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Biotecnologia, agricultura do
vovô e conhecimento popular
O coordenador de projetos de pesquisa em agricultura
orgânica do Incaper e uma das maiores autoridades nacionais no assunto, Jacimar Luiz
de Souza, calcula que devam existir hoje cerca de 120 produtores orgânicos no
Espírito Santo. O crescimento anual nos últimos 10 anos tem sido de 10% a 20%,
acompanhando o ritmo brasileiro.
A demanda, porém, principalmente no exterior, é muito
maior. Lá os agricultores também não conseguem satisfazer o mercado, apesar de em
alguns países, como a Itália, 5% de toda a área agrícola já serem ocupadas com
agricultura orgânica correspondendo a 8% do PIB agrícola e a previsão
seja de atingir 20% em cinco anos.
No Centro de Desenvolvimento Rural Sustentável do Incaper
de Venda Nova do Imigrante, existem 6 hectares de área experimental em agricultura
orgânica. São pesquisados 17 produtos de horticultura, além de café e citrus.
Assim como na APSAD-VIDA, o tomate é uma das culturas que
apresenta menor produtividade, junto com o pimentão. Enquanto na produção convencional
chega-se a 5 kg/pé, na orgânica alcança-se 3 kg/pé. Mas o preço do orgânico, até
quatro vezes maior, e o custo de produção, entre 14% e 30% menor, segundo Jacimar,
compensa. "E nós não queremos produzir 5 kg/pé. Isso é anormal, antinatural. É
resultado de 30 anos de melhoramento genético para tornar a planta resistente a
agrotóxico. Podemos continuar com 3kg/pé, pois isso é produção sustentável",
enfatiza.
Em outras culturas, onde o melhoramento genético não foi
tão intenso, a produção orgânica supera a convencional, à medida em que o solo se
recupera dos danos provocados pelo manejo inadequado feito com agrotóxicos e capinas
excessivas. Jacimar diz ser testemunha desse fenômeno em várias lavouras de feijão e
milho com mais de dez anos de manejo orgânico.
O desenvolvimento de tecnologia orgânica no Incaper,
apesar de mais sofisticado, muitas vezes segue o mesmo raciocínio da APSAD-VIDA.
"Não desconsideramos as fórmulas populares, do tempo do vovô", admite.
O conhecimento popular convive bem com a biotecnologia e outras técnicas modernas, como
as armadilhas de hormônios.
Jacimar não foge à regra e se revela um entusiasta
irremediável da agricultura orgânica. "Vamos trabalhar para mudar essa produção
com base agroquímica Hoje já existe tecnologia para produzir de forma orgânica 99% de
todos os produtos agrícolas do Brasil", desafia. "O agrotóxico só se
infiltrou na agricultura por comodismo. O agricultor orgânico precisa ser inteligente e
dedicado. Mas o mercado não quer mais venenos, a terra não suporta mais esse sistema
não sustentável. E até entre as indústrias crescem as que desenvolvem insumos
orgânicos", afirma.
Até 2003, só frutas de produção integrada
Um excelente termômetro da exatidão das previsões de
Jacimar está na fruticultura capixaba, onde a produção integrada já está se tornando
palavra de ordem. Trata-se de uma técnica intermediária entre a produção tradicional e
a orgânica. O principal diferencial é a redução da quantidade de agrotóxicos
empregada, graças a um manejo mais eficiente ou integrado do solo, da água
e do mato que nasce em meio à lavoura.
| Agricultura em sociedade com a natureza Como deve ser uma localidade onde a produção agrícola e
industrial e a construção das casas sigam os princípios do desenvolvimento
sustentável, sem desperdícios e com a menor agressão possível ao ambiente. Onde todas
as atividades e pessoas funcionem em harmonia tal que pareçam realmente fazer parte de um
sistema uníssono, comunitário.
O ex-industrial argentino Júlio Duenas, hoje
capixaba de coração chegou em Vitória há vinte anos sonhou com um lugar
assim durante 40 dos seus 66 anos de vida. "Procurava um sentido para minha
vida", resume. Tentou realizá-lo em Buenos Aires, mas foi na época do regime
militar, que o confundiu com um projeto comunista. O sonho só foi concretizado em 1995,
quando Júlio fundou o Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), organização não
governamental sediada em Venda Nova do Imigrante.
Se em Buenos Aires enfrentou resistência dos militares,
aqui a confusão partiu dos vizinhos, agricultores de pequena escolaridade, que
desconfiavam das intenções do "gringo". "Só comecei a ganhar a
confiança deles depois de cinco anos", conta. Um excelente aliado foi a Associação
Amigos da Terra, uma espécie de associação dos moradores e amigos do CDS, da qual fazem
parte 40 agricultores das redondezas.
O Centro está instalado em uma área de 15 alqueires,
sendo três de mata atlântica. Abriga 14 casas residenciais, posto de saúde, escolinha,
viveiro de mudas, horta, fábrica de placas de concreto para construção das casas,
centro de visitação e uma fábrica de pizzas, que emprega 30 pessoas das redondezas e
produz até 30 mil discos de pizza por dia, vendidos ao Carrefour, Firenze, além de
supermercados e padarias da Grande Vitória. É a fábrica que sustenta toda essa
estrutura e as invenções de Júlio.
