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Alegre, onde a vida é um show de
bola, bossa e boa educação
ALEGRIA, ALEGRIA
Texto: Marilza Bigio
Fotos: Apoena
Não bastou a Alegre estar fincada em uma região tão
abençoada pela natureza, no entorno do Parque Nacional do Caparaó, junto ao Pico da
Bandeira e a belíssimas cadeias de montanhas. É ainda uma cidade universitária, lotada
de jovens, tranqüila porém plena de atividade. E palco do maior festival de música
brasileira do Estado, que este ano vai de 13 a 16 de junho, e leva sempre mais de cem mil
pessoas à cidade, que tem 34 mil habitantes.
Como se não bastasse, a cidade viveu o clímax de sua
alegria, em maio, com a inédita conquista do Campeonato Capixaba pelo seu time, o
intrépido Alegrense, criado e ressuscitado pela paixão do seu povo pelo futebol.
Alegre foi dormir campeã capixaba, na quarta-feira, 23 de
maio, lembrando os gols de Admilson e Éldio, ao som do hino do Alegrense
Futebol Clube. Caiu na farra depois de vê-lo vencer antecipadamente o campeonato.
A equipe de SÉCULO acompanhou a conquista e a festa,
depois de ter passado três dias na Toyota do Gaúcho Carlos Abel Dutra
Garcia, um ambientalista que já se tornou figura querida na cidade -, pelas estradas
e trilhas, conhecendo rios, cachoeiras, casarões antigos da época de ouro do café.
Admirando um pouco do artesanato, com as bonecas da Jucelma. Conversando com o
historiador Carlos Magno Bravo sobre os áureos tempos da década de 20, quando era
a cidade mais populosa do Espírito Santo. Percorrendo as trilhas que se oferecem ao
visitante, enchendo os pulmões de ar puro e os olhos, de cores Contra o vento, sem lenço
e sem documento, na maior alegria.
Quando o árbitro Wallace Valente apitou o fim do
histórico jogo contra o Serra, 3 x 1, o povão invadiu o campo aos pulos, aos gritos, de
repente tudo ficou coberto de cores, o vermelho e o amarelo em êxtase celestial nas
camisas e bandeiras. E o melhor foi que alguns torcedores adversários, rendidos ante
tamanha festa, caíram também na saudável gandaia promovida pela prefeitura na praça da
Padroeira N.S. Conceição, com trio elétrico e foguetório, como manda o figurino do
interior que dá lição de civilidade a muita cidade grande...
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A estação ferroviária de Alegre |
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É compreensível, já que por aqui a presença dos jovens
é maciça, e o pessoal jovem parece que cada vez mais está querendo é paz. Mesmo em
dias comuns o que mais se vê pelas ruas são estudantes, imagine em dia de axé e forró.
A disposição para o furdunço, aliás, é uma característica local, pois o Festival de
Música Brasileira de Alegre já ganhou fama nacional, trazendo os maiores nomes
nacionais.
Outra atração são os rodeios, que têm lugar em agosto,
na festa de aniversário da cidade, e representam uma das etapas de um campeonato
universitário. Afinal, a cidade tem um Centro Agropecuário da Ufes (CAUfes), que oferece
cursos de engenharia agronômica, engenharia florestal, medicina veterinária e zootecnia,
com estudantes voltados para as atividades do campo.
Também a Faculdade de Filosofia de Alegre (Biologia,
História, Letras, Matemática e Pedagogia) contribui com o crescimento da cidade,
formando professores, e a Escola Agrotécnica, formando técnicos agrícolas (nível de
segundo grau). São 1.300 estudantes universitários e mais dois mil no ensino médio,
enchendo de jovialidade esta cidade. E, no dia mais importante dos últimos anos de
Alegre, essa garotada lotou as praças e foi atrás do trio elétrico até de madrugada.
Que disposição!
Renasce o glorioso tricolor
"Renasce o glorioso tricolor/ alegre mais se torna
esta cidade/ por todos os gramados por onde ele passar/ felizes torcedores vão contar/ as
glórias desse herói tricampeão/ 71, 72, 73/ vencer é sua meta/ a sua tradição/ o
Alegrense vive em nosso coração... O vermelho simboliza a sua garra/ no amarelo a
destreza se traduz/ no azul a confiança da torcida a iluminar/ o caminho que à vitória
o conduz..."
(Letra e música de Luiz Alberto Valadão de Azeredo,
arranjos do maestro Wilson Laerte de Oliveira)
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A festa do Alegrense na vitória por 3X1 sobre o Serra,
que garantiu o título antecipado de campeão capixaba,
levou o povo da cidade para as ruas |
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O time do Alegrense Futebol Clube, logo ao nascer, se
tornou tricampeão - em 71/72/73 -, da Liga Serrana, antigo campeonato do sul do Estado.
Depois, passou por problemas financeiros, fechou, e voltou ano passado, vencendo a 2ª
divisão e ganhando o direito de disputar o Campeonato Capixaba. Vencendo o Serra em
históricos 3 x 1, com dois gols de Admílson e um de Éldio, no Estádio Benedito Leão.
