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Conceição
da Barra
NASCIDA DE UM BEIJO
Por trás de
tanta simplicidade,
uma beleza que pode
ser encontrada em todos os recantos do município.
Flávia Fernandes
Fotos: Ricardo Medeiros
Esqueça os sapatos e o traje
social. Troque tudo por um lugar ao sol e aproveite para conhecer
pessoas de diferentes partes. Talvez seja essa a receita de Conceição
da Barra, situada ao norte do Estado. Muitos são os adjetivos
para a cidade que, segundo uma lenda, nasceu de um beijo ardente
entre o mar e o rio Cricaré. A comprovação
do beijo se dá ao final da Bugia, região que apesar
dos desastres naturais ocorridos, com casas sendo levadas pelo mar,
ainda guarda um encanto e garante o sustento de pescadores de siri
e de variados peixes.
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Se o sol estiver
muito forte, sorria para ele. O calor só faz as pessoas
se aproximarem mais e, quem vem de fora, é logo bem recebido
pelos nativos, sempre tão hospitaleiros.A descoberta
da receptividade transformou as ruas de Conceição
da Barra, onde não há dificuldades para se encontrar
hotéis e pousadas. Se não houver mais vagas, apele
para o aluguel de uma casa, hábito local muito comum
durante o verão. |
| Estabelecida a estadia,
saia pelas ruas e perceba a beleza da cidade escondida por trás
de tanta simplicidade. |
Além da Bugia, existem também
a Guaximdiba, o Pontal do Sul, Santana e Porto Grande, além
do bairro Cohab. A vida é tranqüila e o tempo demora
a passar. No cais do porto, às 17h30, o pôr-do-sol
é maravilhoso e, de tão colorido, dá vontade
de puxar uma rede e dormir ali mesmo na praça. A brisa proporciona
mais conforto e o barulho das águas acalma qualquer inquietação.
Conceição da Barra
é assim: uma cidade que conquista. É só passar
pelas ruas, puxar uma conversa e lá se vai assunto para o
resto do dia. No calçadão da praia, turistas se deliciam
ao som de músicas que embalam o Carnaval. O mar de água
morna e tom escuro pode ser perigoso para os desavisados, mas refresca
o calor do sol que insiste em brilhar. Na orla, o Caranguejão
é o point, servindo para encontros de diferentes tribos.
Se houver algum acontecimento na praia, a referência é
o Caranguejão. Na pracinha, a igrejinha de Nossa Senhora
da Conceição abençoa o local e mostra a religiosidade
do povo.
Pátria do folclore, Conceição da Barra traz
o ticumbi na virada do ano, o alardo no dia de São Sebastião,
o reis-de-boi no ciclo natalino e as pastorinhas no dia 6 de janeiro,
além do jongo e sua louvação a São Benedito.
Todas essas manifestações têm data certa e,
na dúvida, pergunte a qualquer nativo. Eles sabem e têm
orgulho de falar sobre o assunto. No Carnaval, Conceição
da Barra se destaca pela grande quantidade de shows e de trios elétricos
uma tradição copiada da Bahia. Mesmo assim,
o município virou referência nacional para os quatro
dias de folia.
A vida local se dá ao ritmo
das palmas, do pandeiro do ticumbi, na cantoria do alardo e no folclore
que o reis-de-boi apresenta. Tudo com o humor e criatividade só
lá encontrados. Os mais antigos não gostam da agitação
dos trios elétricos e, por isso, preferem seguir atrás
da banda Oliveira Filho, única atração antes
da chegada da axé-music. No desfile pelas ruas de paralelepípedo
e becos da cidade, a bandinha vai tocando marchinhas de carnaval,
com tarol, bumbo, saxofone, trombone e outros instrumentos que deixam
acesa a memória da nostalgia.
Durante a apresentação,
é comum os homens se vestirem de mulher e as fantasias são
planejadas com antecedência para que ninguém faça
feio. Em Conceição da Barra tem também o bloco
Pára-Rai, que atrai foliões de diversos pontos do
país. Nas janelas das casas, há briga para se poder
ver tamanha descontração. Público é
o que não falta para o desfile e, antes da concentração,
é comum parar em algum boteco para calibrar as energias.
