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Orgulho dos
cachoeirenses, um cantinho da cidade, que não é praça mas faz de conta que é, mantém
a tradição do debate livre, do humor, da irreverência e da luta contra as desigualdades
sociais
A liberdade é
vermelha
Texto: Marilza Bigio
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Nosso Kremlim em Cachoeiro era e é - apenas um
beco, no final da ponte velha da estrada de ferro, onde por um bom motivo um bar
chamado CDM reuniam-se (e até hoje se reúnem, embora a época de ouro tenha
passado) aqueles que nunca se calaram, comunistas ou não, secundaristas e universitários
de todas as épocas, operários de todo tipo, mas principalmente, no início, os
ferroviários. O maior dos líderes dos ferroviários de Cachoeiro categoria
mobilizada e respeitada foi Demisthóclides Baptista, o Batistinha, herói
da palavra nos anos de chumbo. Desde os anos 50/60, ele pontificava nas reuniões no CDM
que apresentou ao mundo com um artigo que é uma obra-prima, Um bar chamado CDM,
no Primeiro Encontro dos Amigos da Praça Vermelha, em 1986. Dos intrépidos comunistas,
em 40/50, passando pelos grisalhos líderes emocionais da política sindicalista nas
décadas de 60 e 70, aos jovens caras-pintadas em 90, a Praça Vermelha que na
verdade, como se viu, nem praça é - sempre foi reconhecida como território de livre
expressão.
E ainda hoje seus freqüentadores cumprem a agradável
rotina da cerveja em meio ao bate-papo. Uma conversa sempre oposicionista, jamais
conformista, de vez em quando reunindo ainda gente conhecida da luta pela democracia e
pelo socialismo. Ziraldo e Jorge Amado já foram mais presentes, entre os de fora,
categoria à qual pertence também João Amazonas, o presidente do PC do B, que já
prestigiou o bar com sua presença. Já Fuinha, Fanfonga (não conseguimos
descobrir seus nomes), Cafunga (José Cláudio Magalhães), Juracy Magalhães e
Juarez Tavares da Matta (ambos políticos), Hélio Carlos Manhães (político, que já foi
prefeito de Cachoeiro), Roberto Valadão, estão entre os cachoeirenses mais
participantes. Nas conversas, o sempre lembrado herói Batistinha, que, homenageado
pela Câmara, em 1993, dá nome à ponte antiga. Saindo da ponte para a pracinha embaixo
esta uma praça mesmo , Francisco Abraão, tem uma travessa. Essa travessa é
que é o verdadeiro local chamado Praça Vermelha. A travessa ganhou, em 1993, também, o
nome de outro personagem da história da esquerda cachoeirense, Ramon Ramos. É o
reconhecimento dos representantes do povo cachoeirense de que a luta das palavras é e
será sempre a luta mais nobre e mais fecunda, apesar de muitas vezes trazer mais perigo
do que a luta aberta e armada.
Nome impublicável
Foi Ramon, ou Aúa, que deu o nome de CDM ao bar do Doca,
nome que deve ter aguçado a curiosidade do leitor. É, CDM quer dizer isso mesmo que
você pensou, e que é impublicável. Claro, foi o nome dado por gente jovem, operários e
universitários, que têm por característica mais cultivada a irreverência. Pois ficou
assim, CDM, até hoje. Mesmo não sendo mais um bar, pois o prédio foi tombado pelo
Patrimônio Histórico, o que não permite seu uso comercial, continua sendo o mesmo bom e
velho espaço de chão de azulejos antigos e pequeno balcão. Nem cerveja se vende mais
ali, mas os freqüentadores, para não perder seu ponto de encontro, compram a cerveja num
bar próximo e se sentam nas mesinhas que o dono, Doca, mantém ainda, "só
para os amigos". Lá é que SÉCULO encontrou Juarez Rodrigues e José
Santos, ferroviários aposentados, assíduos freqüentadores desde 1950.
| Arquivo CDM |
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Uma das reuniões da Praça |
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"Até hoje encontro aqui pessoas da
antiga, de vez em quando", diz Juarez. "Aqui era reduto dos
ferroviários", completa.
"Cachoeiro é a terra do já teve,
entendeu?", intervém José. "Já teve teatro, já teve cinemas, já teve isso,
já teve aquilo... os cachoeirenses vão embora cada vez mais. Antigamente, quem
trabalhava pelo menos tinha a certeza do seu emprego; agora, mesmo que você esteja
empregado vive com medo", vai falando numa torrente só o José. "Se esse povo
sofredor votar de novo nessa gente vai ser uma barbaridade, estamos sem saída, o
comércio não tem dinheiro, a indústria não tem dinheiro, o trabalhador não tem
emprego..." Tá bem, seu José. Já percebemos direitinho o que é o tal espírito
da Praça Vermelha, que parece tomar conta de todo mundo por aqui.
