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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.





  ESPORTE POR ESPORTE

O Tarzan do Rio Branco

Texto: Álvaro José Silva
Fotos: Tom Boechat

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Tarzan no gramado do Estádio Kléber
Andrade, em Campo Grande

O sorriso de Luiz Adolfo Freitas de Oliveira é sincero, franco e aberto. O homem de cabelos brancos, olhos claros, cordial, quase criança de tão feliz, nasceu a 29 de abril de 1926 na avenida Capixaba, em Vitória, e nem sempre foi uma pessoa tão cordata assim. Tanto que os amigos o apelidaram de Tarzan por causa das brigas da juventude, da fase adulta, quer nas ruas, quer nos campos de futebol, quer até mesmo nas zonas de meretrício por onde passava.

Luiz Adolfo – ou Tarzan, como quase todo mundo o conhece - nem de longe parece ter descendência ilustre. É sobrinho de Wilson Freitas, célebre remador capixaba do Saldanha da Gama (que era irmão de sua falecida mãe, Idalina Freitas de Oliveira) e irmão de Hélio Freitas Oliveira, um dos maiores jogadores da história do Rio Branco, e que morreu prematuramente, num acidente automobilístico.

No futebol

Aliás, foi por meio do tio famoso que o filho do advogado e professor de Educação Física Fernando Ribeiro de Oliveira chegou ao futebol. Wilson Freitas, sabedor de que o sobrinho gostava do jogo de bola, o empurrou para seu clube do coração, o Rio Branco, dizendo que o negócio era jogar em time de massa, capaz de levar torcida aos estádios para bater palmas.

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Tarzan (em pé, o último à direita)
junto com o time do Rio Branco,
campeão estadula de 53.

Por que Tarzan virou massagista? Ele diz que parou de estudar na quarta série do antigo curso primário. "Naquela época, não era como hoje. A gente estudava anatomia, botânica e outras coisas. O ensino era muito melhor, não era atrasadíssimo", acredita. E foi pelas asas da anatomia que ele começou a vida no Rio Branco, em 1943, alternando os treinos no time de aspirante com as massagens nos jogadores profissionais, depois dos treinamentos. Mas logo deixaria de lado a idéia de ser craque no campo, abandonando a lateral esquerda e a trocando, definitivamente, pela ocupação de massagista. Na época, por sinal, comprou muitos livros e aprendeu com eles os segredos do novo ofício.

Quando começou a vida nos clubes de futebol, Tarzan se lembra de que o Campeonato Capixaba era disputado pelo Rio Branco, Vitória, América, Americano, Vila-velhense e outros menos votados. De lá para cá – iniciou a carreira aos 17 anos –, não se recorda do número de títulos que ganhou. Mas foram muitos. Hoje, aos 75 anos de idade, ele tem nada menos do que 58 de carreira.

Na maior parte de sua vida, esteve ligado ao Rio Branco. Mas também trabalhou no Caxias, em 1964; na Desportiva de Paulo Emílio, em 1966 e 67; no Vitória "do saudoso presidente Sizenando Pechincha", em 1979; e no Estrela, em 1981. Fora do futebol, foi massagista do Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo (Crefes), onde trabalhou na fisioterapia; e auxiliar de médicos como Laélio Lucas, Nelson Pretti e Luiz Buaiz.

Durante 12 anos, Tarzan foi também o massagista oficial da Seleção Capixaba de Futebol. Dentre incontáveis outras, massageou as pernas dos ex-craques e jornalistas Darly Santos, o Mickey (que assinou a coluna Binóculo por muitos anos em "A Gazeta") e Francisco Oliveira Neves, o Carlota.

No Vitória, ganhou um título que não esquece. Em Seul, na Coréia do Sul, foi campeão da Minicopa, um torneio mundial organizado pela federação local. Mas este não é o único fato que ele lembra com saudade. Recorda-se também de jogos, como aquele no qual o Rio Branco perdia por 2 a 0 para o Santos de Pelé, no velho Estádio Governador Bley, e a torcida começou a vaiar o técnico Beto Pretti. Ele pulou o alambrado, lembrou-se do apelido de Tarzan e distribuiu bordoadas a torto e a direito. No final, o amistoso terminou em 2 a 2, com brilhante reação rio-branquense. Não se sabe até hoje se graças à sua interferência...

