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Maio/2001 nº15


Capixabas de sucesso
Roberto Kautsky, capixaba de sucesso, descobridor de maravilhas
O massacre da praça
Em 1930, o Exército abriu fogo contra populares em um comício da Aliança Liberal, deixando marcas de sangue na história
O homem do marechal
Stenzel foi o escolhido da oposição para a dura missão de acabar com o jogo no ES. O jogo acabou, e com isso seu prestígio político cresceu
Perfil humano e profissional
Apesar de ter perdido a família e o dinheiro, Érico Hanschaild jamais se separa de sua querida Leica, a câmera fotográfica que carrega há 54 anos
As cidades e sua gente
Linhares: Uma explosão
de emoções
O primeiro genocídio indígena
Maciel de Aguiar conta como os sonhos de liberdade de sua juventude o levaram a montar O Guarani, com a participação de índios da comunidade
Novo horizonte
O Espírito Santo já teve o segundo maior prostíbulo do Brasil, em Carapebus, que hoje abriga gente humilde e religiosa
Esporte por esporte
As histórias de Tarzan e do Rio Branco se confundem.





  O MASSACRE DA PRAÇA

Cinco mortos e muitos feridos na última ação violenta da
República Velha contra os simpatizantes da Aliança Liberal

Preparar, apontar, fogo!

Texto: Àlvaro José Silva
Fotos: Ricardo Medeiros

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Ninguem (...) seria capaz de imaginar que tanto sangue e tantas lagrimas se viessem a derramar naquella noite, de céu limpo e constellado, em que a vida normal da nossa capital se fazia sentir em sua plenitude: grupos de familias nos passeio e nos parques e praças em direcção aos cinemas; pelos cafés e ás suas portas a mesma animação, a mesma alegria communicativa dos
habitantes.

Lá na caserna, porém, o lufa-lufa era grande; em fila a cavallaria; munia-se a soldadesca de cunhetes de balas; os telephones tilintavam de vez em quando, segredando ordens severas.

Aprestavam-se as feras para a caçada humana, que poucas horas depois teria por palco a praça do Colégio do Carmo."

O texto acima, reproduzido com a grafia da época, foi publicado na edição de 13 de fevereiro de 1931 do "Diário da Manhã", jornal então governista de Vitória. Referia-se a acontecimentos de exatamente um ano antes, em 13 de fevereiro de 1930, quando "a soldadesca" abriu fogo contra populares que se reuniam em um comício no largo do Colégio do Carmo, no Centro de Vitória, em episódio que deixou cinco mortos e vários feridos. Tratava-se de uma reunião da Alliança Liberal, como então era chamada, e um dos últimos acontecimentos da República Velha.

Mas o que havia provocado a reação armada da Força Pública contra pessoas indefesas? Que caldo de cultura levou àquela tragédia uma cidade que amanhecera e entardecera num lindo dia de sol, onde, de inusual, havia apenas uma reunião política igual a tantas outras? Para entender melhor os fatos, é preciso antes penetrar mais profundamente no ambiente daqueles tempos e no caldo de cultura que levou ao fim da República Velha e ao início da Era Vargas.

Café-com-leite

O Brasil, em 1930, vivia o auge de um período de transição. Desde a proclamação da República até então, a política nacional vivera atada à monocultura do café como produto de exportação. Ele criara até mesmo a aliança do café-com-leite, entre São Paulo e Minas Gerais (Estado que, na época, era o mais populoso do país), para que a transição de governo federal se desse sem que a hegemonia dominante fosse quebrada.

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Uriel Barcelos com a foto do pai,
Raul , que escapou à matança

Mas o café-com-leite enfrentara e estava enfrentando muitos obstáculos, sobretudo provocados por seguidas crises internacionais e quedas de preços, que foram aos poucos desgastando o sistema baseado na monocultura de exportação. Quando se aproximava o final do governo de Washington Luís, este ainda tentou manter o país atrelado à velha política de compromissos agrícolas, lançando à sua sucessão o paulista Júlio Prestes, comprometido com estas.

Contra este surgiu a candidatura do paraibano João Pessoa (candidato à presidência) e do gaúcho Getúlio Vargas (candidato a vice), formando-se a Aliança Liberal. Esta aliança tinha apoio do movimento conhecido como Tenentista, e que reunia novos oficiais do Exército. Mas o sistema de alianças do poder central ainda era forte e Júlio Prestes venceu a eleição em março com folgada margem de votos.