Na lista dos mais procurados estão o Maresia e Caximbau.
Na rua Capitão Antero Faria, o Laboratório de seu
Altair é uma parada obrigatória. Ir a Conceição
da Barra e não experimentar uma das batidas lá fabricadas
é como ir à Itália e não comer pizza.
São 52 qualidades de cachaça e, delas, a mais pedida
é a batida de maracujá. O segredo das bebidas
ele levou. Meu filho foi aprendendo de rabo de olho e, por isso,
não perdemos a qualidade. Nosso público é fiel,
conta a viúva Lealdina Hilário Proféta, que
insiste no acento em seu sobrenome. A lembrança de seu Altair
machuca a senhora que, à primeira vista, parece aborrecida
com a reportagem mas, depois de alguma prosa, logo se põe
à vontade.
A saudade dos tempos da juventude
impera na cabeça de dona Lealdina, que ainda não se
acostumou com as mudanças de Conceição da Barra.
Tenho muita saudade de minha época. As festas religiosas
eram cem por cento. As diversões eram mais sociais e havia
mais respeito. Antes não era tudo tão embolado.
A mesma opinião é compartilhada por antigos moradores,
aqueles que ainda colocam cadeiras nas calçadas ao final
da tarde para observar o movimento das ruas. Anália Ferreira
Lemos, de 87 anos, acompanhou as mudanças da cidade que nasceu
de um beijo. Ela lembra das fartas pescas de siri na Bugia e da
antiga Serraria do Pai João, local onde seu marido trabalhou.
Na cidade já teve trem. Ele passava carregado de madeira
e ia até o porto. As crianças gostavam de pegar carona
nos vagões. Era um divertimento. Hoje a avenida por
onde passou o trem, a Aloízio Feu Smiderle, permanece longa
e tranqüila. Só os antigos se lembram do apito do trem.
O farol de Conceição
da Barra voltou ao seu lugar depois de ser deslocado pela força
do mar. Quem conheceu a cidade anteriormente fica assustado com
os estragos causados pela natureza. Ao olhar para as casinhas de
pescadores que estão próximas ao mar, fiquei me perguntando:
será que elas irão resistir? O mar parece querer invadir
porta adentro e, entre sua força e a pequena distância
das casinhas, está a coragem de um povo que não tem
para onde ir. Por isso, eles rezam e pedem que o mar não
atravesse.
Itaúnas rima com dunas e fica a 20 minutos da sede de Conceição
da
Barra, separada por uma estrada de terra. Berço do forró
pé-de-serra e venerada pelos mais jovens, o local já
virou point internacional. Não é difícil encontrar
turistas pelas ruas e há até quem já trocou
a terra natal pela vila. A francesa Evelyne Edith Gobira, depois
de passear pelas dunas e apreciar o mar da região, resolveu
comprar uma casa para desfrutar as belezas de Itaúnas. Não
modifiquei a característica da casa. Os nativos me pediram
para deixá-la da mesma forma porque é o ponto de referência
deles. A gente vem e vai embora e a simplicidade é que proporciona
a energia dessa região.
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A vila foi crescendo
ao sabor do turismo. Assim, há grande número de
pousadas e de estabelecimentos comerciais que acompanham o horário
biológico dos que vêm de fora (as lojas funcionam
aproximadamente até às 21h30). A última
pesquisa sobre o número de pousadas em Itaúnas
enumerava 56 e, segundo Simone Raquel Batista Ferreira, a paulista
dona da pousada Ticumbi, a maior parte dos turistas nacionais
vem, além do |
| próprio
Espírito Santo, de Minas Gerais e de São Paulo. |
Difícil é encontrar
grande número de pessoas nas ruas durante a tarde. Provavelmente
elas estão descansando porque a manhã foi de praia
e a noite sempre será do forró. Pode-se dizer que
o trio forró, praia e folclore formam o tripé de Itaúnas.
