Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
Principal
Arquivo
Expediente
Download
Fale Conosco
Seções
Fatos e Lendas do Sertão
De história e folclore
Livre Pensar
Crônica
CONTRADIÇÃO HUMANA

Voluntariamente cidadão

Adilson Vilaça
Fotos: Tadeu Bianconi

Nos idos de Platão (428-328 a.C.) o mundo conheceu um formidável paradoxo so-crático: “Ninguém é voluntariamente mau”. Como não pode?
À primeira vista, parece mesmo incabível que alguém só faça o mal involuntariamente. Mas o diálogo entre Sócrates e Cálicles, tecido por Platão em Górgias, dá conta de desmontar o paradoxo, tintim por tintim. Isso bem lá naqueles dias antes de Cristo ser crucificado. Pois, então, ficou provado que ninguém é voluntariamente mau...
Mas, em contraposição, seríamos todos voluntariamente bons? A face do mundo prova que são poucos os tais voluntários. São de uma confraria tão reduzida, e desprestigiada, que nem sequer merecem pauta no vai-e-vem da acontecência cotidiana. Quem lá quer saber dos bons? Os temas têm de
nascer de raiz que problematize, daí a
procura e o registro de personagens que encarnem o mal, ou, no mínimo, involun-tariamente sejam maus. Que, portanto, exponham a contradição humana.
Assim é que se deu invenção ao Bip – ato de Busca Incansável do Problema. E se problema não houver, que importa o cômodo fato? E se o fato, antes cômodo, vira incômodo de quem o apura, por não problematizar, não há notícia. Ou seja: neca de catibiribas e adeus viola, como dizem lá nos noroestes. Pois não é de famigerar o mundo um tão tormentoso pacto? É por isso de isca que notícia ruim corre a três-coelhos...
E para que ninguém fique dúvido, arrisque-se: quem já ouviu dizência de Pedro Gonçalves, o mote de suas instâncias e circunstâncias, o movimental de seus gestos, suas cheganças, suas grandartes e sua risaiada proseira? Quem muito mumunhar, haverá de encontrar? Pois, que: Pedro Gonçalves é anônimo de famas voadas. Sua sabedoria desliterata só tem asas no local. Lá onde todos sabem quem ele é.

Pedro Gonçalves

Para começo dos como-vais, nem assim ele se chama. “Gonçalves é um apelido que vem desde meu bisavô. Nunca desconfiei o porquê”. Ipso na camaflugem ancestral, sem procedência de bula elucidante, Pedro José Valério ficou Gonçalves, desde a infância, que, puxando bem pela memória, tem calendário de recordação em: “Desde que me lembro”. Desde o dia que pode ser encontrável, datado e confirmado, em ano que marcou vésperas da família se embrejeirar naqueles confins. “Estou perto de 76 anos, cheguei aqui com meia dúzia; pois de antes já me chamavam Pedro Gonçalves”. Convencionemos: muito prazer eteceteretal.
“A mata era um trem muito bom. A gente ia abrindo as picadas, conhecendo a mata, na conversa com ela, que era o serviço. Viemos das Minas. E o mundo que a gente conhecia era lá. Sal, querosene, tecido, tudo de um pouco que era preciso, meu pai buscava em Teófilo Otoni. Gastava passo em sete dias de viagem. A prevenia tinha de ser feita antes das águas. Depois, era ficar, vendo as cheias. A mata e a água, os bichos dentro”. E os bichos que vinham de chegar, à cata de poaia e couro de queixada, estranharam a água.


Corria nas veias da região uma água salobre, imprestável para a sede. Os mineiros que desabalavam para aqueles ninguém-sabe, os capixabas que nem sabiam metro e meio do pertencimento que detinham daquelas lonjuras – lá se embicaram, mas cadê a água doce? O rio Preto é que veio amenizar, quando gulibado pelos pioneiros. Assim é que, enfim, em fins de 1949 brotou o povoado de Água Doce.


Naquele então, não tinha Norte no nome, não. O adjetivo cardeal veio quando se fez a emancipação de Barra de São Francisco, em maio de 1988. Tinha outra boa água batizando cidade pelaí Brasil a dentro. Daí o rabicho Norte, coisa igual que se fez à autonomia de Venda Nova, no sul capixaba, que ganhou um acréscimo benvenuto de Imigrante, distinguindo-a de sua xará cidade que fica lá bem onde não sei onde, que o Brasil é muito grande, e pouco é nosso mapa de sabedorias.


