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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.





  O HOMEM DO MARECHAL

Clóvis Stenzel, um gaúcho importante na vida pública capixaba

O coveiro da jogatina

Dutra decretou e ele fez valer a proibição do jogo no Espírito Santo

Cláudia Rodrigues (Especial para SÉCULO)
Fotos: Assis Hoffmam

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Clóvis em seu consultório no Rio Grande do Sul

Ele nasceu em 1923 no Rio Grande do Sul, orgulha-se de ter sido batizado na mesma pia batismal do general Osório, esteve ao lado dos militares nos anos de chumbo e refere-se ao golpe de 64 como revolução. Toda vida um homem de direita, Clóvis Stenzel cumpriu um papel de oposição, contra a oligarquia dominante, durante os nove anos em que militou na política, na advocacia e na imprensa do Espírito Santo, ao longo dos anos 50.

Recolhido a Porto Alegre desde o final da década de 70, quando saiu de Brasília, vive hoje, aos 78 anos, em um apartamento de classe média alta, no bairro Independência, que já foi o mais nobre da capital gaúcha.

Nesse apartamento, de onde ainda se avistam antigas mansões dos anos 50, adornadas por jardins cheios de fuligem devido ao trânsito intenso, a reportagem de SÉCULO é recebida por uma senhora tão elegante, atenciosa e refinada, que não deixa dúvidas: trata-se da dona da casa, que faz as vezes de secretária do marido, atrasado para a entrevista. Mas ele não tarda mais do que cinco minutos para aparecer. Com fala aveludada, postura tímida, pede mil desculpas por estar com um cliente no consultório, prevendo um atraso de 40 minutos para conceder a entrevista. Somos muitíssimo bem tratados por dona Marina Stenzel, que oferece água, suco e doces arranjados delicadamente em papel celofane dentro de uma tigela de vidro trabalhado. Tudo servido como manda a etiqueta.

Mais vinte minutos e o sr. Clóvis nos convida a passar ao consultório, explicando que trabalha como psicólogo desde que voltou de Brasília. Em seu cartão está escrito que se trata de psicologia humanista; os livros expostos são behavioristas, numa olhada pouco indiscreta e generalizada. Logo ele explica sua paixão pela psicologia: "Eu queria ser médico, mas cursei Direito porque precisava trabalhar, e assim que pude fiz Psicologia, me formando aos 45 anos". E a psicologia brasileira deve a Clóvis Stenzel a regulamentação oficial da profissão. Foi ele quem desarquivou o processo engavetado no Congresso, em um dos seus mandatos como deputado federal. A carreira política, com quatro vitórias e quatro derrotas, iniciou no Espírito Santo, aos 26 anos, Estado em que foi eleito deputado estadual em dois mandatos, 1950 e 1954.

Diz ter boas lembranças da vida política no Estado: "Minha formação política iniciou-se em Vitória, foi minha grande escola, tudo o que aprendi sobre política devo aos capixabas".

O menino e o padre

O destino de Clóvis Stenzel havia sido traçado pela mãe. No leito de morte, pressentindo que o marido casaria de novo, ela pediu ao irmão, padre Ponciano Stenzel, que tomasse conta do menino, então com 4 anos. A promessa só foi cumprida alguns anos depois. Clóvis chegou a Vitória em 1934, aos 10 anos, e foi morar no palácio do bispado com o tio, que havia sido transferido do Rio de Janeiro para o Espírito Santo. "Nesse época, o meu tio ganhava muito bem, fazia palestras em São Paulo, Minas Gerais e no Nordeste. Era um grande orador", recorda.

Em 1936, padre Ponciano, que havia sido eleito vereador pelo Partido Integralista em Vitória, foi preso junto com os comunistas encarcerados pela polícia do capitão João Punaro Blay, interventor no Estado, a mando de Getúlio Vargas. O menino voltou para Porto Alegre, onde passou os primeiros anos da adolescência com outros parentes. Em 1943 o padre Ponciano, trabalhando na Paróquia de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, chamou novamente o sobrinho para perto. E foi no Rio de Janeiro que ele terminou o segundo grau no Colégio D. Pedro II e se formou na Faculdade do Catete.

