Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
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Fatos e Lendas - Adilson Vilaça
   
Quem disse que Jovelino tinha conhecimento de horinhas de relógio? Ora, qual! Jovelino Cordeiro da Silva era desponteirado para ampulhetas e outras desmedidas. Meu amigo tropeiro era quasemente tipificado no homem citado por Robert Browning: “Man has Forever”.Se não lhe plenifico ao tipo, é porque meu amigo jovelinava em trópicos que nunca sequer haviam descoberto notícias da Europa. Era bem ele bem, como longamente é ressabido, vivente do noroeste capixaba, endereçado na vila de Prata dos Baianos.

O tempo quando

Era Jovelino um genearca do para sempre, em linhagem que se cinzelara nos primevos longínquos de um desde quando. Logo era meirinho-mor da niilificação do tempo. “Relógio é carência de gente afobobada”, foi o que ele me disse no dia em que lhe. Perguntei se nunca usara. Nunquinhas tivera olhos para o maquinário. Ao contra, desusara-o desde. A invenção não lhe servia. Antesmente de tropeçar em vez primeira um reolho na pressinha de ponteiros, Jovelino já se sabia que o homem tem a Eternidade. Ou?

“Tenho as luzências que Deus criou”. E embicou um louvamém aos firmamentos, no ou que se lhe conferia as benemerências do Criador. A pois ao fielfilho cartoriado desde o livro de Gênesis, o porvindouro é duravelmente antigo. “Tudo está escrito”, completou-me, acintoso em fustigar-me, pleno de sua sábia analfabetia. Eu lhe. Retruquei que o tempo é autógeno e autófago, uma chama que se incandesce e se apaga a cad’átimo, enfim, sem fim, inesgotável e insaciável – recriando-se e devorando-se infilhionesimamente para sempre. Por isso urgia contá-lo, contabilizá-lo, conta-gotá-lo.
“Está escrito”. Quê? “O portintim de cada sopro”. E riu-se-me. De meu pasmo. De minha perplexidade moderna, de meus ponteiros tocados a taquicardia de pilhas. Incôngruo, desenlacei a pulseira de meu tempo domesticado e estendi a ofensa a Jovelino. O calmo olhar dourado de meu amigo tropeiro trotou uma miúda perscrutação de soslaio até o relógio. Educoso, Jovelino esticou o gesto desoblíquo das mãos, recolheu-o. As palmas conchosas sossegavam o vai-vai do tempo, como se embalassem um bebê ingenerado, estranhosamente apartado da mãe. Aninhavam-se, órfão e tutor.

Conversavam-se – o relógio e o Senhor do Tempo. Ou que seja: filho do Senhor da Eternidade, que instalou luzeiros para dias e trevas. Fiat lux e blackout e outros idiomas do deslatinório humano. Conheciam-se na mansidão da pausa, o pulso do homem e o tique-taque parapulso. E eu, em mim comigo, tocaiava em espreitas. Talvez quem sabe até não fosse de se admirar o maravilhal de um ilapso no lapso. Que o Tempo se anunciasse à criatura, que no influxo Jovelino enfático soprasse ânimo de alma à maquininha. Eu de mim comigo, centrado a olhar o momento com a lente do próprio umbigo.

“Que joiazinha cara, hein?” – sussurrinhou a risadinha sorrateira de Jovelino. E-me-a devolveu. Restitui-ma, intacta de vida e uso, a joiazinha. Porque para Jovelino sua espichável fita métrica do tempo abrangia, antiquando, em: desde que voa o pássaro, desde que a galinha bota, desde que gambá fede, desde que árvore dá sombra. Futurando para perto: logo que o pato cagar na alvorada; para longe: logo que nascer o neto da solteirona. Para nunca: no dia em macaco enjeitar banana, que madrinha de tropa não for sestrosa, que bispo não mandar em padre.

Ou, presentemente, como me despediu: “Boa viagem, seo menino. Já deu seu quando”. Confirmei no relógio. Era mesmo quando. E foi o quando em que o vi em vida, sem saber que lhe era extrema-unção aquele mais um, findo, até logo. Foi meu adeus ao Senhor do Tempo, ou Dele primogênito herdeiro. Permanece o legado de sua sempre lembrança, que muita vez quase se perde na tropelia de minha joiazinha cara. Em sua farsa do desde, quando, logo. Pois nem jóia é meu dourado portintim afobobado!

 


Fevereiro /2001 - Nº24

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