Uma lenda conta que as dunas surgiram devido à ira de São
Braz, que antes era o padroeiro da região. Depois que um
padre trocou a devoção para São Sebastião,
o santo protetor das doenças da garganta soprou uma tempestade
de vento para cima da vila, soterrando-a. Foi um castigo que proporcionou
uma das belezas do local e, até o início da década
de 90, ainda era possível observar telhados de casas e a
cruz da igreja misturados às montanhas de areia fina.
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Alguns turistas
não sabem dessa história e atravessam as dunas,
que separam o rio de águas escuras do bonito mar. Com
o vento, as dunas mudam todo ano e proporcionam sempre um novo
visual à vila. As diferenças são logo apontadas
por quem sempre visitou Itaúnas. |
| Antes não
havia ponte e a gente atravessava o rio de canoa. Antigamente,
a diversão era rolar pelas dunas e cair no rio. Aliás,
tomava-se mais banho de rio do que de mar, que era tido como
muito perigoso e, na praia, não havia quiosques,
lembra empolgada a bancária Mônica Ferreira de
Almeida, de 38 anos. |
Comparações não
faltam quanto às modificações em Itaúnas.
A vida noturna não era só em torno do forró,
existia um vídeo-bar em frente à pracinha da igreja,
e jornalistas, hippies e intelectuais gostavam de desbravar a região.
Durante essa época, o turista Irineu Goring estava presente.
Freqüento a vila há 23 anos porque gosto do sentimento
de liberdade daqui, da energia das dunas e das origens do folclore.
À cena atual juntaram-se famílias inteiras, com pais
passeando com os filhos. A fé em São Sebastião
faz o povo andar pelas ruas, no dia 20 de janeiro, quando se homenageia
o santo padroeiro e, por conseqüência, a cidade. Nessa
data, várias manifestações folclóricas
se apresentam em Itaúnas e seguir o ticumbi vira um passatempo.
Um casal se perdeu do grupo folclórico e ficou prestando
atenção ao barulho dos fogos de artifício,
para localizar o grupo. Como brincadeira de gato e rato, foi só
perguntar às crianças que logo o ticumbi foi encontrado.
Ele estava apenas sendo recebido na casa de um dos nativos, onde
se come e bebe com fartura.
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Em frente à
igreja de São Sebastião, uma multidão se
aglomera para assistir às diferentes manifestações
folclóricas. Muita gente sai correndo e tem medo dos
bichos encontrados no teatro do reis-de-boi. Mesmo dona Guina
da Conceição, de 52 anos, interrompe a entrevista
devido ao susto que tomou com o lobisomem. Brinco o reis-de-boi
há 32 anos mas morro de medo dos bichos, admite
entre uma e outra gostosa risada. As apresentações
folclóricas prosseguem e enchem os olhos de quem vem
de fora. É tanta riqueza de expressão que não
faltam fotógrafos, profissionais ou amadores, para registrar
o momento. |
Homens, mulheres e crianças,
de diferentes idades, mostram o folclore e a devoção.
Na torre da igreja de São Sebastião, mesmo a escada
íngreme não assusta o público que procura um
lugar na janela para ver a apresentação do reis-de-boi.
Da localidade de Braço do Rio, Mário Horácio,
de 13 anos, se diz orgulhoso da apresentação. Estou
aqui porque eu quero. Não foi minha mãe que me obrigou
a participar do reis-de-boi.
A vila, ao cair da noite, toma outras
formas. As ruas são escuras e, como não há
nenhum perigo de assalto, dá tempo de parar e olhar com calma
para o céu estrelado. Se a noite for de lua cheia, as dunas
viram um tapete para o lual. Itaúnas virou uma espécie
de marca para os mais jovens. É aquela vontade de mostrar
para outras pessoas o conhecimento da vila e, por isso, a intensa
compra de artesanato. São bolsas, camisas, pulseiras e grande
variedade de produtos que servem para divulgar as belezas naturais
da pequena vila de pescadores. Os preços são um pouquinho
fora dos padrões, mas nada que uma boa conversa não
resolva. Os nativos sabem negociar.
