logo_revista.GIF (4482 bytes)

Principal | Século Diário | Arquivo | Expediente | Cartas  

capa.jpg (3928 bytes)

Junho/2001 nº16


Esporte por esporte
Álvaro José Silva conta histórias dos 79 anos de vida de Nilo Etienne Duarte, dos quais 60 foram dedicados ao esporte e principalmente à sua maior paixão, o futsal
A praça é nossa
Um pequeno beco e um barzinho em Cachoeiro acabaram ficando conhecidos como Praça Vermelha, reduto histórico de liberdade para debates políticos
Agricultura capixaba
Negros de Ibiraçu
Há um século, um grupo de negros enfrentou os desafios da mata densa e subiu a montanha para fundar, em Ibiraçu, uma comunidade onde, isolados e vivendo da terra, encontram no congo sua mais importante expressão cultural
As cidades e sua gente
Há vários motivos para justificar o nome de Alegre. A beleza da região,
a vida universitária, o maior festival de música do Estado, e agora o título de campeã no futebol são alguns deles
Capixabas de sucesso
Rommel Rubin Dias investe toda a sua jovialidade na produção do maior carnaval fora de época do país, o Vital, que traz para a cidade 500 mil turistas todos os anos





  AGRICULTURA CAPIXABA

Biotecnologia, agricultura do vovô e conhecimento popular

O coordenador de projetos de pesquisa em agricultura orgânica do Incaper e uma das maiores autoridades nacionais no assunto, Jacimar Luiz de Souza, calcula que devam existir hoje cerca de 120 produtores orgânicos no Espírito Santo. O crescimento anual nos últimos 10 anos tem sido de 10% a 20%, acompanhando o ritmo brasileiro.

A demanda, porém, principalmente no exterior, é muito maior. Lá os agricultores também não conseguem satisfazer o mercado, apesar de em alguns países, como a Itália, 5% de toda a área agrícola já serem ocupadas com agricultura orgânica – correspondendo a 8% do PIB agrícola – e a previsão seja de atingir 20% em cinco anos.

pag8foto2.jpg (4780 bytes)

No Centro de Desenvolvimento Rural Sustentável do Incaper de Venda Nova do Imigrante, existem 6 hectares de área experimental em agricultura orgânica. São pesquisados 17 produtos de horticultura, além de café e citrus.

Assim como na APSAD-VIDA, o tomate é uma das culturas que apresenta menor produtividade, junto com o pimentão. Enquanto na produção convencional chega-se a 5 kg/pé, na orgânica alcança-se 3 kg/pé. Mas o preço do orgânico, até quatro vezes maior, e o custo de produção, entre 14% e 30% menor, segundo Jacimar, compensa. "E nós não queremos produzir 5 kg/pé. Isso é anormal, antinatural. É resultado de 30 anos de melhoramento genético para tornar a planta resistente a agrotóxico. Podemos continuar com 3kg/pé, pois isso é produção sustentável", enfatiza.

Em outras culturas, onde o melhoramento genético não foi tão intenso, a produção orgânica supera a convencional, à medida em que o solo se recupera dos danos provocados pelo manejo inadequado feito com agrotóxicos e capinas excessivas. Jacimar diz ser testemunha desse fenômeno em várias lavouras de feijão e milho com mais de dez anos de manejo orgânico.

O desenvolvimento de tecnologia orgânica no Incaper, apesar de mais sofisticado, muitas vezes segue o mesmo raciocínio da APSAD-VIDA. "Não desconsideramos as fórmulas populares, do tempo do vovô’", admite. O conhecimento popular convive bem com a biotecnologia e outras técnicas modernas, como as armadilhas de hormônios.

