Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
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CRÔNICA - Tavares Dias

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Todo final de verão

Todo final de verão era assim. Um sentimento de perda, de desaconchego, aquela solitude, uma pesada impressão de perda, de incompetência. Não faltava quem lhe dissesse que devia parar de depositar expectativas demais na estação, ainda que fosse o reinado do sol, da cor e de algo um tanto impreciso e situado entre a euforia e a alegria.

Mas fazer o quê? Era pessoa de hábitos regulares, detestava o novo, as mudanças súbitas. Qualquer alteração na rotina tinha para ele o efeito de um quebra-molas dos grandes. Afetava sua saúde, seu sono, seu apetite. Não, não nascera para surpresas.
Durante o ano, pouca coisa digna de registro acontecia em sua vida. Trabalhava numa repartição pública, saía as cinco da tarde, chegava em casa meia hora depois. Banho, jantar, televisão, uma cervejinha em casa mesmo. Não, não gostava de bares.
Às vezes, durante o ano, arranjava uma namorada, mas quase nunca durava. Ou elas o achavam devagar demais, ou ele as considerava muito aceleradas. Às vezes calhava mesmo de as duas coisas acontecerem. Então se via de novo só e um tanto espantado até com a falta de sofrer um pouco com aquilo.


De modo que o verão era a única época do ano em que seu organismo experimentava algum pico de excitação. Pegava uma cor, dava um trato no cabelo, renovava levemente o guarda-roupa. E passava a freqüentar as praias, os bares da orla. Um tanto euforizado pela bebida, fazia-se sociável, abordava mulheres bonitas, turistas que logo viam nele um bom e inofensivo sujeito com dificuldades afetivas e bom coração. A conversa quase nunca dava em nada, o que reforçava sua solidão. Já se sentia quase um profissional naquela sua diferenciada rotina, mas rotina.


Este ano não vai dar. Discretamente, saiu de cena na última semana desta temporada, dois dias antes de os turistas retornarem para casa. Overdose, como diz o médico, ou desencanto, como garantem seus poucos amigos, que diferença faz? Quando a Terra der mais uma volta em torno do Sol e um novo verão surgir, abrasador, espalhando novo ânimo, sonhos e bem-vindas expectativas por entre as pessoas, haverá na ruidosa beira do mar um silencioso solitário a menos.


Fevereiro /2001 - Nº24
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