E deixando o povo alegrense no maior alto astral, cores, sons e rebolado tomando as ruas,
desde a manhãzinha.
Quem conta a história do Alegrense é o diretor e primeiro
secretário do clube, Venilton Santos, engenheiro agrônomo há 19 anos, professor
do Centro de Ciências Agrárias da Ufes, de Climatologia Agrícola, e apaixonado por
futebol e pela cidade. Até o jeito de falar dele é emocionado, e quando conta que foi o
vocalista (ele toca violão e canta também) na gravação do Hino do Alegrense, no
Estúdio Almanca e Cia, de Alegre, ao lado dos músicos Luiz Alberto (o autor), José
Renato e Pitico, aí ele só falta chorar. A conversa foi antes do jogo, naquela
expectativa angustiante de uma vitória quase certa sobre o Serra.
Na trilha da beleza
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Passando pelo túnel dos Ingleses |
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Parece que o destino desta cidade é mesmo estar sempre
cheia de felicidade ou pelo menos seu povo agüenta o mesmo tranco que todos nós
brasileiros agüentamos, só que com mais ... alegria. Deve ser por causa da boa renda do
café e da paisagem belíssima das serras, as oportunidades de passeios, escaladas, rapel
e acqua-raid, a proteção e a beleza dos Maciços de Caverna dAnta e Monte Cristo,
que se avistam dos morros que cercam a cidade.
Pegamos com o Gaúcho, em sua indefectível Toyota,
um dos roteiros de caminhadas ecológicas que ele costuma fazer com grupos de ecoturismo.
É a trilha que segue a antiga Estrada de Ferro Sul-sudeste, ou Railway. Essa ferrovia
ligava Cachoeiro ao Rio de Janeiro, passando por Jerônimo Monteiro, Alegre, Celina,
entrando um pouco em Minas Gerais para passar por Espera Feliz, e voltando ao ES por Pedra
Menina. Foi desativada na década de 30 e os trilhos para passar o trem foram retirados
há muitos anos uma pena, pois seriam um atrativo a mais para turistas. A caminhada
vai de Alegre a Celina.
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A quatro quilômetros da fábrica de laticínios Selita,
encontramos o primeiro de três túneis construídos na época de Dom Pedro II, o Túnel
dos Ingleses. Segundo Gaúcho, excelente para os iniciantes na técnica do rapel
(pra quem não sabe, aquele esporte radical que faz o cristão ficar pendurado em cordas e
ir descendo, penosamente, pelos flancos de uma rocha ou, no caso, pelas laterais do
túnel). A trilha continua por mais uns 7 quilômetros, e tem trechos onde não dá para
seguir de carro, só a pé. Mas tomamos outro desvio, de carro.
O passeio termina em Celina, distrito de Alegre, depois de
percorrer mais de 17km de chão. Chegamos bem em frente da velha estação ferroviária de
Celina, inaugurada em 1912, três anos depois da estrada começar a operar. A caminhada é
agradável para gente de todas as idades, pois só se anda no plano o leito da
estrada de ferro -, não sendo um passeio cansativo demais. O que não é verdade para os
mais atirados, que podem aproveitar para fazer rapel nos túneis ou em alguma das rochas
dezenas já "grampeadas" (com grampos de ferro a espaços
tecnicamente adequados para a escalada) pelo Gaúcho, que é a única pessoa de
Alegre a promover esse tipo de turismo.
Verde e muita água

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O casarão da família Assis é um dos poucos que
restaram da era do café |
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O Gaúcho veio para esta região há três anos,
quando, depois de passar um sufoco no Rio de Janeiro, abandonou emprego na Petrobras e
começou a se dedicar à ecologia e ao turismo. Vai mostrando ao longe as cadeias de
montanhas, os maciços, e aponta: "Aquela é a Pedra Severina, que tem mais de 900
metros de altura, e que estou tentando obter licença do Ibama para grampear para a
prática do rapel". A pedra é parte do complexo montanhoso da Caverna dAnta, o
mais próximo (cerca de 20/30km de Alegre).
No caminho, passamos pela cachoeira do Roncador, junto à
Volta da Ferradura, uma queda dágua bonita e barulhenta a água passa por
uma fenda que amplifica o som, daí o seu nome. A cachoeira é formada pelo córrego de
Roseira, que depois deste local toma o nome de córrego Cacuí, e, mais abaixo, córrego
do Ouro. A vista é deslumbrante.
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A Cachoeira da Fumaça é uma das famosas quedas dágua
da região |
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Outro passeio que o Gaúcho promove é ao
acampamento junto ao Pico da Bandeira (2890 metros de altitude, o terceiro ponto mais alto
do Brasil). Vai-se de carro até o distrito de Pedra Queimada, município de Dores do Rio
Preto único acesso permitido pelo Ibama no lado espiritossantense (16.200
hectares) do Parque Nacional do Caparaó. Às 2h da madrugada, deixamos o acampamento em
Pedra queimada e subimos o Pico da Bandeira, chegando no alto a tempo de ver um
esplêndido nascer do sol". A vista é linda, e inclui o Pico do Cristal, o quinto
ponto mais alto do Brasil, cheio de formações naturais de quartzo em toda a sua
extensão.
