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No
rastro do mamão
Empresariado capixaba avança sob a tempestade do progresso
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De forma lenta e gradual, embora ainda um pouco insegura, a
economia capixaba vai aos poucos se libertando de sua histórica
dependência dos favores oficiais para buscar caminhos
próprios rumo ao progresso, seguindo a trilha dos Caliman
e do seu mamão papaya. |
Na fruticultura,
o primeiro bom exemplo
Há mais de um século
o extrativismo condiciona,
vicia e distorce a economia do Espírito Santo
Os irmãos Caliman, que cultivam
mamões em Linhares, são o último grande exemplo
de empresários bem-sucedidos do Espírito Santo. Não
admira que sejam tão festejados. Egressos do período
do extrativismo madeireiro, eles agora são pioneiros na fruticultura
e ousam correr riscos na lavoura e na agroindústria. Reciclados
por uma verdadeira inflexão no capitalismo moderno
saíram da devastação florestal indiscriminada
para uma agricultura que caminha de volta às origens, livre
de produtos químicos nefastos para o meio ambiente e a saúde
humana , são espécimes raros num universo empresarial
que se caracteriza pela baixíssima exposição
ao risco.
Sabemos que o Brasil está coalhado de empresários
que crescem à sombra de benesses públicas. As listas
de maiores e melhores empresas do Brasil são lideradas por
companhias dependentes de concessões governamentais, decisões
oficiais e tarifas públicas. Entre elas figuram empreiteiras
de obras, petroleiras, telefônicas, energéticas, aéreas
e automobilísticas umas monopolistas, outras cartelistas,
todas favorecidas por lobbies mais ou menos explícitos.
Nos rankings capixabas, a coisa não é diferente. Durante
os anos de ouro da abertura à importação, no
início da década de 90, apareceu com brilho a Coimex,
que teve seu clímax graças à liberação
da importação de veículos. Como uma despachante
de luxo instalada no porto de Vitória, essa empresa assumiu
a liderança dos negócios brasileiros de importação.
Corria riscos mínimos e tinha a seu favor os prêmios
fiscais oferecidos pelo Fundo de Desenvolvimento das Atividades
Portuárias, o famoso Fundap.
Criado em 1971 para dinamizar os portos capixabas, o Fundap deu
origem a uma espécie de clube do qual fazem parte menos de
duas centenas de empresas. Entre as dez maiores figuram, além
da Coimex, a Cotia Trading, a Xerox e a Eximbiz esta, controlada
por Otto Andrade, que emergiu da importação de equipamentos
de telefonia na época em que a Telebrás foi presidida
pelo capixaba José Ignácio Ferreira.
Há vários outros exemplos de empresas presentes no
cenário econômico capixaba mais por injunção
fiscal do que por identidade com o território ou a população
locais. São poucos os grupos locais com raízes no
Espírito Santo. O exemplo clássico é a Chocolates
Garoto, cuja estabilidade, entretanto, vem sendo ameaçada
pela globalização econômica. Há também
o Grupo Buaiz, que pode, entretanto, ser acusado de beneficiar-se
de um privilégio a importação de trigo,
negócio para poucos, no Brasil. Mas a favor desse grupo se
pode dizer que teve peito para investir no novo o Shopping
Center Vitória. O Dadalto, no comércio, é outro
que corre riscos calculados. E temos de ir ficando por aqui. Itapemirim
e Águia Branca, por exemplo, já se enquadram no rol
de empresas que dependem de concessões e tarifas públicas
(transporte de passageiros).
Eis o quadro crítico da conjuntura empresarial do Espírito
Santo: depois de citar menos de meia dúzia de empresas de
raízes capixabas, faltam exemplos dignos de figurar numa
enciclopédia do dinamismo no mundo dos negócios. Na
verdade, é muito mais abundante o universo de empresas com
o pecado original do favor oficial. Para falar a verdade, é
assim em todo o Brasil. O incentivo fiscal foi a grande alavanca
da implantação das indústrias siderúrgica,
automobilística, naval (que morreu e está voltando),
hoteleira, florestal e eletro-eletrônica (em Manaus). No Nordeste,
o subsídio oficial é congênito sem ele,
não nasce nenhum empreendimento.
Voltemos ao Espírito Santo. Os exemplos mais dolorosos de
falta de identidade com a realidade capixaba são os de empresas
que se implantaram no Estado à sombra de incentivos ou isenções
de natureza tributária. A Aracruz, a Vale do Rio Doce, a
CST e a Samarco, o quarteto mais poderoso do Espírito Santo,
montaram suas bases operacionais graças ao poder de benefícios
fiscais. Para o reflorestamento, no caso da Aracruz e da Vale. Para
a exportação, no caso de todas elas. Gigantescas,
essas empresas têm mais receita que o Estado, projetam sua
sombra sobre os governos estaduais e desarticulam quaisquer planos
oficiais que possam representar uma ameaça ou um risco aos
seus interesses. Não obstante, sustentam na mídia,
por meio de campanhas institucionais, uma bem articulada imagem
de benemerência e respeito às comunidades. Quem tem
um pé nas comunidades de fato sabe que é discurso
político sem base real.
O que aconteceu na área energética no Espírito
Santo Vale, Escelsa e Petrobras teimando em não assumir
a responsabilidade de investir numa termelétrica a gás
na Grande Vitória é a amostra mais notória
de que a população do Estado está submetida
à vontade dessas grandes empresas. Todo mundo conhece o poder
dessa dúzia de empresas exportadoras umas, importadoras
outras. Elas têm uma capacidade de articulação
sem precedentes na história estadual. Essas empresas dão
empregos, usam tecnologia avançada e demandam serviços
sofisticados, mas fica a pergunta: são boas para o Estado?
Em outras palavras, a transformação do ES numa plataforma
de negócios globais, numa potência do comércio
internacional, é benéfica para a maioria dos capixabas?
Não se trata de fechar a porta para as megaexportadoras,
mas não é o caso de pensar numa estratégia
em favor de um genuíno desenvolvimento econômico com
raízes capixabas? O mármore e o granito servem como
pano de fundo para uma análise mais demorada desse dilema.
Trata-se de empresas predatórias que se nutrem do extrativismo
mais primitivo, deixando buracos no meio ambiente e um vazio no
cenário econômico. Elas dizem que dão emprego
e trazem divisas, o que é verdade, mas qual o futuro disso?
