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CRÔNICA
- Tavares Dias
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Todo final de verão
Todo final de verão era assim.
Um sentimento de perda, de desaconchego, aquela solitude, uma pesada
impressão de perda, de incompetência. Não faltava
quem lhe dissesse que devia parar de depositar expectativas demais
na estação, ainda que fosse o reinado do sol, da cor
e de algo um tanto impreciso e situado entre a euforia e a alegria.
Mas fazer o quê? Era pessoa
de hábitos regulares, detestava o novo, as mudanças
súbitas. Qualquer alteração na rotina tinha
para ele o efeito de um quebra-molas dos grandes. Afetava sua saúde,
seu sono, seu apetite. Não, não nascera para surpresas.
Durante o ano, pouca coisa digna de registro acontecia em sua vida.
Trabalhava numa repartição pública, saía
as cinco da tarde, chegava em casa meia hora depois. Banho, jantar,
televisão, uma cervejinha em casa mesmo. Não, não
gostava de bares.
Às vezes, durante o ano, arranjava uma namorada, mas quase
nunca durava. Ou elas o achavam devagar demais, ou ele as considerava
muito aceleradas. Às vezes calhava mesmo de as duas coisas
acontecerem. Então se via de novo só e um tanto espantado
até com a falta de sofrer um pouco com aquilo.
De modo que o verão era a única época do ano
em que seu organismo experimentava algum pico de excitação.
Pegava uma cor, dava um trato no cabelo, renovava levemente o guarda-roupa.
E passava a freqüentar as praias, os bares da orla. Um tanto
euforizado pela bebida, fazia-se sociável, abordava mulheres
bonitas, turistas que logo viam nele um bom e inofensivo sujeito
com dificuldades afetivas e bom coração. A conversa
quase nunca dava em nada, o que reforçava sua solidão.
Já se sentia quase um profissional naquela sua diferenciada
rotina, mas rotina.
Este ano não vai dar. Discretamente, saiu de cena na última
semana desta temporada, dois dias antes de os turistas retornarem
para casa. Overdose, como diz o médico, ou desencanto, como
garantem seus poucos amigos, que diferença faz? Quando a
Terra der mais uma volta em torno do Sol e um novo verão
surgir, abrasador, espalhando novo ânimo, sonhos e bem-vindas
expectativas por entre as pessoas, haverá na ruidosa beira
do mar um silencioso solitário a menos.
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