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A
conquista da terra esquecida
Rogério Medeiros (texto e
fotos)
Eles são herdeiros dos sem-terra de outros tempos. De
quando a camada social rural mais pobre só tinha direito às terras inacessíveis e para
conquistá-las era necessário atingir os limites das forças humanas, escalando montanhas
e transpondo toda sorte de obstáculos existentes dentro de uma floresta. Relatos de
ocupações, em tais condições, fazem parte hoje de inúmeras histórias como está que
o leitor vai conhecer agora, ocorrida no município de Ibiraçu, distante apenas 60
quilômetros de Vitória.
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Jaci Vicenti, comandando o congo |
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Ela foi protagonizada por um grupo de negros que subiram
uma montanha, nas condições adversas já descritas, para formar suas propriedades, e
viveram, depois da posse, um bom tempo completamente isolados. Isto ocorreu no começo do
século passado.
"Não havia uma noite que o meu pai
conseguisse dormir direito. Era conferindo toda hora os filhos para ver se não tinham
sido atacados por um bicho. Para chegar aqui" - conta o velho Manoel Cassimiro dos
Reis, de 84 anos, já nascido na região -, "o meu pai saiu de Cachoeiro de
Itapemirim com indicação deste local. Ele chamava-se Elpídio Cassimiro. Criou oito
filhos na região. Mas só Deus e São Benedito sabem o quanto custou ao meu pai essa
terrinha que eu, mais minha companheira, ocupamos hoje".
A mulher de Manoel é Maria Jorgina
Barcelos, de 70 anos, cujo pai também participou dessa epopéia da conquista da
região. Só que o seu pai, chamado Jorgino Paulo Barcelos, veio de outro Cachoeiro -
Cachoeiro de Santa Leopoldina, onde era canoeiro. Trabalhava nas imensas canoas que
transportavam mercadorias de Santa Leopoldina para Vitória.
Segundo a filha, ele soube da existência
do lugar através de negros das montanhas que iam a Santa Leopoldina para trocar mandioca
e palmito por sal e querosene. Resolveu ir ao local e viu que podia finalmente formar
propriedade, como sempre desejou. Mudou-se para lá. Mas antes foi a Queimado, na Serra,
casar-se com a moça prometida para quando possuísse terra para plantar e poder sustentar
uma família direito.
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A mulher de Jaci que deixou o congo
pela Assembléia de Deus |
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As núpcias do casal, conforme relato da
filha, foi uma penosa viagem de Santa Leopoldina ao lugar, passando por Santa Teresa.
Quase fez a noiva desistir no caminho. Mas chegaram ao destino e nunca se arrependeram.
Como a família do marido, a sua também era grande. Eram doze irmãos, mas o tempo
reduziu a cinco. O resto morreu de velhice. O orgulho dela está no Congo. Junto com a sua
irmã Santina, ela é uma de suas rainhas. Aliás, o Congo é o dado cultural desse grupo
negro, a exemplo de outros lugares na vizinhança. Há quase um século eles ocupam a
região mais alta do município de Ibiraçu, que já se chamou Rio Bonito e depois teve o
nome trocado para São Pedro, para não ser confundido com o Rio Bonito, de Santa
Leopoldina.
Olivino Barcelos, de 76 anos, é o
irmão mais velho de Maria e Santina e quem mais guarda lembranças do pai. "O pai
contava pra gente o que foi chegar aqui. Era subir por dentro da mata, passando por
despenhadeiros para chegar a este lugar, onde não havia viva alma. Era cortar árvore
para construir casa, formar lavoura e tirar alimentos da própria mata. Nenhum deles
contava com recursos. A fome acompanhou meu pai até descobrir as coisas da floresta, como
o palmito e depois com a mandioca plantada.

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A banda de congo dos negros se apresentando em frente
à igreja
de São Benedito |
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Para Olivino, como para suas irmãs, valeu o sacrifício do
pai, principalmente para os filhos. "Hoje moramos na nossa terrinha, temos o que
comer e se vive num lugar sossegado e bom, onde as famílias são amigas. Mas no tempo do
meu pai não foi fácil. Eles viviam isolados neste alto de montanha e viajavam léguas
para ir a outro lugar vender uma caça, um palmito e a mandioca".
Segundo o seu relato, a praça usada para negociar sua
produção era a de Santa Teresa (a 50 quilômetros de Vitória e a 22 quilômetros do
alto da montanha onde estão localizados). Mas Olivino diz que eles tinham que ir a Santa
Teresa com muito cuidado, por causa da discriminação racial. Cidade povoada por
descendentes de italianos, eles tinham que chegar, vender suas coisas e voltar para trás
rápido, para evitar qualquer tipo de violência. O negro que entrasse num botequim para
tomar uma cachaça corria o risco de ir parar na cadeia.