Juarez e José começam a lembrar: "Tudo começou na
época do João Goulart, e até antes disso, nos anos 60 tivemos aqui os irmãos Braga,
Newton e Rubem, vinha aqui o Jorge Amado, o pessoal da ativa (dos partidos de esquerda)
vinha sempre aqui".
"Nessa época era desde pequeno que a gente conhecia o
valor do trabalho e se unia contra o patrão. Hoje menino não pode trabalhar, é proibido
por lei, mas não dão escola decente pro garoto também, então era melhor ele trabalhar
do que ficar na rua, as meninas querendo ser modelos e os garotos querendo ser
cantor"... dispara outra vez José. Ele está "vendo o negócio mais feio a cada
dia"... "Vitória é um barril de pólvora, as pessoas que não têm emprego
são a origem da violência urbana, e não tem emprego só porque o patrão também não
agüenta mais impostos..."
Boca no trombone
Tom Boechat |
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Seu Doca, proprietário do CDM |
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Doca chega perto. Ele é o dono do bar há cerca de
40 anos. "Fechei porque eles a prefeitura disseram que iam demolir.
Agora, dizem que vão restaurar. Esse lugar tinha mesmo que ser restaurado, mas deixar o
bar continuar aqui, porque já faz parte da história da cidade", pondera. "Este
é o lugar certo para botar a boca no trombone", diz Juarez, aplaudido por José e Doca.
Impedido de vender bebidas na verdade qualquer coisa Doca abre as
portas apenas para que o pessoal possa se encontrar, sentar nas mesinhas à beira da rua e
beber as cervejas que compram no Skimone, em frente.
As festas da Praça Vermelha e do CDM ficaram
famosas. Vinham sempre um ou dois dias antes ou depois da data de aniversário da cidade
deu pra entender? É que a festa do CDM é sempre no sábado mais próximo, antes
ou depois, do feriado de aniversário da cidade, que é dia 29 de junho. Este ano deve ser
no dia 30, mas ainda não está certo. Que ninguém se preocupe, pois perto do dia, todo
mundo fica sabendo, todas as rádios noticiam, é sempre um dos maiores agitos da cidade.
| Tom Boechat |
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Ponte próxima à Praça Vermelha batizada em homenagem
a Batistinha |
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A partir de 86, abriu-se um Livro de Ouro no qual se
encontram assinaturas importantes. O livro abre com o tal artigo de Batistinha, um
primor, que começa por listar vários dos bares mais conhecidos do país o
Amarelinho, na Cinelândia, Rio de Janeiro, abrindo o rol. Isso para falar do CDM, onde
até quem não é de beber e Batistinha se inclui nessa categoria (pura
gozação) -, bebe. E Batistinha esclarecia em seu artigo: "E CDM não quer
dizer Carinho das Meninas, nem Compadres do Manezinho, como às vezes a gente inventa...
criança de Cachoeiro, anjo de candura, acostumou gritar bem alto, na mais pura
inocência, e com todo o respeito: mamãe, papai tá bebendo lá no c... da mãe!".
O bêbado e o ministro
No Livro de Ouro estão citados, ou assinam crônicas
deliciosas - que é idéia transformar em livro -, os seguintes nomes da política local,
estadual e nacional: Batistinha, claro, José Claúdio Magalhães, Sebastião
Magalhães Gomes, Cid Magalhães Pontes, Manoel Gomes Santana, Carlito Gomes Santana,
Álvaro Ramos e seu filho Ramon Ramos e José Henrique de Almeida (Henrique), como
iniciadores da fase atual da grande festa da Praça Vermelha, em 86. E mais, ao longo
destes 25 anos: Dullino, Hélio Carlos Manhães, Braulino, Homero Menicucci, José Soares,
Luiz Carlos Possamai (Carlinhos), José Domingos Viana (Zequinha), Arnaldo
Silva (Miminho), Sebastião Carlos Guimarães (Mixirica), Ailton de Almeida
Pinto (Bulan), Carlos Roberto Gomes, Loé, Rubens, Léo, Tatu, Lessa
(Francisco Ugarth de Almeida Lessa), Fischer, Roberto Valadão e seu irmão Arildo
Valadão, mártir da guerrilha do Araguaia. Tem também citações a Aúa um
dos fundadores do bar, que dividiu com Doca as agruras dos tempos de ditadura,
quando a polícia de vez em quando "baixava" no CDM e "grampeava"
alguns fregueses de verbo mais eloqüente.
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Um folheto impresso com a famosa crônica de Batistinha |
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Segundo Roberto Valadão, os temas de conversas e debates
às vezes bem acalorados eram os fatos da época. "Cada passo da ditadura, entre 64 e
85 quando houve a eleição do primeiro civil, Tancredo Neves era discutido
aqui, cada reação também, como a guerrilha do Araguaia, na qual desapareceram meu
irmão Arildo e minha cunhada, Áurea, os dois estudantes, ele fazendo Física na
Universidade do Rio de Janeiro".
