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Junho/2001 nº16


Esporte por esporte
Álvaro José Silva conta histórias dos 79 anos de vida de Nilo Etienne Duarte, dos quais 60 foram dedicados ao esporte e principalmente à sua maior paixão, o futsal
A praça é nossa
Um pequeno beco e um barzinho em Cachoeiro acabaram ficando conhecidos como Praça Vermelha, reduto histórico de liberdade para debates políticos
Agricultura capixaba
Negros de Ibiraçu
Há um século, um grupo de negros enfrentou os desafios da mata densa e subiu a montanha para fundar, em Ibiraçu, uma comunidade onde, isolados e vivendo da terra, encontram no congo sua mais importante expressão cultural
As cidades e sua gente
Há vários motivos para justificar o nome de Alegre. A beleza da região,
a vida universitária, o maior festival de música do Estado, e agora o título de campeã no futebol são alguns deles
Capixabas de sucesso
Rommel Rubin Dias investe toda a sua jovialidade na produção do maior carnaval fora de época do país, o Vital, que traz para a cidade 500 mil turistas todos os anos





  A PRAÇA É NOSSA

Orgulho dos cachoeirenses, um cantinho da cidade, que não é praça mas faz de conta que é, mantém a tradição do debate livre, do humor, da irreverência e da luta contra as desigualdades sociais

A liberdade é vermelha

Texto: Marilza Bigio

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Nosso Kremlim em Cachoeiro era – e é - apenas um beco, no final da ponte velha da estrada de ferro, onde por um bom motivo – um bar chamado CDM – reuniam-se (e até hoje se reúnem, embora a época de ouro tenha passado) aqueles que nunca se calaram, comunistas ou não, secundaristas e universitários de todas as épocas, operários de todo tipo, mas principalmente, no início, os ferroviários. O maior dos líderes dos ferroviários de Cachoeiro – categoria mobilizada e respeitada – foi Demisthóclides Baptista, o Batistinha, herói da palavra nos anos de chumbo. Desde os anos 50/60, ele pontificava nas reuniões no CDM – que apresentou ao mundo com um artigo que é uma obra-prima, Um bar chamado CDM, no Primeiro Encontro dos Amigos da Praça Vermelha, em 1986. Dos intrépidos comunistas, em 40/50, passando pelos grisalhos líderes emocionais da política sindicalista nas décadas de 60 e 70, aos jovens caras-pintadas em 90, a Praça Vermelha – que na verdade, como se viu, nem praça é - sempre foi reconhecida como território de livre expressão.

E ainda hoje seus freqüentadores cumprem a agradável rotina da cerveja em meio ao bate-papo. Uma conversa sempre oposicionista, jamais conformista, de vez em quando reunindo ainda gente conhecida da luta pela democracia e pelo socialismo. Ziraldo e Jorge Amado já foram mais presentes, entre os de fora, categoria à qual pertence também João Amazonas, o presidente do PC do B, que já prestigiou o bar com sua presença. Já Fuinha, Fanfonga (não conseguimos descobrir seus nomes), Cafunga (José Cláudio Magalhães), Juracy Magalhães e Juarez Tavares da Matta (ambos políticos), Hélio Carlos Manhães (político, que já foi prefeito de Cachoeiro), Roberto Valadão, estão entre os cachoeirenses mais participantes. Nas conversas, o sempre lembrado herói Batistinha, que, homenageado pela Câmara, em 1993, dá nome à ponte antiga. Saindo da ponte para a pracinha embaixo – esta uma praça mesmo –, Francisco Abraão, tem uma travessa. Essa travessa é que é o verdadeiro local chamado Praça Vermelha. A travessa ganhou, em 1993, também, o nome de outro personagem da história da esquerda cachoeirense, Ramon Ramos. É o reconhecimento dos representantes do povo cachoeirense de que a luta das palavras é e será sempre a luta mais nobre e mais fecunda, apesar de muitas vezes trazer mais perigo do que a luta aberta e armada.