O Espírito Santo paga um preço altíssimo por
seu apego ao extrativismo. Depois de cortar toda a madeira existente
no seu território, os espirito-santenses foram dar lições
de derrubada na Amazônia, onde a palavra capixaba é
sinônimo de especialista em corte de madeira. Alguns podem
se orgulhar disso, mas eu diria que na situação atual
do planeta se trata de uma triste sina, uma verdadeira maldição.
Sem ser extrativista, devastador ou
dependente de favores fiscais, não há outros caminhos
para o Espírito
Santo trilhar no futuro? Não será hora de prestar
atenção no exemplo dos Caliman? (G.H.)
A tempestade do progresso nos
lança para o futuro
A situação econômica
e o desenvolvimento do Espírito Santo lembram um texto de
Walter Benjamin a respeito do quadro Angelus Novus, de Paul Klee.
Para Benjamin, o anjo da história tem o rosto voltado
para o passado... O anjo bem que gostaria de se deter, despertar
os mortos e recompor o que foi feito em pedaços. Mas uma
tempestade sopra do Paraíso e se prende em suas asas com
tal força, que o anjo já não as pode fechar.
A tempestade irresistivelmente o impele ao futuro, para o qual ele
dá as costas, enquanto o monte de
escombros cresce até o céu diante dele. O que chamamos
de Progresso é esta tempestade.
O fato é que, a despeito dos escombros e mortos, somos lançados
para o futuro. Se temos ou não habilidade para evitar, com
experiência e planejamento, novos cadáveres, a história
vai registrar e responder. Não on-line, por que ela (a história)
ainda depende de reflexões e essas só são possíveis
com o tempo.
Alguns segmentos econômicos do Estado tiveram tempo para refletir
e desenhar seu futuro. Não querem ser arremessados pela tempestade
e, ao mesmo tempo, manter os olhos arregalados para o passado. São
de escombros a matéria-prima do novo pensamento, que vai
renovando parte do empresariado capixaba. Mesmo que timidamente,
algumas iniciativas, que atualmente não figuram com peso
na composição de riqueza do Estado, mostram competência
gerencial e excelência em suas atividades.
A experiência dos Caliman com a produção de
mamão serviu de base para outros empreendimentos do gênero,
como a Gaya e a Agra. Esta última adotou um sistema terceirizado,
fornecendo ao produtor as sementes, assistência técnica
nas oito lavouras já produtivas em Linhares, e conseguiu
um volume de 180 toneladas/mês de mamão para exportação
nos 72 hectares de áreas monitoradas. O processo gera 550
empregos diretos e indiretos na região e qualifica a mão-de-obra
local, fator considerado imprescindível por empresários,
sejam eles do setor primário ou não.
Além da fruticultura, os economistas destacam outros segmentos
com potencial de desenvolvimento, seja pela aptidão natural
do Estado ou pela renovação dos quadros empresariais.
Móveis, confecções, produção
de alimentos, mármore e granito, setor metalmecânico,
que deve ser incrementado com a implantação do Laminador
de Tiras a Quente (LTQ), da Companhia Siderúrgica de Tubarão
(CST), e com a exploração do petróleo, figuram
nessa lista.
Embora não respondam nem por 30% do PIB, esses segmentos
juntos dinamizam a economia capixaba e se mostram como alternativas
de desenvolvimento. Costurar essas iniciativas à logística
do Espírito Santo, aproveitando os portos e eliminando os
gargalos, no que se refere a ferrovias e rodovias, é o desafio
político que se coloca ao governo, sob pena de ficar de costas
para o futuro e assombrado com seu passado.(L.A.)
A marca da juventude projeta Linhares
e o norte do Estado
Um empresariado relativamente novo
(entre 25 e 45 anos) marca a atividade moveleira no Estado, especialmente
em Linhares, no norte. Há três décadas era impossível
imaginar que o município se firmaria como o 6o maior pólo
do segmento no país, com 250 fábricas e responsável
por quatro mil dos 12 mil postos de trabalho em todo o Espírito
Santo.
A estimativa do Sindicato das Indústrias da Madeira e do
Mobiliário de Linhares (Sindimol) é de que o pólo
alcance, este ano, uma produção em torno de 700 mil
peças e um faturamento próximo a R$ 400 milhões.
Outras cidades capixabas que se destacam no segmento são
Colatina, com 80 empresas, e Vitória, com 750 empreendimentos.
Ambas as cidades trabalham com móveis sob encomenda e atendimento
a lojas próprias. Das quase 1,1 mil indústrias capixabas,
o setor é formado por 25% de micro, 70% de pequeno porte
e outros 5% de grandes. O Sindimol destaca como as maiores do Estado
a Movelar, a Panan, Conquista, Dular, Comlar, Docelar, Brumati,
Brumol, Locateli e a Rimo, entre outras.
O envolvimento de Linhares com o setor se confunde com a criação
da Movelar, implantada pelos irmãos Rigoni, há 35
anos. A empresa atualmente é a maior do Brasil em produção
de móveis laminados para quarto, fabrica mais de 50 mil peças
mensais, emprega 1,2 mil pessoas, sendo 830 na própria indústria,
e foi recomendada para o ISO 1400, feito só conseguido pela
Móveis Florence, no Sul do país.
Para o diretor-presidente da empresa, Domingos Sávio Rigoni,
que comanda também a Associação Brasileira
das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), o
fato de Linhares ganhar destaque nessa atividade vem do fato de
seus empresários serem novos e, por isso mesmo, empreendedores.
Quando começamos, só existia a fábrica
do seu Elias, que fazia móveis sob encomenda. Hoje, somos
o 6o pólo no Brasil. Essa posição foi conseguida
com investimentos em tecnologia e qualificação profissional,
seja do empresariado ou do trabalhador. A mão-de-obra local,
na verdade, foi formada ao longo dos anos dentro da Movelar. À
medida que aprendiam o ofício, os funcionários saíam
para o seu próprio negócio, afirma Domingos
Rigoni.
A família Rigoni mostra excelência em sua atividade.
Além da Movelar, a Rimo, que tem como um dos sócios
Luiz Rigoni, é a segunda maior empresa do Espírito
Santo no setor, embora tenha apenas 13 anos de atividade. A fábrica
é responsável por 230 empregos diretos e mantém
uma produção média de 15 mil peças ao
mês.