Eles tinham ainda que evitar famosos perseguidores de
negros, como o belga Vitor Hugo Vervloet e o italiano Frederico Fontana. Passar perto de
um dos dois era levar um tiro ou, na melhor das hipóteses, tomar uma surra. Durante anos
nenhum negro arriscou passar na frente da casa de Vitor Hugo. Morreria na certa, como
morreram alguns que desconheceram essa proibição.
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| Tocador de congo que também é tocador de animais (abaixo) |
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O vereador Gervásio Valentim Favaro, que se elegeu
na região com o apoio desse grupo descendente dos desbravadores, confirma que eles
chegaram antes dos descendentes de italianos. Era uma população de negros muito grande
mas que foi diminuindo com o passar do tempo e a valorização da região. "Depois
que foram abertas as estradas, a procura foi grande por essas bandas, especialmente pela
proximidade com Vitória. Boa parte vendeu a propriedade e mudou-se para Vitória ou para
sua periferia. Ficaram aqui só as famílias mais tradicionais, com a dos Vicente, dos
Borges, Barcelos, Cassimiro dos Reis, Vieira, Nascimento, Bastianas. Um pouco mais de cem
pessoas. Muita gente mesmo foi daqui embora".
Pelo que avaliou o vereador, houve uma cobiça muito grande
pelos terrenos deles, da parte dos tradicionais habitantes de Ibiraçu. Principalmente dos
que ficavam situados abaixo deles e necessitavam assentar filhos em idade de formar
família.
"Benza Deus! Comemos muita caça para viver
aqui", comenta o velho Durval Vieira Machado, de 79 anos de idade. "Isto
aqui era a terra do medo. Eu vivi esse período em que o meu pai formou a nossa
propriedade. Viver na mata, como vivemos, foi um desgosto. Não é para gente, não. A
gente não sabia tratar com a mata. Meu pai aprendeu por conta da necessidade. Ou aprendia
a viver da mata ou morria de fome".
"Eu era criança e morria de medo quando ouvia a onça
berrar lá na mata. E ficava também assustado com qualquer barulho. Minha infância foi
de puro medo. Quando fiquei homem, acostumei. Mas quando menino... foi duro de viver uma
infância aqui. Até hoje, quando a onça da reserva (eles são vizinhos da Reserva
Florestal de Lombardia) vem para os lados de cá, eu tremo... do mesmo jeito que tremia na
infância".
"Depois que aprendemos com a mata" - prossegue
Durval -, "passamos a tirar muito palmito para vender em Santa Teresa para os
italianos. Para ir à igreja a gente tinha que andar algumas léguas. Ou era em Lombardia
(Santa Teresa) ou nas Piabas (Ibiraçu). A nossa praça comercial sempre foi Santa Teresa.
Era mais perto da gente do que a sede de Ibiraçu e descida". (Eles não têm idéia
da altitude em que se encontram. A informação da prefeitura de Ibiraçu é de que a
região varia entre 800 e 900 metros de altitude).
Já com o pai de Jaci Vicente, que chamava-se Manoel
Vicente, a ida para a região ocorreu por conta de informação de um cunhado que
trabalhava na linha de ferro Vitória-Minas. "Foi ele quem indicou o lugar para o meu
pai. Papai contava que ele veio subindo e trabalhando pelo caminho e chegou a Pedro
Palácio (na época chamava-se Rio da Prata) de onde tomou a direção da serra, para
encontrar um velho conhecido de Cachoeiro de Itapemirim, Elpídio Cassimiro. E daqui nunca
mais saiu. Criou nós todos aqui em cima".
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Olivino Barcelos relata a discriminação dos negros
por parte dos italianos
em Santa Tereza |
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A familia de Jaci é a mais numerosa de todas e eles moram
em propriedades vizinhas umas das outras, desmembradas para atender aos seus membros que
constituíram famílias. Jaci é o mestre do Congo, um dado cultural que serve de união
entre todos eles. O Congo só não é inteiramente de integrantes negros por conta de
três brancos que se casaram com mulheres negras.
Segundo Jaci, a vida que leva só não é de todo boa por
causa da sua mulher. Ela, que era a maior tiradora de versos do Congo, converteu-se à
Assembléia de Deus e deixou o Congo. Jaci chorou um mês inteiro a perda da principal
figura do Congo, mas acabou conformando-se. Juntou-se ao tirador de versos do Congo
vizinho das Piabas para suprir a ausência da companheira: "São Benedito é santo/Eu
também sou rezador/Abra a porta do céu/ que eu quero ver Nosso Senhor".
"Diz lá embaixo, moço," emenda Jaci, "que
o povo aqui de cima é feliz por conta da bravura de nossos país". |