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Junho/2001 nº16


Esporte por esporte
Álvaro José Silva conta histórias dos 79 anos de vida de Nilo Etienne Duarte, dos quais 60 foram dedicados ao esporte e principalmente à sua maior paixão, o futsal
A praça é nossa
Um pequeno beco e um barzinho em Cachoeiro acabaram ficando conhecidos como Praça Vermelha, reduto histórico de liberdade para debates políticos
Agricultura capixaba
Negros de Ibiraçu
Há um século, um grupo de negros enfrentou os desafios da mata densa e subiu a montanha para fundar, em Ibiraçu, uma comunidade onde, isolados e vivendo da terra, encontram no congo sua mais importante expressão cultural
As cidades e sua gente
Há vários motivos para justificar o nome de Alegre. A beleza da região,
a vida universitária, o maior festival de música do Estado, e agora o título de campeã no futebol são alguns deles
Capixabas de sucesso
Rommel Rubin Dias investe toda a sua jovialidade na produção do maior carnaval fora de época do país, o Vital, que traz para a cidade 500 mil turistas todos os anos





  AS CIDADES E SUA GENTE

Alegre, onde a vida é um show de bola, bossa e boa educação

ALEGRIA, ALEGRIA

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Texto: Marilza Bigio
Fotos: Apoena

Não bastou a Alegre estar fincada em uma região tão abençoada pela natureza, no entorno do Parque Nacional do Caparaó, junto ao Pico da Bandeira e a belíssimas cadeias de montanhas. É ainda uma cidade universitária, lotada de jovens, tranqüila porém plena de atividade. E palco do maior festival de música brasileira do Estado, que este ano vai de 13 a 16 de junho, e leva sempre mais de cem mil pessoas à cidade, que tem 34 mil habitantes.

Como se não bastasse, a cidade viveu o clímax de sua alegria, em maio, com a inédita conquista do Campeonato Capixaba pelo seu time, o intrépido Alegrense, criado e ressuscitado pela paixão do seu povo pelo futebol.

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Alegre foi dormir campeã capixaba, na quarta-feira, 23 de maio, lembrando os gols de Admilson e Éldio, ao som do hino do Alegrense Futebol Clube. Caiu na farra depois de vê-lo vencer antecipadamente o campeonato.

A equipe de SÉCULO acompanhou a conquista e a festa, depois de ter passado três dias na Toyota do GaúchoCarlos Abel Dutra Garcia, um ambientalista que já se tornou figura querida na cidade -, pelas estradas e trilhas, conhecendo rios, cachoeiras, casarões antigos da época de ouro do café. Admirando um pouco do artesanato, com as bonecas da Jucelma. Conversando com o historiador Carlos Magno Bravo sobre os áureos tempos da década de 20, quando era a cidade mais populosa do Espírito Santo. Percorrendo as trilhas que se oferecem ao visitante, enchendo os pulmões de ar puro e os olhos, de cores Contra o vento, sem lenço e sem documento, na maior alegria.

Quando o árbitro Wallace Valente apitou o fim do histórico jogo contra o Serra, 3 x 1, o povão invadiu o campo aos pulos, aos gritos, de repente tudo ficou coberto de cores, o vermelho e o amarelo em êxtase celestial nas camisas e bandeiras. E o melhor foi que alguns torcedores adversários, rendidos ante tamanha festa, caíram também na saudável gandaia promovida pela prefeitura na praça da Padroeira N.S. Conceição, com trio elétrico e foguetório, como manda o figurino do interior – que dá lição de civilidade a muita cidade grande...

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A estação ferroviária de Alegre

É compreensível, já que por aqui a presença dos jovens é maciça, e o pessoal jovem parece que cada vez mais está querendo é paz. Mesmo em dias comuns o que mais se vê pelas ruas são estudantes, imagine em dia de axé e forró. A disposição para o furdunço, aliás, é uma característica local, pois o Festival de Música Brasileira de Alegre já ganhou fama nacional, trazendo os maiores nomes nacionais.