Jacimar não foge à regra e se revela um entusiasta irremediável da agricultura orgânica. "Vamos trabalhar para mudar essa produção com base agroquímica Hoje já existe tecnologia para produzir de forma orgânica 99% de todos os produtos agrícolas do Brasil", desafia. "O agrotóxico só se infiltrou na agricultura por comodismo. O agricultor orgânico precisa ser inteligente e dedicado. Mas o mercado não quer mais venenos, a terra não suporta mais esse sistema não sustentável. E até entre as indústrias crescem as que desenvolvem insumos orgânicos", afirma.

Até 2003, só frutas de produção integrada

Um excelente termômetro da exatidão das previsões de Jacimar está na fruticultura capixaba, onde a produção integrada já está se tornando palavra de ordem. Trata-se de uma técnica intermediária entre a produção tradicional e a orgânica. O principal diferencial é a redução da quantidade de agrotóxicos empregada, graças a um manejo mais eficiente – ou integrado – do solo, da água e do mato que nasce em meio à lavoura.

Agricultura em sociedade com a natureza

Como deve ser uma localidade onde a produção agrícola e industrial e a construção das casas sigam os princípios do desenvolvimento sustentável, sem desperdícios e com a menor agressão possível ao ambiente. Onde todas as atividades e pessoas funcionem em harmonia tal que pareçam realmente fazer parte de um sistema uníssono, comunitário.

O ex-industrial argentino Júlio Duenas, hoje capixaba de coração – chegou em Vitória há vinte anos – sonhou com um lugar assim durante 40 dos seus 66 anos de vida. "Procurava um sentido para minha vida", resume. Tentou realizá-lo em Buenos Aires, mas foi na época do regime militar, que o confundiu com um projeto comunista. O sonho só foi concretizado em 1995, quando Júlio fundou o Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), organização não governamental sediada em Venda Nova do Imigrante.

Se em Buenos Aires enfrentou resistência dos militares, aqui a confusão partiu dos vizinhos, agricultores de pequena escolaridade, que desconfiavam das intenções do "gringo". "Só comecei a ganhar a confiança deles depois de cinco anos", conta. Um excelente aliado foi a Associação Amigos da Terra, uma espécie de associação dos moradores e amigos do CDS, da qual fazem parte 40 agricultores das redondezas.

O Centro está instalado em uma área de 15 alqueires, sendo três de mata atlântica. Abriga 14 casas residenciais, posto de saúde, escolinha, viveiro de mudas, horta, fábrica de placas de concreto para construção das casas, centro de visitação e uma fábrica de pizzas, que emprega 30 pessoas das redondezas e produz até 30 mil discos de pizza por dia, vendidos ao Carrefour, Firenze, além de supermercados e padarias da Grande Vitória. É a fábrica que sustenta toda essa estrutura e as invenções de Júlio.

O adubo orgânico é a proposta que conseguiu maior adesão dos agricultores. Júlio acredita que dentro de mais três anos outras técnicas de agricultura orgânica já devam estar mais populares. Mas a proposta geral do CDS ainda deve demorar para ser assimilada.

"O objetivo do CDS é provar que é possível aumentar a qualidade de vida do homem do campo, aproximá-lo da natureza e fazê-lo entender que o ambiente pode ser explorado sem comprometer sua utilização pelas gerações futuras. Queremos fazer uma sociedade com a natureza", explica.

No Brasil, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são os pioneiros. As experiências nesses dois estados serviram de referência para elaboração da portaria federal que regulamenta o sistema no país. Na Alemanha, 100% dos frutos são oriundos do sistema integrado.

Dalmo Nogueira, coordenador estadual do Programa de Desenvolvimento da Fruticultura, profetiza: "Até 2003, toda a produção de frutas do Estado será integrada". O peso dessa afirmação torna-se ainda maior quando leva-se em consideração que a fruticultura é o ramo da agricultura capixaba que mais cresce. Já é a nossa segunda atividade agrícola e a que mais agrega títulos de destaque ao Espírito Santo em nível nacional, como o leitor pôde observar no início da matéria.