Nome impublicável

Foi Ramon, ou Aúa, que deu o nome de CDM ao bar do Doca, nome que deve ter aguçado a curiosidade do leitor. É, CDM quer dizer isso mesmo que você pensou, e que é impublicável. Claro, foi o nome dado por gente jovem, operários e universitários, que têm por característica mais cultivada a irreverência. Pois ficou assim, CDM, até hoje. Mesmo não sendo mais um bar, pois o prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico, o que não permite seu uso comercial, continua sendo o mesmo bom e velho espaço de chão de azulejos antigos e pequeno balcão. Nem cerveja se vende mais ali, mas os freqüentadores, para não perder seu ponto de encontro, compram a cerveja num bar próximo e se sentam nas mesinhas que o dono, Doca, mantém ainda, "só para os amigos". Lá é que SÉCULO encontrou Juarez Rodrigues e José Santos, ferroviários aposentados, assíduos freqüentadores desde 1950.

Arquivo CDM
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Uma das reuniões da Praça

"Até hoje encontro aqui pessoas ‘da antiga’, de vez em quando", diz Juarez. "Aqui era reduto dos ferroviários", completa.

"Cachoeiro é a terra do ‘já teve’, entendeu?", intervém José. "Já teve teatro, já teve cinemas, já teve isso, já teve aquilo... os cachoeirenses vão embora cada vez mais. Antigamente, quem trabalhava pelo menos tinha a certeza do seu emprego; agora, mesmo que você esteja empregado vive com medo", vai falando numa torrente só o José. "Se esse povo sofredor votar de novo nessa gente vai ser uma barbaridade, estamos sem saída, o comércio não tem dinheiro, a indústria não tem dinheiro, o trabalhador não tem emprego..." Tá bem, seu José. Já percebemos direitinho o que é o tal espírito da Praça Vermelha, que parece tomar conta de todo mundo por aqui.

Juarez e José começam a lembrar: "Tudo começou na época do João Goulart, e até antes disso, nos anos 60 tivemos aqui os irmãos Braga, Newton e Rubem, vinha aqui o Jorge Amado, o pessoal da ativa (dos partidos de esquerda) vinha sempre aqui".

"Nessa época era desde pequeno que a gente conhecia o valor do trabalho e se unia contra o patrão. Hoje menino não pode trabalhar, é proibido por lei, mas não dão escola decente pro garoto também, então era melhor ele trabalhar do que ficar na rua, as meninas querendo ser modelos e os garotos querendo ser cantor"... dispara outra vez José. Ele está "vendo o negócio mais feio a cada dia"... "Vitória é um barril de pólvora, as pessoas que não têm emprego são a origem da violência urbana, e não tem emprego só porque o patrão também não agüenta mais impostos..."

Boca no trombone

Tom Boechat

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Seu Doca, proprietário do CDM

Doca chega perto. Ele é o dono do bar há cerca de 40 anos. "Fechei porque eles – a prefeitura – disseram que iam demolir. Agora, dizem que vão restaurar. Esse lugar tinha mesmo que ser restaurado, mas deixar o bar continuar aqui, porque já faz parte da história da cidade", pondera. "Este é o lugar certo para botar a boca no trombone", diz Juarez, aplaudido por José e Doca. Impedido de vender bebidas – na verdade qualquer coisa – Doca abre as portas apenas para que o pessoal possa se encontrar, sentar nas mesinhas à beira da rua e beber as cervejas que compram no Skimone, em frente.

As festas da Praça Vermelha – e do CDM – ficaram famosas. Vinham sempre um ou dois dias antes ou depois da data de aniversário da cidade – deu pra entender? É que a festa do CDM é sempre no sábado mais próximo, antes ou depois, do feriado de aniversário da cidade, que é dia 29 de junho. Este ano deve ser no dia 30, mas ainda não está certo. Que ninguém se preocupe, pois perto do dia, todo mundo fica sabendo, todas as rádios noticiam, é sempre um dos maiores agitos da cidade.