Carreira política

Em 1949, o tio Ponciano, de volta a Vitória, candidatou-se a deputado federal pelo PRP (Partido de Representação Popular), a versão brasileira do nazi-fascismo, comandado pelo integralista Plínio Salgado. Clóvis foi chamado para ajudá-lo na campanha, e logo os colegas do PRP perceberam que o jovem advogado, grande orador, seria um bom candidato a deputado estadual. Ganhou. "Naquela época era pouca coisa, uns três mil votos, mas fui o mais votado do PRP", lembra.

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Clóvis discursando em Vitória

Depois de um ano saiu do partido por não concordar com o resultado da convenção do PRP, realizada no Rio de Janeiro, que decidiu apoiar o governo do presidente Getúlio Vargas, recém-eleito pelo voto popular. "Quando fui candidato, o PRP apoiava o brigadeiro Eduardo Gomes (derrotado por Vargas) e o genro do Plínio Salgado, chamado Loureiro Junior, que era deputado federal por São Paulo, tornou-se secretário do Lucas Nogueira Garcez, governador de São Paulo. E foi pela influência de Loureiro Junior que o PRP foi levado de graça para Getúlio Vargas", explica. "Jovem e inexperiente, eu protestei e perdi as graças do chefe nacional do partido, Plínio Salgado", recorda. Ficou por mais de um ano sem legenda. Já perto de nova eleição, o desembargador Lourival de Almeida, presidente no Espírito Santo do partido de Adhemar de Barros, o PSP (Partido Social Progressista), ofereceu-lhe a legenda. "Eu era jovem, ambicioso e aceitei, fui eleito, dessa vez como o mais votado de todos os deputados estaduais em Vitória", conta.

Tanto o PRP quanto o PSP eram partidos pequenos, pouco expressivos eleitoralmente, mas acabaram tendo um peso decisivo na eleição de 1954, pois se aliaram à UDN, o segundo maior partido, e ao PTB, o terceiro, para fazer algo que até então parecia impossível: derrotar o PSD (Partido Social Democrata), desde a fundação o partido mais poderoso do Espírito Santo.

Todo poder para acabar com o jogo

Curiosamente, para chegar ao poder, a coligação oposicionista precisou apresentar um nome do PSD: Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho. A vitória histórica da oposição em 54 foi quase uma malandragem, pequena batalha que, em princípio, parecia só ter uma intenção: derrotar os grandes caciques pessedistas.

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Stenzel (segundo da direita para a esquerda) ao lado de Jones dos Santos Neves.
Atílio Vivacqua e Judith Leão Castelo

Mas o pano de fundo era a vontade unânime da coligação em terminar com o jogo, proibido por Eurico Gaspar Dutra no final dos anos 40, mas ainda rolando solto no Espírito Santo. Os parceiros de oposição achavam que Clóvis Stenzel, estrangeiro no Estado, sem dever favores, nem correr riscos de arrebentar a saia justa, que possivelmente não caberia em qualquer capixaba, era o homem ideal para terminar com a jogatina.

A armação foi das boas. Logo após as eleições, Clóvis assumiu o cargo de secretário do Interior e Justiça, o que lhe dava poder sobre a polícia; tornou-se diretor do jornal "A Tribuna", arma para combater o jornal "A Gazeta", que já dominava a opinião pública de Vitória. Além dos dois cargos, dividia uma banca de advocacia criminal com Eurico Rezende, com quem compartilhava a liderança da coligação governista na Assembléia. "O Eurico Rezende e eu atuávamos em qualquer júri importante", orgulha-se. Estava fechada, com chave de ouro, a trama política. A situação articulada era perfeita para se colocar um ponto, ainda que de exclamação, e não final, ao jogo no Estado.

Difícil foi segurar prestígio e poder depois de tanto ataque aos donos da cidade.

Stenzel recorda o dia D do fim das jogatinas na década de 50: "Havia li nhas de vôo que iam do Rio, São Paulo e Belo Horizonte diretamente para o campo de aviação em Guarapari, local que abrigava um hotel-cassino, inaugurado pelo Bianchi, o homem que até a proibição tinha sido o rei do jogo no Brasil – era dono do Hotel Quitandinha, no Estado do Rio. E realmente fechei o hotel e os aviões tiveram que levantar vôo outra vez, pois ali não era mais possível jogar".