O economista Arlindo Villaschi Filho lembra que, a partir do final
dos anos noventa, vários elementos implicaram em mudanças
qualitativas para a indústria moveleira de Linhares. Ele
enumera o processo de modernização de parte
das empresas, com a aquisição de equipamentos mais
atuais como a linha de pintura Ultra-Violeta (túnel UV),
e a presença de um novo fornecedor de matéria-prima
a Aracruz Produtos de Madeira, que oferta madeira serrada
de eucalipto de qualidade elevada , como dois desses
fatores. Outro ponto importante nesse processo, de acordo com Villaschi,
foi o aprendizado na exportação desenvolvido
pelas duas maiores empresas do pólo, a Movelar e a Rimo,
projetando novos tipos de móveis, novos designs (Movelar)
e conhecimento na confecção de móveis de eucalipto
(Rimo).
Experiências como a de Linhares buscam atingir mercados
nos quais as políticas ambientais exigem o uso de madeira
reflorestada ou, como no caso do mercado norte-americano, com uma
demanda significativa por móveis mais robustos, de madeira
maciça, afirma o economista.
Não por acaso, tanto a Movelar como a Rimo, que hoje vendem
95% de seus produtos para a região Sudeste, querem ampliar
suas exportações. No caso da Movelar, somente 1,5%
da produção segue para o mercado externo, sobretudo
para países do Mercosul, América Central e Oriente
Médio. Domingos Rigoni não revela qual o percentual
que pretende atingir, mas aumentou o número de representantes
e vai participar, em 2002, de quatro feiras internacionais.
Já a meta da Rimo, no que se refere a comércio exterior,
é mais ousada. A empresa, de acordo com o diretor Jonilson
Suave, quer saltar dos atuais 3% para 20% até 2005. Os principais
clientes são Uruguai, Guatemala e México, mas o mercado
cobiçado pela empresa é o dos EUA. Para
chegar a esse ponto, a fábrica vai
passar por uma expansão de suas instalações
até o próximo ano, o que deve gerar 90 novos empregos,
além dos 230 atuais. (L.A.)
O Espírito Santo é considerado o maior pólo
siderúrgico do mundo em peso, com movimentação
de 35 milhões de toneladas de pelotas ao ano. A informação
parte do presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas
e de Material Elétrico do Estado (Sindifer), César
Daher Carneiro, que espera um aumento de 50% no setor metalmecânico
nos próximos anos.
O segmento, formado por 1.450 empresas e com um quadro de pessoal
em torno de 50 mil metalúrgicos, vive a expectativa da implantação
do Laminador de Tiras a Quente (LTQ) da CST. Além de possibilitar
o crescimento das empresas existentes, acredita-se que a produção
poderá atrair novos empreendimentos, ligados a fabricação
de eletrodomésticos, latões, rodas de carros, botijas
de gás, entre outras. Atualmente, segundo Daher Carneiro,
somente 20% da produção corresponde aos produtos acabados
nesse setor.
A principal indústria de acabados é a Belgo
Mineira, responsável pela confecção de 800
mil toneladas de laminados, mantendo inclusive duas fábricas
dentro de sua área destinadas a fabricação
de perfis galvanizados e containeres, relata o presidente
do Sindifer.
Uma dificuldade enfrentada pelos 80% do mercado é a sazonalidade.
As empresas ficam atreladas aos investimentos, à ampliação
de plantas industriais em solo capixaba. É também
uma atividade que exige qualificação profissional,
uma vez que atende prioritariamente indústrias de grande
porte.
É um segmento que deveria ser olhado com maior cuidado
pelo governo. Um desafio é buscar não só a
qualificação empresarial e tecnológica, mas
ainda de mão-de-obra, acredita o economista Orlando
Caliman.
Dados do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico
(CDMEC) davam conta que até o ano de 2000 o segmento movimentaria
R$ 200 milhões, participando com 10% da produção
nacional.
O trabalho do centro é justamente reduzir a instabilidade
a que ficam sujeitas essas empresas, procurando estabelecer um elo
entre as indústrias siderúrgicas e de minério,
concientizando-as da importância de se priorizar os fornecedores
locais. Nos argumentos lançados pelo CDMEC estão os
projetos de treinamento e a crescente capacitação
nesses empreendimentos.
Os principais clientes do segmento estão localizados nas
áreas de mineração, siderurgia, papel e celulose,
portuária, setor elétrico, saneamento básico,
petróleo e gás, e ainda na construção
civil. Entre eles destacam-se Aracruz Celulose, Companhia Siderúrgica
Belgo Mineira, CST, Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Escelsa,
Flexibrás, Cesan, Chocolates Garoto, Samarco, Telemar, Petrobras
e Carboindustrial Carboderivados.
Guilherme Pereira, diretor presidente do Instituto de Apoio à
Pesquisa e ao Desenvolvimento Jones dos Santos Neves (Ipes), chama
a atenção ainda para o avanço desse setor no
que se refere ao desenvolvimento de tecnologia e equipamentos, destinados
à produção de rochas ornamentais.
O principal fornecedor mundial de equipamentos ainda é
a Itália e, depois dela, o Espírito Santo, que confecciona
máquinas para o Brasil inteiro e fabrica também itens
para vários países, inclusive da Europa, frisa
Pereira.
Com o laminador de tiras a quente, a CST avança um
pouco mais na direção de um produto final e a sua
ligação com a economia local, estimulando
indiretamente a instalação de empresas que venham
a usar esse produto, acrescenta.
Já estamos observando um crescimento significativo
na área. Prova disso é a dificuldade de se encontrar
galpões na região do Civit (bairro da Serra). Acho
que esse incremento do setor vai causar um impacto na Serra, que
deve se transformar, em pouco tempo, no maior município do
Estado, estima César Daher Carneiro, do Sindifer.
As projeções podem parecer exageradas, mas foi a Serra
quem mais cresceu em população com a implantação
dos chamados grandes projetos, especialmente na década de
70. De pouco mais de 9 mil habitantes, o município teve um
acréscimo de 378%, passando para 322,5 mil moradores em três
décadas, um aumento difícil de ser contornado pelo
poder público, que se vê cercado com problemas de infra-estrutura,
segurança, saúde e educação. (L.A.)