Outra atração são os rodeios, que têm lugar em agosto, na festa de aniversário da cidade, e representam uma das etapas de um campeonato universitário. Afinal, a cidade tem um Centro Agropecuário da Ufes (CAUfes), que oferece cursos de engenharia agronômica, engenharia florestal, medicina veterinária e zootecnia, com estudantes voltados para as atividades do campo.

Também a Faculdade de Filosofia de Alegre (Biologia, História, Letras, Matemática e Pedagogia) contribui com o crescimento da cidade, formando professores, e a Escola Agrotécnica, formando técnicos agrícolas (nível de segundo grau). São 1.300 estudantes universitários e mais dois mil no ensino médio, enchendo de jovialidade esta cidade. E, no dia mais importante dos últimos anos de Alegre, essa garotada lotou as praças e foi atrás do trio elétrico até de madrugada. Que disposição!

Renasce o glorioso tricolor

"Renasce o glorioso tricolor/ alegre mais se torna esta cidade/ por todos os gramados por onde ele passar/ felizes torcedores vão contar/ as glórias desse herói tricampeão/ 71, 72, 73/ vencer é sua meta/ a sua tradição/ o Alegrense vive em nosso coração... O vermelho simboliza a sua garra/ no amarelo a destreza se traduz/ no azul a confiança da torcida a iluminar/ o caminho que à vitória o conduz..."

(Letra e música de Luiz Alberto Valadão de Azeredo, arranjos do maestro Wilson Laerte de Oliveira)

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A festa do Alegrense na vitória por 3X1 sobre o Serra, que garantiu o título antecipado de campeão capixaba,
levou o povo da cidade para as ruas

O time do Alegrense Futebol Clube, logo ao nascer, se tornou tricampeão - em 71/72/73 -, da Liga Serrana, antigo campeonato do sul do Estado. Depois, passou por problemas financeiros, fechou, e voltou ano passado, vencendo a 2ª divisão e ganhando o direito de disputar o Campeonato Capixaba. Vencendo o Serra em históricos 3 x 1, com dois gols de Admílson e um de Éldio, no Estádio Benedito Leão. E deixando o povo alegrense no maior alto astral, cores, sons e rebolado tomando as ruas, desde a manhãzinha.

Quem conta a história do Alegrense é o diretor e primeiro secretário do clube, Venilton Santos, engenheiro agrônomo há 19 anos, professor do Centro de Ciências Agrárias da Ufes, de Climatologia Agrícola, e apaixonado por futebol e pela cidade. Até o jeito de falar dele é emocionado, e quando conta que foi o vocalista (ele toca violão e canta também) na gravação do Hino do Alegrense, no Estúdio Almanca e Cia, de Alegre, ao lado dos músicos Luiz Alberto (o autor), José Renato e Pitico, aí ele só falta chorar. A conversa foi antes do jogo, naquela expectativa angustiante de uma vitória quase certa sobre o Serra.

Na trilha da beleza

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Passando pelo túnel dos Ingleses

Parece que o destino desta cidade é mesmo estar sempre cheia de felicidade – ou pelo menos seu povo agüenta o mesmo tranco que todos nós brasileiros agüentamos, só que com mais ... alegria. Deve ser por causa da boa renda do café e da paisagem belíssima das serras, as oportunidades de passeios, escaladas, rapel e acqua-raid, a proteção e a beleza dos Maciços de Caverna d’Anta e Monte Cristo, que se avistam dos morros que cercam a cidade.

Pegamos com o Gaúcho, em sua indefectível Toyota, um dos roteiros de caminhadas ecológicas que ele costuma fazer com grupos de ecoturismo. É a trilha que segue a antiga Estrada de Ferro Sul-sudeste, ou Railway. Essa ferrovia ligava Cachoeiro ao Rio de Janeiro, passando por Jerônimo Monteiro, Alegre, Celina, entrando um pouco em Minas Gerais para passar por Espera Feliz, e voltando ao ES por Pedra Menina. Foi desativada na década de 30 e os trilhos para passar o trem foram retirados há muitos anos – uma pena, pois seriam um atrativo a mais para turistas. A caminhada vai de Alegre a Celina.