Porém, são as sabedorias em favor de Pedro Gonçalves – ou Valério, como despreferir o freguês. “O meu aprendido foi em caneta de cabo de enxada”. Confessa-se, calejado, pleno senhor de muitas analfabetias. “Eu pensava comigo: não quero o mesminho para meus filhos, para os filhos dos vizinhos. Queria não”. Mas quem, entre Minas Gerais e Espírito Santo, que contestavam o território, que impunham cartórios dos dois estados, polícias, coletorias, quem deles iria fundar escola naqueles cafundós? Quem deles?


Ainda mais se diga, Água Doce (ainda sem Norte) mede 304 quilômetros de distância de Vitória. E a terra da família de Pedro Valério fica depois do distrito de Santo Agostinho, que por sua vez dista 19 quilômetros da sede. De onde, no vaivém, é só espichar mais quatro quilômetros e lá está o espalho da família Gonçalves. Quem deles? Naqueles tempos, Minas Gerais? Nem hoje. A escola na roça, para que os meninos aprendessem enxada em cabo de caneta, era tão apenas uma visão que chocava por debaixo do chapéu de Pedro José Gonçalves Valério.

O visionário

“Primeiro levei a mais velha para estudar, em Minas. Daí ela voltou, bem nova, a Maria. Porque em 1950 eu construí uma escolinha, e ela foi a primeira professora”. Estava inaugurado um grande testemunho, emboramente sem fogos e matuto discurso, da vocação de Pedro Gonçalves para a construção da cidadania. Ele e dona Irene Rosa Valério tiveram 11 filhos. “Nove professoras e dois rapazes, que estudaram coisas da agronomia”. Entre os cursos de Letras e de História, com uma e outra só com magistério, a família Gonçalves espalhou professoras no noroeste capixaba.
“Aqui bem perto tem a Elenice, que leciona na nossa escolinha; e a Rosilene, que ensina lá em Santo Agostinho”. Ambas são formadas em História. “Tinha a Gecilda, que era professora em Barra de São Francisco, mas tem coisa de ano e pouco, quando ia trabalhar, de motocicleta, sofreu um acidente e morreu”. Gecilda ainda estava na faculdade. A lembrança de sua morte desapruma a conversa. Então, comovendo-se para outros sentimentos, Pedro Gonçalves desvia-se para inovados assuntos, que não filiais. “O que me dá alegria é que menino que estudou em minha escolinha hoje é advogado, engenheiro”. Eita! Que fazer o mundo é a melhor fazenda!

A fazenda tem 30 alqueires. Na vizinhança, no sobe-cabeceira, mora José Tito, verdadeiramente documentado como José Leite da Silva, um dos oito irmãos de Pedro. “Tito foi tropeiro, ainda hoje monta, porque tem 84 anos de muita saúde”. Conta que lá na propriedade do irmão tem uma aguada muito boa.
Conta que descobriu mina de água quase mineral, que encanou lá das pirambeiras para serventia da casa. Que de outra mina, fez uma condução até inventar um córrego na mata que ele deixou voltar. “Para sombrear a casa”. E vai declamando seu amor floral pela fauna das águas.


Pois lá estava o que se vê –encompridou-se até jequitibá onde antes era um “terreno ferido de erosão”. A mata é bem na cozinha da casa, suas árvores e borboletas e pássaros espiam pela janela dona Irene coando café. “Era um cafezal fracassado, uma encosta feia. Eu fiquei com saudade da mata, arranquei aquela raizada e a natureza fez o resto. Não semeei nada; só deixei tudo quieto. A natureza é boa. É só saber pelejar com ela”.


Em suas pelejas, Pedro guiou a água para roda-d’águas, monjolos, ralador, moinho e para todo canto que viu precisar sedento da palavra água. “Em 1952, eu instalei um gerador e iluminei isso aqui. Foi uma maravilha. Nem bicho nem gente tinha visto tanta luz de noite”. Por tais proezas é que os bichos não se alargam dos arredores da fazenda. Sofrês, canários, sabiás, joãos-de-barro, puxa-sacos-de-fazendeiro e até jacus emplumam vôos nas cercanias da casa. Caxixes brincam de estripuliar nas árvores...

