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| fatos e lendas do sertão - Adilson Vilaça |
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Outro bom ladrão
Jovelino andava saudoso de viagens. Antes
que ele dissesse um gesto de pio, percebi a inquietude em seu olhar. Catava lonjuras,
esmagando serras sob as pálpebras, atravessando enchentes em balsa trançada nos cílios
de cipó, remexendo as pestanas em neologismos mímicos como quem diz:
"Leguadas de encurvarar-se sem arredapé, ai que cansalém de espichamorro". Mas
de me dizer assim dizendo, no sopro, ele nada me dizia. O que doía em tímpanos era o
grito rouco do desbrilho de seus olhos.
Perguntei-lhe um que foi, ele espirrou um fingimento de
gripes. Era vento que virava, e coisa e nada de me dizer. "Uma ardência de
cisco". Isso ele mentirou, depois de quase lacrimar. Diagnostiquei que era febre de
arribação, vontade de varar mundo, sair no encalço das onze mulheres que teve e dos
filhos quantos. Talvez nem. Porque certa vez perguntei-lhe por que não perseguira
notícias de suas gentes, extraviadas durante os quase dois anos que cumprira de prisão.
"Filho é que procura pai. E nunca fui dono de mulher".
Mas tinha sido proprietário de cincerro de madrinha e de
dez coiceiros. Nem por eles, bichos domados, perdeu-se em pastos. Quando meu amigo
Jovelino Cordeiro da Silva deixou a prisão, em Mantena (MG), estava despossuído até de
rumo. Contou-me que no retorno da liberdade, "ora qual!", nem se via metido em
léguas que se estendiam de Nova Filadélfia (atual Teófilo Ottoni-MG) ao Arraial de
Santa Maria (atual Colatina-ES). Ficou pelas estradas dentro, indo-se em passos de aonde
será, estranhando o faro daquela mundarada sem carcereiro. "Foi um vaivém de
estontear sino!".
Era aí, em tal sozinhez, dele, que garupava o meu porém.
Era uma aflição: era, era, era! Que fazer? Então, turistei-lhe: "Conhece Ouro
Preto, Jovelino?". Ele meneou um não. Mas vi chamas nos olhos de meu amigo. Fui
contando. Segui encalços do Mestre Aleijadinho também em Mariana, São João Del Rey e
Congonhas. Estiquei-me de pé, armado de uma grandiloqüência de gestos, para esparramar
os 12 profetas ali no quintal de Jovelino. E a dúzia só se acomodou inteira porque
Jovelino levantou-se para me ajudar. Como ficaram arrumados? Já conto-lhes.
Por derradeiros assentamos Jonas e seu peixão lá para
perto das bananeiras; o bicho bravo do leão e seu domador, Daniel, encostamos lá para
baixo, perto da cerca, e nem nos importamos que eles esmagassem umas folhas de taioba.
Depois pensando, quem talvez melhor se adaptasse ao molhadinho, onde nadavam os canteiros
de inhame e taioba, fosse o peixão de Jonas... Contudo, o importante é que o
quintalzinho estava enfeitado da santidade da arte. Ali, tão silvestres, as pedras dos
profetas pegaram melhor feição do que aquela que ensaboavam no Adro da Igreja de Bom
Jesus, lá em Congonhas.
"Roubaram o martelo do romano que martiriza Cristo na
cruz". Falei com pesar, entristecido. O furto foi antes de as seis capelinhas
ganharem uma grade de proteção, que nunca mais deixou fugir valsa de adereço de nenhuma
das 60 imagens. Contei que algumas imagens têm pose bailarina, lembrança da juventude
dançante de Aleijadinho. Falei da doença do Mestre. E Jovelino teve uma piedade tão
tanta dele que até pensou que banho de alfavaca poderia ter curado o gênio barroco.
"Apenas um banho antes do sono..." prescreveu.
Mas ele, Jovelino, estava curado das mentirices de gripe
tristonha. Tinha ido pelo mundo, como se fosse turista. Essa pobre criatura que nós
somos, que só aprende no após. E que nem festeja, em risos de fé, as alegrias de um
cristão ter surrupiado o martelo do herege que pregava Cristo. "Eta, ladrãozinho
abençoado!" |