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Gaúcho e sua Toyota

A quatro quilômetros da fábrica de laticínios Selita, encontramos o primeiro de três túneis construídos na época de Dom Pedro II, o Túnel dos Ingleses. Segundo Gaúcho, excelente para os iniciantes na técnica do rapel (pra quem não sabe, aquele esporte radical que faz o cristão ficar pendurado em cordas e ir descendo, penosamente, pelos flancos de uma rocha ou, no caso, pelas laterais do túnel). A trilha continua por mais uns 7 quilômetros, e tem trechos onde não dá para seguir de carro, só a pé. Mas tomamos outro desvio, de carro.

O passeio termina em Celina, distrito de Alegre, depois de percorrer mais de 17km de chão. Chegamos bem em frente da velha estação ferroviária de Celina, inaugurada em 1912, três anos depois da estrada começar a operar. A caminhada é agradável para gente de todas as idades, pois só se anda no plano – o leito da estrada de ferro -, não sendo um passeio cansativo demais. O que não é verdade para os mais atirados, que podem aproveitar para fazer rapel nos túneis ou em alguma das rochas – dezenas – já "grampeadas" (com grampos de ferro a espaços tecnicamente adequados para a escalada) pelo Gaúcho, que é a única pessoa de Alegre a promover esse tipo de turismo.

Verde e muita água

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O casarão da família Assis é um dos poucos que restaram da era do café

O Gaúcho veio para esta região há três anos, quando, depois de passar um sufoco no Rio de Janeiro, abandonou emprego na Petrobras e começou a se dedicar à ecologia e ao turismo. Vai mostrando ao longe as cadeias de montanhas, os maciços, e aponta: "Aquela é a Pedra Severina, que tem mais de 900 metros de altura, e que estou tentando obter licença do Ibama para grampear para a prática do rapel". A pedra é parte do complexo montanhoso da Caverna d’Anta, o mais próximo (cerca de 20/30km de Alegre).

No caminho, passamos pela cachoeira do Roncador, junto à Volta da Ferradura, uma queda d’água bonita e barulhenta – a água passa por uma fenda que amplifica o som, daí o seu nome. A cachoeira é formada pelo córrego de Roseira, que depois deste local toma o nome de córrego Cacuí, e, mais abaixo, córrego do Ouro. A vista é deslumbrante.

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A Cachoeira da Fumaça é uma das famosas quedas dágua da região

Outro passeio que o Gaúcho promove é ao acampamento junto ao Pico da Bandeira (2890 metros de altitude, o terceiro ponto mais alto do Brasil). Vai-se de carro até o distrito de Pedra Queimada, município de Dores do Rio Preto – único acesso permitido pelo Ibama no lado espiritossantense (16.200 hectares) do Parque Nacional do Caparaó. Às 2h da madrugada, deixamos o acampamento em Pedra queimada e subimos o Pico da Bandeira, chegando no alto a tempo de ver um esplêndido nascer do sol". A vista é linda, e inclui o Pico do Cristal, o quinto ponto mais alto do Brasil, cheio de formações naturais de quartzo em toda a sua extensão.

Esse passeio é mais longo e fica para outra vez. Pegamos em seguida a estrada para o Parque Nacional da Cachoeira da Fumaça, que fica entre os municípios de Alegre, Ibitirama e Guaçuí, a cerca de 14 quilômetros do centro de Alegre, e tem 27 hectares. A maravilhosa cachoeira tem 720 metros de altura, e o Gaúcho, que só pensa "naquilo", já está querendo "grampear" a rocha por dentro da cascata.

