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Voluntariamente
cidadão

Adilson Vilaça
Fotos: Tadeu Bianconi
Nos idos de Platão (428-328
a.C.) o mundo conheceu um formidável paradoxo so-crático:
Ninguém é voluntariamente mau. Como não
pode?
À primeira vista, parece mesmo incabível que alguém
só faça o mal involuntariamente. Mas o diálogo
entre Sócrates e Cálicles, tecido por Platão
em Górgias, dá conta de desmontar o paradoxo, tintim
por tintim. Isso bem lá naqueles dias antes de Cristo ser
crucificado. Pois, então, ficou provado que ninguém
é voluntariamente mau...
Mas, em contraposição, seríamos todos voluntariamente
bons? A face do mundo prova que são poucos os tais voluntários.
São de uma confraria tão reduzida, e desprestigiada,
que nem sequer merecem pauta no vai-e-vem da acontecência
cotidiana. Quem lá quer saber dos bons? Os temas têm
de
nascer de raiz que problematize, daí a
procura e o registro de personagens que encarnem o mal, ou, no mínimo,
involun-tariamente sejam maus. Que, portanto, exponham a contradição
humana.
Assim é que se deu invenção ao Bip ato
de Busca Incansável do Problema. E se problema não
houver, que importa o cômodo fato? E se o fato, antes cômodo,
vira incômodo de quem o apura, por não problematizar,
não há notícia. Ou seja: neca de catibiribas
e adeus viola, como dizem lá nos noroestes. Pois não
é de famigerar o mundo um tão tormentoso pacto? É
por isso de isca que notícia ruim corre a três-coelhos...
E para que ninguém fique dúvido, arrisque-se: quem
já ouviu dizência de Pedro Gonçalves, o mote
de suas instâncias e circunstâncias, o movimental de
seus gestos, suas cheganças, suas grandartes e sua risaiada
proseira? Quem muito mumunhar, haverá de encontrar? Pois,
que: Pedro Gonçalves é anônimo de famas voadas.
Sua sabedoria desliterata só tem asas no local. Lá
onde todos sabem quem ele é.
Pedro Gonçalves
Para começo dos como-vais,
nem assim ele se chama. Gonçalves é um apelido
que vem desde meu bisavô. Nunca desconfiei o porquê.
Ipso na camaflugem ancestral, sem procedência de bula elucidante,
Pedro José Valério ficou Gonçalves, desde a
infância, que, puxando bem pela memória, tem calendário
de recordação em: Desde que me lembro.
Desde o dia que pode ser encontrável, datado e confirmado,
em ano que marcou vésperas da família se embrejeirar
naqueles confins. Estou perto de 76 anos, cheguei aqui com
meia dúzia; pois de antes já me chamavam Pedro Gonçalves.
Convencionemos: muito prazer eteceteretal.
A mata era um trem muito bom. A gente ia abrindo as picadas,
conhecendo a mata, na conversa com ela, que era o serviço.
Viemos das Minas. E o mundo que a gente conhecia era lá.
Sal, querosene, tecido, tudo de um pouco que era preciso, meu pai
buscava em Teófilo Otoni. Gastava passo em sete dias de viagem.
A prevenia tinha de ser feita antes das águas. Depois, era
ficar, vendo as cheias. A mata e a água, os bichos dentro.
E os bichos que vinham de chegar, à cata de poaia e couro
de queixada, estranharam a água.
Corria nas veias da região uma água salobre, imprestável
para a sede. Os mineiros que desabalavam para aqueles ninguém-sabe,
os capixabas que nem sabiam metro e meio do pertencimento que detinham
daquelas lonjuras lá se embicaram, mas cadê
a água doce? O rio Preto é que veio amenizar, quando
gulibado pelos pioneiros. Assim é que, enfim, em fins de
1949 brotou o povoado de Água Doce.
Naquele então, não tinha Norte no nome, não.
O adjetivo cardeal veio quando se fez a emancipação
de Barra de São Francisco, em maio de 1988. Tinha outra boa
água batizando cidade pelaí Brasil a dentro. Daí
o rabicho Norte, coisa igual que se fez à autonomia de Venda
Nova, no sul capixaba, que ganhou um acréscimo benvenuto
de Imigrante, distinguindo-a de sua xará cidade que fica
lá bem onde não sei onde, que o Brasil é muito
grande, e pouco é nosso mapa de sabedorias.
