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Conquistas quanto a boa qualidade
e ao desempenho contrastam
com a penúria e as carências do setor
Milagres que brotam
da terra
Texto: Fernanda
Couzemenco
Fotos: Tom Boechat
O maior exportador de mamão, o maior produtor de café
arábica, o segundo maior de café conilon, o pioneiro em pesquisas sobre agricultura
orgânica, o maior produtor de coco anão verde e o quarto lugar em pesquisa agropecuária
do Brasil. São alguns dos títulos da agricultura capixaba, que muitos capixabas nem
conhecem. Mas quase podem ser chamados de milagrosos, considerando-se o reduzido quadro de
profissionais e recursos destinado ao setor.
É do empenho de pesquisadores, técnicos, doutores e até
de produtores rurais quase sem estudo que surgem esses e outros resultados importantes,
que revolucionam a agricultura, a economia e, de alguma forma, a vida de todos nós.
Gente como Jacimar Luís de Souza, coordenador de
projetos de pesquisa em agricultura orgânica do Incaper, uma das maiores autoridades
nacionais e um dos responsáveis pelo pioneirismo do Estado no assunto; ou como o produtor
rural Ozílio Partelli, mentor não reconhecido de uma técnica revolucionária
sobre o espaçamento entre ruas e pés de café conilon.
No Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e
Extensão Rural (Incaper), o principal órgão fomentador dos avanços técnicos e
econômicos da nossa agricultura, existem 130 projetos e 340 experimentos de pesquisa em
andamento, a maioria visando a reduzir a utilização de agrotóxicos, uma reivindicação
cada vez mais clara do mercado.
Mas pelo menos 500 experimentos poderiam estar sendo
pesquisados, segundo o presidente do instituto, José Onofre, se houvesse um pouco
mais de recursos e profissionais disponíveis.
O orçamento de 2000 foi de R$ 2,6 milhões, sendo apenas
R$ 600 mil oriundos do governo estadual. A maior parte é arrecadada junto a prefeituras,
associações de produtores e fundações de fora do Estado e do país. Há mais de uma
década não é feita uma única contratação para o órgão, que amarga um déficit de
146 profissionais.
Mesmo assim, ocupa a quarta posição no ranking de 67
entidades públicas que atuam na área de pesquisa agropecuária no Brasil. Perde apenas
para o Instituto Agronômico de Campinas (SP), Universidade Federal de Viçosa (MG) e
Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, nessa ordem.
Café, salvação e maldição do Espírito Santo
A agricultura é a terceira atividade econômica, é
responsável por 15% da receita e pela geração de cerca de 800 mil empregos no Espírito
Santo. Os números parecem tímidos, mas não é só com números que se revela sua
importância. Trata-se de uma atividade de base em qualquer estado ou país. Mata a fome
da população, fixa o homem no campo e, se feita com o devido planejamento e cuidados
técnicos, pode contribuir para a preservação e recuperação ambiental.
No Estado, o principal produto ainda é o café, tido como
"salvação e maldição" do Espírito Santo, dependendo da cotação da saca no
mercado. São 575 mil ha plantados e 360 mil postos de trabalho. A atividade agrícola que
mais emprega, segundo o coordenador estadual de cafeicultura, Lúcio Herzog De Muner.
Quando o preço está baixo, como agora, instalam-se o caos
e o desespero. Cidades inteiras têm suas economias prejudicadas. Cai o comércio, aumenta
a inadimplência, um efeito em cascata.
Foi um momento semelhante, há cerca de dez anos, que
inspirou o produtor rural Ozílio Partelli, de Vila Valério, no noroeste do Estado, a
desenvolver uma técnica que lhe permitisse aumentar a produção sem precisar ampliar sua
propriedade. "Não tinha dinheiro para comprar mais terras e não queria sair de Vila
Valério, como vários colegas, que se mudaram para Vitória, Rondônia", lembra.
Depois de meses de pesquisas solitárias, desenvolveu uma
técnica revolucionária, em que o adensamento dos pés de café permite uma produtividade
por hectar até 200% maior que a média, com uma redução de 80% nos custos de produção.
Dois anos depois, uma nova revolução e um novo
pioneirismo. Na verdade, um marco para a cafeicultura capixaba: o lançamento das
primeiras mudas clonais de café conilon, que permitiram ao produtor ter certeza da
qualidade de sua planta, já que ela apresenta os mesmos índices de produtividade e
resistência a doenças da planta matriz.
Em seguida, veio o robustão capixaba, variedade mais
resistente à seca, indicada para pequenos agricultores do norte do Estado, sem recursos
para investir em irrigação. Em 1996, foi concluída a pesquisa sobre o controle
biológico da broca do café, com o uso de vespas no lugar de agrotóxicos. A técnica,
inédita no país, foi desenvolvida ao longo de 10 anos pela pesquisadora do Incaper Vera
Lúcia Benassi, e consiste na introdução de vespas na lavoura, que se alimentam dos
ovos da broca e colocam seus ovos sobre o corpo e a pupa da larva.
