Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
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Crônica
AS CIDADES E SUA GENTE

Conceição da Barra

NASCIDA DE UM BEIJO

Por trás de tanta simplicidade,
uma beleza que pode
ser encontrada em todos os recantos do município.

Flávia Fernandes
Fotos: Ricardo Medeiros

Esqueça os sapatos e o traje social. Troque tudo por um lugar ao sol e aproveite para conhecer pessoas de diferentes partes. Talvez seja essa a receita de Conceição da Barra, situada ao norte do Estado. Muitos são os adjetivos para a cidade que, segundo uma lenda, nasceu de um beijo ardente entre o mar e o rio Cricaré. A comprovação do beijo se dá ao final da Bugia, região que apesar dos desastres naturais ocorridos, com casas sendo levadas pelo mar, ainda guarda um encanto e garante o sustento de pescadores de siri e de variados peixes.

Se o sol estiver muito forte, sorria para ele. O calor só faz as pessoas se aproximarem mais e, quem vem de fora, é logo bem recebido pelos nativos, sempre tão hospitaleiros.A descoberta da receptividade transformou as ruas de Conceição da Barra, onde não há dificuldades para se encontrar hotéis e pousadas. Se não houver mais vagas, apele para o aluguel de uma casa, hábito local muito comum durante o verão.
Estabelecida a estadia, saia pelas ruas e perceba a beleza da cidade escondida por trás de tanta simplicidade.

Além da Bugia, existem também a Guaximdiba, o Pontal do Sul, Santana e Porto Grande, além do bairro Cohab. A vida é tranqüila e o tempo demora a passar. No cais do porto, às 17h30, o pôr-do-sol é maravilhoso e, de tão colorido, dá vontade de puxar uma rede e dormir ali mesmo na praça. A brisa proporciona mais conforto e o barulho das águas acalma qualquer inquietação.

Conceição da Barra é assim: uma cidade que conquista. É só passar pelas ruas, puxar uma conversa e lá se vai assunto para o resto do dia. No calçadão da praia, turistas se deliciam ao som de músicas que embalam o Carnaval. O mar de água morna e tom escuro pode ser perigoso para os desavisados, mas refresca o calor do sol que insiste em brilhar. Na orla, o Caranguejão é o point, servindo para encontros de diferentes tribos. Se houver algum acontecimento na praia, a referência é o Caranguejão. Na pracinha, a igrejinha de Nossa Senhora da Conceição abençoa o local e mostra a religiosidade do povo.

Pátria do folclore, Conceição da Barra traz o ticumbi na virada do ano, o alardo no dia de São Sebastião, o reis-de-boi no ciclo natalino e as pastorinhas no dia 6 de janeiro, além do jongo e sua louvação a São Benedito. Todas essas manifestações têm data certa e, na dúvida, pergunte a qualquer nativo. Eles sabem e têm orgulho de falar sobre o assunto. No Carnaval, Conceição da Barra se destaca pela grande quantidade de shows e de trios elétricos – uma tradição copiada da Bahia. Mesmo assim, o município virou referência nacional para os quatro dias de folia.

A vida local se dá ao ritmo das palmas, do pandeiro do ticumbi, na cantoria do alardo e no folclore que o reis-de-boi apresenta. Tudo com o humor e criatividade só lá encontrados. Os mais antigos não gostam da agitação dos trios elétricos e, por isso, preferem seguir atrás da banda Oliveira Filho, única atração antes da chegada da axé-music. No desfile pelas ruas de paralelepípedo e becos da cidade, a bandinha vai tocando marchinhas de carnaval, com tarol, bumbo, saxofone, trombone e outros instrumentos que deixam acesa a memória da nostalgia.