Porém, são as sabedorias em favor de Pedro Gonçalves
ou Valério, como despreferir o freguês. O
meu aprendido foi em caneta de cabo de enxada. Confessa-se,
calejado, pleno senhor de muitas analfabetias. Eu pensava
comigo: não quero o mesminho para meus filhos, para os filhos
dos vizinhos. Queria não. Mas quem, entre Minas Gerais
e Espírito Santo, que contestavam o território, que
impunham cartórios dos dois estados, polícias, coletorias,
quem deles iria fundar escola naqueles cafundós? Quem deles?
Ainda mais se diga, Água Doce (ainda sem Norte) mede 304
quilômetros de distância de Vitória. E a terra
da família de Pedro Valério fica depois do distrito
de Santo Agostinho, que por sua vez dista 19 quilômetros da
sede. De onde, no vaivém, é só espichar mais
quatro quilômetros e lá está o espalho da família
Gonçalves. Quem deles? Naqueles tempos, Minas Gerais? Nem
hoje. A escola na roça, para que os meninos aprendessem enxada
em cabo de caneta, era tão apenas uma visão que chocava
por debaixo do chapéu de Pedro José Gonçalves
Valério.
O visionário
Primeiro levei a mais velha
para estudar, em Minas. Daí ela voltou, bem nova, a Maria.
Porque em 1950 eu construí uma escolinha, e ela foi a primeira
professora. Estava inaugurado um grande testemunho, emboramente
sem fogos e matuto discurso, da vocação de Pedro Gonçalves
para a construção da cidadania. Ele e dona Irene Rosa
Valério tiveram 11 filhos. Nove professoras e dois
rapazes, que estudaram coisas da agronomia. Entre os cursos
de Letras e de História, com uma e outra só com magistério,
a família Gonçalves espalhou professoras no noroeste
capixaba.
Aqui bem perto tem a Elenice, que leciona na nossa escolinha;
e a Rosilene, que ensina lá em Santo Agostinho. Ambas
são formadas em História. Tinha a Gecilda, que
era professora em Barra de São Francisco, mas tem coisa de
ano e pouco, quando ia trabalhar, de motocicleta, sofreu um acidente
e morreu. Gecilda ainda estava na faculdade. A lembrança
de sua morte desapruma a conversa. Então, comovendo-se para
outros sentimentos, Pedro Gonçalves desvia-se para inovados
assuntos, que não filiais. O que me dá alegria
é que menino que estudou em minha escolinha hoje é
advogado, engenheiro. Eita! Que fazer o mundo é a melhor
fazenda!
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A fazenda tem 30
alqueires. Na vizinhança, no sobe-cabeceira, mora José
Tito, verdadeiramente documentado como José Leite da
Silva, um dos oito irmãos de Pedro. Tito foi tropeiro,
ainda hoje monta, porque tem 84 anos de muita saúde.
Conta que lá na propriedade do irmão tem uma aguada
muito boa. |
| Conta que descobriu
mina de água quase mineral, que encanou lá das
pirambeiras para serventia da casa. Que de outra mina, fez uma
condução até inventar um córrego
na mata que ele deixou voltar. Para sombrear a casa.
E vai declamando seu amor floral pela fauna das águas. |
Pois lá estava o que se vê encompridou-se até
jequitibá onde antes era um terreno ferido de erosão.
A mata é bem na cozinha da casa, suas árvores e borboletas
e pássaros espiam pela janela dona Irene coando café.
Era um cafezal fracassado, uma encosta feia. Eu fiquei com
saudade da mata, arranquei aquela raizada e a natureza fez o resto.
Não semeei nada; só deixei tudo quieto. A natureza
é boa. É só saber pelejar com ela.
Em suas pelejas, Pedro guiou a água para roda-dáguas,
monjolos, ralador, moinho e para todo canto que viu precisar sedento
da palavra água. Em 1952, eu instalei um gerador e
iluminei isso aqui. Foi uma maravilha. Nem bicho nem gente tinha
visto tanta luz de noite. Por tais proezas é que os
bichos não se alargam dos arredores da fazenda. Sofrês,
canários, sabiás, joãos-de-barro, puxa-sacos-de-fazendeiro
e até jacus emplumam vôos nas cercanias da casa. Caxixes
brincam de estripuliar nas árvores...