Houve, então, uma série de denúncias de fraudes eleitorais e de compra de "votos de cabresto", com a tentativa de sedução dos oposicionistas para um golpe de estado. De início, isso foi evitado até mesmo pelo grupo derrotado. Mas, a partir do episódio do assassinato de João Pessoa, o movimento eclodiu. E em pouco tempo Washington Luís era deposto para que Getúlio Vargas ascendesse ao poder da República.

O que ajudou muito nesta situação foi o fato de que as eleições aconteciam em março e a posse dos eleitos somente ocorreria em novembro. Muito tempo pela frente para o presidente em final de mandato conter uma situação potencialmente explosiva. Ainda mais porque, ao longo da campanha que antecedera as eleições, muitos episódios de força haviam solapado as bases de apoio da República Velha. Um deles, exatamente o de 13 de fevereiro, em Vitória.

Cinco mortos

A caravana da Aliança Liberal vinha percorrendo o Brasil, fazendo comícios, e o de Vitória seria apenas mais um deles. Nada de excepcional. Só que o ambiente era tenso e o governo, temendo que os oposicionistas ganhassem mais força, instruiu a Força Pública a agir com rigor à menor provocação dos "caravaneiros". E esse fato iria se dar durante os pronunciamentos daquele dia.

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A praça do Carmo, onde
se deu o massacre

O historiador Renato Pacheco levantou os principais episódios no seu livro Os dias antigos. Segundo ele, o tiroteio começou quando falava o senador piauiense Pires Rabelo. Já era noite no largo do Carmo apinhado de gente quando o tribuno, dirigindo-se para a massa, disse: "Este governo é um ladrão (de votos)". Ele propugnava a vitória de João Pessoa e Getúlio Vargas e dizia que os detentores do poder encontrariam meios de roubar votos da oposição, sobretudo no campo e graças ao coronelismo. Foi o bastante. Tomando o "ladrão" em seu sentido literal, os comandantes da Força Pública mandaram os subordinados abrirem fogo e avançarem sobre a massa com uma carga de cavalaria.

Um dos presentes desgarrados naquela confusão era um menino de 13 anos, Antônio Gil Vellozo, filho do professor Thiers Vellozo, fundador e então dono do jornal "A Gazeta". Este, desesperado, saiu à procura do filho em meio à troca de tiros, inicialmente sem conseguir encontrá-lo. O largo do Carmo era acessado por apenas três ruas e Vellozo foi encontrar Antônio Gil somente depois de descer uma viela até a Praça da Independência, voltar e dar com ele escondido entre as irmãs vicentinas, do Colégio do Carmo. Um golpe duro que lhe abalou a saúde. O restante, conta o historiador Renato Pacheco:

"E, na madrugada seguinte, outro golpe: seu jornal "A Gazeta" é empastelado, por certo pelas forças governistas. Não mais se recupera o velho mestre. Com grave cardiopatia, suas forças o abandonam e, em 21 de agosto seguinte, vem a falecer, aos 68 anos de idade. Seu velório, no Ginásio do Espírito Santo, e seu sepultamento com acompanhamento de estudantes por toda a avenida Capixaba, marcam o fim da República Velha no Espírito Santo".

O saldo do tiroteio de 13 de fevereiro foi de cinco mortos no local: os tenentes José Jacob e Pedro Gonçalves (representavam, juntamente com outros, o tenentismo nos comícios) e os civis Cláudio Santana, Afonso Pires Madeira e Cecília Soares. Para que o inquérito fosse feito, foram ouvidos os liberais Francisco Ribeiro, coronel Alziro Viana, deputado Alarico de Freitas, Romualdo Perrota, Trajano Souza, Ary Viana, José Sandoval e Mário Leve Wanderley.

Embora o inquérito tenha concluído pela culpa dos "caravaneiros", no ano seguinte foram denunciados em inquérito o ex-presidente do Estado, Aristeu Aguiar; o ex-secretário Mirabeau Pimentel e os militares tenente-coronel Hermínio de Holanda Cavalcanti, tenentes José Hortêncio Messias, Inácio Gonçalves, Adolfo Bittencourt, Otto Netto e Leósculo de Oliveira Campos, também os sargentos Manoel Pereira de Miranda, Newton Santos Neto e Francisco Fernandes de Miranda, além do soldado José Esteves dos Santos. Apesar de tudo e da revolução vitoriosa, nenhum dos indiciados acabou condenado.