Durante a apresentação, é comum os homens se vestirem de mulher e as fantasias são planejadas com antecedência para que ninguém faça feio. Em Conceição da Barra tem também o bloco Pára-Rai, que atrai foliões de diversos pontos do país. Nas janelas das casas, há briga para se poder ver tamanha descontração. Público é o que não falta para o desfile e, antes da concentração, é comum parar em algum boteco para calibrar as energias. Na lista dos mais procurados estão o Maresia e Caximbau. Na rua Capitão Antero Faria, o Laboratório de seu Altair é uma parada obrigatória. Ir a Conceição da Barra e não experimentar uma das batidas lá fabricadas é como ir à Itália e não comer pizza. São 52 qualidades de cachaça e, delas, a mais pedida é a batida de maracujá. “O segredo das bebidas ele levou. Meu filho foi aprendendo de rabo de olho e, por isso, não perdemos a qualidade. Nosso público é fiel”, conta a viúva Lealdina Hilário Proféta, que insiste no acento em seu sobrenome. A lembrança de seu Altair machuca a senhora que, à primeira vista, parece aborrecida com a reportagem mas, depois de alguma prosa, logo se põe à vontade.

A saudade dos tempos da juventude impera na cabeça de dona Lealdina, que ainda não se acostumou com as mudanças de Conceição da Barra. “Tenho muita saudade de minha época. As festas religiosas eram cem por cento. As diversões eram mais sociais e havia mais respeito. Antes não era tudo tão embolado”. A mesma opinião é compartilhada por antigos moradores, aqueles que ainda colocam cadeiras nas calçadas ao final da tarde para observar o movimento das ruas. Anália Ferreira Lemos, de 87 anos, acompanhou as mudanças da cidade que nasceu de um beijo. Ela lembra das fartas pescas de siri na Bugia e da antiga Serraria do Pai João, local onde seu marido trabalhou. “Na cidade já teve trem. Ele passava carregado de madeira e ia até o porto. As crianças gostavam de pegar carona nos vagões. Era um divertimento”. Hoje a avenida por onde passou o trem, a Aloízio Feu Smiderle, permanece longa e tranqüila. Só os antigos se lembram do apito do trem.

O farol de Conceição da Barra voltou ao seu lugar depois de ser deslocado pela força do mar. Quem conheceu a cidade anteriormente fica assustado com os estragos causados pela natureza. Ao olhar para as casinhas de pescadores que estão próximas ao mar, fiquei me perguntando: será que elas irão resistir? O mar parece querer invadir porta adentro e, entre sua força e a pequena distância das casinhas, está a coragem de um povo que não tem para onde ir. Por isso, eles rezam e pedem que o mar não atravesse.
Itaúnas rima com dunas e fica a 20 minutos da sede de Conceição da
Barra, separada por uma estrada de terra. Berço do forró pé-de-serra e venerada pelos mais jovens, o local já virou point internacional. Não é difícil encontrar turistas pelas ruas e há até quem já trocou a terra natal pela vila. A francesa Evelyne Edith Gobira, depois de passear pelas dunas e apreciar o mar da região, resolveu comprar uma casa para desfrutar as belezas de Itaúnas. “Não modifiquei a característica da casa. Os nativos me pediram para deixá-la da mesma forma porque é o ponto de referência deles. A gente vem e vai embora e a simplicidade é que proporciona a energia dessa região”.

A vila foi crescendo ao sabor do turismo. Assim, há grande número de pousadas e de estabelecimentos comerciais que acompanham o horário biológico dos que vêm de fora (as lojas funcionam aproximadamente até às 21h30). A última pesquisa sobre o número de pousadas em Itaúnas enumerava 56 e, segundo Simone Raquel Batista Ferreira, a paulista dona da pousada Ticumbi, a maior parte dos turistas nacionais vem, além do
próprio Espírito Santo, de Minas Gerais e de São Paulo.