Ela é seguida pela pecuária, que apesar das enormes áreas de pastagens (40% da área total do Estado, ou 1,6 milhão de hectares), não tem conseguido apresentar os mesmos horizontes de crescimento. Pesquisas com vistas a diminuir a área de pastagem e aumentar o lucro do pecuarista estão em andamento e já produzindo bons resultados, como a produção de gado a pasto e dos resfriadores comunitários de leite, que garantem lucros de até 200% ao produtor.

Na fruticultura, ao contrário, a tendência é de expansão física. Já são 85 mil hectares plantados, sendo 70 mil em produção. Em 2000, gerou 50 mil empregos diretos, movimentou R$ 250 milhões e apresentou uma produção de 900 mil toneladas

O mamão, maior vedete da nossa fruticultura, está sendo o primeiro produto a receber o novo sistema integrado. "É a cultura mais avançada tecnicamente", justifica o pesquisador de entomologia do Incaper David dos Santos Martins.

A produção integrada do mamão visa eliminar o uso de produtos tóxicos da classe 1, os mais perigos, usados principalmente para combater pragas e doenças; reduzir em 30% o uso dos outros agrotóxicos; substituir a irrigação com aspersão sobre a copa da planta pela irrigação localizada, próxima ao solo, reduzindo à metade a quantidade de água utilizada e a incidência de várias doenças.

Em seguida, o sistema vai ser levado a outras culturas de peso, como coco, morango banana e abacaxi. Antes disso, porém, é possível que pelo menos o mamão capixaba já receba um selo de certificação de origem integrada, o que vai melhorar sua competitividade no mercado externo. "Na Europa, o preço dos produtos integrados é o mesmo dos tradicionais, mas é dada preferência aos primeiros. A venda é garantida", afirma David Martins.

Produção triplicada, custos reduzidos

Decidido a aumentar a produtividade de seu cafezal, Ozílio Partelli começou a fazer contas e mais contas, durante meses, com a ajuda de uma calculadora e dos conhecimentos de matemática aprendidos nos oito anos de estudo que teve. "Comecei a descobrir coisas em que nem eu mesmo acreditava. Triplicar a produção e reduzir os custos em 80%. Era bom demais para ser verdade".

pag8foto8.jpg (5375 bytes)

A técnica consistia em adensar o café, ou seja, diminuir o espaço entre os pés e entre as "ruas" (espaço entre as fileiras de café), concentrando mais plantas em uma mesma área. Ele chegou à conclusão de que o espaçamento poderia chegar a 2 x 0,5 metros, enquanto o tradicional era de 4 x 2 m.

Por ser associado à Cooperativa de Produtores de São Gabriel da Palha (Cooabriel), Ozílio tinha direito a uma assistência técnica para lhe ajudar na pesquisa, mas nenhum técnico quis fazer isso. "Ninguém acreditava que daria certo", recorda.

Depois de refazer as contas diversas vezes, Ozílio resolveu colocar os cálculos em prática. Na primeira safra, conseguiu surpreendentes 93,5 sacas de café por hectare, e venceu o concurso de produtividade da Cooabriel, onde a média dos concorrentes era de 12 sacas/ha. Houve grande divulgação na imprensa e ciúmes por parte dos produtores vizinhos e pesquisadores formados. "Prometi que a próxima safra seria de 200 sacas por hectare. Consegui, mas nunca mais fizeram outro concurso", lamenta.

Depois disso, ouviu algumas pessoas dizendo que a técnica desenvolvida por ele, na verdade, já existia. "Se existia mesmo, não tinha sido divulgada ainda", responde. Mas o rancor por não ter sido reconhecido nos meios científicos passou. "Mais de 30 mil pessoas já vieram aqui conhecer a minha técnica. Já dei palestras até fora do Estado", orgulha-se. O próximo passo é produzir café orgânico, o que deve acontecer, segundo suas contas, dentro de no máximo três anos.

<< anterior

De história e folclore | Fatos e lendas do sertão | Mídia na mira | Conversa de mulher Livre pensar | Crônica | Principal | Arquivo | Expediente | Cartas