O segmento de confecções
não ultrapassa os 5% do PIB estadual, mas demonstra, na prática,
que estatísticas nem sempre refletem as possibilidades de
crescimento. Se na riqueza do Estado o número não
chega a surpreender, na geração de emprego ele tem
um peso expressivo, perdendo apenas para a construção
civil, o maior empregador regional, com mais de 60 mil postos de
trabalho.
Os dois pólos industriais do Espírito Santo, em Colatina
e Vila Velha, reúnem 80% das 1,6 mil empresas, sendo 900
delas formais. Para dar conta dos 70 milhões de peças
produzidas anualmente em território capixaba, o setor conta
com 23 mil trabalhadores e cria mais três mil postos de trabalho
na alta temporada (de agosto a dezembro).
As mulheres são o forte das confecções no Estado.
Cerca de 85% da mão-de-obra são do sexo feminino,
assim como 51% dos empresários e 70% dos consumidores em
todo o Brasil. Parece pouco ainda? O pólo de Colatina é
responsável por 22% dos empregos ofertados na cidade e possibilitou
o surgimento de 120 facções (serviço terceirizado
de corte, costura e outros) que hoje prestam serviço para
empresas locais e do eixo Rio-São Paulo.
Das 10 maiores empresas do Espírito Santo nesse ramo, sete
são da região noroeste, que abrange a região
de Colatina, entre elas os grupos Guermar, Merpa, Mimo, Uniroupas,
Fanny e Cherne. Na Grande Vitória, a maior é a Cobra
DÁgua.
Marcos Guerra, presidente do Sindicato das Indústrias de
Vestuário de Colatina (Sinvesco), e presidente do grupo Guermar,
que confecciona as marcas Presidium e Genius, destaca as dificuldades
do setor. Para ele, o principal problema reside na formação
da mão-de-obra. A forma encontrada pela Guermar foi
treinar, na prática, os seus 780 funcionários, sendo
a maioria residente no bairro Córrego DOuro, onde está
localizada a fábrica. O ideal seria que o mercado tivesse
oferta de profissionais qualificados.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Confecção
do Espírito Santo (Sinconfec) e proprietário da Cobra
DÁgua, Lucas Izoton, existe uma dificuldade que antecede
o chamado chão de fábrica.
Temos cerca de 700 empresas na informalidade. Nossa maior
preocupação hoje é capacitar o empresário.
Se ele não tiver uma visão gerencial, não saberá
nunca que prato mata a fome, ou seja, equivocadamente vai desprezar
o aprimoramento de seus próprios funcionários. O Cetecon
(Centro de Tecnologia da Indústria de Confecções)
é muito pouco acionado pelos empregadores. Mais de 80% da
categoria ignoram o serviço de consultoria, e o Cetecon acaba
prestando serviço para empresas de fora do Estado por falta
de interesse local, critica Lucas.
Um dos trabalhos junto ao setor será de conscientizar esses
micro e pequenos empresários, que representam 98% do segmento,
a sair da informalidade e a buscar treinamento profissional. A
legalidade é importante para o crescimento de qualquer atividade,
porque facilita a obtenção de matéria-prima,
de crédito e de fornecimento de serviço. A maioria
das empresas de confecção, mesmo as de grande porte,
começaram como facções, argumenta o presidente
do Sinconfec.
Não se pode negar a visão de futuro de alguns empresários
do ramo. Para conseguir um profissional mais qualificado, as indústrias
antes tinham que recorrer ao mercado nacional. Hoje, através
de uma troca de informações com instituições
de ensino, já existem três faculdades de moda no Estado
e o Centro Federal de Educação Tecnológica
do Espírito Santo (Cefet/ES) começa a oferecer vagas
para técnico em confecções. As ações
devem minimizar e, a médio e longo prazo, até acabar
com o problema da mão-de-obra não capacitada.
A despeito dos entraves, Izoton prevê um crescimento do setor.
O Espírito Santo detém apenas 1,7% do consumo
de roupas no país. Isso significa que temos um mercado 60
vezes maior no Brasil para explorar. As 50 maiores empresas do Estado
vendem 90% de sua produção para fora e achamos que
esse percentual pode ser infinitamente maior, ressalta.
O pólo de Santa Inês, em Vila Velha, e as fábricas
da Grande Vitória têm uma produção diversificada,
como sportware e surfware, e destinada, em grande parte, ao comércio
local, contra uma média estadual de exportação
para outros estados na faixa de 65%. Já Colatina, trabalha
com tecido plano (camisas e calças) sob encomenda, sendo
80% de sua produção destinada ao mercado nacional,
principalmente São Paulo e Rio. (L.A.)
Já se passaram 23 anos das primeiras sementes de mamão
papaya vindas do Havaí plantadas na fazenda em Canivete,
na região de Linhares, mas pode-se dizer que mudam os mercados,
mas as estratégias para atingi-los são as mesmas.
Ermando Caliman, ao chegar na Ceasa com as primeiras caixas da fruta,
em 1978, com o sócio Antenor Kuboyama, quase foi enxotado.
Diziam do papaya que era comida para porcos.
A experiência poderia ter terminado ali, mas na visão
dos fazendeiros as pessoas não compravam porque desconheciam
a fruta. Era preciso fazer um longo trabalho de conscientização
e, mais do que isso, de degustação, para convencer
os prováveis compradores das qualidades daquele mamãozinho.
A iniciativa simples resultou na expansão da produção
da fruta e, em menos de duas décadas, a Caliman Agrícola
virou sinônimo de papaya no mercado internacional.
Hoje, sete exportadores da espécie, reunidos na recém-criada
Associação Brasileira dos Exportadores de Papaya
com nome em inglês de Brapex (Brazilian Association of Papaya
Exporters) , sabem que para conquistar parte das 118 mil toneladas
que serão comercializadas até 2005, segundo estudo
da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO),
vai ser preciso investir pesado em marketing.
Roberto Paca, presidente da Brapex e proprietário da Agra,
lembra que a promoção da fruta brasileira no mercado
externo foi um dos motivos que levaram à criação
da entidade.
Esse relatório da FAO revela que as importações
de mamão papaya devem crescer 46% em todo o mundo. Os países
desenvolvidos representariam 56% e os em desenvolvimento, 44% dos
clientes, mas os EUA manteriam a posição de país
líder nas importações de papaya. Essas análises
só reforçam o nosso entendimento de que ações
de divulgação do papaya nacional são da maior
importância para ampliar a comercialização no
exterior, justifica Roberto Paca.