Tom Boechat
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Ponte próxima à Praça Vermelha batizada em homenagem a Batistinha

A partir de 86, abriu-se um Livro de Ouro no qual se encontram assinaturas importantes. O livro abre com o tal artigo de Batistinha, um primor, que começa por listar vários dos bares mais conhecidos do país – o Amarelinho, na Cinelândia, Rio de Janeiro, abrindo o rol. Isso para falar do CDM, onde até quem não é de beber – e Batistinha se inclui nessa categoria (pura gozação) -, bebe. E Batistinha esclarecia em seu artigo: "E CDM não quer dizer Carinho das Meninas, nem Compadres do Manezinho, como às vezes a gente inventa... criança de Cachoeiro, anjo de candura, acostumou gritar bem alto, na mais pura inocência, e com todo o respeito: mamãe, papai tá bebendo lá no c... da mãe!".

O bêbado e o ministro

No Livro de Ouro estão citados, ou assinam crônicas deliciosas - que é idéia transformar em livro -, os seguintes nomes da política local, estadual e nacional: Batistinha, claro, José Claúdio Magalhães, Sebastião Magalhães Gomes, Cid Magalhães Pontes, Manoel Gomes Santana, Carlito Gomes Santana, Álvaro Ramos e seu filho Ramon Ramos e José Henrique de Almeida (Henrique), como iniciadores da fase atual da grande festa da Praça Vermelha, em 86. E mais, ao longo destes 25 anos: Dullino, Hélio Carlos Manhães, Braulino, Homero Menicucci, José Soares, Luiz Carlos Possamai (Carlinhos), José Domingos Viana (Zequinha), Arnaldo Silva (Miminho), Sebastião Carlos Guimarães (Mixirica), Ailton de Almeida Pinto (Bulan), Carlos Roberto Gomes, Loé, Rubens, Léo, Tatu, Lessa (Francisco Ugarth de Almeida Lessa), Fischer, Roberto Valadão e seu irmão Arildo Valadão, mártir da guerrilha do Araguaia. Tem também citações a Aúa – um dos fundadores do bar, que dividiu com Doca as agruras dos tempos de ditadura, quando a polícia de vez em quando "baixava" no CDM e "grampeava" alguns fregueses de verbo mais eloqüente.

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Um folheto impresso com a famosa crônica de Batistinha

Segundo Roberto Valadão, os temas de conversas e debates às vezes bem acalorados eram os fatos da época. "Cada passo da ditadura, entre 64 e 85 – quando houve a eleição do primeiro civil, Tancredo Neves – era discutido aqui, cada reação também, como a guerrilha do Araguaia, na qual desapareceram meu irmão Arildo e minha cunhada, Áurea, os dois estudantes, ele fazendo Física na Universidade do Rio de Janeiro".

Prossegue Valadão: "Discutíamos Cuba, discutíamos a Albânia. Quando acabou a ditadura, discutíamos o Sarney, depois o Collor, a política econômica até hoje é tema constante. É preciso prestigiar a festa dos Amigos da Praça Vermelha, porque é um lugar único, só Cachoeiro tem. Com o tempo, a festa ganhou volume, e tinha gente que nem era de esquerda, mas vinha participar. O CDM não era bar de pinguços – mas tinha muitos. Como o Piriré, famoso porque esbarrou, já de porre, na cadeira do Romildo Cagnin, então ministro da Administração (era Sarney), e que veio para a festa. Na manhã seguinte, o "Jornal de Cachoeiro" dava a manchete Bêbado derruba ministro, e foi uma gozação só".

