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Centenário de Jones dos Santos
Neves
O homem que via demais
Quem se debruçar sobre a história
política e administrativa do Espírito Santo vai encontrar
um dos personagens mais marcantes, moderno e revolucionário,
só comparado ao ex-presidente Juscelino Kubtischek. Trata-se
de Jones dos Santos Neves, interventor no Estado no governo de Getúlio
Vargas, no período de 1943/45, depois eleito senador de 45
a 50 e governador de 1951/55. De acordo com o historiador Renato
Pacheco, em seu livro Cartas selecionadas, ele completaria 100 anos
de idade no dia 29 de dezembro passado, emplacando o título
de maior governante que já passou pelo Palácio Anchieta,
e que demarcou a história capixaba entre antes e depois dele.
Jones, ainda segundo Pacheco, nasceu no dia 29 de dezembro de 1901,
num casarão à margem do rio Cricaré, no município
de São Mateus, norte do Estado. Morreu em 20 de de dezembro
de 1973.
Jones começou a estudar aos 9 anos, quando foi enviado para
a Bahia, de onde saíram seus pais. Aos 16 anos já
cursava Medicina, no mesmo Estado, conforme a historiadora Arlette
Cypreste, que dedicou um livro à vida dele, intitulado Um
grande administrador. O professor universitário Justo Correa
da Silva defendeu sua tese de mestrado na Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG) descrevendo a trajetória política
daquele governante, considerado por ele o mais moderno e de impressionante
visão do futuro que já passou pelo Espírito
Santo. O professor lembra um pronunciamento de Jones, em Colatina,
quando proferiu a sua mais célebre expressão: Os
galhos dos cafezais do Espírito Santo já são
insuficientes para suportar o peso de nossa economia.
Para o professor Justo Correa, com aquela expressão Jones
fincava as raízes da transformação do Estado,
tirando-o de uma economia totalmente agrícola e inserindo-o
no processo industrial. A partir daquela iniciativa, o visionário
Jones dos Santos Neves passou a montar uma nova estrutura governamental
a fim de compatibilizá-la com seu programa de desenvolvimento,
que tinha como pilares o setor energético, saneamento, produção
e transportes. A professora universitária e cientista política
Martha Zorzal lembra que o governador tinha o planejamento como
meio imprescindível para ordenar e viabilizar sua ação
administrativa, e ele defendia isso com o seguinte argumento: Os
novos tempos nos ensinam que o Estado é função
das condições econômicas que predominam em sua
organização social. Daí a necessidade imperiosa
de fortalecer as suas forças econômicas e racionalizar
a sua administração. Impõe-se o abandono das
fórmulas românticas de uma direção sem
objetivos nem bússola, pelo roteiro seguro da planificação
realista.
Foi em seu governo que se instituiu o Plano de Valorização
Econômica do Estado, que lhe possibilitou rasgar o território
capixaba com 150 quilômetros de estradas, tendo pavimentado
100 quilômetros com asfalto, quando o Brasil só tinha
2.500 quilômetros de estradas asfaltadas. A historiadora Arlette
Cypreste conta que no plano hidrelétrico Jones planejou o
aproveitamento do rio Santa Maria, concluindo a primeira parte dos
três estágios para geração de energia
elétrica. Para Martha Zorzal, um dos aspectos que chamam
atenção no Plano de Valorização Econômica
é sua justificativa não estar fundamentada em um diagnóstico
da economia estadual, mas sim sobre os aspectos positivos e as vantagens
do planejamento como técnica para alcançar objetivos
a longo prazo.
Em sua perspectiva de transformar a economia estadual de agrícola
em industrial, Jones se deu conta de que iria precisar de mão-de-obra
especializada, e só existiam duas faculdades, uma de Direito
e outra de Odontologia. Em razão disso, ele criou a Universidade
do Espírito Santo, com a finalidade de produzir conhecimento
técnico para operar o desenvolvimento industrial. Ainda como
interventor no Estado, Jones deu início a dois planos de
investimentos, um com a definição das obras do porto
de Vitória e outro voltado para o saneamento, produção
e transportes. Já no final de sua gestão como interventor,
instituiu o Plano Estadual de Eletrificação. Para
implementar essas metas ele cuidou do aparelhamento institucional
do Estado e desmembrou a antiga Secretaria de Agricultura, Viação
e Obras Públicas em duas.
