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A insuperável
leveza do som
Maurício de Oliveira:
glória da arte musical capixaba, destaque na galeria dos homens honrados deste Estado,
toque sutil nas cordas de seu violão
Texto: Marilza Bigio
Fotos: Tom Boechat
Ele mostra as mãos finas, de dedos compridos, a pele quase
cor de rosa, as pontas dos dedos sem calos, sem nenhum sinal do quanto têm trabalhado
arduamente nos últimos 65 anos. Maurício de Oliveira faz 77 anos neste 19 de
julho - embora sua carteira de identidade mostre um ano a menos, pois seu pai levou esse
tempo para registrá-lo, coisas da época, início dos anos 20, quando tudo era mais
difícil. Ainda mais para um pescador como seu Sebastião Rodrigues de Oliveira. Na
casinha da praia do Suá onde nasceu e cresceu, a mãe, Maria Porto de Oliveira, não teve
muito trabalho com o menino até os 11 anos, quando ele resolveu que queria porque queria
aprender violão e ser músico - vocação que já mostrava ser firme desde os 6 anos,
quando aprendeu cavaquinho. Aí a coisa ficou meio séria, porque naquela época, e ainda
mais aqui no Espírito Santo, vida de músico "não dava camisa a ninguém",
como se dizia.
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Maurício em um momento familiar,
com sua esposa e a neta |
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Pior é que já havia um caso na família, de um músico -
bom músico, diz Maurício -, o violonista José Inácio Oliveira, seu tio, que morrera
ainda jovem e já destruído pela bebida, como para comprovar a tese de que músico ou é
vagabundo ou bêbado. Uma tese que, pouco depois - anos 30 -, levou a polícia do Estado
Novo a examinar as mãos dos homens que detinha, para ver se tinham calos. Os calos nas
pontas dos dedos denunciavam o vagabundo violonista, que ia imediatamente em cana.
Daí voltamos às mãos de Maurício. Nem os gorilas do
Estado Novo (ele era ainda um menino), nem depois os meganhas do golpe de 64 - quando
aconteceu mais ou menos a mesma coisa -, desconfiariam da profissão daquele jovem magro e
educado, bem falante e sempre bem vestido (há muitos anos ele só usa calças e sapatos
brancos, impecáveis). Ao olhar suas mãos, veriam, como ainda hoje, as pontas dos dedos
cor de rosa, lisinhas, leves e ágeis. "Isso é lenda, um violonista não precisa ter
calos... aliás, se for bom violonista, não os terá", diz Maurício. E nos mostra
ao violão, na sua bela Canção da paz, porque é o maior músico capixaba e um
dos maiores do Brasil, o mais conhecido intérprete de Villa-Lobos aqui e no exterior, uma
das maiores contribuições pessoais ao rádio de nosso Estado e, com suas composições,
a maior contribuição individual de um instrumentista à MPB.
A Canção da paz, sua obra mais significativa, e a
mais conhecida, foi composta nessa época e apresentada na Polônia. Há uma gravação
feita em 72, mas os discos que têm a composição estão esgotados. Outra contribuição
maravilhosa dele ao acervo musical brasileiro foi a sua interpretação, ao violão, das
obras feitas para piano pelo grande compositor Ernesto Nazareth, disco lançado em 80 em
homenagem aos 50 anos da Fundação Jônice Tristão. Outros sucessos foram "Maurício
de Oliveira interpreta Dilermando Reis, de 71, e Maurício de Oliveira erudito e
popular, de 85. E sua última contribuição foi o CD feito para a Unimed - que o
distribuiu como brinde aos médicos associados -, em dezembro de 2000, intitulado
Encontro - Maurício de Oliveira e Ernesto Nazareth, cuja capa tem texto inspirado de
Marien Calixte.
IDOLATRIA DOMÉSTICA
"Olha só a vista daqui!", mostra, meio
emocionado, meio orgulhoso, à porta de sua casa numa das colinas do Barro Vermelho, em
Vitória. É a casa onde mora há décadas com dona Luiza, sua mulher há 53 anos, e que
hoje com ele curte a chegada de mais uma neta, Maria Vitória, aos 15 dias enchendo de
novidades, correrias e sorrisos o confortável lar dos Oliveira. Um lugar onde Maurício
não fala, pontifica; não pede, manda; não deseja, já tem.