O caso gerou polêmica, Stenzel foi parar no Rio de Janeiro, capital federal na época, deu entrevistas à televisão, escreveu para vários jornais do país, tentou de tudo, mas o sucesso em terras capixabas escorregava de suas mãos. O estranho siri, chegando ao alto, foi jogado para fora da cesta de caranguejos. Era o fim de Clóvis Stenzel na política do Espírito Santo. "Não posso dizer que foi só por causa do fechamento do hotel, o fim dos jogos, o motivo pelo qual não me reelegi em 1958. O jogo sustentava muita gente, eu perdi prestígio e já não era um nome forte para a reeleição", conclui.

A escola capixaba havia dado ao gaúcho um gosto forte pela política, e não tardou um recomeço, dessa vez com mais astúcia na arte de se manter no poder.

Adeus, Vitória

Ele saiu do Espírito Santo junto com a primeira esposa, três filhos capixabas, um carioca, e voltou para a cidade natal, Osório, logo depois das eleições. Foi morar em um pequeno chalé e trabalhar na banca de advocacia do irmão Zeno Stenzel. Era preciso sobreviver, antes de mais nada.

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Stenzel com Ademar de Barros, Moreira Camargo e José Cupertino

Nesse chalé, alguns meses depois, recebeu a visita de Loureiro da Silva, que estava se candidatando a prefeito de Porto Alegre, e Fernando Ferrari, o novo líder do PTB. Em divergência com João Goulart e Leonel Brizola, os principais líderes petebistas, os dois estavam fundando o MTR (Movimento Trabalhista Renovador), sob a influência ideológica de Alberto Pasqualini, doutrinador inspirado nas encíclicas sociais do catolicismo. Um prato cheio para Stenzel, que já era admirador de Pasqualini e defensor de suas idéias, como continua, até hoje, aos 78 anos. Mudou-se para a capital gaúcha, passou a ser secretário de Loureiro da Silva na prefeitura e professor de sociologia na Pontifícia Universidade Católica. Chegou a ser um dos cinco membros do Tribunal de Contas do município de Porto Alegre, criado em 1962. Era uma autoridade na capital nacional do trabalhismo. Mas, com o golpe de 1964, ele, em nome da moral, da família e dos bons costumes, já estava alinhado aos militares. Tanto que, com a decretação do Ato Institucional nº 2, que estabeleceu o bipartidarismo, foi um dos fundadores da Aliança Renovadora Nacional (Arena). Elegeu-se deputado federal e, já com a segunda esposa, a jovem Marina, foi para Brasília, onde teve mais três filhos. Ele lembra: "Em Brasília eu era o líder de fato do governo, era chamado de líder revolucionário, um líder da revolucão de 64, embora não concordasse com o AI-2, pois acreditava que no momento em que se fundava um partido da revolução, automaticamente nós colocaríamos metade do Brasil contra a revolução". E ressalta: "Eu achava que o presidente não devia ter partido e que as Forças Armadas deveriam desempenhar no país as funções que desempenhavam na monarquia, sob o poder do imperador".

Para Clóvis Stenzel, não existiu ditadura. As mortes e torturas que até hoje estão sendo averiguadas foram violências de parte a parte. Ele explica: "A revolução foi um movimento de reação à pulverização do Brasil, era uma revolução civil, feita pelos civis e muitos militares morreram vítimas dos comunistas".

Fiel a seu pensamento, sua vida política, e aos bons anos de que desfrutou em Brasília nas décadas de 60 e 70, ele prepara um livro: Psicologia política e social do povo brasileiro. Promete contar que não houve anos de chumbo, que a revolução, desejo do povo, teve um único erro: os maus políticos que não conseguiram vencer e entraram no processo de abertura, cujo passo inicial foi a decretação do AI-2.

Em todo o tempo em que concedeu a entrevista, seu momento mais emocional foi um lamento: "O Geisel já não gostava de mim, o Figueiredo muito menos e o Golbery não me tolerava, nós perdemos a imprensa, eu perdi dois empregos por causa da má administração da revolução".

A perda do poder de Stenzel, homem forte dos governos Castelo Branco, Costa e Silva e Médici, começou justamente no início da caminhada, entre trancos e barrancos, ao que se pretende chamar de democracia, agora corrompida por uma ditadura muito mais sofisticada: a empresarial, sempre permeada pelas velhas e mesmas oratórias da politicagem.

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