Tem bicho que vem se exilar
aqui. Eles sabem que a fazenda é amistosa. Na casa
da filha Oscalina, que é bem na beirada da igreja e da escola,
vive de salvo-conduto um macaco-suá. Ele tomou uns
tiros lá para os lados do garimpo. Aí veio se acoitar
aqui; e ficou acostumado a pegar banana da mão de minha neta.
Pedro Valério sabe que os garimpeiros, andarilhos, caçam
os bichos. Embora não faça fogo contra criatura indefesa,
ele também garimpa. Já até achei umas
pedrinhas bobas. E o que não procurava, achou também.
Outros achados
Foi numa loca, em garimpo pouco longe.
Foi quando Pedro Valério viu uns brilhares. Alumiou as gemas:
três pares de olhos, dois de pouco brilho. Moravam encavernados,
feito bicho. O homem era cego, a mãe era lesa e o filho bem
novinho. Levou o achado a tiracolo, para a fazenda. Instalou
os resgatados bem pertinho dos asseios de sua família, para
que labutassem de cuidá-los. Ficaram por aqui, dando
um trabalhão, que é a única bondade que tinham
para dar.
Depois de Adriano, os exilados tiveram
duas meninas: Salvina e Sabrina. Que foram crescendo fortemente,
enquanto os pais adoentavam-se mais. Então, o pouco brilho
do olhar do pai esgotou-se num ferrão de câncer. Mais
tarde, a mãe teve pioras sem volta, e, quem sabe, que tanta
dor sentiu o coração de Salvina, que ela, nos adolesceres,
teve de ser operada por duas vezes. Salvina se salvou, ficou
boa; mas atrasou-se nos estudos. Podia já freqüentar
faculdade, que nem o irmão. Mas cortar o coração
duas vezes não é fácil!
Adriano cursa Letras e é professor
em Barra de São Francisco. Sabrina se casou. Salvina estava
indo, nos dezembros que pontuaram esse proseio, fazer provas em
Governador Valadares. Mas e de Jussara, de quem nada se disse? Ah,
pois: Pai e mãe bebiam que nem gambás, e batiam
na menina. O pai era vaqueiro logali, para mais subindo. O
jeito de Pedro Valério foi ir trazendo o casal alcoólatra
para cada vez mais perto, até que também logrou cuidar
da menina. Jussara não foi tanto de estudos, gostava
de fazer coisa esforçada, valente para peso que nem homem.
Saiu de nossa família para casamento.
Nos 30 alqueires espalham-se em comunhão
nove famílias o casal Gonçalves, filhos e noras,
filhas e genros e dois meeiros. Os netos. Quem chega. O povo para
a reza, a meninada para escola. Elenice tem ensinado à criançada
a lição de aboiar o Boi-Pintadinho, que se perdeu
dos pastos das manifestações locais. Tinha coisa já
de bem anos que não se comemorava nem Boizinho, nem Mulinha,
nem Nega Maluca. Mas Elenice guardava tudo bem dobradinho em gomas,
passadinho, no arquivo-vivo de sua infância. Então,
fez. Para tamanho de miudagens, aprontou a farra: costura aqui,
amarra ali, cola acolá. E o folclore esparramou seus adereços
de risos de meninos e acodes de graúdos pelos quintais.
Entre hibiscos e colibris, o néctar
serenado pelo revôo do enxame. Uma folgazarra que só
encanto, bubuios de flashes para que nunca sejam esquecidos os flagrantes
do instantâneo. Sem contar que um dos meeiros na fazenda exilado
é o Mestre Geraldo Militão que se empoleira
na serra que já lhe é xará, onde é guardião
da preservância do Calango, do Caboclinho, da Dança
dos Nove e do Roubo da Bandeira e sem contar que a professora
Elenice inicia um pequeno museu para abrigo da história da
região, a fazenda merece desde logo tombamento. Porque lá
naquele tão longínquo desurbano, que nem notícias
problematizadas de cidade tinha, um homem cultivou o ensino humanista
de ser voluntariamente cidadão. Agora, ele, seu vôo,
já beirado a desanônimo.
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