Seleção

Tarzan não consegue escalar uma seleção de jogadores do Rio Branco, time no qual trabalhou mais tempo. A memória falha. Mas vai se lembrando aos poucos de atletas como Pereira, Jorge Reis, Orion, Hélio (seu irmão), Zé do Monte, João Francisco, Neguinho, Édson Flecha Negra, Carlinhos Gabiru, Beto Pretti, Gato, Dirman, Wilson Pereira, Tamilton, Diogo, Land, Índio, Baiano, Adilson, Edilson, China e Alcy, o maior de todos os tempos, segundo os que acompanham a história do clube e do futebol do Espírito Santo.

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Na feitura da relação, quase ia se esquecendo do nome de Baiano. "Bota logo, senão ele fica bravo comigo". E ficou inseguro com a possibilidade de faltar alguém. "Se lembrar, você coloca. Mas vamos colocar mais os nomes de gente viva, porque é gente viva que compra revista".

Hoje, Tarzan está divorciado. Dos tempos de casado, ganhou dois filhos e duas filhas, todos já casados. Mora no Ibes, na rua Doutor Querubina, 142, numa casa que tem sempre uma bandeira do Brasil hasteada logo na entrada. "Sou muito patriota", explica, orgulhoso.

Enquanto ele conversa, chega ao estádio do Rio Branco o hoje supervisor do clube, Waldir Moura. Militar reformado, técnico de enfermagem aposentado, ex-treinador e quase tudo o mais no futebol, Waldir tem muito carinho pelo massagista com o qual foi campeão no Rio Branco. Este pede ajuda ao veterano treinador, e ambos se recordam do Hexagonal disputado em 1975, no Estádio Engenheiro Araripe, quando o clube foi campeão jogando contra a Desportiva, Americano de Campos, América de Minas, Ceub de Brasília e Atlético Paranaense. "Bons tempos, aqueles", concordam os dois.

Dinheiro? Não, Tarzan não conseguiu ganhar. "Mas tenho saúde, com a graça divina, e a amizade com os dirigentes, jogadores, todos. Dos dias de hoje, devo muito ao doutor Enivaldo (refere-se ao presidente de honra do Rio Branco, Enivaldo dos Anjos), pois muita gente não sabe o que ele tem feito pelo clube. Até quando vou trabalhar no futebol? Até quando o doutor Enivaldo ficar no clube. Quando ele sair, saio de lá um minuto depois".

Só uma coisa constrange Tarzan: falar do processo trabalhista que move contra o Rio Branco. Um processo dentre muitos outros, todos nascidos na época em que o clube foi dirigido pelos presidentes Djalma de Sá Oliveira Filho, Jadir Primo e Joel Pevorano, e passou por diversas crises. "Está correndo", diz ele que, na verdade, nem acompanha mais a pendência. Confessa que a situação o deixa "chateado", e prefere não se alongar com ela.

Também não se desespera com os muitos anos sem títulos conquistados pelo Rio Branco. "Ganhei muitos no clube. E hoje nós estamos formando boas equipes. Na maioria dos anos, temos montado equipes excelentes. Há muito caminho para andar e vamos voltar a ser campeões, sem dúvida alguma".

Tarzan trabalhou com muitos dirigentes no futebol. Além do atual presidente de honra do Rio Branco, gosta de citar Kléber Andrade, Édson Bourguignon, Manoel Ferreira, Álvaro Abaurre, Lauro Maranhão, Gersino Cóser, Arabelo do Rosário e Carlinhos Gabiru, que também foi "cartola". Além de Sizenando Pechincha, ex-presidente do Vitória, morto já há muitos anos.

Despede-se com um sorriso. Acompanha o fotógrafo até o gramado e não reclama, nem se cansa de posar para as fotos. Olha tudo com um misto de orgulho e o sentimento do "eu ajudei a fazer". Depois, pede uma carona a Waldir Moura para ir embora. Afinal de contas, sua aposentadoria de uma vida inteira como massagista em órgãos do Estado, somada aos R$ 500,00 que ganha mensalmente no Rio Branco (e nem sempre em dia), não proporciona luxo algum a ele. Só a sensação do dever cumprido. A que nem todos podem sentir.

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