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Cinco mortos e muitos feridos na
última ação violenta da
República Velha contra os simpatizantes da Aliança Liberal
Preparar, apontar,
fogo!
Texto: Àlvaro José Silva
Fotos: Ricardo Medeiros
Ninguem (...) seria capaz de imaginar que
tanto sangue e tantas lagrimas se viessem a derramar naquella noite, de céu limpo e
constellado, em que a vida normal da nossa capital se fazia sentir em sua plenitude:
grupos de familias nos passeio e nos parques e praças em direcção aos cinemas; pelos
cafés e ás suas portas a mesma animação, a mesma alegria communicativa dos
habitantes.
Lá na caserna, porém, o lufa-lufa era
grande; em fila a cavallaria; munia-se a soldadesca de cunhetes de balas; os telephones
tilintavam de vez em quando, segredando ordens severas.
Aprestavam-se as feras para a caçada
humana, que poucas horas depois teria por palco a praça do Colégio do Carmo."
O texto acima, reproduzido com a grafia da
época, foi publicado na edição de 13 de fevereiro de 1931 do "Diário da
Manhã", jornal então governista de Vitória. Referia-se a acontecimentos de
exatamente um ano antes, em 13 de fevereiro de 1930, quando "a soldadesca" abriu
fogo contra populares que se reuniam em um comício no largo do Colégio do Carmo, no
Centro de Vitória, em episódio que deixou cinco mortos e vários feridos. Tratava-se de
uma reunião da Alliança Liberal, como então era chamada, e um dos últimos
acontecimentos da República Velha.
Mas o que havia provocado a reação armada
da Força Pública contra pessoas indefesas? Que caldo de cultura levou àquela tragédia
uma cidade que amanhecera e entardecera num lindo dia de sol, onde, de inusual, havia
apenas uma reunião política igual a tantas outras? Para entender melhor os fatos, é
preciso antes penetrar mais profundamente no ambiente daqueles tempos e no caldo de
cultura que levou ao fim da República Velha e ao início da Era Vargas.
Café-com-leite
O Brasil, em 1930, vivia o auge de um
período de transição. Desde a proclamação da República até então, a política
nacional vivera atada à monocultura do café como produto de exportação. Ele criara
até mesmo a aliança do café-com-leite, entre São Paulo e Minas Gerais (Estado que, na
época, era o mais populoso do país), para que a transição de governo federal se desse
sem que a hegemonia dominante fosse quebrada.
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Uriel Barcelos com a
foto do pai,
Raul , que escapou à matança |
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Mas o café-com-leite enfrentara e estava
enfrentando muitos obstáculos, sobretudo provocados por seguidas crises internacionais e
quedas de preços, que foram aos poucos desgastando o sistema baseado na monocultura de
exportação. Quando se aproximava o final do governo de Washington Luís, este ainda
tentou manter o país atrelado à velha política de compromissos agrícolas, lançando à
sua sucessão o paulista Júlio Prestes, comprometido com estas.
Contra este surgiu a candidatura do
paraibano João Pessoa (candidato à presidência) e do gaúcho Getúlio Vargas (candidato
a vice), formando-se a Aliança Liberal. Esta aliança tinha apoio do movimento conhecido
como Tenentista, e que reunia novos oficiais do Exército. Mas o sistema de alianças do
poder central ainda era forte e Júlio Prestes venceu a eleição em março com folgada
margem de votos.
Houve, então, uma série de denúncias de
fraudes eleitorais e de compra de "votos de cabresto", com a tentativa de
sedução dos oposicionistas para um golpe de estado. De início, isso foi evitado até
mesmo pelo grupo derrotado. Mas, a partir do episódio do assassinato de João Pessoa, o
movimento eclodiu. E em pouco tempo Washington Luís era deposto para que Getúlio Vargas
ascendesse ao poder da República.
O que ajudou muito nesta situação foi o fato de que as
eleições aconteciam em março e a posse dos eleitos somente ocorreria em novembro. Muito
tempo pela frente para o presidente em final de mandato conter uma situação
potencialmente explosiva. Ainda mais porque, ao longo da campanha que antecedera as
eleições, muitos episódios de força haviam solapado as bases de apoio da República
Velha. Um deles, exatamente o de 13 de fevereiro, em Vitória.