Ele lembra que 70% do papaya consumido na Europa saem do Brasil,
mas os EUA ainda compram muito mamão do México. É
preciso fazer um trabalho mais intensivo junto ao segmento americano,
que também não faz contato com empresas, mas
só com entidades, como a Brapex. Nesse aspecto, já
conseguimos uma vitória, afirma.
A associação, que reúne os produtores Caliman
Agrícola (44% da produção exportada), Gaia
(29%), Indaiá (9%), Euroconte (4%), Mandharins (4%), Brasfruit
(5%) e Agra (5%), responsável pela exportação
de 12,36 mil toneladas, de maio a dezembro de 2001, conseguiu ainda
obter recursos para realizar uma pesquisa de limites máximos
de resíduos (LMRs).
O estudo, que será feito em parceria com o governo federal,
universidades, institutos de pesquisa, como o Ipes, e multinacionais
produtoras de defensivos agrícolas, começa no próximo
mês e vai até fevereiro de 2003. Nele, foram investidos
US$ 800 mil, sendo 75% financiados por empresas estrangeiras, 20%
provenientes da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e 5%
da Brapex.
Experiências como a de
Linhares buscam atingir mercados nos quais as políticas ambientais
exigem o uso de madeira reflorestada ou, como no caso do mercado
norte-americano, com uma demanda significativa por móveis
mais robustos, de madeira maciça, afirma o economista.
Não por acaso, tanto a Movelar como a Rimo, que hoje vendem
95% de seus produtos para a região Sudeste, querem ampliar
suas exportações. No caso da Movelar, somente 1,5%
da produção segue para o mercado externo, sobretudo
para países do Mercosul, América Central e Oriente
Médio. Domingos Rigoni não revela qual o percentual
que pretende atingir, mas aumentou o número de representantes
e vai participar, em 2002, de quatro feiras internacionais.
Já a meta da Rimo, no que se refere a comércio exterior,
é mais ousada. A empresa, de acordo com o diretor Jonilson
Suave, quer saltar dos atuais 3% para 20% até 2005. Os principais
clientes são Uruguai, Guatemala e México, mas o mercado
cobiçado pela empresa é o dos EUA. Para
chegar a esse ponto, a fábrica vai
passar por uma expansão de suas instalações
até o próximo ano, o que deve gerar 90 novos empregos,
além dos 230 atuais. (L.A.)
Setor espera crescer 50% nos próximos
anos
O Espírito Santo é
considerado o maior pólo siderúrgico do mundo em peso,
com movimentação de 35 milhões de toneladas
de pelotas ao ano. A informação parte do presidente
do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material
Elétrico do Estado (Sindifer), César Daher Carneiro,
que espera um aumento de 50% no setor metalmecânico nos próximos
anos.
O segmento, formado por 1.450 empresas e com um quadro de pessoal
em torno de 50 mil metalúrgicos, vive a expectativa da implantação
do Laminador de Tiras a Quente (LTQ) da CST. Além de possibilitar
o crescimento das empresas existentes, acredita-se que a produção
poderá atrair novos empreendimentos, ligados a fabricação
de eletrodomésticos, latões, rodas de carros, botijas
de gás, entre outras. Atualmente, segundo Daher Carneiro,
somente 20% da produção corresponde aos produtos acabados
nesse setor.
A principal indústria de acabados é a Belgo
Mineira, responsável pela confecção de 800
mil toneladas de laminados, mantendo inclusive duas fábricas
dentro de sua área destinadas a fabricação
de perfis galvanizados e containeres, relata o presidente
do Sindifer.
Uma dificuldade enfrentada pelos 80% do mercado é a sazonalidade.
As empresas ficam atreladas aos investimentos, à ampliação
de plantas industriais em solo capixaba. É também
uma atividade que exige qualificação profissional,
uma vez que atende prioritariamente indústrias de grande
porte.
É um segmento que deveria ser olhado com maior cuidado
pelo governo. Um desafio é buscar não só a
qualificação empresarial e tecnológica, mas
ainda de mão-de-obra, acredita o economista Orlando
Caliman.
Dados do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico
(CDMEC) davam conta que até o ano de 2000 o segmento movimentaria
R$ 200 milhões, participando com 10% da produção
nacional.
O trabalho do centro é justamente reduzir a instabilidade
a que ficam sujeitas essas empresas, procurando estabelecer um elo
entre as indústrias siderúrgicas e de minério,
concientizando-as da importância de se priorizar os fornecedores
locais. Nos argumentos lançados pelo CDMEC estão os
projetos de treinamento e a crescente capacitação
nesses empreendimentos.
Os principais clientes do segmento estão localizados nas
áreas de mineração, siderurgia, papel e celulose,
portuária, setor elétrico, saneamento básico,
petróleo e gás, e ainda na construção
civil. Entre eles destacam-se Aracruz Celulose, Companhia Siderúrgica
Belgo Mineira, CST, Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Escelsa,
Flexibrás, Cesan, Chocolates Garoto, Samarco, Telemar, Petrobras
e Carboindustrial Carboderivados.
Guilherme Pereira, diretor presidente do Instituto de Apoio à
Pesquisa e ao Desenvolvimento Jones dos Santos Neves (Ipes), chama
a atenção ainda para o avanço desse setor no
que se refere ao desenvolvimento de tecnologia e equipamentos, destinados
à produção de rochas ornamentais.
O principal fornecedor mundial de equipamentos ainda é
a Itália e, depois dela, o Espírito Santo, que confecciona
máquinas para o Brasil inteiro e fabrica também itens
para vários países, inclusive da Europa, frisa
Pereira.
Com o laminador de tiras a quente, a CST avança um
pouco mais na direção de um produto final e a sua
ligação com a economia local, estimulando
indiretamente a instalação de empresas que venham
a usar esse produto, acrescenta.
Com o laminador de tiras a
quente, a CST avança um pouco mais na direção
de um produto final e a sua ligação com a economia
local, estimulando
indiretamente a instalação de empresas que venham
a usar esse produto, acrescenta.
Já estamos observando um crescimento significativo
na área. Prova disso é a dificuldade de se encontrar
galpões na região do Civit (bairro da Serra). Acho
que esse incremento do setor vai causar um impacto na Serra, que
deve se transformar, em pouco tempo, no maior município do
Estado, estima César Daher Carneiro, do Sindifer.
