Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
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O JK do Cricaré


Centenário de Jones dos Santos Neves

O homem que via demais

Quem se debruçar sobre a história política e administrativa do Espírito Santo vai encontrar um dos personagens mais marcantes, moderno e revolucionário, só comparado ao ex-presidente Juscelino Kubtischek. Trata-se de Jones dos Santos Neves, interventor no Estado no governo de Getúlio Vargas, no período de 1943/45, depois eleito senador de 45 a 50 e governador de 1951/55. De acordo com o historiador Renato Pacheco, em seu livro Cartas selecionadas, ele completaria 100 anos de idade no dia 29 de dezembro passado, emplacando o título de maior governante que já passou pelo Palácio Anchieta, e que demarcou a história capixaba entre antes e depois dele. Jones, ainda segundo Pacheco, nasceu no dia 29 de dezembro de 1901, num casarão à margem do rio Cricaré, no município de São Mateus, norte do Estado. Morreu em 20 de de dezembro de 1973.
Jones começou a estudar aos 9 anos, quando foi enviado para a Bahia, de onde saíram seus pais. Aos 16 anos já cursava Medicina, no mesmo Estado, conforme a historiadora Arlette Cypreste, que dedicou um livro à vida dele, intitulado Um grande administrador. O professor universitário Justo Correa da Silva defendeu sua tese de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) descrevendo a trajetória política daquele governante, considerado por ele o mais moderno e de impressionante visão do futuro que já passou pelo Espírito Santo. O professor lembra um pronunciamento de Jones, em Colatina, quando proferiu a sua mais célebre expressão: “Os galhos dos cafezais do Espírito Santo já são insuficientes para suportar o peso de nossa economia”.
Para o professor Justo Correa, com aquela expressão Jones fincava as raízes da transformação do Estado, tirando-o de uma economia totalmente agrícola e inserindo-o no processo industrial. A partir daquela iniciativa, o visionário Jones dos Santos Neves passou a montar uma nova estrutura governamental a fim de compatibilizá-la com seu programa de desenvolvimento, que tinha como pilares o setor energético, saneamento, produção e transportes. A professora universitária e cientista política Martha Zorzal lembra que o governador tinha o planejamento como meio imprescindível para ordenar e viabilizar sua ação administrativa, e ele defendia isso com o seguinte argumento: “Os novos tempos nos ensinam que o Estado é função das condições econômicas que predominam em sua organização social. Daí a necessidade imperiosa de fortalecer as suas forças econômicas e racionalizar a sua administração. Impõe-se o abandono das fórmulas românticas de uma direção sem objetivos nem bússola, pelo roteiro seguro da planificação realista”.
Foi em seu governo que se instituiu o Plano de Valorização Econômica do Estado, que lhe possibilitou rasgar o território capixaba com 150 quilômetros de estradas, tendo pavimentado 100 quilômetros com asfalto, quando o Brasil só tinha 2.500 quilômetros de estradas asfaltadas. A historiadora Arlette Cypreste conta que no plano hidrelétrico Jones planejou o aproveitamento do rio Santa Maria, concluindo a primeira parte dos três estágios para geração de energia elétrica. Para Martha Zorzal, um dos aspectos que chamam atenção no Plano de Valorização Econômica é sua justificativa não estar fundamentada em um diagnóstico da economia estadual, mas sim sobre os aspectos positivos e as vantagens do planejamento como técnica para alcançar objetivos a longo prazo.
Em sua perspectiva de transformar a economia estadual de agrícola em industrial, Jones se deu conta de que iria precisar de mão-de-obra especializada, e só existiam duas faculdades, uma de Direito e outra de Odontologia. Em razão disso, ele criou a Universidade do Espírito Santo, com a finalidade de produzir conhecimento técnico para operar o desenvolvimento industrial. Ainda como interventor no Estado, Jones deu início a dois planos de investimentos, um com a definição das obras do porto de Vitória e outro voltado para o saneamento, produção e transportes. Já no final de sua gestão como interventor, instituiu o Plano Estadual de Eletrificação. Para implementar essas metas ele cuidou do aparelhamento institucional do Estado e desmembrou a antiga Secretaria de Agricultura, Viação e Obras Públicas em duas.