Para o professor e historiador Renato Pacheco, a administração
do governo de Jones dos Santos Neves, a partir de sua eleição
em 1950, foi das mais produtivas que o Espírito Santo já
experimentou. De tudo cuidou, e pessoalmente o fez. Ficaram
famosas suas cansativas visitas semanais ao canteiro de obras da
represa de Rio Bonito, onde deu início à construção
da usina para produção de energia elétrica.
É dele o aterro em que estão assentadas a avenida
Beira-mar e a Esplanada Capixaba, no espaço central de Vitória.
O sobrinho do governador, Luiz Guilherme Santos Neves, cita um trecho
de uma carta enviada por Jones a Edgard Feitosa (colunista na época
de A Gazeta), em 19/6/56, em que diz: governo
é coisa séria que diz respeito direto com o bem-estar
e o destino da coletividade. Não se pode exercê-lo
sem compenetração e sobriedade, discrição
e respeito, severa compostura e alta dignidade.
Luiz Guilherme observa ainda que Jones dos Santos Neves tinha capacidade
de rever suas atitudes e de submetê-las ao crivo da ironia
sem, todavia, descair para complacência de si mesmo. De sua
malsucedida experiência de retorno à vida pública
como candidato ao governo, em 1962, ele escreve a Álvaro
Castello: Não podia imaginar que partisse, novamente,
a combater moinho de vento, em defesa de uma vaga e esquecida Dulcinéia.
Mais adiante, ele faz um impensável mea-culpa,
segundo Guilherme: Por outro lado, havia, no fundo do coração,
o desejo ardente de ir à forra para levar a um amigo, no
além, uma retardada mensagem de reparação.
A cientista política Martha Zorzal escreve que os contornos
mais gerais da política de desenvolvimento realizada por
Jones estiveram fortemente marcados pela influência das correntes
de pensamento que, na Europa e nos Estados Unidos, preconizaram
o chamado Welfares State, como forma de relacionamento entre o Estado
e a sociedade. Tal forma de relação demarca o estágio
de desenvolvimento do modo de produção capitalista
em que a industrialização e a forma monopolista de
produção predominam na formação social.
A professora Martha Zorzal observou que ele tinha o estilo de governar
com os olhos voltados para o que de mais moderno acontecia na Europa
e nos Estados Unidos. Por outro lado, o professor Justo Correa lembra
que certa vez Jones disse que não existe industrialização
sem técnicos. Então ele cria a Escola Politécnica
para formação de engenheiros. Depois, diz que não
existe desenvolvimento sem cultura e arte, e cria a Escola de Música
(ainda em funcionamento) e também a Faculdade de Belas Artes.
Além disso, foram dele a instituição da Faculdade
de Medicina e a demarcação de toda a área onde
se encontra a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Justo Correa salienta ainda que todos os prédios públicos
construídos durante o governo Jones tinham uma arquitetura
moderna, citando entre eles o Colégio Estadual, que não
precisa de luz elétrica para iluminar as salas de aula, uma
vez que os corredores estão situados na parte externa do
prédio. Lembrou também o antigo prédio da Faculdade
de Engenharia e o Edifício das Repartições
Públicas, o primeiro em Maruípe e o outro no centro
da cidade, construídos sobre pilotis. Ele antecipou
Brasília, sustenta Justo, informando que todos os grandes
hospitais existentes no Espírito Santo foram erguidos em
seu governo.
Jones dos Santos Neves dizia também que o lavrador não
pode ser relegado a segundo plano, e instituiu em todos os municípios
do Estado a Casa do Lavrador, que tinha por objetivo fornecer insumos
ao homem do campo. No processo de organização do Estado,
Jones criou as primeiras autarquias. E, para demonstrar que seu
governo tinha preocupação também com o funcionalismo
estadual, ele criou o Instituto de Aposentadoria e Pensões.
Outra medida adotada foi a criação do Instituto de
Bem-Estar Social (Ibes), mediante a construção do
núcleo residencial Alda Santos Neves (nome da esposa), que
tem formato arquitônico idêntico ao de Paris.