Difícil é encontrar grande número de pessoas nas ruas durante a tarde. Provavelmente elas estão descansando porque a manhã foi de praia e a noite sempre será do forró. Pode-se dizer que o trio forró, praia e folclore formam o tripé de Itaúnas. Uma lenda conta que as dunas surgiram devido à ira de São Braz, que antes era o padroeiro da região. Depois que um padre trocou a devoção para São Sebastião, o santo protetor das doenças da garganta soprou uma tempestade de vento para cima da vila, soterrando-a. Foi um castigo que proporcionou uma das belezas do local e, até o início da década de 90, ainda era possível observar telhados de casas e a cruz da igreja misturados às montanhas de areia fina.

Alguns turistas não sabem dessa história e atravessam as dunas, que separam o rio de águas escuras do bonito mar. Com o vento, as dunas mudam todo ano e proporcionam sempre um novo visual à vila. As diferenças são logo apontadas por quem sempre visitou Itaúnas.
“Antes não havia ponte e a gente atravessava o rio de canoa. Antigamente, a diversão era rolar pelas dunas e cair no rio. Aliás, tomava-se mais banho de rio do que de mar, que era tido como muito perigoso e, na praia, não havia quiosques”, lembra empolgada a bancária Mônica Ferreira de Almeida, de 38 anos.

Comparações não faltam quanto às modificações em Itaúnas. A vida noturna não era só em torno do forró, existia um vídeo-bar em frente à pracinha da igreja, e jornalistas, hippies e intelectuais gostavam de desbravar a região. Durante essa época, o turista Irineu Goring estava presente. “Freqüento a vila há 23 anos porque gosto do sentimento de liberdade daqui, da energia das dunas e das origens do folclore”. À cena atual juntaram-se famílias inteiras, com pais passeando com os filhos. A fé em São Sebastião faz o povo andar pelas ruas, no dia 20 de janeiro, quando se homenageia o santo padroeiro e, por conseqüência, a cidade. Nessa data, várias manifestações folclóricas se apresentam em Itaúnas e seguir o ticumbi vira um passatempo. Um casal se perdeu do grupo folclórico e ficou prestando atenção ao barulho dos fogos de artifício, para localizar o grupo. Como brincadeira de gato e rato, foi só perguntar às crianças que logo o ticumbi foi encontrado. Ele estava apenas sendo recebido na casa de um dos nativos, onde se come e bebe com fartura.

Em frente à igreja de São Sebastião, uma multidão se aglomera para assistir às diferentes manifestações folclóricas. Muita gente sai correndo e tem medo dos bichos encontrados no teatro do reis-de-boi. Mesmo dona Guina da Conceição, de 52 anos, interrompe a entrevista devido ao susto que tomou com o lobisomem. “Brinco o reis-de-boi há 32 anos mas morro de medo dos bichos”, admite entre uma e outra gostosa risada. As apresentações folclóricas prosseguem e enchem os olhos de quem vem de fora. É tanta riqueza de expressão que não faltam fotógrafos, profissionais ou amadores, para registrar o momento.

Homens, mulheres e crianças, de diferentes idades, mostram o folclore e a devoção. Na torre da igreja de São Sebastião, mesmo a escada íngreme não assusta o público que procura um lugar na janela para ver a apresentação do reis-de-boi. Da localidade de Braço do Rio, Mário Horácio, de 13 anos, se diz orgulhoso da apresentação. “Estou aqui porque eu quero. Não foi minha mãe que me obrigou a participar do reis-de-boi”.

A vila, ao cair da noite, toma outras formas. As ruas são escuras e, como não há nenhum perigo de assalto, dá tempo de parar e olhar com calma para o céu estrelado. Se a noite for de lua cheia, as dunas viram um tapete para o lual. Itaúnas virou uma espécie de marca para os mais jovens. É aquela vontade de mostrar para outras pessoas o conhecimento da vila e, por isso, a intensa compra de artesanato. São bolsas, camisas, pulseiras e grande variedade de produtos que servem para divulgar as belezas naturais da pequena vila de pescadores. Os preços são um pouquinho fora dos padrões, mas nada que uma boa conversa não resolva. Os nativos sabem negociar.

