São Sebastião, a região que já foi o segundo maior
prostíbulo do país e teve a maior renda per capita do Estado, hoje é Novo Horizonte, um
bairro de gente humilde e religiosa, que cresce ao ritmo de fábricas e comércio
diversificado
Texto: Fernanda Couzemenco
Fotos: Apoena
A placa, com letras garrafais azuis indicando a localização do restaurante Quem
Dirias, está na avenida Brasil há apenas seis meses, desde que a baiana de Itabuna Norma
Lúcia de Jesus Silva, 34, abriu o bar e restaurante em sociedade com a sobrinha, um sonho
antigo. "Todo mundo da família falava: Norma e Fabiana vão abrir um
restaurante. Quem dirias! De tanto falarem, escolhemos esse nome", explica
sorrindo.
Na memória de homens e mulheres que por ali passaram durante os anos
60 e 70, porém, a exclamação de surpresa remete a uma história ainda mais antiga e
surpreendente.
Em vinte anos, o loteamento rural de 1.261.440 m² destinado, até
1965, a mineiros e capixabas de classe média interessados em comprar uma chácara perto
da praia de Carapebus, transformou-se, em 1968, na vila de São Sebastião, também
conhecida como Carapeba (ou São Sebastião dos Boêmios, como bem classificou o saudoso
cineasta Amilton de Almeida, em vídeo-documentário de mesmo nome), local para onde o
então governador Cristiano Dias Lopes transferiu os prostíbulos que funcionavam na
região central de Vitória e tanto incomodavam as famílias.
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Vista
do bairro Novo Horizonte |
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Tratava-se da segunda maior zona de meretrício do país (só perdendo
para a área portuária de Santos, em São Paulo), com fama internacional e, segundo
reportagem de março de 1973 da revista "Espírito Santo Agora", com a maior
renda per capita do Estado, duas vezes maior do que a média nacional, na época de Cr$
260,00.
"Ganhava-se realmente muito dinheiro", testemunha o
pernambucano João Trindade, 76 anos, quase metade deles vividos em São Sebastião/Novo
Horizonte. Presidente da associação de moradores local por três vezes (período em que
transformou o bairro na principal célula de seu partido na Serra, o PC do B),
ex-comerciante e corretor de imóveis, Trindade afirma que trabalhava dia e noite em sua
barraca, onde vendia comidas e bebidas. "A família inteira tinha que ajudar, para
dar conta do movimento", lembra.
O período áureo começou a se esgotar no final da década de 70,
sendo sepultado em 1982, com o fechamento de todas as casas. Os moradores apontam, entre
as causas do declínio, o inchaço do bairro, provocado pelo aumento no número de
ladrões e marginais que invadiam os lotes vagos.
A maior parte dos invasores era oriunda da Bahia e Minas Gerais. O
lugar começou a ficar famoso entre baianos e mineiros durante a construção da Companhia
Siderúrgica de Tubarão (CST), que entrou em operação em 1983. Um batalhão de 15 mil
peões vindos dessas regiões foi atraído pela promessa de emprego. Quando as obras
acabaram, muitos permaneceram no bairro, desempregados, iniciando um surto de vadiagem e
banditismo.
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Norma
Luciade Jesus em seu restaurante |
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A família de Joventina Sena da Cruz, 71 anos, a dona Santa, se lembra
dessa história. Ela, o marido e os filhos chegaram em Carapeba em 1981, quando a chamada
"Vila Baiana", onde se aglomeravam os peões, ainda existia. "As
prostitutas, mesmo, não incomodavam. O problema era esse pessoal de fora que fazia
bagunça", conta.
Histórias como a de Maria Tomba Homem, Maria Capeta e Marleninha
ficavam restritas aos freqüentadores das casas de sexo. "Eram mulheres muito bravas,
que davam facada em qualquer um, sem muito motivo", recorda João Trindade, citando
um caso de ciúmes de Maria Capeta. "Uma moça colocou um chiclete na cadeira onde um
homem a quem Maria Capeta amava ia se sentar. Ele achou graça da brincadeira e fez o
mesmo com ela. Maria Capeta, quando descobriu, ficou com muita raiva e matou o pobre a
facadas".
Valter Rodrigues de Paula, o Sargento Valter, vice-prefeito da Serra e
morador do bairro desde 1982, ao estudar a história de Novo Horizonte concluiu que outra
causa do fim da vila do pecado foi o surgimento, também no início dos anos 80, das
primeiras casas de massagem em Jardim Camburi, que passaram a atrair os clientes mais
abastados.
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Elza
Mendes como vive hoje |
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De qualquer forma, o fim da maior zona de meretrício do Estado foi
sendo decretado sem que suas prostitutas, garçons e demais trabalhadores pudessem fazer
alguma coisa. O despreparo intelectual e profissional fez com que a maioria daquelas
pessoas se tornassem vítimas do crescimento e da decadência de São Sebastião.
Ana Maria da Silva, 47 anos, é um exemplo. Chegou no bairro, mais
precisamente à boate Escandinave, em 1970, aos 16 anos, pelas mãos de um amigo que a
conheceu no prostíbulo em que trabalhava em Governador Valadares, sua cidade natal, desde
os 15 anos. "Morava com minha mãe, que era analfabeta e lavadeira. Só pude estudar
até a segunda série primária. Lá em casa, o dinheiro mal dava para o feijão com
arroz. Isso me revoltava, saí de casa e acabei caindo nessa vida", resume.