Esse passeio é mais longo e fica para outra vez. Pegamos
em seguida a estrada para o Parque Nacional da Cachoeira da Fumaça, que fica entre os
municípios de Alegre, Ibitirama e Guaçuí, a cerca de 14 quilômetros do centro de
Alegre, e tem 27 hectares. A maravilhosa cachoeira tem 720 metros de altura, e o Gaúcho,
que só pensa "naquilo", já está querendo "grampear" a rocha por
dentro da cascata.
No Horto, mudas de essências nativas
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O engenheiro agrônomo Luiz Augusto Santos é um dos
responsáveis pelo Horto Municipal |
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No caminho de volta, passamos pelo Horto Municipal. A
prefeitura de Alegre está demonstrando um interesse e um cuidado muito grandes com o meio
ambiente, e no horto se podem encontrar mudas de essências nativas, para reflorestamento,
que são destinadas a proprietários de terras desmatadas. Quem cuida de tudo por aqui é
o técnico agrícola César da Silva Ragg, que acrescenta: "A prefeitura não
precisa comprar mudas para paisagismo de praças, nem adubo orgânico para a manutenção,
pois temos tudo aqui". O engenheiro agrônomo Luiz Augusto Santos também
trabalha no horto, que tem centenas de mudas, entre elas as de pau-brasil, jequitibá
(ambas em extinção), ipês e espécimes de mata ciliar e Mata Atlântica. No momento,
estão atarefados com a preparação de 512 mudas de oitis para plantar em todas as
avenidas de Alegre, um dos projetos da prefeitura, que também planeja, segundo César,
aumentar a ajuda aos produtores rurais que quiserem reflorestar os cumes dos morros, para
ajudar na preservação de lençóis de água.
| Os eventos da alegre e festiva cidade Festa da cidade mês de agosto
rodeios Etapa do Rodeio Universitário, com 2,3 mil pessoas no ano passado
Festival de Música de Alegre junho
dia 13, Quarta, shows com Manimal (ES), Zé Ramalho, J. Quest, Braga Boys (ES),
Casaca (ES), e trio elétrico com Banda Dez; dia 14, Quinta, primeira eliminatória das
músicas inéditas inscritas/ shows com Garotos da Praia (ES), Ivete Sangalo, Capital
Inicial, banda americana Overkill, trio elétrico com Subversão; dia 15, Sexta, Segunda
eliminatória do festival/ shows com Pé do Lixo (ES), KLB, Zeca Pagodinho, Harmonia do
Samba e trio elétrico com Pizindim; dia 16, Sábado, Java Roots (ES), Zezé di Camargo e
Luciano, Skank, Cheiro de amor e trio elétrico Talabá. |
Nome veio da águas
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Igreja de Nossa Senhora da Penha |
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Alegre tem esse nome não é à toa. Surgiu em 1858 às
margens da cachoeira Alegre, que até hoje fornece energia à cidade. E já foi muito
próspera, atraindo também grandes eventos culturais, nos anos 20, e depois de 45, quando
os artistas do Rio, e também companhias francesas, vinham se apresentar nos clubes
chiques da cidade para um povo muito receptivo às inovações na arte. Recebeu algumas
das artistas do teatro rebolado, muitos cantores, num tempo que passou depressa, quando o
café e também o leite, as duas maiores riquezas da região perderam preço
e peso econômico.
Com a quebra da bolsa de Nova York, a decadência ronda a
cultura cafeeira, principal sustento da região. É o historiador alegrense Carlos
Magno Bravo, autor de vários livros e artigos sobre a região, que conta: "Nessa
época, nosso contato maior era com o Rio de Janeiro, e não com o restante do Espírito
Santo. Essa abertura para o Rio, e também para Minas Gerais, deu-se porque o pessoal que
povoou originalmente Alegre veio desses dois estados. Geralmente, se dava, na família, o
título de herdeiro ao primeiro filho, o segundo ia ser coronel, o terceiro se arranjava
um emprego público, e ia assim até não sobrar nada para os últimos filhos. Estes,
então, ganhavam terras sesmarias no Espírito Santo, e vinham com família
nova e escravos para cuidar de suas fazendas de café".
Segundo o professor, é por isso que o cidadão alegrense
"tem um certo orgulho"... é que são netos e bisnetos de comendadores, barões
e comerciantes bem postos na vida.
Com a Lei Áurea, libertados os escravos, houve a
colonização, que para cá trouxe mais espanhóis e italianos, e apenas alguns alemães.
Depois, vieram alguns franceses, e os sírios e libaneses, gente dedicada ao comércio,
que em muito contribuiu para o desenvolvimento de Alegre. "Todos aqui eram
proprietários de suas terras, e foi a divisão da terra que gerou riqueza", analisa
Carlos Magno. |