Prossegue Valadão: "Discutíamos Cuba, discutíamos a
Albânia. Quando acabou a ditadura, discutíamos o Sarney, depois o Collor, a política
econômica até hoje é tema constante. É preciso prestigiar a festa dos Amigos da Praça
Vermelha, porque é um lugar único, só Cachoeiro tem. Com o tempo, a festa ganhou
volume, e tinha gente que nem era de esquerda, mas vinha participar. O CDM não era bar de
pinguços mas tinha muitos. Como o Piriré, famoso porque esbarrou, já de
porre, na cadeira do Romildo Cagnin, então ministro da Administração (era Sarney), e
que veio para a festa. Na manhã seguinte, o "Jornal de Cachoeiro" dava a
manchete Bêbado derruba ministro, e foi uma gozação só".
O cravo de Batistinha
"O CDM é algo que conheço como a palma da minha
mão, da porta da frente à privada dos fundos", diz com afeto Elimário Pessanha, na
crônica do encontro de 1990, que termina assim: "Já dá pra sentir no ar o gosto da
festa. A festa da Praça Vermelha. Tudo é tão bonito que parece uma só família
reunida. Uma família abençoada por Deus". Uma família da qual fazem parte ainda
Paulo Cesar Campos, Franklin Delano Freire de Menezes, Elyan Peçanha, Ito Coelho, Rossini
Gonçalvez, Luiz Rogério Fabrini, Juracy Magalhães Gomes (Jurinha) Almir Forte,
João de Moraes Machado, Ronaldo Cypriano, que assinaram crônicas em cada um dos
Encontros de Amigos da Praça Vermelha, no seu Livro de Ouro.
| Tom Boechat |
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Juarez Santos e José Rodrigues
na porta do bar CDM |
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Uma família que vem crescendo e, hoje, já é representada
por gente jovem que repete a mesma busca de sempre por um lugar democrático e sobretudo
divertido. No Livro de Ouro do 11º Encontro, em 1996, uma prova disso: quem assina a
crônica são três mulheres, Célia Ferreira, Elza Helena da Silva Sueth e Maria da Penha
Garcia. Tudo a ver com o crescimento pessoal e político da mulher nos últimos anos. Elas
admitem: "A nova geração CDM tem a sensação de ter nascido na época errada.
Perdemos muita coisa, mas o que nos consola é a possibilidade de virmos a ser, um dia, a
Velha Guarda". E descrevem: "O CDM é o bar que toda cidade precisa ter, porque
expõe as peculiaridades individuais que formam a essência do seu povo. Onde mais, em
Cachoeiro, um bêbado chato como o Piriré é amado e enxotado com tanto respeito?
Imagine a festa da Praça Vermelha fora da Praça Vermelha..." Mas terminam
nostálgicas: "... e quase brilha no ar o vermelho do cravo na lapela de Batistinha".
| CONVERSA DE BOTEQUIM Pedacinhos das crônicas escritas anualmente por um convidado para a
Festa dos Amigos da Praça Vermelha são um retrato gostoso do que é a Praça.
"A gente no bar fica defronte à linha férrea,
mal conservada, combinando com o recinto de que falo. Saindo da porta do bar CDM
o que chama a atenção, não raro, é o ronco barulhento das locomotivas,
imponentes, perturbando o silêncio e o trânsito" Luiz Carlos
Possamai (Carlinhos), em 88
"A Praça Vermelha realmente é uma praça
diferente... enquanto nas demais praças o tema central das conversas é sempre
constituído de amenidades, aqui, não. O povo daqui discute política com muito
embasamento, problemas sociais, conhecimentos de economia popular e não se dobra diante
de um argumento qualquer". E "... temos também nossos ases, uma espécie de
Conselho Superior... que viram o edificar desta Praça: Aúa, Zé Meio Kilo, Cafunga,
Mané Vovô (o Mané Besta), Doca, Rubem Antor e outros" Paulo
César Campos, em 89.
"É no CDM, nas noites frias, que reunia-me com o
saudoso Paulo Garruth para fazer o balanço diário de nossas reportagens para A
Gazeta" Elyan Peçanha, 91.
"O CDM, um navio que todos os anos solta as
amarras da Praça Vermelha em direção à ilha da Utopia. Do lado esquerdo da proa,
mestre Batistinha consulta suas cartas náuticas e traça roteiros para a nave rubra:
liberdade, justiça e democracia" Franklin Delano Freire de
Menezes, 91.
"Todo mundo quando fala de sua cidade cita uma
praça, a mesma praça, o mesmo banco etc. Nós aqui de Cachoeiro, principalmente este
grupo que sabe fazer a festa, não falamos de uma mas dA PRAÇA. A Praça Vermelha,
sem similar em qualquer outra cidade. Dizem até que sem bairrismo (!!!!)
ela é mais importante que sua homônima em Moscou" Ito Coelho, 93.
HIC, HIC, HIC!!! a repórter, 2001 |
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