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Junho/2001 nº16


Esporte por esporte
Álvaro José Silva conta histórias dos 79 anos de vida de Nilo Etienne Duarte, dos quais 60 foram dedicados ao esporte e principalmente à sua maior paixão, o futsal
A praça é nossa
Um pequeno beco e um barzinho em Cachoeiro acabaram ficando conhecidos como Praça Vermelha, reduto histórico de liberdade para debates políticos
Agricultura capixaba
Negros de Ibiraçu
Há um século, um grupo de negros enfrentou os desafios da mata densa e subiu a montanha para fundar, em Ibiraçu, uma comunidade onde, isolados e vivendo da terra, encontram no congo sua mais importante expressão cultural
As cidades e sua gente
Há vários motivos para justificar o nome de Alegre. A beleza da região,
a vida universitária, o maior festival de música do Estado, e agora o título de campeã no futebol são alguns deles
Capixabas de sucesso
Rommel Rubin Dias investe toda a sua jovialidade na produção do maior carnaval fora de época do país, o Vital, que traz para a cidade 500 mil turistas todos os anos





  AGRICULTURA CAPIXABA

Conquistas quanto a boa qualidade e ao desempenho contrastam
com a penúria e as carências do setor

Milagres que brotam da terra

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Texto: Fernanda Couzemenco
Fotos: Tom Boechat

O maior exportador de mamão, o maior produtor de café arábica, o segundo maior de café conilon, o pioneiro em pesquisas sobre agricultura orgânica, o maior produtor de coco anão verde e o quarto lugar em pesquisa agropecuária do Brasil. São alguns dos títulos da agricultura capixaba, que muitos capixabas nem conhecem. Mas quase podem ser chamados de milagrosos, considerando-se o reduzido quadro de profissionais e recursos destinado ao setor.

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É do empenho de pesquisadores, técnicos, doutores e até de produtores rurais quase sem estudo que surgem esses e outros resultados importantes, que revolucionam a agricultura, a economia e, de alguma forma, a vida de todos nós.

Gente como Jacimar Luís de Souza, coordenador de projetos de pesquisa em agricultura orgânica do Incaper, uma das maiores autoridades nacionais e um dos responsáveis pelo pioneirismo do Estado no assunto; ou como o produtor rural Ozílio Partelli, mentor não reconhecido de uma técnica revolucionária sobre o espaçamento entre ruas e pés de café conilon.

No Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), o principal órgão fomentador dos avanços técnicos e econômicos da nossa agricultura, existem 130 projetos e 340 experimentos de pesquisa em andamento, a maioria visando a reduzir a utilização de agrotóxicos, uma reivindicação cada vez mais clara do mercado.

Mas pelo menos 500 experimentos poderiam estar sendo pesquisados, segundo o presidente do instituto, José Onofre, se houvesse um pouco mais de recursos e profissionais disponíveis.

O orçamento de 2000 foi de R$ 2,6 milhões, sendo apenas R$ 600 mil oriundos do governo estadual. A maior parte é arrecadada junto a prefeituras, associações de produtores e fundações de fora do Estado e do país. Há mais de uma década não é feita uma única contratação para o órgão, que amarga um déficit de 146 profissionais.

Mesmo assim, ocupa a quarta posição no ranking de 67 entidades públicas que atuam na área de pesquisa agropecuária no Brasil. Perde apenas para o Instituto Agronômico de Campinas (SP), Universidade Federal de Viçosa (MG) e Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, nessa ordem.

Café, salvação e maldição do Espírito Santo

A agricultura é a terceira atividade econômica, é responsável por 15% da receita e pela geração de cerca de 800 mil empregos no Espírito Santo. Os números parecem tímidos, mas não é só com números que se revela sua importância. Trata-se de uma atividade de base em qualquer estado ou país. Mata a fome da população, fixa o homem no campo e, se feita com o devido planejamento e cuidados técnicos, pode contribuir para a preservação e recuperação ambiental.

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No Estado, o principal produto ainda é o café, tido como "salvação e maldição" do Espírito Santo, dependendo da cotação da saca no mercado. São 575 mil ha plantados e 360 mil postos de trabalho. A atividade agrícola que mais emprega, segundo o coordenador estadual de cafeicultura, Lúcio Herzog De Muner.

Quando o preço está baixo, como agora, instalam-se o caos e o desespero. Cidades inteiras têm suas economias prejudicadas. Cai o comércio, aumenta a inadimplência, um efeito em cascata.

Foi um momento semelhante, há cerca de dez anos, que inspirou o produtor rural Ozílio Partelli, de Vila Valério, no noroeste do Estado, a desenvolver uma técnica que lhe permitisse aumentar a produção sem precisar ampliar sua propriedade. "Não tinha dinheiro para comprar mais terras e não queria sair de Vila Valério, como vários colegas, que se mudaram para Vitória, Rondônia", lembra.

Depois de meses de pesquisas solitárias, desenvolveu uma técnica revolucionária, em que o adensamento dos pés de café permite uma produtividade por hectar até 200% maior que a média, com uma redução de 80% nos custos de produção.

Dois anos depois, uma nova revolução e um novo pioneirismo. Na verdade, um marco para a cafeicultura capixaba: o lançamento das primeiras mudas clonais de café conilon, que permitiram ao produtor ter certeza da qualidade de sua planta, já que ela apresenta os mesmos índices de produtividade e resistência a doenças da planta matriz.

