucos meses trabalhados na CST.

Os graves problemas de saúde o impedem de exercer algum ofício. Além de acentuada deficiência auditiva e uma úlcera na perna – evolução de uma variz estourada há mais de trinta anos e agravada, certamente, por alguma doença que diminuiu sua imunidade – Manoel apresenta clara confusão mental. "Fui curado por Deus e pela Igreja Deus é Amor. Agora tenho sabedoria, pois sou servo do Senhor", proclama, apesar do curativo na perna que o obriga a mancar.

Já Elza Mendes, 62 anos, e Odila Tavares de Oliveira Dias, 59 anos, ex-proprietária e ex-gerente da boate Lancaster, respectivamente, representam uma minoria que conseguiu sobreviver a São Sebastião com a alma menos dilacerada.

A Lancaster (o nome é inspirado em um perfume argentino, segundo Elza, e não no ator hollywoodiano Burt Lancaster, como muitos podem imaginar) e a Atlântica (no quarteirão ao lado, propriedade de Dinorah, é hoje uma clínica para dependentes químicos) eram as duas maiores boates da época.

Elza, ao contrário da antiga concorrente, que se mudou do bairro, continua morando no mesmo prédio. Fez do último andar, onde funcionava o salão de dança, uma casa com sala, copa, três quartos e cozinha, onde mora com seu terceiro marido. Os 25 quartos restantes são alugados por famílias, rapazes e moças (em separado).

A mudança de vida mais radical aconteceu com a ex-gerente. Mineira de Teófilo Otoni, onde "começou na vida", aos 18 anos, Odila é hoje missionária e regente do culto de oração da Igreja Pentecostal Trombeta de Deus. A igreja, uma dissidência da Deus é Amor, foi fundada há cinco anos por seu falecido marido, o ex-funcionário da boate Veneza, João Pereira Dias.

Desde que um câncer no estômago e no fígado levaram seu marido, Odila se esforça para manter a rígida doutrina da igreja, que estabelece, por exemplo, que homens e mulheres assistam ao culto sentados em bancos separados. Cada um de um lado do salão.

Na pequena casa onde mora, nos fundos da igreja, procura enterrar de vez o passado. "Não gosto de lembrar, não parece coisa de Deus", explica.

A poucos quarteirões da Trombeta de Deus, fervilha a avenida Brasil, principal via de Novo Horizonte e uma das únicas asfaltadas do bairro. O intenso e barulhento trânsito de carros, ônibus, caminhões, bicicletas, carroças, cavalos e pedestres na avenida ajudam Odila e outros moradores a esquecer as lembranças que tanto incomodam.

Na avenida, multiplicam-se fábricas, padarias, postos de gasolina, auto peças, entre outros comércios, que atendem aos 10 mil moradores locais e a bairros vizinhos, com características mais residenciais, como São Diogo e Cidade Continental.

Uma associação de moradores, uma bela pracinha, igrejas, escolas (entre elas o único Caic do Estado, escola pública modelo e orgulho dos moradores), campo e até time de futebol ajudam a criar um ambiente de bairro familiar e próspero.

O vice-prefeito, Sargento Valter, aposta nisso. "Novo Horizonte ainda vai crescer muito mais", assegura, enumerando anúncios de novos e grandes investimentos comerciais feitos por empresários de diversas áreas, de supermercados a faculdades.

As deficiências ainda são a rede de drenagem e esgoto, a iluminação, as invasões e a violência, problemas contra os quais o vice-prefeito promete um combate mais enérgico. "Queremos promover uma seleção natural dos futuros moradores. O marginal não terá mais lugar aqui", explica. "O bairro está vivendo sua quarta grande transformação", anuncia.

E é com muita ansiedade e olhos bem abertos e voltados para o futuro que os moradores esperam essas mudanças. "Acho que foi tudo um sonho. Mas agora estamos acordados", avalia Elza Mendes.

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