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Nilo Etienne
Duarte, 79 anos de idade, 60 anos de vida esportiva
O guardião da história
Texto: Álvaro
José Silva
Fotos: Tom Boechat
"Eu pretendo fazer uma exposição das minhas
coisas, no ginásio do Álvares Cabral. Mas pode ser que não dê certo..."
O homem que fala com este aparente desânimo não tem
razão para pensar assim. Em seu apartamento, na Praia do Canto, distribuídos por
diversos cômodos e guardados com aparente (só aparente) desordem, estão cerca de 60
anos da história do esporte capixaba, diligentemente guardados.
O homem está prestes a completar 79 anos, mas não parece.
É meigo, fala palavrões homeopaticamente, tem um jeito de matuto, ar bonachão e tentou
se esquivar da entrevista com modéstia: "Depois de tanta gente famosa, você vai
ouvir a mim?"
Vamos. Estamos todos de agora em diante ouvindo Nilo
Etienne Duarte, uma das figuras mais conhecidas do esporte capixaba, sobretudo e
principalmente do futebol de salão, hoje futsal, uma das suas maiores paixões.
Um museu
O apartamento em que Nilo mora hoje, sozinho com a
companheira de mais de 50 anos ("filho casado tem que morar na casa dele..."),
Nilce Baptista Duarte, é quase um museu. Lá se amontoam recordações do esporte na
sala, nos quartos que já foram dos quatro filhos, no quarto do casal, por cima de sofás,
poltronas, mesas. Está tudo catalogado, guardado com carinho.
Só recortes de jornais, são inúmeros. Todos colados a
folhas de cartolina branca, reunidos em uma pilha imensa. E ainda faltam alguns que os
amigos pegaram para pesquisas e prometeram devolver. Há incontáveis páginas de "A
Gazeta", "A Tribuna" e outras publicações, como "O Diário".
Junto com eles, estão catalogadores onde ficam guardados
diplomas, cartões, carteirinhas, fotos (as de família, misturadas com as de esportes) e
outras coisas mais. Mas o museu não pára por aí.
Nos quartos, pode-se encontrar medalhas, placas, outras
formas de homenagens e até mesmo apitos, flâmulas e cartazes. Grande parte deles, todos
numerados, estão colados a folhas de isopor cobertas por plásticos coloridos. As
medalhas são de todas as formas, tamanhos, pesos e medidas.
Acabou? Não, ainda não. No quarto do casal, guardados no
armário embutido, há diversas coleções de publicações, a maioria antigas.
Preciosidades como "Manchete Esportiva", "Esporte Ilustrado",
"Almanaque do Esporte", "Futebol de Salão", "Esporte
Capixaba", "Revista do Esporte", "Álbum Rubro Negro" (todos já
extintos) e "Placar". O álbum remete Nilo a uma paixão: o Flamengo. Ardor que
ele divide com todos os filhos e que o fez ir parar no Clube Náutico Brasil, da Volta de
Caratoíra, em 1942. "Coincidentemente", um clube rubro-negro.
Como isso se deu, é uma história antiga. Nilo nasceu em
São João de Petrópolis, também conhecido como Barracão de Petrópolis, vilarejo
próximo a Santa Teresa, em meio ao Vale do Canaã, em 28 de julho de 1922. Filho de
Hilário Duarte, misto de alfaiate, barbeiro e mestre de música, e Maria Pagott Duarte.
"Naquela época, o homem tinha que fazer muitas coisas. Os tempos eram
difíceis", explica ele. Saiu de lá aos 12 anos, quando veio para Vitória com a
mãe e os irmãos. A irmã já estava por aqui e o pai, que abandonou a família, foi
embora para outros cantos. Uma história que ele conta com ar meio triste.
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O Vitoriense, do Morro do Moscoso,
foi um time amador dirigido
por Nilo Duarte |
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Moraram todos inicialmente próximo à Catedral, na época
passando por grandes dificuldades. Depois, passaram para o Morro do Moscoso. Em seguida,
Nilo foi trabalhar como atendente e faxineiro no consultório do médico Mário Casanova.
