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A
ousadia da mudança
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João
Luiz de Menezes Tovar
(Secretário de Estado da Fazenda)
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Em artigo exclusivo para SÉCULO,
o secretário de Estado da Fazenda, João Luiz Tovar,
critica a inércia de procedimentos que só fazem
perpetuar o status quo. E entra de sola na questão:
há que se ousar para adotar medidas que de fato estejam
comprometidas com resultados e que possam ser aprovadas pela sociedade.
Leia o artigo de Tovar nas páginas seguintes
Mudar ou ... mudar
Entre os novos conceitos firmados
pela globalização alguns tendem a se firmar na razão
direta da capacidade de articulação da sociedade.
Um desses é a redução do Estado à dimensão
que a sociedade aceite custeá-lo. Se o Estado moderno nasce
no século XVIII como a instância mediadora dos conflitos
da sociedade é certo que a revolução tecnológica
revogou tantos paradigmas que passaram a exigir a redefinição
do Estado de sorte a ajustá-lo às novas expectativas
e demandas da sociedade.
Essa situação se confirma também aqui no Espírito
Santo, ante uma reflexão a respeito das mudanças a
serem implementadas e operadas pelo governo, para que o Estado passe
a corresponder as suas novas funções e papéis,
geradas pela mais radical revolução cultural já
experimentada pela humanidade. Tradicionalmente o Estado vem se
prestando a instrumento de ação política de
grupos hegemônicos num processo amplamente legitimado pelas
disputas democráticas. Mas a sociedade certamente quer mais.
Clama por uma estrutura burocrática que rompa com a inércia
de procedimentos que só fazem perpetuar o status quo. Há
que se ousar para adotar medidas que de fato estejam comprometidas
com resultados e que possam ser aprovadas pela sociedade.
Assumir e exercer o governo significa
o exercício de um poder relativo. Relativo por causa do equívoco
institucional que se vê hoje no Brasil onde convivem contraditoriamente
um sistema presidencialista com uma Constituição parlamentarista.
Reproduzida no âmbito regional, essa situação
engendra a questão da governabilidade, em que o Legislativo
passa, de fato, a deter o poder de decisão que teoricamente
está confiado ao chefe do Executivo e do qual tanto se espera.
A necessidade de acomodar interesses
políticos acaba tornando a gestão do Estado um fim
em si mesmo fazendo-o se perder do propósito de retornar
à sociedade, com dividendos, o que dela se recolhe através
de obrigações e impostos. Isso gera o gigantismo do
aparato administrativo que consome recursos para sua manutenção,
tomando-os às atividades que estariam disponibilizando para
a sociedade os serviços requeridos. É claro que se
joga um jogo em que as regras são tacitamente pactuadas pelos
atores políticos mas isso só faz perpetuar o desencontro
entre sociedade e Estado, comunidade e governo.
Isso se torna mais visível
quando se percebe o equívoco cultural em que incorrem algumas
autoridades ao identificar governo tão somente como o Poder
Executivo e não o conjunto dos poderes autônomos que
detêm a titularidade e portanto a responsabilidade pelo governo
e pelo ato de governar. Medidas de austeridade ou ajustamento impostas
pela realidade das finanças públicas precisam ser
assumidas não somente pelo executivo mas por todos os demais
poderes, mesmo com o desgaste político dessas medidas, não
podendo mais ser descartadas pelo que representam de ônus
político pois o processo pernicioso se realimenta e a sociedade
cobra soluções cujo custo ela ou os setores mais diretamente
envolvidos não estão mais dispostos a pagar.
A essa percepção se
ajuntam outras também daninhas: no Brasil, as relações
da sociedade com o Estado assentaram o entendimento de que o que
é público é de ninguém contra a necessária
convicção de que o que é público é
de todos, daí porque o trato da coisa pública demandar
essencialmente escrúpulo e senso de honestidade do administrador.
A prevalência do primeiro conceito
lega-nos a cultura do agora é minha vez, em que o gestor
de plantão dá vazão a critérios que
nem sempre se ajustam aos interesses coletivos, produzindo uma apropriação
particular do bem público. A constatação da
disparidade dos preços praticados pelos fornecedores de bens
e serviços do governo nas suas relações com
o mercado é um dos exemplos que revelam uma prática
predatória em que o fornecedor não se identifica como
membro da sociedade representada pelo governo, mas como o fortuito
protagonista de uma oportunidade de tirar proveito pessoal. Não
lhe ocorre que se todos adotam o mesmo procedimento instaura-se
o espírito do salve-se quem puder que patrocina a auto-extorsão
em que ilusoriamente se beneficia ao custo da inevitável
exaustão da sua fonte. Algo parecido a queimar as madeiras
da casa para alimentar o fogo que o aquece na noite gelada.
A extorsão que se pratica
hoje se explica também pela inadimplência do governo.
É um argumento parcialmente verdadeiro. Apenas parcialmente,
pois considerando que os encargos financeiros praticados em uma
economia estabilizada aplicada aos prazos da inadimplência
nunca alcançarão os valores embutidos nos preços
cobrados ao governo a pretexto de tais atrasos. No fundo prevalece
a cultura do individualismo ou do corporativismo em que se perde
a noção do todo. E por esse princípio instaura-se
um câmbio cruel que institui uma paridade monetária
também perversa ,onde cada real do governo não vale
em alguns casos cinqüenta centavos. A isso se acresce a urgente
necessidade de qualificação dos gastos, de sorte que
os dispêndios do governo sejam avaliados prioritariamente
pela relação custo/benefício e não dissipados
por uma orientação sem qualquer consideração
com o verdadeiro interesse público que deve presidir qualquer
ato de uma autoridade ou agente administrativo.