As projeções podem parecer exageradas, mas foi a Serra
quem mais cresceu em população com a implantação
dos chamados grandes projetos, especialmente na década de
70. De pouco mais de 9 mil habitantes, o município teve um
acréscimo de 378%, passando para 322,5 mil moradores em três
décadas, um aumento difícil de ser contornado pelo
poder público, que se vê cercado com problemas de infra-estrutura,
segurança, saúde e educação. (L.A.)
O segmento de confecções
não ultrapassa os 5% do PIB estadual, mas demonstra, na prática,
que estatísticas nem sempre refletem as possibilidades de
crescimento. Se na riqueza do Estado o número não
chega a surpreender, na geração de emprego ele tem
um peso expressivo, perdendo apenas para a construção
civil, o maior empregador regional, com mais de 60 mil postos de
trabalho.
Os dois pólos industriais do Espírito Santo, em Colatina
e Vila Velha, reúnem 80% das 1,6 mil empresas, sendo 900
delas formais. Para dar conta dos 70 milhões de peças
produzidas anualmente em território capixaba, o setor conta
com 23 mil trabalhadores e cria mais três mil postos de trabalho
na alta temporada (de agosto a dezembro).
As mulheres são o forte das confecções no Estado.
Cerca de 85% da mão-de-obra são do sexo feminino,
assim como 51% dos empresários e 70% dos consumidores em
todo o Brasil. Parece pouco ainda? O pólo de Colatina é
responsável por 22% dos empregos ofertados na cidade e possibilitou
o surgimento de 120 facções (serviço terceirizado
de corte, costura e outros) que hoje prestam serviço para
empresas locais e do eixo Rio-São Paulo.
Das 10 maiores empresas do Espírito Santo nesse ramo, sete
são da região noroeste, que abrange a região
de Colatina, entre elas os grupos Guermar, Merpa, Mimo, Uniroupas,
Fanny e Cherne. Na Grande Vitória, a maior é a Cobra
DÁgua.
Marcos Guerra, presidente do Sindicato das Indústrias de
Vestuário de Colatina (Sinvesco), e presidente do grupo Guermar,
que confecciona as marcas Presidium e Genius, destaca as dificuldades
do setor. Para ele, o principal problema reside na formação
da mão-de-obra. A forma encontrada pela Guermar foi
treinar, na prática, os seus 780 funcionários, sendo
a maioria residente no bairro Córrego DOuro, onde está
localizada a fábrica. O ideal seria que o mercado tivesse
oferta de profissionais qualificados.
Para o presidente do Sindicato das
Indústrias de Confecção do Espírito
Santo (Sinconfec) e proprietário da Cobra DÁgua,
Lucas Izoton, existe uma dificuldade que antecede o chamado chão
de fábrica.
Temos cerca de 700 empresas na informalidade. Nossa maior
preocupação hoje é capacitar o empresário.
Se ele não tiver uma visão gerencial, não saberá
nunca que prato mata a fome, ou seja, equivocadamente vai desprezar
o aprimoramento de seus próprios funcionários. O Cetecon
(Centro de Tecnologia da Indústria de Confecções)
é muito pouco acionado pelos empregadores. Mais de 80% da
categoria ignoram o serviço de consultoria, e o Cetecon acaba
prestando serviço para empresas de fora do Estado por falta
de interesse local, critica Lucas.
Um dos trabalhos junto ao setor será de conscientizar esses
micro e pequenos empresários, que representam 98% do segmento,
a sair da informalidade e a buscar treinamento profissional. A
legalidade é importante para o crescimento de qualquer atividade,
porque facilita a obtenção de matéria-prima,
de crédito e de fornecimento de serviço. A maioria
das empresas de confecção, mesmo as de grande porte,
começaram como facções, argumenta o presidente
do Sinconfec.
Não se pode negar a visão de futuro de alguns empresários
do ramo. Para conseguir um profissional mais qualificado, as indústrias
antes tinham que recorrer ao mercado nacional. Hoje, através
de uma troca de informações com instituições
de ensino, já existem três faculdades de moda no Estado
e o Centro Federal de Educação Tecnológica
do Espírito Santo (Cefet/ES) começa a oferecer vagas
para técnico em confecções. As ações
devem minimizar e, a médio e longo prazo, até acabar
com o problema da mão-de-obra não capacitada.
A despeito dos entraves, Izoton prevê um crescimento do setor.
O Espírito Santo detém apenas 1,7% do consumo
de roupas no país. Isso significa que temos um mercado 60
vezes maior no Brasil para explorar. As 50 maiores empresas do Estado
vendem 90% de sua produção para fora e achamos que
esse percentual pode ser infinitamente maior, ressalta.
O pólo de Santa Inês,
em Vila Velha, e as fábricas da Grande Vitória têm
uma produção diversificada, como sportware e surfware,
e destinada, em grande parte, ao comércio local, contra uma
média estadual de exportação para outros estados
na faixa de 65%. Já Colatina, trabalha com tecido plano (camisas
e calças) sob encomenda, sendo 80% de sua produção
destinada ao mercado nacional, principalmente São Paulo e
Rio. (L.A.)
Já se passaram 23 anos das primeiras sementes de mamão
papaya vindas do Havaí plantadas na fazenda em Canivete,
na região de Linhares, mas pode-se dizer que mudam os mercados,
mas as estratégias para atingi-los são as mesmas.
Ermando Caliman, ao chegar na Ceasa com as primeiras caixas da fruta,
em 1978, com o sócio Antenor Kuboyama, quase foi enxotado.
Diziam do papaya que era comida para porcos.
A experiência poderia ter terminado ali, mas na visão
dos fazendeiros as pessoas não compravam porque desconheciam
a fruta. Era preciso fazer um longo trabalho de conscientização
e, mais do que isso, de degustação, para convencer
os prováveis compradores das qualidades daquele mamãozinho.
A iniciativa simples resultou na expansão da produção
da fruta e, em menos de duas décadas, a Caliman Agrícola
virou sinônimo de papaya no mercado internacional.
Hoje, sete exportadores da espécie, reunidos na recém-criada
Associação Brasileira dos Exportadores de Papaya
com nome em inglês de Brapex (Brazilian Association of Papaya
Exporters) , sabem que para conquistar parte das 118 mil toneladas
que serão comercializadas até 2005, segundo estudo
da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO),
vai ser preciso investir pesado em marketing.