Missa pelos mortos

O inquérito, por sinal, terminou justamente na época em que, já há muito deposto o antigo governo, a imprensa local pôde finalmente contar a história do massacre. O jornal "A Gazeta" relataria seu próprio empastelamento em edição do dia 14 de fevereiro, mas a maior cobertura ficaria mesmo com o "Diário da Manhã", edições dos dias 13 e 14 de fevereiro de 1931.

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A praça do Carmo como é hoje

No primeiro dos dois dias, justamente o que marcava um ano dos acontecimentos, as solenidades foram abertas com a missa das 9 horas na Igreja do Carmo, à qual compareceram o interventor federal e os secretários do Interior, Instrucção, Fazenda e Agricultura. Na ocasião, em frente ao Carmo, no local onde as pessoas haviam morrido, as autoridades inauguraram a Praça 13 de Fevereiro. O prefeito de Vitória, Asdrubal Soares, discursou na ocasião. Falou também Leonardo Barreto.

Às 19 horas do mesmo dia, no Teatro Carlos Gomes, aconteceu uma sessão cívica comemorativa. O local estava superlotado e houve até mesmo a presença da banda de música do 3º Batalhão de Caçadores (atual 38º BI), que executou o "hynno nacional". Dentre as autoridades presentes estavam o secretário do Interior, Affonso Lyrio; o secretário da Instrucção, João Manoel Carvalho, o delegado de Polícia, Frederico Codeceira, e mais João Milton Varejão, Antônio de Oliveira Pantoja, Leonardo Barreto e Getúlio dos Santos.

Aquele era o ato final da tragédia de um ano antes. E que logo se apagaria das memórias das pessoas, embora, então, o clima ainda fosse de muita comoção. O "Diário da Manhã", além do relato sempre romanceado dos acontecimentos da noite do tiroteio (texto bem próprio da época), não se esquecia de fazer um protesto final: as senhoras que um ano antes haviam ido para o largo ver o comício, ao final de toda a confusão, ainda foram vítimas de "revistas indiscretas" por parte de vários policiais da Força Pública, que até mesmo levantaram-lhes as roupas em busca de armas. Um absurdo!

Testemunha

Outra pessoa que estava na praça no dia e na hora do tiroteio era o pai do comerciante Uriel Barcellos, diretor e um dos proprietários da torrefação Café Praça Oito, de Campo Grande, o então comerciário de 25 anos de idade Raul Martins de Barcellos. Ele, como a maioria das demais pessoas, havia ido até o local para ver o comício, chamado pelo atrativo de ser ele manifestação contra um governo então muito impopular.

Segundo Uriel, "meu pai me contava que a cavalaria começou a fustigar as pessoas, com os soldados de baionetas nas mãos. Eles foram empurrando a massa dessa forma, afastando e assustando a todos. De repente, pararam as agressões a baionetas e começaram a sair os tiros. Todo mundo correu desesperado, inclusive o meu pai".

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O historiador Renato Pacheco levantou
os proncipais epsódios em
seu livro
Os dias antigos

Raul Barcellos ficou à procura de um lugar para se esconder e foi parar no porão de uma das casas existentes então no largo do Carmo, onde seu filho Uriel acredita que hoje esteja um prédio, o edifício Colombo. Era a casa, julga Uriel, pertencente à família Bresciani, única do lugar que tinha porão. E naquele lugar se esconderam várias pessoas, dentre as quais o comerciário, trabalhador numa loja de calçados, reconheceu apenas Délio Lima, irmão de Carlos Lima, pai do hoje empresário Carlos Guilherme Lima.

É fácil entender como toda aquela gente entrou no porão dos Bresciani, conforme explica Uriel: "Naquela época as pessoas não fechavam as casas. Não era preciso. No máximo, fechavam-se os portões dos quintais, pois havia ladrões de galinhas na cidade".

O grupo de pessoas ficou escondido no porão da casa térrea, como de resto eram todas as demais naquela época, até que o tiroteio cessou e foi possível olhar para o largo e ver que a calma havia voltado. Então todos começaram a sair e tomar o caminho de suas casas. Dentre elas um apavorado Raul, que nunca mais se esqueceria do episódio. Morto já há 18 anos, ele contava a história sempre que podia. Seu filho Uriel a ouviu várias vezes.

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