Essa perniciosa orientação
é, a meu ver, um dos grandes problemas do governo, quando
testemunhamos situações em que os titulares das diversas
pastas, mais que priorizar legitimamente seus interesse setoriais,
entendem que devem sobrepô-los à conveniência
do conjunto, do todo ao qual se inserem. Um trabalho judicioso da
gestão das finanças estaduais tem produzido um resultado
altamente expressivo situando-se mesmo como uma das grandes obras
da atual administração estadual. O esforço
de contenção, administração de prazos
e fluxos de caixa permitiu ao governo alcançar um resultado
primário o saldo do cotejo entre receitas e despesas
excluídos os juros e o principal pagos pela dívida
pública positivo, reduzindo-se um déficit de
571 milhões de reais em 1998 para um superávit previsto
de aproximadamente 100 milhões no exercício anterior.
Um dos mecanismos de gestão é o regime de caixa único,
onde as demandas setoriais, mesmo que legítimas de per si,
não são passíveis de serem atendidas na totalidade
em função das nossas restrições financeiras.
Alguns titulares de áreas do governo chegam a recriminar
a gestão financeira do Estado por não serem atendidos,
imputando ao órgão gestor o ônus do não
pagamento.
Importante compreender que os resultados
primários crescentes obtidos pelo governo não significam
disponibilidade de caixa. No caso do Espírito Santo, em suas
cifras atuais, esses indicadores desconsideram desembolsos efetivos
com parcelas da dívida pública (da ordem de R$ 20
milhões/mês ), montante que ultrapassa aos gastos de
custeio e o custo com a folha de pessoal referente aos pagamentos
parcelados dos meses de outubro, novembro e dezembro de 1998. Hoje
o funcionário público estadual sabe antecipadamente
o dia em que vai receber seu salário. Apesar desses compromissos
prioritários estarem rigorosamente em dia, todos reclamam,
e até com certa razão, quando se vêem contrariados
em suas necessidades de aporte financeiro para saldar compromissos
de suas áreas. Ocorre que a soma das demandas excede largamente
a disponibilidade financeira produzida pela nossa arrecadação,
gerando um hiato.
No início do atual exercício,
quando assumimos a Secretaria da Fazenda, passando efetivamente
a conhecer o governo, propusemos ao governador José Ignácio
a adoção de um critério que permitisse a cada
ordenador de despesa sentir um pouco na pele as dificuldades enfrentadas
para administrar o gap de recursos. O governador determinou a definição
de cotas bimensais para cada setor, onde cada administrador em sua
secretaria prioriza seus compromissos mensais. Claro que as cotas
não atendem integralmente as demandas de cada pasta ou órgão,
mas representam a realidade financeira do Estado e asseguram autonomia
relativa na quitação de seus compromissos prioritários.
Há necessidade do governo
acatar a relação custo-benefício de seus gastos
para corresponder às expectativas da sociedade; isto implica
na coragem de romper paradigmas. Hoje, a população
funcional do Estado é inchada menos pela necessidade efetiva
de um contingente desse tamanho que pelo histórico papel
do Estado em prover os empregos e oportunidades de trabalho que
caberia ao mercado, ou seja, à iniciativa privada produzir.
À falta da oportunidade de trabalho busca-se o emprego público
como moeda eleitoral ou de relacionamentos pessoais com as autoridades.
Alguém vai pagar a conta, claro. Quem? A sociedade que reclama
da ineficiência do governo na prestação dos
serviços pelos quais ela já paga caro através
de uma pesada tributação (desde que se paguem impostos
ao município, ao Estado, à União).
O exame acurado dos gastos públicos permite constatar que
a grande distorção, o velho paradigma que está
por se romper é o que situa o governo instituindo a máquina
administrativa como um fim em si mesmo e não um instrumento
para o cumprimento de sua missão: servir à sociedade.
Esse princípio inspira a manutenção de estruturas
burocráticas que não se justificam pelos resultados
prestados e sim pelos interesses que acomodam, a oferta de empregos
e cargos, principalmente. Secretarias que podem se reduzir a departamentos;
departamentos que podem se resumir à uma seção;
seções que podem ser reduzidas ou extintas. O organograma
do Estado brasileiro exibe exemplos claros de órgãos
que precisam ser reavaliados sob a ótica da relação
custo-benefício que geram para a população.
Torna-se imprescindível fazer-se um balanço da coisa
pública buscando-se as efetivas necessidades da sociedade,
priorizando áreas sociais e reduzindo e/ou eliminando aquelas
em que o Estado não tem condições de suportar.
É fundamental que o governante se libere das estruturas pesadas
e desnecessárias, em prol do interesse coletivo, do aprimoramento
do aparato burocrático e não a reserva de interesses
localizados.
Uma inadiável reforma do Estado
implica, portanto, uma necessária reforma na mentalidade
que sustenta o conjunto de valores que balizam os atores políticos.
Adiá-la significa voltar as costas para uma monumental transformação
que engolfa o mundo, onde não estamos ilhados, pelo contrário,
intrinsecamente conectados.
Não fossem todas as evidências
que mostram claramente a necessidade de se ajustar o Estado às
exigências da sociedade, a recente Lei de Responsabilidade
Fiscal, que entrou em vigor a partir de 2000, impõe ao homem
público uma atuação eficaz, obrigando-o a assumir
compromissos que não ultrapassem o término de sua
administração para serem pagos, estando portanto impedido
de transferir responsabilidades financeiras aos gestores futuros.
Daí a urgência de rever o conceito de coisa pública
, de reavaliar a função do Estado e do governo para
que esses absorvam as transformações que a sociedade
experimenta.
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