No Horto, mudas de essências nativas

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O engenheiro agrônomo Luiz Augusto Santos é um dos responsáveis pelo Horto Municipal

No caminho de volta, passamos pelo Horto Municipal. A prefeitura de Alegre está demonstrando um interesse e um cuidado muito grandes com o meio ambiente, e no horto se podem encontrar mudas de essências nativas, para reflorestamento, que são destinadas a proprietários de terras desmatadas. Quem cuida de tudo por aqui é o técnico agrícola César da Silva Ragg, que acrescenta: "A prefeitura não precisa comprar mudas para paisagismo de praças, nem adubo orgânico para a manutenção, pois temos tudo aqui". O engenheiro agrônomo Luiz Augusto Santos também trabalha no horto, que tem centenas de mudas, entre elas as de pau-brasil, jequitibá (ambas em extinção), ipês e espécimes de mata ciliar e Mata Atlântica. No momento, estão atarefados com a preparação de 512 mudas de oitis para plantar em todas as avenidas de Alegre, um dos projetos da prefeitura, que também planeja, segundo César, aumentar a ajuda aos produtores rurais que quiserem reflorestar os cumes dos morros, para ajudar na preservação de lençóis de água.

Os eventos da alegre e festiva cidade

Festa da cidade – mês de agosto – rodeios Etapa do Rodeio Universitário, com 2,3 mil pessoas no ano passado

Festival de Música de Alegre – junho – dia 13, Quarta, shows com Manimal (ES), Zé Ramalho, J. Quest, Braga Boys (ES), Casaca (ES), e trio elétrico com Banda Dez; dia 14, Quinta, primeira eliminatória das músicas inéditas inscritas/ shows com Garotos da Praia (ES), Ivete Sangalo, Capital Inicial, banda americana Overkill, trio elétrico com Subversão; dia 15, Sexta, Segunda eliminatória do festival/ shows com Pé do Lixo (ES), KLB, Zeca Pagodinho, Harmonia do Samba e trio elétrico com Pizindim; dia 16, Sábado, Java Roots (ES), Zezé di Camargo e Luciano, Skank, Cheiro de amor e trio elétrico Talabá.

Nome veio da águas

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Igreja de Nossa Senhora da Penha

Alegre tem esse nome não é à toa. Surgiu em 1858 às margens da cachoeira Alegre, que até hoje fornece energia à cidade. E já foi muito próspera, atraindo também grandes eventos culturais, nos anos 20, e depois de 45, quando os artistas do Rio, e também companhias francesas, vinham se apresentar nos clubes chiques da cidade para um povo muito receptivo às inovações na arte. Recebeu algumas das artistas do teatro rebolado, muitos cantores, num tempo que passou depressa, quando o café – e também o leite, as duas maiores riquezas da região – perderam preço e peso econômico.

Com a quebra da bolsa de Nova York, a decadência ronda a cultura cafeeira, principal sustento da região. É o historiador alegrense Carlos Magno Bravo, autor de vários livros e artigos sobre a região, que conta: "Nessa época, nosso contato maior era com o Rio de Janeiro, e não com o restante do Espírito Santo. Essa abertura para o Rio, e também para Minas Gerais, deu-se porque o pessoal que povoou originalmente Alegre veio desses dois estados. Geralmente, se dava, na família, o título de herdeiro ao primeiro filho, o segundo ia ser coronel, o terceiro se arranjava um emprego público, e ia assim até não sobrar nada para os últimos filhos. Estes, então, ganhavam terras – sesmarias – no Espírito Santo, e vinham com família nova e escravos para cuidar de suas fazendas de café".

Segundo o professor, é por isso que o cidadão alegrense "tem um certo orgulho"... é que são netos e bisnetos de comendadores, barões e comerciantes bem postos na vida.

Com a Lei Áurea, libertados os escravos, houve a colonização, que para cá trouxe mais espanhóis e italianos, e apenas alguns alemães. Depois, vieram alguns franceses, e os sírios e libaneses, gente dedicada ao comércio, que em muito contribuiu para o desenvolvimento de Alegre. "Todos aqui eram proprietários de suas terras, e foi a divisão da terra que gerou riqueza", analisa Carlos Magno.

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