Em seguida, veio o robustão capixaba, variedade mais resistente à seca, indicada para pequenos agricultores do norte do Estado, sem recursos para investir em irrigação. Em 1996, foi concluída a pesquisa sobre o controle biológico da broca do café, com o uso de vespas no lugar de agrotóxicos. A técnica, inédita no país, foi desenvolvida ao longo de 10 anos pela pesquisadora do Incaper Vera Lúcia Benassi, e consiste na introdução de vespas na lavoura, que se alimentam dos ovos da broca e colocam seus ovos sobre o corpo e a pupa da larva.

Café e tudo o mais orgânico

Ao que tudo indica, a próxima grande revolução deve se dar com o café orgânico. A adesão ainda está tímida e restrita a pequenas associações de produtores, mas promete crescer. Um grupo de Jaguaré, Nova Venécia e São Mateus vem se reunindo mensalmente com agrônomos, com o objetivo de criar uma cooperativa e um selo nacional de qualidade que diferencie o produto. Este último, com previsão de se tornar realidade em três meses.

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A empolgação é grande. O comerciante aposentado Serafim dos Santos Gonçalves, membro do grupo, afirma que já recebeu propostas de R$ 80,00 pela saca de seu café orgânico, que ainda não foi colhido. "Meus vizinhos vendem o café tradicional deles a R$40,00 ou R$ 45,00", comemora.

Além do preço melhor, Serafim ainda ganha com a redução de custos. Não gasta nada com agrotóxicos e muito pouco com adubo. "Compro só o esterco de boi e complemento com insumos da minha propriedade: folhas, galhos secos. O adubo sai quase de graça", ensina.

Essas vantagens compensam uma queda de até 20% na produtividade, quando comparada ao café tradicional. "Além disso, a produtividade aumenta a cada safra, à medida em que o solo se recupera. Não vai demorar muito para eu produzir mais que meus vizinhos".

O entusiasmo e o otimismo de Serafim são experimentados entre todos aqueles que entram em contato com a agricultura orgânica. A paixão e a "devoção" costumam ser imediatas e indissolúveis.

Foi assim com um grupo de estudantes de engenharia agrônoma do Centro de Agronomia da Universidade Federal do Espírito Santo (Caufes), que em 1985 começaram a discutir uma forma de aproximar a universidade da comunidade.

Os estudantes logo descobriram uma grave lacuna da grade curricular e decidiram preenchê-la. "Até hoje não temos a disciplina de agricultura orgânica. O modelo de ensino é muito tecnicista, faltam discussões sobre sustentabilidade", reclama Hélio Orlando Menegueli, um dos membros mais antigos da atual formação do Grupo de Agricultura Orgânica Kapi’xawa (expressão tupi-guarani que significa pequena unidade de plantação ou pequena unidade de milho, e que deu origem à palavra capixaba).

A transformação em organização não governamental aconteceu há 14 anos e desde então ela manteve a característica do voluntariado, da postura apolítica, da rotatividade de membros – só podem participar estudantes do Caufes – e da assistência direta aos pequenos produtores do sul do Estado. "Queremos lhes oferecer alternativas, mantê-los na região", explica Hélio.

O Kapi’xawa faz parte do Fórum Estadual de Agricultura Familiar, organiza eventos e conta com apoio logístico da Ufes. Mas ainda não desenvolveu nenhum projeto financiado. Outra dificuldade é que a maioria dos membros tem que trabalhar e estudar, só se dedicando ao grupo nas horas vagas. "O que nos move é a satisfação dos agricultores, é o idealismo. Conhecemos esse modelo capitalista de agricultura, com agroquímicos, e somos contra ele", sentencia.

Os pioneiros

Foi assim também, apaixonada e irremediável, a adesão do produtor rural Irvino Uhlig e seu pai, Martinho Uhlig, à agricultura orgânica. Até 1986 eles eram agricultores convencionais de Santa Maria de Jetibá. Mas bastou assistirem a uma palestra dos técnicos da Associação de Programas em Tecnologia Alternativa (APTA), promovida pelas pastorais das Igrejas Católica e Luterana, para que decidissem entrar de cabeça na agricultura orgânica. "Descobrimos o perigo de trabalhar com agrotóxicos, os vários tipos de câncer, de deformação. No mesmo dia decidimos nunca mais mexer com agrotóxicos na vida", recorda Irvino.

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Três anos depois, em 1989, os Uhlig e outros onze produtores formaram a Associação de Produtores de Santa Maria em Defesa da Vida (APSAD-VIDA), a primeira do gênero no Estado. Hoje, são vinte sócios, todos satisfeitos e confiantes de que estão no caminho certo. "Esse é o caminho, não vamos voltar para trás", afirma Irvino.

A certeza prevalece, apesar de todas as dificuldades. A APSAD-VIDA conta com pouca assistência de órgãos oficiais de pesquisa, sendo a maior parte das descobertas técnicas desenvolvidas empiricamente pelos próprios associados.

As principais dificuldades são com o tomate. A produtividade ainda é pequena quando comparada às lavouras convencionais e os produtores nunca dão conta da fome do mercado. Em compensação, a produção de couve, couve-flor, repolho, agrião, cenoura e temperos em geral, só para citar os mais vendidos, não deixam nada a desejar.

São 250 volumes toda semana, vendidos nas feiras de Jardim da Penha e Maruípe. Uma média de 30 volumes por cada produtor. "Quando começamos, 20 volumes eram a produção total da APSAD-VIDA", comemora Irvino.

Além disso, vários produtos da APSAD-VIDA e de outros agricultores orgânicos chegam em super e hipermercados da Grande Vitória através da Bom Fruto, empresa criada há três anos para facilitar essa distribuição.

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