A historiadora Arlette Cypreste relata que Jones foi fundador e
diretor do Banco do Espírito Santo (Banestes). Ela registra
que em 1962, quando Santos Neves disputou novamente o Palácio
Anchieta, sendo derrotado pelo prefeito de Guaçuí,
Francisco Lacerda de Aguiar, uma senhora aproximou-se do candidato
e disse estusiasmada: Toda a minha família é
oposicionista, mas eu lhe garanto, dou a minha palavra de fé:
o meu voto é para o senhor, pelo muito que fez pelo nosso
Estado.
No livro Cartas selecionadas, conta-se que Jones dos Santos Neves
não era um político por vocação. Em
1932, ele esteve ao lado das tropas getulistas enviadas contra os
constitucionalistas de São Paulo. Em 1938, ele foi convidado
pelo interventor no Estado, João Punaro Bley, para, juntamente
com Mário Aristides Freire, fundar e dirigir o Banco de Crédito
Agrícola do Espírito Santo, hoje Banestes. Ele se
saiu tão bem na função que mais tarde teve
seu nome encaminhado, junto com Mário Freire e Américo
Monjardim (então prefeito de Vitória), à aprecição
de Getúlio Vargas para escolha do
sucessor do próprio Bley, que deixaria a interventoria para
assumir a recém-criada Companhia Vale do Rio Doce. Getúlio,
que não os conhecia, escolheu Jones por ser o mais jovem.
Consta também que a escolha teve a influência de sua
participação na resistência contra a Revolução
Constitucionalista.
Em um pronunciamento na Assembléia Legislativa, em 31 de
janeiro de 1951, Jones dos Santos Neves faria uma grave denúncia
e previa, como ainda ocorre na política atual, uma autofagia
cruel. Ele dizia: O Espírito Santo carece de
paz e anseia por trégua política que lhe permita retomar
os caminhos ensolarados do seu progresso. Não é possível
que persistamos, por mais tempo, nessa autofagia cruel, reminiscência
primitiva talvez da tribo dos Maracajás, que habitavam estas
plagas, e continuemos, como aqueles gatos selvagens, a nos estraçalhar
uns aos outros. O governo que agora se inicia deseja, sinceramente,
quebrar a flecha da paz e estabelecer, com amigos e adversários,
um ameno condomínio de vontades e de inteligências,
em benefício da coletividade.
Apesar de passar à história como o melhor governador
que o Espírito Santo já teve, Jones foi um dos mais
caluniados por seus opositores e adversários. Na Assembléia,
ele fora implacavelmente perseguido por um grupo de deputados, todos
com excelente dom de oratória, estando entre eles Eurico
Rezende, Clóvis Stenzel, Oswaldo Zanelo, Floriano Rubim,
Anacleto Rizo e Custódio Tristão.
Amigo de Getúlio
Durante o período como interventor,
Jones construiu uma sólida amizade política e pessoal
com Getúlio Vargas, só interrompida com a morte do
presidente, em agosto de 1954. Com a redemocratização
do país, em 1945, Jones retomou seu trabalho no banco e filiou-se
ao Partido Social Democrático (PSD), do general Eurico Gaspar
Dutra, chefiado no Estado por Carlos Lindenberg. Depois de cumprir
um mandato de senador, Santos Neves disputou em 1950 o cargo de
governador, saindo-se vitorioso. Segundo o professor Renato Pacheco,
Jones pretendeu retirar-se da vida pública e, mudando-se
para o Rio de Janeiro, passou a dirigir o Banco Operador. Em 1962,
ele cedeu aos apelos de correligionários e candidatou-se
novamente ao governo, concorrendo com Francisco Lacerda de Aguiar,
que teve o apoio de uma coligação que reunia a maioria
dos partidos. Derrotado no pleito, desencantou-se da política
e foi trabalhar na Ciec Comércio e Indústria
Engenharia Capichaba S.A., a firma dos filhos. Instado por um amigo
a escrever suas memórias, respondeu com a cortante frase,
repetindo Érico Veríssimo: Perdi o interesse
pelo personagem.
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