Roberto Paca, presidente da Brapex e proprietário da Agra,
lembra que a promoção da fruta brasileira no mercado
externo foi um dos motivos que levaram à criação
da entidade.
Esse relatório da FAO revela que as importações
de mamão papaya devem crescer 46% em todo o mundo. Os países
desenvolvidos representariam 56% e os em desenvolvimento, 44% dos
clientes, mas os EUA manteriam a posição de país
líder nas importações de papaya. Essas análises
só reforçam o nosso entendimento de que ações
de divulgação do papaya nacional são da maior
importância para ampliar a comercialização no
exterior, justifica Roberto Paca.
Ele lembra que 70% do papaya consumido na Europa saem do Brasil,
mas os EUA ainda compram muito mamão do México. É
preciso fazer um
trabalho mais intensivo junto ao
segmento americano, que também não faz contato com
empresas, mas
só com entidades, como a Brapex. Nesse aspecto, já
conseguimos uma vitória, afirma.
A associação, que reúne os produtores Caliman
Agrícola (44% da produção exportada), Gaia
(29%), Indaiá (9%), Euroconte (4%), Mandharins (4%), Brasfruit
(5%) e Agra (5%), responsável pela exportação
de 12,36 mil toneladas, de maio a dezembro de 2001, conseguiu ainda
obter recursos para realizar uma pesquisa de limites máximos
de resíduos (LMRs).
O estudo, que será feito em
parceria com o governo federal, universidades, institutos de pesquisa,
como o Ipes, e multinacionais produtoras de defensivos agrícolas,
começa no próximo mês e vai até fevereiro
de 2003. Nele, foram investidos US$ 800 mil, sendo 75% financiados
por empresas estrangeiras, 20% provenientes da Financiadora de Estudos
e Projetos (Finep) e 5% da Brapex.
Padrão de qualidade
Ermando Caliman abriu as portas para
a produção de mamão papaya no Estado, pesquisou
e, junto com seus quatro irmãos, chegou a um padrão
de qualidade da fruta para exportação, que hoje significa
mais de oito mil toneladas anuais da produção da Caliman
Agrícola.
A experiência e o planejamento levaram os irmãos a
perceber que era preciso aproveitar toda a produção,
descartada em parte por problemas de formato ou padrão, agregando
valor ao produto. A princípio, a Golden Fruit surgiu como
uma fábrica de polpas e hoje, com maquinário moderno,
trabalha somente com frutas processadas de forma asséptica,
que podem ser armazenadas, sem necessidade de congelamento, por
até dois anos.
O crescimento da Golden Fruit, com uma produção anual
de duas toneladas, levou Ermando Caliman a assumir essa parte do
negócio e deixar a Caliman Agrícola com o restante
da família. A Golden conquistou grandes clientes no setor
de laticínios, como a Vigor, Itambé e Batávia,
sorvetes (distribuindo para a Kibon), fabricantes de bebidas (entre
eles, a Sucos Mais), de biscoitos e planeja, em breve, exportar
seus produtos.
A empresa, instalada numa área de 250 mil metros quadrados,
na região de Pedra Azul, contrata até 60 funcionários,
dependendo da safra, e gera empregos indiretos na região,
através da compra de frutas de 60 produtores de morango,
mamão e manga. A Golden também adquire matéria-prima
de Minas Gerais (abacaxi), do Rio Grande do Sul, Santa Catarina
e Chile. Entre as frutas estão incluídos o pêssego,
a ameixa, a maçã e a banana.
A agroindústria tem provocado a diversificação
da fruticultura no Estado, que hoje já responde por 16% do
setor agrícola regional. Uma das empresas que estão
contribuindo para o incremento do setor, além da própria
Golden Fruit, é a Sucos Mais, que deve iniciar suas atividades
em março, na sede em Linhares.
Um dos indicadores do otimismo no setor pode ser percebido no aumento
de venda de tratores na região. A Pianna, que lidera a comercialização
desse tipo de maquinário no município, registrou um
aumento de 30% nas vendas de dois anos para cá. A média
mensal de tratores saltou de nove para 14 máquinas, garantindo
um faturamento de R$ 700 mil ao mês.
Atribuímos esse crescimento
à diversificação da fruticultura. Tem produtores
deixando a monocultura e investindo na variedade de frutas, muito
em função da instalação da fábrica
Sucos Mais na cidade, afirma o gerente da empresa, Roberto
Carlos de Souza Santos.
Outro representante de vendas de maquinários para o campo,
em segundo lugar no ranking municipal, a Ceolin Tratores viu seu
movimento anual saltar dos R$ 1,5 milhão, em 1998, para o
dobro, no ano passado. O gerente comercial, Hilderlande Lopes, relatou
que a vendagem passou de 40 para 100 máquinas anuais e atrelou
o resultado à perspectiva de desenvolvimento da fruticultura
na região. (L.A.)
Degradação é
atribuída a clandestinos
O setor de mármore e granito
representa hoje 50% da produção nacional. Acusado
de provocar depredação ambiental e excesso de acidentes
de trabalho, representantes da categoria garantem que a mentalidade
do empresário está mudando e atribui aos clandestinos
a ação predatória.
Responsável por 6% do PIB estadual, com um faturamento médio
de R$ 2 bilhões ao ano e produção em torno
de 1,4 milhão de metros quadrados de chapas ao mês,
o segmento emprega ainda 35 mil trabalhadores, sendo 15 mil indiretos,
e se colocou com uma tábua de salvação para
o sul do Estado, que teve sua economia esvaziada nos últimos
anos.
A erradicação do café, na década de
60, e a industrialização dos anos seguintes, com a
entrada dos grandes projetos no Estado, causaram um fluxo populacional
de 96% em direção à região metropolitana.
Como conseqüência, o interior sofreu uma retração,
passando de 85,25% para 53,94% em número de habitantes entre
os anos 60 e 2000.
A concentração de investimentos na Grande Vitória
provocou também o encolhimento da participação
das macrorregiões no PIB do Espírito Santo. O norte
registrou uma queda de quase 10%, em 28 anos, e o sul, que participava
com 16,06% da riqueza do Estado, diminuiu, chegando a 11,45% no
mesmo período.