"Isso aqui é uma idolatria só", diz Maurício
meio encabulado. Porque num dos quartos da casa, em meio às lembranças, quadros, fotos,
prêmios registrados em diplomas emoldurados e violões, dona Luíza mostra orgulhosa as
peças mais significativas. A idolatria da família foi sempre o estímulo para continuar
trabalhando - e também motivou seu filho Tião e seus netos Geraldo e Lucas (todos
violonistas), além de sua neta Antônia (pianista), a fazer da música uma presença
eterna na família.
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Maurício dedilhando seu violão |
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Não está ali o primeiro violão, um Giannini comprado na
Casa Guitarra de Prata, na Rua da Carioca, no Rio de Janeiro, nem o primeiro disco, um
compacto simples, de um lado o baião Ardiloso, do outro o choro Esplanada,
gravado em 52 pela Continental Gravações Elétricas Ltda - e que foi a primeira obra
fonográfica gravada por um capixaba. Mas estão lá quase todos os LPs gravados como
violonista do conjunto de Hélio Mendes, um amigo e companheirão.
"Toquei com Hélio por mais de 20 anos", diz
Maurício, mostrando cada vinil antigo: Weekend no Rio de Janeiro, gravado em 61 na
Cidade Maravilhosa; Weekend em Guarapar", que recebeu o prêmio Euterpe de 61,
do jornal "Correio da Manhã", entregue pessoalmente pelo governador da
Guanabara, Carlos Lacerda, em festa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Antes disso,
ele já havia gravado dois discos, pela Musiplay, em 60.
A grande emoção foi o convite para ir a Varsóvia,
Polônia, já em 55, receber do Ministério da Cultura polonês o prêmio de segundo
lugar, medalha de prata, no concurso internacional de violão promovido na terra do sempre
citado e querido Adam Emil, o cônsul polonês em Vitória que tanto fez para divulgar as
coisas capixabas em sua terra. "Um grande homem, um amigo, com quem eu havia
trabalhado muito tempo na Rádio Espírito Santo", conta, meio emocionado, o
sensível Maurício, enquanto dona Luíza mostra vaidosa o quadro da menção do prêmio.
UM CARA DIREITO
No conjunto de Hélio Mendes, ele tocava guitarra.
"Era uma big band, e foi considerado o melhor conjunto musical do Brasil, em
66. Gravamos seis LPs e um compacto duplo. As músicas de sucesso da época eram a
americana e a francesa", lembra o instrumentista. E explica que exatamente por causa
da enorme influência da música estrangeira ele lutava muito para divulgar o violão no
Espírito Santo. "Pensavam que eu queria aparecer, mas eu queria que o violão
aparecesse, pois para mim é o instrumento mais completo que já existiu. Antes, o piano
era o mais tocado, depois houve uma época rápida de hegemonia do acordeon, mas em
seguida o violão, que já era a alma da música de regional tocada nas rádios e bailes,
veio para se estabelecer, pois é leve, portátil, e tem grandes recursos. A forma de
tocar e os instrumentos que hoje são mais utilizados - guitarra, sete cordas, até mesmo
o baixo, em sua atual concepção - tudo se originou no crescimento do violão, que antes
era tocado por alguns. Hoje os violonistas se contam às centenas".
"O violão se fixou, aqui no Espírito Santo, parece
que ainda no século 18, depois que se estabeleceu por aqui um instrumentista chamado
Lasvacas, espanhol, que tocava na verdade a viola espanhola, e foi a primeira influência
musical estrangeira não só no nosso Estado, mas no Brasil. Quem descobriu isso foi o Rogério
Coimbra, pesquisador de nossa cultura e principalmente de nossa música. Ele constatou
a presença desse espanhol aqui na ilha, por três anos, antes de ir para a Bahia. A
história oficial dá que ele chegou direto na Bahia...", diz Maurício com
expressão zombeteira.
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E o que diz o pesquisador Rogério Coimbra de Maurício?