Nascido e criado em Itaúnas,
Mateus Santos, de 72 anos, observa o movimento dos turistas, sentado
na esquina da igreja de São Benedito. Para ele, a turistada
trouxe dinheiro para o local mas afastou um pouco o pessoal do interior.
Antigamente a festa de Itaúnas era muito boa porque
só tinha o nosso povo, o povo da roça, defende
com um pouco de ciúmes. Na casa de seu Mateus, sua mulher,
tia Aninha, conhecida benzedeira da vila, passa toda a energia positiva
do local. O curioso é que ela só benze em dias de
sol e dizem que é para não faltar luz no caminho de
quem está sendo protegido. A reza de tia Aninha é
conhecida dos turistas, já curou muitas pessoas e é
respeitada pelos nativos.
Forró bem rapidinho
Preste atenção aos
passos do forró de Itaúnas. De forma rápida,
os nativos vão levando as meninas para os quatro cantos do
salão. Seja no Buraco do Tatu ou no Forró de Itaúnas,
os dois bailes da região, não falta gente para aprender
o verdadeiro forró pé-de-serra. Os homens vestem calça
ou bermuda e, as meninas, como se tivessem estabelecido um uniforme
para a região, usam saia abaixo do umbigo e top, dispensando
as sandálias. Os pés descalços absorvem
a energia do local. Aqui eu só ando descalça,
garante a paulista Fernanda Bernardes, de 19 anos.
Ao calor do cipó-cravo, bebida
típica servida em copinhos feitos de bambu, os casais não
param de rodopiar. E, na rodinha que se forma em volta da pista
de dança, as meninas preferem a levada dos nativos. Eles
têm uma pegada melhor, explica a estudante mineira Ana
Luíza Rayo, de 22 anos. Explicações à
parte, a verdade é que as menininhas morrem de amores pelos
passos dos nativos, certificando uma certa preferência ao
arranjar seus pares. Uma regra é básica: entrou no
forró, tem que dançar. Não se recusa um pedido,
mesmo que não seja de um nativo.
Para comprovar que o forró
também serviu para divulgar Itaúnas, basta prestar
atenção na conversa do carioca Helênio dos Santos,
de 25 anos, com seus amigos. Encantado, ele descobriu a vila através
de um show de forró em sua cidade. Forrozeiro do Rio
já vem para Itaúnas. A galera daqui é mais
criativa para dançar, elogia. A banda ainda não
começou a tocar no Forró de Itaúnas mas a aglomeração
do lado de fora obriga a rápida abertura do local. Do lado
de fora mesmo, as pessoas já vão arrumando seus pares
e dançando no meio da rua. Ninguém tem hora para voltar
para casa porque, em Itáunas, não há lugar
para preocupação. Deve ser por isso que os nativos
realizam suas atividades bem devagar, tirando dessa observação
os rápidos passos do forró.
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Agarradinhos no
salão, Bartolomeu Trindade Alves, de 25 anos, e Andréia
Pinheiros, de 28 anos, chamam atenção. Não
tive dúvidas de que ele era nativo de Itaúnas.
Esperei o intervalo da música para conversar, e ele me
confirmou a preferência das turistas pelos nativos. Essa
é a verdade. Comigo mesmo isso aconteceu. Comecei a namorá-la
a partir do forró. |
| Como se tivesse
matado dois coelhos com uma só paulada, conversei com
a mineira de Belo Horizonte. A gente acabou se envolvendo
pela dança. Descobri Itaúnas fazendo aula de forró
em Belo Horizonte. O professor era daqui e tive curiosidade
de conhecer a vila, conta Andréia. Eles dançam,
em média, quatro horas por noite. Isso porque em Itaúnas
o forró só começa depois da meia-noite,
sem horário para terminar. |
Uma curiosidade: eles namoram apenas
no verão e, nem por isso, se afastaram durante um ano e meio
de namoro. Eita forró bom pra grudar!
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