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Junho/2001 nº16


Esporte por esporte
Álvaro José Silva conta histórias dos 79 anos de vida de Nilo Etienne Duarte, dos quais 60 foram dedicados ao esporte e principalmente à sua maior paixão, o futsal
A praça é nossa
Um pequeno beco e um barzinho em Cachoeiro acabaram ficando conhecidos como Praça Vermelha, reduto histórico de liberdade para debates políticos
Agricultura capixaba
Negros de Ibiraçu
Há um século, um grupo de negros enfrentou os desafios da mata densa e subiu a montanha para fundar, em Ibiraçu, uma comunidade onde, isolados e vivendo da terra, encontram no congo sua mais importante expressão cultural
As cidades e sua gente
Há vários motivos para justificar o nome de Alegre. A beleza da região,
a vida universitária, o maior festival de música do Estado, e agora o título de campeã no futebol são alguns deles
Capixabas de sucesso
Rommel Rubin Dias investe toda a sua jovialidade na produção do maior carnaval fora de época do país, o Vital, que traz para a cidade 500 mil turistas todos os anos





  ESPORTE POR ESPORTE

Nilo Etienne Duarte, 79 anos de idade, 60 anos de vida esportiva

 O guardião da história

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Texto: Álvaro José Silva
Fotos: Tom Boechat

"Eu pretendo fazer uma exposição das minhas coisas, no ginásio do Álvares Cabral. Mas pode ser que não dê certo..."

O homem que fala com este aparente desânimo não tem razão para pensar assim. Em seu apartamento, na Praia do Canto, distribuídos por diversos cômodos e guardados com aparente (só aparente) desordem, estão cerca de 60 anos da história do esporte capixaba, diligentemente guardados.

O homem está prestes a completar 79 anos, mas não parece. É meigo, fala palavrões homeopaticamente, tem um jeito de matuto, ar bonachão e tentou se esquivar da entrevista com modéstia: "Depois de tanta gente famosa, você vai ouvir a mim?"

Vamos. Estamos todos de agora em diante ouvindo Nilo Etienne Duarte, uma das figuras mais conhecidas do esporte capixaba, sobretudo e principalmente do futebol de salão, hoje futsal, uma das suas maiores paixões.

Um museu

O apartamento em que Nilo mora hoje, sozinho com a companheira de mais de 50 anos ("filho casado tem que morar na casa dele..."), Nilce Baptista Duarte, é quase um museu. Lá se amontoam recordações do esporte na sala, nos quartos que já foram dos quatro filhos, no quarto do casal, por cima de sofás, poltronas, mesas. Está tudo catalogado, guardado com carinho.

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Só recortes de jornais, são inúmeros. Todos colados a folhas de cartolina branca, reunidos em uma pilha imensa. E ainda faltam alguns que os amigos pegaram para pesquisas e prometeram devolver. Há incontáveis páginas de "A Gazeta", "A Tribuna" e outras publicações, como "O Diário".

Junto com eles, estão catalogadores onde ficam guardados diplomas, cartões, carteirinhas, fotos (as de família, misturadas com as de esportes) e outras coisas mais. Mas o museu não pára por aí.

Nos quartos, pode-se encontrar medalhas, placas, outras formas de homenagens e até mesmo apitos, flâmulas e cartazes. Grande parte deles, todos numerados, estão colados a folhas de isopor cobertas por plásticos coloridos. As medalhas são de todas as formas, tamanhos, pesos e medidas.

Acabou? Não, ainda não. No quarto do casal, guardados no armário embutido, há diversas coleções de publicações, a maioria antigas. Preciosidades como "Manchete Esportiva", "Esporte Ilustrado", "Almanaque do Esporte", "Futebol de Salão", "Esporte Capixaba", "Revista do Esporte", "Álbum Rubro Negro" (todos já extintos) e "Placar". O álbum remete Nilo a uma paixão: o Flamengo. Ardor que ele divide com todos os filhos e que o fez ir parar no Clube Náutico Brasil, da Volta de Caratoíra, em 1942. "Coincidentemente", um clube rubro-negro.

Como isso se deu, é uma história antiga. Nilo nasceu em São João de Petrópolis, também conhecido como Barracão de Petrópolis, vilarejo próximo a Santa Teresa, em meio ao Vale do Canaã, em 28 de julho de 1922. Filho de Hilário Duarte, misto de alfaiate, barbeiro e mestre de música, e Maria Pagott Duarte. "Naquela época, o homem tinha que fazer muitas coisas. Os tempos eram difíceis", explica ele. Saiu de lá aos 12 anos, quando veio para Vitória com a mãe e os irmãos. A irmã já estava por aqui e o pai, que abandonou a família, foi embora para outros cantos. Uma história que ele conta com ar meio triste.