Nascido e criado em Itaúnas, Mateus Santos, de 72 anos, observa o movimento dos turistas, sentado na esquina da igreja de São Benedito. Para ele, a “turistada” trouxe dinheiro para o local mas afastou um pouco o pessoal do interior. “Antigamente a festa de Itaúnas era muito boa porque só tinha o nosso povo, o povo da roça”, defende com um pouco de ciúmes. Na casa de seu Mateus, sua mulher, tia Aninha, conhecida benzedeira da vila, passa toda a energia positiva do local. O curioso é que ela só benze em dias de sol e dizem que é para não faltar luz no caminho de quem está sendo protegido. A reza de tia Aninha é conhecida dos turistas, já curou muitas pessoas e é respeitada pelos nativos.

Forró bem rapidinho

Preste atenção aos passos do forró de Itaúnas. De forma rápida, os nativos vão levando as meninas para os quatro cantos do salão. Seja no Buraco do Tatu ou no Forró de Itaúnas, os dois bailes da região, não falta gente para aprender o verdadeiro forró pé-de-serra. Os homens vestem calça ou bermuda e, as meninas, como se tivessem estabelecido um uniforme para a região, usam saia abaixo do umbigo e top, dispensando as sandálias. “Os pés descalços absorvem a energia do local. Aqui eu só ando descalça”, garante a paulista Fernanda Bernardes, de 19 anos.

Ao calor do cipó-cravo, bebida típica servida em copinhos feitos de bambu, os casais não param de rodopiar. E, na rodinha que se forma em volta da pista de dança, as meninas preferem a levada dos nativos. “Eles têm uma pegada melhor”, explica a estudante mineira Ana Luíza Rayo, de 22 anos. Explicações à parte, a verdade é que as menininhas morrem de amores pelos passos dos nativos, certificando uma certa preferência ao arranjar seus pares. Uma regra é básica: entrou no forró, tem que dançar. Não se recusa um pedido, mesmo que não seja de um nativo.

Para comprovar que o forró também serviu para divulgar Itaúnas, basta prestar atenção na conversa do carioca Helênio dos Santos, de 25 anos, com seus amigos. Encantado, ele descobriu a vila através de um show de forró em sua cidade. “Forrozeiro do Rio já vem para Itaúnas. A galera daqui é mais criativa para dançar”, elogia. A banda ainda não começou a tocar no Forró de Itaúnas mas a aglomeração do lado de fora obriga a rápida abertura do local. Do lado de fora mesmo, as pessoas já vão arrumando seus pares e dançando no meio da rua. Ninguém tem hora para voltar para casa porque, em Itáunas, não há lugar para preocupação. Deve ser por isso que os nativos realizam suas atividades bem devagar, tirando dessa observação os rápidos passos do forró.

Agarradinhos no salão, Bartolomeu Trindade Alves, de 25 anos, e Andréia Pinheiros, de 28 anos, chamam atenção. Não tive dúvidas de que ele era nativo de Itaúnas. Esperei o intervalo da música para conversar, e ele me confirmou a preferência das turistas pelos nativos. “Essa é a verdade. Comigo mesmo isso aconteceu. Comecei a namorá-la a partir do forró”.
Como se tivesse matado dois coelhos com uma só paulada, conversei com a mineira de Belo Horizonte. “A gente acabou se envolvendo pela dança. Descobri Itaúnas fazendo aula de forró em Belo Horizonte. O professor era daqui e tive curiosidade de conhecer a vila”, conta Andréia. Eles dançam, em média, quatro horas por noite. Isso porque em Itaúnas o forró só começa depois da meia-noite, sem horário para terminar.

Uma curiosidade: eles namoram apenas no verão e, nem por isso, se afastaram durante um ano e meio de namoro. Eita forró bom pra grudar!

 

Fevereiro /2001 - Nº24

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