"É o músico mais importante do Estado, um dos maiores do País, e jamais saiu de
Vitória para viver em outro lugar. É um dos maiores e melhores amantes da nossa
Capital", começa. E não quer parar: "É músico cuja obra tem uma regularidade
impressionante, um violonista coerente, sempre voltado para a música brasileira. É
referência mundial da nossa música, respeitado sobretudo pela sua interpretação genial
e conseqüente divulgação da obra de Villa Lobos. Mas, sobretudo, é um cara
direito!"
Maurício foi também, segundo Coimbra, um grande
incentivador da música de regional. O violonista Zé Nogueira, o homem que deu o primeiro
violão e ensinou o rei Roberto Carlos a tocar, e que até hoje mantém viva a chama da
música de regional, nos bailes e nos programas da Rádio Diocesana, de Cachoeiro de
Itapemirim, concorda em gênero, número e grau: "O Maurício foi a pessoa que mais
ajudou a divulgar os músicos e a música de regional neste Estado e também no Rio, e por
onde ele andasse, sempre tocando e recebendo homenagens e prêmios. Ele nunca deixou de
mencionar esse tipo de música, que está na raiz mesma da música popular brasileira, e
que é uma música difícil, precisa o sujeito estudar muito, e precisa muito dessa
divulgação para não morrer".
PERTO DE DEUS
O garoto Maurício, filho e neto de pescadores, mostra, no
seu pequeno quarto de lembranças, a casinha onde nasceu e cresceu, na praia do Suá:
"Esta é a casa, e este aqui é o barco do meu pai, bem em frente a ela", diz,
comovido. E conta: "Eu tinha duas saídas, ou ia virar pescador, como meu pai e meu
avô, ou teria de enfrentar uma luta muito séria para ser músico, como meu bisavô
português, José Ignácio de Oliveira. Eu preferi o caminho mais difícil".
Ele sorri lembrando que começou a tocar com 11 anos, e foi
"descoberto" daí a um ano, quando tocava com seu irmão José na Festa de São
Pedro, na praia do Suá, pelo diretor artístico da Rádio Espírito Santo, Clóvis Gomes,
que os convidou a ingressar no rádio. Formaram então a dupla Irmãos Oliveira, que
ensaiou durante dois anos, de graça, na rádio, pois enquanto o governo federal não
desse a concessão a rádio não poderia ir ao ar. A rádio só estreou mesmo sua
programação em setembro de 40, e as atrações eram a Orquestra de Clóvis Cruz, o
Regional de Luís Noronha, a dupla sertaneja Sebastião e Peixinho e os Irmãos Oliveira.
Maurício tinha de tocar com uma autorização do Juizado de Menores: tinha 13 anos.
Maurício tem sua história ligada à da Rádio Espírito
Santo por muitos anos. Todo novo disco gravado, toda homenagem, todo prêmio, tudo isso
era noticiado pela rádio como se fosse ela mesma a vencedora, tamanho o carinho com que
tratava o que diz respeito a um de seus primeiros contratados. Foi de certa forma como
representante da rádio - e, claro, da nossa música, que ele esteve por duas vezes em
Portugal, terra de seus bisavós. "Toquei em Lisboa, Sintra, Cascais... os
portugueses nos tratam como um dos seus, são acolhedores e amigáveis. Disseram que eu
era mais português do que muitos de lá, por causa do que eu conhecia sobre a santa
terrinha e também, acho, por causa da indiscutível vocação que nós, brasileiros,
temos para nos comunicar". A música de Maurício correu mundo...
Será a música uma espécie de vício? Maurício não cai
nessa definição tão simplista. "Música é estado d'alma. Tem uma grande relação
com o espírito. Acho que o músico está mais perto de Deus. Veja o que diz a Bíblia,
que quando Jesus nasceu houve um coro de anjos..." É impressão da repórter, ou o
homem está assim meio engasgado, e os olhos assim meio molhados pela emoção?
"Música é matemática viva, que você sente no coração"... ele se recompõe,
readquire aquela firmeza que é o seu normal, depois de um momento de pura entrega ao seu
amor pela música. E termina, enfático: "Você não vê no jornal que um músico
matou a mãe e os filhos, não vê músico chutando cachorro, nem matando passarinho. Isso
nunca acontece... a música traz uma sensibilidade de fora para dentro do corpo, o sujeito
fica tomado pela elevação de espírito que ela proporciona. Mas a música também é
profissão, e uma profissão difícil, difícil para estudar, para aparecer, para se
aprimorar, para fazer sucesso. Isso quando o músico preza a música..."