Mas, aos 14 anos, já estava no comércio, trabalhando na casa Flor de Maio, que não é a
existente ainda hoje na Praça Oito de Setembro, mas uma já extinta. Formou-se como
guarda-livros na Escola Técnica Comandante Domingos Martins, que ficava ao lado do
Palácio Anchieta, para onde foi depois a Escola Normal D. Pedro II. Nem se lembra mais o
ano dessa formatura: "Rapaz, não sei mais. Faz muito tempo".
Mas foi antes de 1949, quando se casou com dona Nilce.
"Ela é de Ibiraçu, que na época se chamava Pau Gigante", conta ele. Era para
terem só dois filhos, mas vieram quatro. Por que não havia televisão na época? Nilo ri
e responde, brincando: "Televisão? Não havia nada disso não, rapaz".
O velho guarda-livros, nome dado na época ao contador, tem
nos filhos seu orgulho. Estudou pouco, mas José Fernando é médico; Paulo, engenheiro
civil; Glória, dentista; e Gláucia, médica e hoje trabalhando como esteticista em uma
clínica na Praia do Canto. Ainda bem, porque Nilo nunca foi rico. Ele trabalha com Paulo.
Dona Nilce, com Gláucia.
No esporte
O moço de Barracão de Petrópolis chegou ao Náutico
Brasil em 1942. Primeiro, como remador, mas só por dois anos. Jogou futebol de várzea,
mas da mesma forma por pouco tempo. Machucou-se, abandonou a carreira de atleta e abraçou
a de dirigente. Foi quase tudo no Náutico, dirigindo todos os esportes e tomando parte
intensa na vida do clube.
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Nilo preside reunião de futsal na antiga Federação
Desportiva Espírito-Santense |
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Logo o Náutico parou com o remo, na época da
administração do médico Lucilo Sant'Anna, pois o esporte dava prejuízo. O clube quase
fechou. Por um bom tempo, vela nos gargalos de garrafas - a luz estava cortada -, Nilo
fazia reuniões junto com Sílvio Marques, Lourival Chagas, Augusto Barros e Antônio
Amaral, para não deixar a peteca cair. As coisas melhoraram quando o presidente Jair
Etienne Dessaune lançou uma campanha de sócios remidos, em 1956, e o dinheiro surgiu.
Veio, então, a sede que hoje ainda é do clube.
No auge do trabalho para sua construção, aportou em
Vitória num belo sábado o presidente da CBD, João Havelange. Levado para ver a obra
pelo presidente da FDE, Luiz Gabeira, abriu os braços de satisfação ao ver tanta gente
carregando cimento e tijolos num final de semana. "Homens como o senhor deveria haver
em todos os lugares", disse ao presidente do Náutico. "Quanto é que o senhor
vai mandar para a gente?", devolveu Jair Etienne Dessaune. O dinheiro veio. E ajudou
o Náutico.
Nilo nunca foi presidente de seu clube. No máximo, segundo
secretário. E sempre teve vínculo com o futsal. Como também com o futebol de várzea.
Chegou a ser "ditador" do Vitoriense, do Morro do Moscoso, um time amador que
morreu quando os campos de subúrbio acabaram em Vitória. E já faz tempo.
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De boina e óculos escuros acompanha
a premiação de uma competição
de atletismo |
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Durante muitos anos esteve também na FDE, depois FES.
Sempre cuidando dos esportes amadores: "Fui levado para lá pelo Eugenílio Ramos
(antigo dirigente), que era rio-branquense e eu também. Fiquei lá, saindo algumas vezes,
até que a Federação de Futsal foi criada. O primeiro presidente fui eu. Depois, entrou
alguém lá. Nem lembro quem era". Fala e desconversa.
Hoje, está afastado dos clubes e federações. Mas, sem
querer sair de cena tão cedo, cataloga sua história, que é metade da história dos
esportes modernos no Espírito Santo, para fazer uma exposição. Este, seu sonho atual.
Enquanto isso, habita com a mulher o apartamento-museu. Na
sala deste, alguns quadros pintados se destacam nas paredes. São da única irmã, pintora
amadora e morta há cerca de quatro anos (também teve dois irmãos; um já morreu, o
outro foi embora, só deu notícias uma vez e Nilo não sabe nada dele). Um desses quadros
se destaca de todos os outros: mostra uma bela paisagem em óleo sobre tela do Vale do
Canaã, estradinha de terra cortando-o na descida íngreme e a mata exuberante tomando
tudo, ainda quase intocada.
Como era verde o vale de Nilo... |