Cinco mortos
A caravana da Aliança Liberal vinha
percorrendo o Brasil, fazendo comícios, e o de Vitória seria apenas mais um deles. Nada
de excepcional. Só que o ambiente era tenso e o governo, temendo que os oposicionistas
ganhassem mais força, instruiu a Força Pública a agir com rigor à menor provocação
dos "caravaneiros". E esse fato iria se dar durante os pronunciamentos daquele
dia.
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A praça do Carmo, onde
se deu o massacre |
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O historiador Renato Pacheco levantou os
principais episódios no seu livro Os dias antigos. Segundo ele, o tiroteio começou
quando falava o senador piauiense Pires Rabelo. Já era noite no largo do Carmo apinhado
de gente quando o tribuno, dirigindo-se para a massa, disse: "Este governo é um
ladrão (de votos)". Ele propugnava a vitória de João Pessoa e Getúlio Vargas e
dizia que os detentores do poder encontrariam meios de roubar votos da oposição,
sobretudo no campo e graças ao coronelismo. Foi o bastante. Tomando o "ladrão"
em seu sentido literal, os comandantes da Força Pública mandaram os subordinados abrirem
fogo e avançarem sobre a massa com uma carga de cavalaria.
Um dos presentes desgarrados naquela
confusão era um menino de 13 anos, Antônio Gil Vellozo, filho do professor Thiers
Vellozo, fundador e então dono do jornal "A Gazeta". Este, desesperado, saiu à
procura do filho em meio à troca de tiros, inicialmente sem conseguir encontrá-lo. O
largo do Carmo era acessado por apenas três ruas e Vellozo foi encontrar Antônio Gil
somente depois de descer uma viela até a Praça da Independência, voltar e dar com ele
escondido entre as irmãs vicentinas, do Colégio do Carmo. Um golpe duro que lhe abalou a
saúde. O restante, conta o historiador Renato Pacheco:
"E, na madrugada seguinte, outro
golpe: seu jornal "A Gazeta" é empastelado, por certo pelas forças
governistas. Não mais se recupera o velho mestre. Com grave cardiopatia, suas forças o
abandonam e, em 21 de agosto seguinte, vem a falecer, aos 68 anos de idade. Seu velório,
no Ginásio do Espírito Santo, e seu sepultamento com acompanhamento de estudantes por
toda a avenida Capixaba, marcam o fim da República Velha no Espírito Santo".
O saldo do tiroteio de 13 de fevereiro foi
de cinco mortos no local: os tenentes José Jacob e Pedro Gonçalves (representavam,
juntamente com outros, o tenentismo nos comícios) e os civis Cláudio Santana, Afonso
Pires Madeira e Cecília Soares. Para que o inquérito fosse feito, foram ouvidos os
liberais Francisco Ribeiro, coronel Alziro Viana, deputado Alarico de Freitas, Romualdo
Perrota, Trajano Souza, Ary Viana, José Sandoval e Mário Leve Wanderley.
Embora o inquérito tenha concluído pela
culpa dos "caravaneiros", no ano seguinte foram denunciados em inquérito o
ex-presidente do Estado, Aristeu Aguiar; o ex-secretário Mirabeau Pimentel e os militares
tenente-coronel Hermínio de Holanda Cavalcanti, tenentes José Hortêncio Messias,
Inácio Gonçalves, Adolfo Bittencourt, Otto Netto e Leósculo de Oliveira Campos, também
os sargentos Manoel Pereira de Miranda, Newton Santos Neto e Francisco Fernandes de
Miranda, além do soldado José Esteves dos Santos. Apesar de tudo e da revolução
vitoriosa, nenhum dos indiciados acabou condenado.
Missa pelos mortos
O inquérito, por sinal, terminou
justamente na época em que, já há muito deposto o antigo governo, a imprensa local
pôde finalmente contar a história do massacre. O jornal "A Gazeta" relataria
seu próprio empastelamento em edição do dia 14 de fevereiro, mas a maior cobertura
ficaria mesmo com o "Diário da Manhã", edições dos dias 13 e 14 de fevereiro
de 1931.