O cravo de Batistinha

"O CDM é algo que conheço como a palma da minha mão, da porta da frente à privada dos fundos", diz com afeto Elimário Pessanha, na crônica do encontro de 1990, que termina assim: "Já dá pra sentir no ar o gosto da festa. A festa da Praça Vermelha. Tudo é tão bonito que parece uma só família reunida. Uma família abençoada por Deus". Uma família da qual fazem parte ainda Paulo Cesar Campos, Franklin Delano Freire de Menezes, Elyan Peçanha, Ito Coelho, Rossini Gonçalvez, Luiz Rogério Fabrini, Juracy Magalhães Gomes (Jurinha) Almir Forte, João de Moraes Machado, Ronaldo Cypriano, que assinaram crônicas em cada um dos Encontros de Amigos da Praça Vermelha, no seu Livro de Ouro.

Tom Boechat
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Juarez Santos e José Rodrigues
na porta do bar CDM

Uma família que vem crescendo e, hoje, já é representada por gente jovem que repete a mesma busca de sempre por um lugar democrático e sobretudo divertido. No Livro de Ouro do 11º Encontro, em 1996, uma prova disso: quem assina a crônica são três mulheres, Célia Ferreira, Elza Helena da Silva Sueth e Maria da Penha Garcia. Tudo a ver com o crescimento pessoal e político da mulher nos últimos anos. Elas admitem: "A nova geração CDM tem a sensação de ter nascido na época errada. Perdemos muita coisa, mas o que nos consola é a possibilidade de virmos a ser, um dia, a Velha Guarda". E descrevem: "O CDM é o bar que toda cidade precisa ter, porque expõe as peculiaridades individuais que formam a essência do seu povo. Onde mais, em Cachoeiro, um bêbado chato como o Piriré é amado e enxotado com tanto respeito? Imagine a festa da Praça Vermelha fora da Praça Vermelha..." Mas terminam nostálgicas: "... e quase brilha no ar o vermelho do cravo na lapela de Batistinha".

CONVERSA DE BOTEQUIM

Pedacinhos das crônicas escritas anualmente por um convidado para a Festa dos Amigos da Praça Vermelha são um retrato gostoso do que é a Praça.

"A gente no bar fica defronte à linha férrea, mal conservada, combinando com o recinto de que falo. Saindo da porta do bar – CDM – o que chama a atenção, não raro, é o ronco barulhento das locomotivas, imponentes, perturbando o silêncio e o trânsito"Luiz Carlos Possamai (Carlinhos), em 88

"A Praça Vermelha realmente é uma praça diferente... enquanto nas demais praças o tema central das conversas é sempre constituído de amenidades, aqui, não. O povo daqui discute política com muito embasamento, problemas sociais, conhecimentos de economia popular e não se dobra diante de um argumento qualquer". E "... temos também nossos ases, uma espécie de Conselho Superior... que viram o edificar desta Praça: Aúa, Zé Meio Kilo, Cafunga, Mané Vovô (o Mané Besta), Doca, Rubem Antor e outros"Paulo César Campos, em 89.

"É no CDM, nas noites frias, que reunia-me com o saudoso Paulo Garruth para fazer o balanço diário de nossas reportagens para ‘A Gazeta"Elyan Peçanha, 91.

"O CDM, um navio que todos os anos solta as amarras da Praça Vermelha em direção à ilha da Utopia. Do lado esquerdo da proa, mestre Batistinha consulta suas cartas náuticas e traça roteiros para a nave rubra: liberdade, justiça e democracia"Franklin Delano Freire de Menezes, 91.

"Todo mundo quando fala de sua cidade cita uma praça, a mesma praça, o mesmo banco etc. Nós aqui de Cachoeiro, principalmente este grupo que sabe fazer a festa, não falamos de uma mas d’A PRAÇA. A Praça Vermelha, sem similar em qualquer outra cidade. Dizem até que – sem bairrismo (!!!!) – ela é mais importante que sua homônima em Moscou" – Ito Coelho, 93.

HIC, HIC, HIC!!!a repórter, 2001

 

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