O adubo orgânico é a proposta que conseguiu maior adesão
dos agricultores. Júlio acredita que dentro de mais três anos outras técnicas de
agricultura orgânica já devam estar mais populares. Mas a proposta geral do CDS ainda
deve demorar para ser assimilada.
"O objetivo do CDS é provar que é possível aumentar
a qualidade de vida do homem do campo, aproximá-lo da natureza e fazê-lo entender que o
ambiente pode ser explorado sem comprometer sua utilização pelas gerações futuras.
Queremos fazer uma sociedade com a natureza", explica. |
No Brasil, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são os
pioneiros. As experiências nesses dois estados serviram de referência para elaboração
da portaria federal que regulamenta o sistema no país. Na Alemanha, 100% dos frutos são
oriundos do sistema integrado.
Dalmo Nogueira, coordenador estadual do Programa de
Desenvolvimento da Fruticultura, profetiza: "Até 2003, toda a produção de frutas
do Estado será integrada". O peso dessa afirmação torna-se ainda maior quando
leva-se em consideração que a fruticultura é o ramo da agricultura capixaba que mais
cresce. Já é a nossa segunda atividade agrícola e a que mais agrega títulos de
destaque ao Espírito Santo em nível nacional, como o leitor pôde observar no início da
matéria.
Ela é seguida pela pecuária, que apesar das enormes
áreas de pastagens (40% da área total do Estado, ou 1,6 milhão de hectares), não tem
conseguido apresentar os mesmos horizontes de crescimento. Pesquisas com vistas a diminuir
a área de pastagem e aumentar o lucro do pecuarista estão em andamento e já produzindo
bons resultados, como a produção de gado a pasto e dos resfriadores comunitários de
leite, que garantem lucros de até 200% ao produtor.
Na fruticultura, ao contrário, a tendência é de
expansão física. Já são 85 mil hectares plantados, sendo 70 mil em produção. Em
2000, gerou 50 mil empregos diretos, movimentou R$ 250 milhões e apresentou uma
produção de 900 mil toneladas
O mamão, maior vedete da nossa fruticultura, está sendo o
primeiro produto a receber o novo sistema integrado. "É a cultura mais avançada
tecnicamente", justifica o pesquisador de entomologia do Incaper David dos Santos
Martins.
A produção integrada do mamão visa eliminar o uso de
produtos tóxicos da classe 1, os mais perigos, usados principalmente para combater pragas
e doenças; reduzir em 30% o uso dos outros agrotóxicos; substituir a irrigação com
aspersão sobre a copa da planta pela irrigação localizada, próxima ao solo, reduzindo
à metade a quantidade de água utilizada e a incidência de várias doenças.
Em seguida, o sistema vai ser levado a outras culturas de
peso, como coco, morango banana e abacaxi. Antes disso, porém, é possível que pelo
menos o mamão capixaba já receba um selo de certificação de origem integrada, o que
vai melhorar sua competitividade no mercado externo. "Na Europa, o preço dos
produtos integrados é o mesmo dos tradicionais, mas é dada preferência aos primeiros. A
venda é garantida", afirma David Martins.
Produção triplicada, custos
reduzidos
Decidido a aumentar a produtividade de seu cafezal, Ozílio
Partelli começou a fazer contas e mais contas, durante meses, com a ajuda de uma
calculadora e dos conhecimentos de matemática aprendidos nos oito anos de estudo que
teve. "Comecei a descobrir coisas em que nem eu mesmo acreditava. Triplicar a
produção e reduzir os custos em 80%. Era bom demais para ser verdade".
A técnica consistia em adensar o café, ou seja, diminuir
o espaço entre os pés e entre as "ruas" (espaço entre as fileiras de café),
concentrando mais plantas em uma mesma área. Ele chegou à conclusão de que o
espaçamento poderia chegar a 2 x 0,5 metros, enquanto o tradicional era de 4 x 2 m.
Por ser associado à Cooperativa de Produtores de São
Gabriel da Palha (Cooabriel), Ozílio tinha direito a uma assistência técnica para lhe
ajudar na pesquisa, mas nenhum técnico quis fazer isso. "Ninguém acreditava que
daria certo", recorda.
Depois de refazer as contas diversas vezes, Ozílio
resolveu colocar os cálculos em prática. Na primeira safra, conseguiu surpreendentes
93,5 sacas de café por hectare, e venceu o concurso de produtividade da Cooabriel, onde a
média dos concorrentes era de 12 sacas/ha. Houve grande divulgação na imprensa e
ciúmes por parte dos produtores vizinhos e pesquisadores formados. "Prometi que a
próxima safra seria de 200 sacas por hectare. Consegui, mas nunca mais fizeram outro
concurso", lamenta.
Depois disso, ouviu algumas pessoas dizendo que a técnica
desenvolvida por ele, na verdade, já existia. "Se existia mesmo, não tinha sido
divulgada ainda", responde. Mas o rancor por não ter sido reconhecido nos meios
científicos passou. "Mais de 30 mil pessoas já vieram aqui conhecer a minha
técnica. Já dei palestras até fora do Estado", orgulha-se. O próximo passo é
produzir café orgânico, o que deve acontecer, segundo suas contas, dentro de no máximo
três anos.
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