Café e tudo o mais orgânico
Ao que tudo indica, a próxima grande revolução deve se
dar com o café orgânico. A adesão ainda está tímida e restrita a pequenas
associações de produtores, mas promete crescer. Um grupo de Jaguaré, Nova Venécia e
São Mateus vem se reunindo mensalmente com agrônomos, com o objetivo de criar uma
cooperativa e um selo nacional de qualidade que diferencie o produto. Este último, com
previsão de se tornar realidade em três meses.
A empolgação é grande. O comerciante aposentado Serafim
dos Santos Gonçalves, membro do grupo, afirma que já recebeu propostas de R$ 80,00
pela saca de seu café orgânico, que ainda não foi colhido. "Meus vizinhos vendem o
café tradicional deles a R$40,00 ou R$ 45,00", comemora.
Além do preço melhor, Serafim ainda ganha com a redução
de custos. Não gasta nada com agrotóxicos e muito pouco com adubo. "Compro só o
esterco de boi e complemento com insumos da minha propriedade: folhas, galhos secos. O
adubo sai quase de graça", ensina.
Essas vantagens compensam uma queda de até 20% na
produtividade, quando comparada ao café tradicional. "Além disso, a produtividade
aumenta a cada safra, à medida em que o solo se recupera. Não vai demorar muito para eu
produzir mais que meus vizinhos".
O entusiasmo e o otimismo de Serafim são experimentados
entre todos aqueles que entram em contato com a agricultura orgânica. A paixão e a
"devoção" costumam ser imediatas e indissolúveis.
Foi assim com um grupo de estudantes de engenharia
agrônoma do Centro de Agronomia da Universidade Federal do Espírito Santo (Caufes), que
em 1985 começaram a discutir uma forma de aproximar a universidade da comunidade.
Os estudantes logo descobriram uma grave lacuna da grade
curricular e decidiram preenchê-la. "Até hoje não temos a disciplina de
agricultura orgânica. O modelo de ensino é muito tecnicista, faltam discussões sobre
sustentabilidade", reclama Hélio Orlando Menegueli, um dos membros mais antigos da
atual formação do Grupo de Agricultura Orgânica Kapixawa (expressão tupi-guarani
que significa pequena unidade de plantação ou pequena unidade de milho, e que deu origem
à palavra capixaba).
A transformação em organização não governamental
aconteceu há 14 anos e desde então ela manteve a característica do voluntariado, da
postura apolítica, da rotatividade de membros só podem participar estudantes do
Caufes e da assistência direta aos pequenos produtores do sul do Estado.
"Queremos lhes oferecer alternativas, mantê-los na região", explica Hélio.
O Kapixawa faz parte do Fórum Estadual de
Agricultura Familiar, organiza eventos e conta com apoio logístico da Ufes. Mas ainda
não desenvolveu nenhum projeto financiado. Outra dificuldade é que a maioria dos membros
tem que trabalhar e estudar, só se dedicando ao grupo nas horas vagas. "O que nos
move é a satisfação dos agricultores, é o idealismo. Conhecemos esse modelo
capitalista de agricultura, com agroquímicos, e somos contra ele", sentencia.
Os pioneiros
Foi assim também, apaixonada e irremediável, a adesão do
produtor rural Irvino Uhlig e seu pai, Martinho Uhlig, à agricultura orgânica.
Até 1986 eles eram agricultores convencionais de Santa Maria de Jetibá. Mas bastou
assistirem a uma palestra dos técnicos da Associação de Programas em Tecnologia
Alternativa (APTA), promovida pelas pastorais das Igrejas Católica e Luterana, para que
decidissem entrar de cabeça na agricultura orgânica. "Descobrimos o perigo de
trabalhar com agrotóxicos, os vários tipos de câncer, de deformação. No mesmo dia
decidimos nunca mais mexer com agrotóxicos na vida", recorda Irvino.
Três anos depois, em 1989, os Uhlig e outros onze
produtores formaram a Associação de Produtores de Santa Maria em Defesa da Vida
(APSAD-VIDA), a primeira do gênero no Estado. Hoje, são vinte sócios, todos satisfeitos
e confiantes de que estão no caminho certo. "Esse é o caminho, não vamos voltar
para trás", afirma Irvino.
A certeza prevalece, apesar de todas as dificuldades. A
APSAD-VIDA conta com pouca assistência de órgãos oficiais de pesquisa, sendo a maior
parte das descobertas técnicas desenvolvidas empiricamente pelos próprios associados.
As principais dificuldades são com o tomate. A
produtividade ainda é pequena quando comparada às lavouras convencionais e os produtores
nunca dão conta da fome do mercado. Em compensação, a produção de couve, couve-flor,
repolho, agrião, cenoura e temperos em geral, só para citar os mais vendidos, não
deixam nada a desejar.
São 250 volumes toda semana, vendidos nas feiras de Jardim
da Penha e Maruípe. Uma média de 30 volumes por cada produtor. "Quando começamos,
20 volumes eram a produção total da APSAD-VIDA", comemora Irvino.
Além disso, vários produtos da APSAD-VIDA e de outros
agricultores orgânicos chegam em super e hipermercados da Grande Vitória através da Bom
Fruto, empresa criada há três anos para facilitar essa distribuição.
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