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Junho/2001 nº16


Esporte por esporte
Álvaro José Silva conta histórias dos 79 anos de vida de Nilo Etienne Duarte, dos quais 60 foram dedicados ao esporte e principalmente à sua maior paixão, o futsal
A praça é nossa
Um pequeno beco e um barzinho em Cachoeiro acabaram ficando conhecidos como Praça Vermelha, reduto histórico de liberdade para debates políticos
Agricultura capixaba
Negros de Ibiraçu
Há um século, um grupo de negros enfrentou os desafios da mata densa e subiu a montanha para fundar, em Ibiraçu, uma comunidade onde, isolados e vivendo da terra, encontram no congo sua mais importante expressão cultural
As cidades e sua gente
Há vários motivos para justificar o nome de Alegre. A beleza da região,
a vida universitária, o maior festival de música do Estado, e agora o título de campeã no futebol são alguns deles
Capixabas de sucesso
Rommel Rubin Dias investe toda a sua jovialidade na produção do maior carnaval fora de época do país, o Vital, que traz para a cidade 500 mil turistas todos os anos





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  fatos e lendas do sertão - Adilson Vilaça

Outro bom ladrão

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Jovelino andava saudoso de viagens. Antes que ele dissesse um gesto de pio, percebi a inquietude em seu olhar. Catava lonjuras, esmagando serras sob as pálpebras, atravessando enchentes em balsa trançada nos cílios de cipó, remexendo as pestanas em neologismos mímicos — como quem diz: "Leguadas de encurvarar-se sem arredapé, ai que cansalém de espichamorro". Mas de me dizer assim dizendo, no sopro, ele nada me dizia. O que doía em tímpanos era o grito rouco do desbrilho de seus olhos.

Perguntei-lhe um que foi, ele espirrou um fingimento de gripes. Era vento que virava, e coisa e nada de me dizer. "Uma ardência de cisco". Isso ele mentirou, depois de quase lacrimar. Diagnostiquei que era febre de arribação, vontade de varar mundo, sair no encalço das onze mulheres que teve e dos filhos quantos. Talvez nem. Porque certa vez perguntei-lhe por que não perseguira notícias de suas gentes, extraviadas durante os quase dois anos que cumprira de prisão. "Filho é que procura pai. E nunca fui dono de mulher".

Mas tinha sido proprietário de cincerro de madrinha e de dez coiceiros. Nem por eles, bichos domados, perdeu-se em pastos. Quando meu amigo Jovelino Cordeiro da Silva deixou a prisão, em Mantena (MG), estava despossuído até de rumo. Contou-me que no retorno da liberdade, "ora qual!", nem se via metido em léguas que se estendiam de Nova Filadélfia (atual Teófilo Ottoni-MG) ao Arraial de Santa Maria (atual Colatina-ES). Ficou pelas estradas dentro, indo-se em passos de aonde será, estranhando o faro daquela mundarada sem carcereiro. "Foi um vaivém de estontear sino!".

Era aí, em tal sozinhez, dele, que garupava o meu porém. Era uma aflição: era, era, era! Que fazer? Então, turistei-lhe: "Conhece Ouro Preto, Jovelino?". Ele meneou um não. Mas vi chamas nos olhos de meu amigo. Fui contando. Segui encalços do Mestre Aleijadinho também em Mariana, São João Del Rey e Congonhas. Estiquei-me de pé, armado de uma grandiloqüência de gestos, para esparramar os 12 profetas ali no quintal de Jovelino. E a dúzia só se acomodou inteira porque Jovelino levantou-se para me ajudar. Como ficaram arrumados? Já conto-lhes.

Por derradeiros assentamos Jonas e seu peixão lá para perto das bananeiras; o bicho bravo do leão e seu domador, Daniel, encostamos lá para baixo, perto da cerca, e nem nos importamos que eles esmagassem umas folhas de taioba. Depois pensando, quem talvez melhor se adaptasse ao molhadinho, onde nadavam os canteiros de inhame e taioba, fosse o peixão de Jonas... Contudo, o importante é que o quintalzinho estava enfeitado da santidade da arte. Ali, tão silvestres, as pedras dos profetas pegaram melhor feição do que aquela que ensaboavam no Adro da Igreja de Bom Jesus, lá em Congonhas.

"Roubaram o martelo do romano que martiriza Cristo na cruz". Falei com pesar, entristecido. O furto foi antes de as seis capelinhas ganharem uma grade de proteção, que nunca mais deixou fugir valsa de adereço de nenhuma das 60 imagens. Contei que algumas imagens têm pose bailarina, lembrança da juventude dançante de Aleijadinho. Falei da doença do Mestre. E Jovelino teve uma piedade tão tanta dele que até pensou que banho de alfavaca poderia ter curado o gênio barroco. "Apenas um banho antes do sono..." — prescreveu.

Mas ele, Jovelino, estava curado das mentirices de gripe tristonha. Tinha ido pelo mundo, como se fosse turista. Essa pobre criatura que nós somos, que só aprende no após. E que nem festeja, em risos de fé, as alegrias de um cristão ter surrupiado o martelo do herege que pregava Cristo. "Eta, ladrãozinho abençoado!"

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