“Tem bicho que vem se exilar aqui. Eles sabem que a fazenda é amistosa”. Na casa da filha Oscalina, que é bem na beirada da igreja e da escola, vive de salvo-conduto um macaco-suá. “Ele tomou uns tiros lá para os lados do garimpo. Aí veio se acoitar aqui; e ficou acostumado a pegar banana da mão de minha neta”. Pedro Valério sabe que os garimpeiros, andarilhos, caçam os bichos. Embora não faça fogo contra criatura indefesa, ele também garimpa. “Já até achei umas pedrinhas bobas”. E o que não procurava, achou também.

Outros achados

Foi numa loca, em garimpo pouco longe. Foi quando Pedro Valério viu uns brilhares. Alumiou as gemas: três pares de olhos, dois de pouco brilho. “Moravam encavernados, feito bicho. O homem era cego, a mãe era lesa e o filho bem novinho”. Levou o achado a tiracolo, para a fazenda. Instalou os resgatados bem pertinho dos asseios de sua família, para que labutassem de cuidá-los. “Ficaram por aqui, dando um trabalhão, que é a única bondade que tinham para dar”.

Depois de Adriano, os exilados tiveram duas meninas: Salvina e Sabrina. Que foram crescendo fortemente, enquanto os pais adoentavam-se mais. Então, o pouco brilho do olhar do pai esgotou-se num ferrão de câncer. Mais tarde, a mãe teve pioras sem volta, e, quem sabe, que tanta dor sentiu o coração de Salvina, que ela, nos adolesceres, teve de ser operada por duas vezes. “Salvina se salvou, ficou boa; mas atrasou-se nos estudos. Podia já freqüentar faculdade, que nem o irmão. Mas cortar o coração duas vezes não é fácil!”

Adriano cursa Letras e é professor em Barra de São Francisco. Sabrina se casou. Salvina estava indo, nos dezembros que pontuaram esse proseio, fazer provas em Governador Valadares. Mas e de Jussara, de quem nada se disse? Ah, pois: “Pai e mãe bebiam que nem gambás, e batiam na menina. O pai era vaqueiro logali, para mais subindo”. O jeito de Pedro Valério foi ir trazendo o casal alcoólatra para cada vez mais perto, até que também logrou cuidar da menina. “Jussara não foi tanto de estudos, gostava de fazer coisa esforçada, valente para peso que nem homem. Saiu de nossa família para casamento”.

Nos 30 alqueires espalham-se em comunhão nove famílias – o casal Gonçalves, filhos e noras, filhas e genros e dois meeiros. Os netos. Quem chega. O povo para a reza, a meninada para escola. Elenice tem ensinado à criançada a lição de aboiar o Boi-Pintadinho, que se perdeu dos pastos das manifestações locais. Tinha coisa já de bem anos que não se comemorava nem Boizinho, nem Mulinha, nem Nega Maluca. Mas Elenice guardava tudo bem dobradinho em gomas, passadinho, no arquivo-vivo de sua infância. Então, fez. Para tamanho de miudagens, aprontou a farra: costura aqui, amarra ali, cola acolá. E o folclore esparramou seus adereços de risos de meninos e acodes de graúdos pelos quintais.

Entre hibiscos e colibris, o néctar serenado pelo revôo do enxame. Uma folgazarra que só encanto, bubuios de flashes para que nunca sejam esquecidos os flagrantes do instantâneo. Sem contar que um dos meeiros na fazenda exilado é o Mestre Geraldo Militão –que se empoleira na serra que já lhe é xará, onde é guardião da preservância do Calango, do Caboclinho, da Dança dos Nove e do Roubo da Bandeira – e sem contar que a professora Elenice inicia um pequeno museu para abrigo da história da região, a fazenda merece desde logo tombamento. Porque lá naquele tão longínquo desurbano, que nem notícias problematizadas de cidade tinha, um homem cultivou o ensino humanista de ser voluntariamente cidadão. Agora, ele, seu vôo, já beirado a desanônimo.

 

Fevereiro /2001 - Nº24

Clique Aqui e faça download da revista completa em PDF.
Século Diário
O Jornal do Espírito Santo na Internet.
Uma publicação M4 - Jornalismo, Fotografia e Fotojornalismo Ltda.

..


.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.



.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.