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A praça do Carmo como
é hoje |
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No primeiro dos dois dias, justamente o que
marcava um ano dos acontecimentos, as solenidades foram abertas com a missa das 9 horas na
Igreja do Carmo, à qual compareceram o interventor federal e os secretários do Interior,
Instrucção, Fazenda e Agricultura. Na ocasião, em frente ao Carmo, no local onde as
pessoas haviam morrido, as autoridades inauguraram a Praça 13 de Fevereiro. O prefeito de
Vitória, Asdrubal Soares, discursou na ocasião. Falou também Leonardo Barreto.
Às 19 horas do mesmo dia, no Teatro Carlos
Gomes, aconteceu uma sessão cívica comemorativa. O local estava superlotado e houve até
mesmo a presença da banda de música do 3º Batalhão de Caçadores (atual 38º BI), que
executou o "hynno nacional". Dentre as autoridades presentes estavam o
secretário do Interior, Affonso Lyrio; o secretário da Instrucção, João Manoel
Carvalho, o delegado de Polícia, Frederico Codeceira, e mais João Milton Varejão,
Antônio de Oliveira Pantoja, Leonardo Barreto e Getúlio dos Santos.
Aquele era o ato final da tragédia de um
ano antes. E que logo se apagaria das memórias das pessoas, embora, então, o clima ainda
fosse de muita comoção. O "Diário da Manhã", além do relato sempre
romanceado dos acontecimentos da noite do tiroteio (texto bem próprio da época), não se
esquecia de fazer um protesto final: as senhoras que um ano antes haviam ido para o largo
ver o comício, ao final de toda a confusão, ainda foram vítimas de "revistas
indiscretas" por parte de vários policiais da Força Pública, que até mesmo
levantaram-lhes as roupas em busca de armas. Um absurdo!
Testemunha
Outra pessoa que estava na praça no dia e
na hora do tiroteio era o pai do comerciante Uriel Barcellos, diretor e um dos
proprietários da torrefação Café Praça Oito, de Campo Grande, o então comerciário
de 25 anos de idade Raul Martins de Barcellos. Ele, como a maioria das demais pessoas,
havia ido até o local para ver o comício, chamado pelo atrativo de ser ele
manifestação contra um governo então muito impopular.
Segundo Uriel, "meu pai me contava que
a cavalaria começou a fustigar as pessoas, com os soldados de baionetas nas mãos. Eles
foram empurrando a massa dessa forma, afastando e assustando a todos. De repente, pararam
as agressões a baionetas e começaram a sair os tiros. Todo mundo correu desesperado,
inclusive o meu pai".
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O historiador Renato
Pacheco levantou
os proncipais epsódios em
seu livro Os dias antigos |
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Raul Barcellos ficou à procura de um lugar
para se esconder e foi parar no porão de uma das casas existentes então no largo do
Carmo, onde seu filho Uriel acredita que hoje esteja um prédio, o edifício Colombo. Era
a casa, julga Uriel, pertencente à família Bresciani, única do lugar que tinha porão.
E naquele lugar se esconderam várias pessoas, dentre as quais o comerciário, trabalhador
numa loja de calçados, reconheceu apenas Délio Lima, irmão de Carlos Lima, pai do hoje
empresário Carlos Guilherme Lima.
É fácil entender como toda aquela gente
entrou no porão dos Bresciani, conforme explica Uriel: "Naquela época as pessoas
não fechavam as casas. Não era preciso. No máximo, fechavam-se os portões dos
quintais, pois havia ladrões de galinhas na cidade".
O grupo de pessoas ficou escondido no
porão da casa térrea, como de resto eram todas as demais naquela época, até que o
tiroteio cessou e foi possível olhar para o largo e ver que a calma havia voltado. Então
todos começaram a sair e tomar o caminho de suas casas. Dentre elas um apavorado Raul,
que nunca mais se esqueceria do episódio. Morto já há 18 anos, ele contava a história
sempre que podia. Seu filho Uriel a ouviu várias vezes. |