Para o professor e historiador Renato Pacheco, a administração do governo de Jones dos Santos Neves, a partir de sua eleição em 1950, foi das mais produtivas que o Espírito Santo já experimentou. “De tudo cuidou, e pessoalmente o fez. Ficaram famosas suas cansativas visitas semanais ao canteiro de obras da represa de Rio Bonito”, onde deu início à construção da usina para produção de energia elétrica. É dele o aterro em que estão assentadas a avenida Beira-mar e a Esplanada Capixaba, no espaço central de Vitória. O sobrinho do governador, Luiz Guilherme Santos Neves, cita um trecho de uma carta enviada por Jones a Edgard Feitosa (colunista na época de “A Gazeta”), em 19/6/56, em que diz: “governo é coisa séria que diz respeito direto com o bem-estar e o destino da coletividade. Não se pode exercê-lo sem compenetração e sobriedade, discrição e respeito, severa compostura e alta dignidade”.
Luiz Guilherme observa ainda que Jones dos Santos Neves tinha capacidade de rever suas atitudes e de submetê-las ao crivo da ironia sem, todavia, descair para complacência de si mesmo. De sua malsucedida experiência de retorno à vida pública como candidato ao governo, em 1962, ele escreve a Álvaro Castello: “Não podia imaginar que partisse, novamente, a combater moinho de vento, em defesa de uma vaga e esquecida Dulcinéia”. Mais adiante, ele faz um “impensável mea-culpa”, segundo Guilherme: “Por outro lado, havia, no fundo do coração, o desejo ardente de ir à forra para levar a um amigo, no além, uma retardada mensagem de reparação”.
A cientista política Martha Zorzal escreve que os contornos mais gerais da política de desenvolvimento realizada por Jones estiveram fortemente marcados pela influência das correntes de pensamento que, na Europa e nos Estados Unidos, preconizaram o chamado Welfares State, como forma de relacionamento entre o Estado e a sociedade. Tal forma de relação demarca o estágio de desenvolvimento do modo de produção capitalista em que a industrialização e a forma monopolista de produção predominam na formação social.
A professora Martha Zorzal observou que ele tinha o estilo de governar com os olhos voltados para o que de mais moderno acontecia na Europa e nos Estados Unidos. Por outro lado, o professor Justo Correa lembra que certa vez Jones disse que não existe industrialização sem técnicos. Então ele cria a Escola Politécnica para formação de engenheiros. Depois, diz que não existe desenvolvimento sem cultura e arte, e cria a Escola de Música (ainda em funcionamento) e também a Faculdade de Belas Artes. Além disso, foram dele a instituição da Faculdade de Medicina e a demarcação de toda a área onde se encontra a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Justo Correa salienta ainda que todos os prédios públicos construídos durante o governo Jones tinham uma arquitetura moderna, citando entre eles o Colégio Estadual, que não precisa de luz elétrica para iluminar as salas de aula, uma vez que os corredores estão situados na parte externa do prédio. Lembrou também o antigo prédio da Faculdade de Engenharia e o Edifício das Repartições Públicas, o primeiro em Maruípe e o outro no centro da cidade, construídos sobre pilotis. “Ele antecipou Brasília”, sustenta Justo, informando que todos os grandes hospitais existentes no Espírito Santo foram erguidos em seu governo.
Jones dos Santos Neves dizia também que o lavrador não pode ser relegado a segundo plano, e instituiu em todos os municípios do Estado a Casa do Lavrador, que tinha por objetivo fornecer insumos ao homem do campo. No processo de organização do Estado, Jones criou as primeiras autarquias. E, para demonstrar que seu governo tinha preocupação também com o funcionalismo estadual, ele criou o Instituto de Aposentadoria e Pensões. Outra medida adotada foi a criação do Instituto de Bem-Estar Social (Ibes), mediante a construção do núcleo residencial Alda Santos Neves (nome da esposa), que tem formato arquitônico idêntico ao de Paris.