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O Vitoriense, do Morro do Moscoso,
foi um time amador dirigido
por Nilo Duarte

Moraram todos inicialmente próximo à Catedral, na época passando por grandes dificuldades. Depois, passaram para o Morro do Moscoso. Em seguida, Nilo foi trabalhar como atendente e faxineiro no consultório do médico Mário Casanova. Mas, aos 14 anos, já estava no comércio, trabalhando na casa Flor de Maio, que não é a existente ainda hoje na Praça Oito de Setembro, mas uma já extinta. Formou-se como guarda-livros na Escola Técnica Comandante Domingos Martins, que ficava ao lado do Palácio Anchieta, para onde foi depois a Escola Normal D. Pedro II. Nem se lembra mais o ano dessa formatura: "Rapaz, não sei mais. Faz muito tempo".

Mas foi antes de 1949, quando se casou com dona Nilce. "Ela é de Ibiraçu, que na época se chamava Pau Gigante", conta ele. Era para terem só dois filhos, mas vieram quatro. Por que não havia televisão na época? Nilo ri e responde, brincando: "Televisão? Não havia nada disso não, rapaz".

O velho guarda-livros, nome dado na época ao contador, tem nos filhos seu orgulho. Estudou pouco, mas José Fernando é médico; Paulo, engenheiro civil; Glória, dentista; e Gláucia, médica e hoje trabalhando como esteticista em uma clínica na Praia do Canto. Ainda bem, porque Nilo nunca foi rico. Ele trabalha com Paulo. Dona Nilce, com Gláucia.

No esporte

O moço de Barracão de Petrópolis chegou ao Náutico Brasil em 1942. Primeiro, como remador, mas só por dois anos. Jogou futebol de várzea, mas da mesma forma por pouco tempo. Machucou-se, abandonou a carreira de atleta e abraçou a de dirigente. Foi quase tudo no Náutico, dirigindo todos os esportes e tomando parte intensa na vida do clube.

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Nilo preside reunião de futsal na antiga Federação Desportiva Espírito-Santense

Logo o Náutico parou com o remo, na época da administração do médico Lucilo Sant'Anna, pois o esporte dava prejuízo. O clube quase fechou. Por um bom tempo, vela nos gargalos de garrafas - a luz estava cortada -, Nilo fazia reuniões junto com Sílvio Marques, Lourival Chagas, Augusto Barros e Antônio Amaral, para não deixar a peteca cair. As coisas melhoraram quando o presidente Jair Etienne Dessaune lançou uma campanha de sócios remidos, em 1956, e o dinheiro surgiu. Veio, então, a sede que hoje ainda é do clube.

No auge do trabalho para sua construção, aportou em Vitória num belo sábado o presidente da CBD, João Havelange. Levado para ver a obra pelo presidente da FDE, Luiz Gabeira, abriu os braços de satisfação ao ver tanta gente carregando cimento e tijolos num final de semana. "Homens como o senhor deveria haver em todos os lugares", disse ao presidente do Náutico. "Quanto é que o senhor vai mandar para a gente?", devolveu Jair Etienne Dessaune. O dinheiro veio. E ajudou o Náutico.

Nilo nunca foi presidente de seu clube. No máximo, segundo secretário. E sempre teve vínculo com o futsal. Como também com o futebol de várzea. Chegou a ser "ditador" do Vitoriense, do Morro do Moscoso, um time amador que morreu quando os campos de subúrbio acabaram em Vitória. E já faz tempo.

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De boina e óculos escuros acompanha
a premiação de uma competição
de atletismo

Durante muitos anos esteve também na FDE, depois FES. Sempre cuidando dos esportes amadores: "Fui levado para lá pelo Eugenílio Ramos (antigo dirigente), que era rio-branquense e eu também. Fiquei lá, saindo algumas vezes, até que a Federação de Futsal foi criada. O primeiro presidente fui eu. Depois, entrou alguém lá. Nem lembro quem era". Fala e desconversa.

Hoje, está afastado dos clubes e federações. Mas, sem querer sair de cena tão cedo, cataloga sua história, que é metade da história dos esportes modernos no Espírito Santo, para fazer uma exposição. Este, seu sonho atual.

Enquanto isso, habita com a mulher o apartamento-museu. Na sala deste, alguns quadros pintados se destacam nas paredes. São da única irmã, pintora amadora e morta há cerca de quatro anos (também teve dois irmãos; um já morreu, o outro foi embora, só deu notícias uma vez e Nilo não sabe nada dele). Um desses quadros se destaca de todos os outros: mostra uma bela paisagem em óleo sobre tela do Vale do Canaã, estradinha de terra cortando-o na descida íngreme e a mata exuberante tomando tudo, ainda quase intocada.

Como era verde o vale de Nilo...

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