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DISCOGRAFIA
- Compacto simples com as músicas Ardiloso e Esplanada
- 1952 - 1ª obra gravada por um capixaba
- Maurício de Oliveira e seu violão - 1960 - Gravado na Musiplay
- Um violão e novas emoções - 1960 - Gravado na Musiplay
- Hélio Mendes/ Weekend no Rio - 1961 - Gravado no Rio de Janeiro
- Hélio Mendes/ Weekend em Guarapari - 1961 - Ganhou o Prêmio Euterpe, recebido do
governador Carlos Lacerda, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
- Hélio Mendes e seu Trio Vagalume - 1963 - Época da bossa nova, também premiado
- Hélio Mendes, seu piano e seu conjunto - 1964 - Maurício fez os arranjos musicais
- Hélio Mendes, seu piano e seu conjunto - 1966 - Também neste, arranjos de Maurício
- Villa-Lobos e o violão/ volume 1 - Lançado na Europa, Estados Unidos e Japão pela
gravadora London
- Villa-Lobos e o violão/ volume 2 - Mesmo percurso internacional do anterior
- Violão em tempo de valsa - 1968 - Também lançado mundialmente pela gravadora London
- O Concerto de violão de Villa-Lobos - 1970 - O mesmo do anterior
- Maurício de Oliveira interpreta Dilermando Reis - 1971 - Lançado pela UFES
- Canção da Paz - 1972 - A composição mais conhecida
- Maurício de Oliveira interpreta Ernesto Nazareth ao violão - 1980 - Lançado em
homenagem aos 50 anos da Fundação Jônice Tristão
- Maurcício de Oliveira Erudito e Popular - 1985 - Ainda encontrável em algumas lojas
- Encontro/ Maurício de Oliveira e Ernesto Nazareth - 2000 - Disco promocional lançado
pela Unimed com distribuição restrita aos seus associados médico
TÍTULOS E HONRARIAS
- Medalha de Serviços Musicais prestados ao Estado - 1951
- Câmara Municipal de Vitória/ES
- Medalha de Prata - 2º lugar no Concurso de Violão - 1955 - Ministério da Cultura da
Polônia
- Medalha de Prata SEREIA - símbolo da Cidade de Varsóvia - 1955 - Cidade de Varsóvia,
Polônia
- Diploma de Músico Violonista - 1963 - Ordem dos Músicos do Brasil - ES
- Diploma de Melhor Solista Popular - 1964 - Cidade do Rio de Janeiro
- Honra ao Mérito por destacar o ES no cenário nacional - 1964 - Rotary Clube de
Vitória
- Troféu Euterpe O Melhor Solista Popular - 1964 - Jornal "Correio da Manhã"
- Troféu Villa-Lobos O Melhor Disco de Villa-Lobos
- 1967 - Ordem dos Músicos - RJ
- Medalha de Bronze/ 1º Salão do Compositor Capixaba - 1971 - UFES
- Placa de Prata Quem é Quem - 1972 - Jornal "A Tribuna" - ES
- Placa de Prata Noites Capixabas - 1977 - Fundação Cultural do Espírito Santo
- Placa de Prata/ 2º Salão do Compositor Capixaba - 1977 - Ufes
- Placa de Prata Cidade de Vitória 426 anos - 1977 - Prefeitura de Vitória - ES
- Diploma 1º Concurso de Bandas Escolares - 1977 - Tamoyo APE
- Medalha Jerônimo Monteiro Capixaba que mais se destacou na música - 1977 - Governo do
Estado
- Medalha de Honra ao Mérito - 1979 - Prefeitura de Vitória - ES
- Medalha de Honra ao Mérito Carnaval - 1979 - Prefeitura de Vitória - ES
OBS - Discografia e Títulos, além de outras
informações, estão no site Enciclopedia/ Maurício de Oliveira e Trajetória da Música
Capixaba, pesquisa monográfica realizada para a Ufes, em 96, pelo radialista e professor
de História José Carlos Rabello Filho - endereço na Internet: www.capixabaon.com.br/enciclopedia |