A historiadora Arlette Cypreste relata que Jones foi fundador e diretor do Banco do Espírito Santo (Banestes). Ela registra que em 1962, quando Santos Neves disputou novamente o Palácio Anchieta, sendo derrotado pelo prefeito de Guaçuí, Francisco Lacerda de Aguiar, uma senhora aproximou-se do candidato e disse estusiasmada: “Toda a minha família é oposicionista, mas eu lhe garanto, dou a minha palavra de fé: o meu voto é para o senhor, pelo muito que fez pelo nosso Estado”.
No livro Cartas selecionadas, conta-se que Jones dos Santos Neves não era um político por vocação. Em 1932, ele esteve ao lado das tropas getulistas enviadas contra os constitucionalistas de São Paulo. Em 1938, ele foi convidado pelo interventor no Estado, João Punaro Bley, para, juntamente com Mário Aristides Freire, fundar e dirigir o Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, hoje Banestes. Ele se saiu tão bem na função que mais tarde teve seu nome encaminhado, junto com Mário Freire e Américo Monjardim (então prefeito de Vitória), à aprecição de Getúlio Vargas para escolha do
sucessor do próprio Bley, que deixaria a interventoria para assumir a recém-criada Companhia Vale do Rio Doce. Getúlio, que não os conhecia, escolheu Jones por ser o mais jovem. Consta também que a escolha teve a influência de sua participação na resistência contra a Revolução Constitucionalista.
Em um pronunciamento na Assembléia Legislativa, em 31 de janeiro de 1951, Jones dos Santos Neves faria uma grave denúncia e previa, como ainda ocorre na política atual, uma “autofagia cruel”. Ele dizia: “O Espírito Santo carece de paz e anseia por trégua política que lhe permita retomar os caminhos ensolarados do seu progresso. Não é possível que persistamos, por mais tempo, nessa autofagia cruel, reminiscência primitiva talvez da tribo dos Maracajás, que habitavam estas plagas, e continuemos, como aqueles gatos selvagens, a nos estraçalhar uns aos outros. O governo que agora se inicia deseja, sinceramente, quebrar a flecha da paz e estabelecer, com amigos e adversários, um ameno condomínio de vontades e de inteligências, em benefício da coletividade”.
Apesar de passar à história como o melhor governador que o Espírito Santo já teve, Jones foi um dos mais caluniados por seus opositores e adversários. Na Assembléia, ele fora implacavelmente perseguido por um grupo de deputados, todos com excelente dom de oratória, estando entre eles Eurico Rezende, Clóvis Stenzel, Oswaldo Zanelo, Floriano Rubim, Anacleto Rizo e Custódio Tristão.

Amigo de Getúlio

Durante o período como interventor, Jones construiu uma sólida amizade política e pessoal com Getúlio Vargas, só interrompida com a morte do presidente, em agosto de 1954. Com a redemocratização do país, em 1945, Jones retomou seu trabalho no banco e filiou-se ao Partido Social Democrático (PSD), do general Eurico Gaspar Dutra, chefiado no Estado por Carlos Lindenberg. Depois de cumprir um mandato de senador, Santos Neves disputou em 1950 o cargo de governador, saindo-se vitorioso. Segundo o professor Renato Pacheco, Jones pretendeu retirar-se da vida pública e, mudando-se para o Rio de Janeiro, passou a dirigir o Banco Operador. Em 1962, ele cedeu aos apelos de correligionários e candidatou-se novamente ao governo, concorrendo com Francisco Lacerda de Aguiar, que teve o apoio de uma coligação que reunia a maioria dos partidos. Derrotado no pleito, desencantou-se da política e foi trabalhar na Ciec – Comércio e Indústria Engenharia Capichaba S.A., a firma dos filhos. Instado por um amigo a escrever suas memórias, respondeu com a cortante frase, repetindo Érico Veríssimo: “Perdi o interesse pelo personagem”.




Fevereiro /2001 - Nº24

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