Com o fim das boates, Ana, assim como todas as meninas de São
Sebastião com exceção das que conseguiram um "bom casamento" e foram
embora se viram sem casa, sem emprego, sem perspectiva.
Depois que o marido ex-garçom da Escandinave a
abandonou, há cinco anos, o filho mais velho foi quem passou a ajudá-la no orçamento
familiar, sustentado pela venda de chup-chup, salgados, roupas e produtos de beleza.
"Não quero mais saber de homem. Estou decepcionada e sei que nenhum vai me
compreender. Não existe homem decente. Ou é trabalhador e cachaceiro, ou é vagabundo e
cachaceiro. Com uma semana eles já querem mandar em você, na sua casa, nos seus filhos.
Eu não quero mais isso para mim", sentencia.
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Odila
Tavares e sua leitura
preferida, a Bíblia |
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Trajetória semelhante teve Manoel Rodrigues Rezende, 51 anos.
Homossexual, trabalhou com serviços gerais em diversas boates, cuidava de crianças,
cozinhava. Hoje vive de favor em um cortiço onde funcionou a boate Veneza. O sustento é
garantido por uma pequena aposentadoria recebida pelos poucos meses trabalhados na CST.
Os graves problemas de saúde o impedem de exercer algum ofício. Além
de acentuada deficiência auditiva e uma úlcera na perna evolução de uma variz
estourada há mais de trinta anos e agravada, certamente, por alguma doença que diminuiu
sua imunidade Manoel apresenta clara confusão mental. "Fui curado por Deus e
pela Igreja Deus é Amor. Agora tenho sabedoria, pois sou servo do Senhor", proclama,
apesar do curativo na perna que o obriga a mancar.
Já Elza Mendes, 62 anos, e Odila Tavares de Oliveira Dias, 59 anos,
ex-proprietária e ex-gerente da boate Lancaster, respectivamente, representam uma minoria
que conseguiu sobreviver a São Sebastião com a alma menos dilacerada.
A Lancaster (o nome é inspirado em um perfume argentino, segundo Elza,
e não no ator hollywoodiano Burt Lancaster, como muitos podem imaginar) e a Atlântica
(no quarteirão ao lado, propriedade de Dinorah, é hoje uma clínica para dependentes
químicos) eram as duas maiores boates da época.
Elza, ao contrário da antiga concorrente, que se mudou do bairro,
continua morando no mesmo prédio. Fez do último andar, onde funcionava o salão de
dança, uma casa com sala, copa, três quartos e cozinha, onde mora com seu terceiro
marido. Os 25 quartos restantes são alugados por famílias, rapazes e moças (em
separado).
A mudança de vida mais radical aconteceu com a ex-gerente. Mineira de
Teófilo Otoni, onde "começou na vida", aos 18 anos, Odila é hoje missionária
e regente do culto de oração da Igreja Pentecostal Trombeta de Deus. A igreja, uma
dissidência da Deus é Amor, foi fundada há cinco anos por seu falecido marido, o
ex-funcionário da boate Veneza, João Pereira Dias.
Desde que um câncer no estômago e no fígado levaram seu marido,
Odila se esforça para manter a rígida doutrina da igreja, que estabelece, por exemplo,
que homens e mulheres assistam ao culto sentados em bancos separados. Cada um de um lado
do salão.
Na pequena casa onde mora, nos fundos da igreja, procura enterrar de
vez o passado. "Não gosto de lembrar, não parece coisa de Deus", explica.
A poucos quarteirões da Trombeta de Deus, fervilha a avenida Brasil,
principal via de Novo Horizonte e uma das únicas asfaltadas do bairro. O intenso e
barulhento trânsito de carros, ônibus, caminhões, bicicletas, carroças, cavalos e
pedestres na avenida ajudam Odila e outros moradores a esquecer as lembranças que tanto
incomodam.
Na avenida, multiplicam-se fábricas, padarias, postos de gasolina,
auto peças, entre outros comércios, que atendem aos 10 mil moradores locais e a bairros
vizinhos, com características mais residenciais, como São Diogo e Cidade Continental.
Uma associação de moradores, uma bela pracinha, igrejas, escolas
(entre elas o único Caic do Estado, escola pública modelo e orgulho dos moradores),
campo e até time de futebol ajudam a criar um ambiente de bairro familiar e próspero.
O vice-prefeito, Sargento Valter, aposta nisso. "Novo Horizonte
ainda vai crescer muito mais", assegura, enumerando anúncios de novos e grandes
investimentos comerciais feitos por empresários de diversas áreas, de supermercados a
faculdades.
As deficiências ainda são a rede de drenagem e esgoto, a
iluminação, as invasões e a violência, problemas contra os quais o vice-prefeito
promete um combate mais enérgico. "Queremos promover uma seleção natural dos
futuros moradores. O marginal não terá mais lugar aqui", explica. "O bairro
está vivendo sua quarta grande transformação", anuncia.
E é com muita ansiedade e olhos bem abertos e voltados para o futuro
que os moradores esperam essas mudanças. "Acho que foi tudo um sonho. Mas agora
estamos acordados", avalia Elza Mendes.