Essa última região perdeu muito mais do que alguns
pontos percentuais. Já não conta com o pólo
de confecções, nem grandes empresas como Itapemirim
e a Calçados Itapuã e hoje tem 70% de sua economia
dependentes do setor de rochas. Outros municípios, como Mimoso
do Sul, com 46% de sua participação tributária
gerada pelo setor, estão atrelados à produção
de mármore e granito. No norte do Espírito Santo,
São Gabriel da Palha, Pancas e Ecoporanga também têm
suas bases econômicas ligadas a essa atividade.
Das 1,3 mil empresas do segmento em todo o Espírito Santo,
450 são de extração, 300 na área de
serraria e 550 trabalham com polimento e outras atividades.
O vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Rochas Ornamentais,
Cal e Calcário do Espírito Santo, José Luiz
Daros, diz que o crescimento do setor (numa média de 20 a
30% ao ano) foi muito rápido e de maneira desorganizada,
o que explica, em parte, os problemas de ordem ambiental e trabalhista.
Existem atualmente dois tipos de empresários: os que
atual formalmente, com registro, pagando impostos, cumprindo programas,
como estudo de impacto ambiental e reflorestamento de área.
Mas tem ainda muitas empresas que surgem da noite para o dia, que
trabalham na ilegalidade e contratam pessoas sem qualificação
e sem carteira assinada. Cabe ao governo fiscalizar e impedir a
atuação desses aventureiros, que só prejudicam
a categoria, afirma Daros.
Ele também critica o governo, alegando que não há
qualquer política de desenvolvimento para o setor. Hoje,
depois da China, somos a pedra no sapato dos italianos. Já
solicitamos a confecção conjunta de um planejamento
até 2015 para o segmento, abordando as dificuldades e apontando
saídas. É preciso investir na exportação
para alavancar o crescimento da atividade, mas não temos
no Espírito Santo sequer rota marítima, somos obrigados
a embarcar pelo Rio ou São Paulo, diz o vice-presidente
do Sindirochas.
O Estado tem empresas que são referência mundial nessa
atividade, como a Granasa, na região norte, e está
saindo da condição de mero exportador de rochas e
caminha em direção ao produto final. No ano passado,
pela primeira vez o percentual de exportação de material
acabado foi superior ao bruto 53% contra 47%.
Daros atribui o feito ao trabalho de capacitação dos
empresários e trabalhadores, mas sabe ainda tem muito a fazer.
O desenvolvimento de tecnologias e qualificação, no
que se refere à competitividade, é fundamental. Sabemos
da necessidade em se realizar pesquisas tecnológicas, mas
achamos que o governo deve contribuir ainda com a redução
da carga tributária atualmente desembolsamos perto
de 35% que nos faz perder campo para outros estados e oferecer
linhas de financiamento para a modernização do parque
industrial, reivindica. (L.A.)
Integração com Minas
Gerais, São Paulo e Rio, uma imposição
Parte 9 Economistas
O Espírito Santo representa 1,9% do PIB nacional. Na avaliação
do economista Orlando Caliman, o Estado sempre estará atrelado
a relações, seja com a economia brasileira ou com
o comércio exterior. Para que isso aconteça de forma
eficiente, é necessário desenvolver uma conexão
muito boa com o Sudeste, que significa 80% da comercialização
com outros estados. A perspectiva do crescimento econômico
local, seguindo essa linha de raciocínio, passa inevitavelmente
pela abertura de canais de comunicação com Minas,
São Paulo e Rio de Janeiro.
Temos alguns gargalos, como a estrutura ferroviária
e a BR-101. Resolvendo esses entraves, pode-se até aumentar
a capacidade produtiva para operar no Sudeste, ampliando o intercâmbio
com essa região, argumenta o economista.
Ele acredita ser possível transformar o Espírito Santo,
pela logística que tem, numa espécie de porta de entrada
e saída, de agregação de valor, como acontece
em Roterdã, na Holanda, e Antuérpia, na Bélgica.
São regiões portuárias, mas funcionam
como indústria portuária, ou seja, têm toda
uma atividade industrial ligada ao porto, que se conecta através
de canais, ou via uma logística de rodovia, ferrovia com
a Europa toda, explica.
Orlando Caliman diz ainda que com uma boa rodovia sul e estrutura
ferroviária que permitisse carregamentos fracionados para
São Paulo e Minas Gerais, o Estado daria um salto produtivo.
A ferrovia norte é excelente, uma das melhores do Brasil
e da América Latina, mas não é utilizada ainda
para atender o pequeno produtor de Baixo Guandu, ou de toda linha.
No lado sul, nossas ligações são todas por
caminhão, inclusive o mamão papaya para exportação
sai de Linhares rumo aos aeroportos do Rio ou São Paulo,
em container frigorificado. Enfim, é uma logística
cara, avalia.
Para esse tipo de transporte marítimo, ou mesmo conexões
com ferrovias e estradas, seria preciso investir numa logística
especializada, porque não dá para misturar minério
com fruta. Segundo o economista, o investimento para integrar
as malhas ferroviárias, rodoviárias e os portos é
relativamente pequeno.
É triste pensar que a União gastou mais de US$
1 bilhão no Porto de Pecém, no Ceará, e o Espírito
Santo luta há anos para conseguir dragar a baía de
Vitória a um custo de R$ 8 milhões e ainda não
conseguiu. Se você equipar um porto daqui para atendimento
do setor de fruticultura, poderia agregar toda a produção
do sul da Bahia, parte de Minas Gerais. O fato é que alguém
tem que começar. O setor privado só investe se tiver
a certeza de que vai ter a carga e como, às vezes, o investimento
é que atrai a carga, alguém tem que arcar com ele(*),
opina.
O economista Arlindo Villaschi Filho complementa, acrescentando
que a movimentação pelos portos do Espírito
Santo ainda está fortemente marcada por grandes volumes de
baixo valor. Dos quase 100 milhões de toneladas que passaram
por ano, em média, nos anos 90 pelas instalações
portuárias no Estado, aproximadamente 90% foram de granéis
sólidos, marcadamente minério de ferro e pellets de
minério.
O que se vê é um aglomerado de atividades econômicas
dinâmicas (inclusive porque atuam diretamente em mercados
internacionais altamente concorridos) que não pode ser caracterizado
como um arranjo produtivo articulado (interna ou externamente).
Existe um intenso processo de learning-by-interacting mas que não
tem ido além dos limites das empresas em suas articulações
com fornecedores e clientes, critica o pesquisador. (L.A.)
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