| Esperança semeada a dois
Seu tesouro era seu sorriso. Já o tinham
visto triste; deprimido, jamais. Premido pela dificuldade ou premiado pela bonança, podia
acentuar o sorriso ou recolher-se no exame da causalidade, sem gargalhar nem ruminar
resmungos. Aos mais queridos e interessados ensinava, cuidadoso:
-Serenidade e beija-flores não se perseguem; melhor
colocar flores na janela.
Já não freqüentava a antiga turma. Afastou-se, gradual e
silenciosamente, a partir da percepção de que a essência das coisas não era o escopo
da busca do grupo, ainda cristalizado em preferências estéticas e ideológicas. Pouco a
pouco foi rareando a participação, fugindo de ironias e provocações com o bom humor, o
respeito e a calma que os anos de reflexão silenciosa já lhe conferiam. Sem julgamentos.
A todos recebia em casa, amigo de todas as horas.
Necessitava estar perto de pessoas nas quais vislumbrasse a
presença ou a busca da paz. Quando a saudade apertava, chegava de surpresa na turma.
Então era festa, porque sabia ouvir. E calar. E falar. Nos polemistas, sempre percebia
mais manifestações de ego que a busca da verdade. Então se recolhia, respeitoso e
simples. Jamais disputou lugares ou cargos, mulheres ou dinheiro. Apenas trabalhava e se
especializava. E jamais lhe faltou algo que de fato quisesse.
Temas puramente intelectuais já não o seduziam, embora
soubesse de sua real importância em outros contextos. Logo percebeu, com alegria, que
também já não o incomodavam. Apenas não se sentia mais atraído pela superficialidade
das coisas. Interessava-se apenas pela redignificação do humano, o resgate do ser, a
compreensão amiga e solidária do lado escuro e carente da alma do outro. Conhecia
escolas e estilos acerca dos quais durante anos discorrera, com a sinceridade de sempre,
mas seu mais íntimo olhar percorria mesmo era o subliminar, o sub-reptício, o
não-verbal.
Um dia encontrou Fulana, de olhar tranqüilo e límpido
como o dele. Pouco verbalizaram, cientes do risco de quebrar o encanto. Mas soube então,
imediatamente, que a qualidade da energia emitida encontrara a sintonia desejada e
atraíra para si uma companheira que também sempre reconhecera o próprio valor e se
guardara, com fé e serenidade, para um encontro à altura de espiritualidade. Viveram
juntos por 50 anos.
Filhos e netos encontraram na lavra de Vinicius de Moraes a
jóia dos versos que hoje, gravados em bronze, atraem visitantes ao jazigo da família:
"Para viver um grande amor/é preciso andar sempre
junto/e até ser se possível um só defunto/pra não morrer de dor". |