Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
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ESPORTE POR ESPORTE

Honra e glória do Santo Antônio

Rubens Gomes
Álvaro José Silva

Diante de mim, numa cadeira de rodas, está um homem que, dentre inúmeras outras coisas, foi um dos cartolas honestos do futebol capixaba. Talvez o mais honesto. Segundo aqueles que o conheceram de perto, esta honestidade ele levou pela vida afora, nas atividades profissionais e na política partidária. Chegou a custar-lhe, inclusive, várias prisões políticas após 1964, quando se instalou no Brasil uma ditadura militar que ele combateu por vários motivos. Mas principalmente por princípio.
Até pouco tempo atrás, Rubens José Vervloet Gomes era uma pessoa ativa. Um problema cerebral grave levou-o à mesa de cirurgia e, depois, à paraplegia. Hoje, sente enorme dificuldade em falar, às vezes necessitando de ajuda para ser entendido, e sua memória o trai seguidamente, sobretudo quando se trata de recordar datas. Está encurvado, não sorri e conserva apenas o traço inconfundível de uma personalidade forte, em certas ocasiões irascível, e que marcou sua vida de 80 anos completados no dia 23 de setembro do ano passado.

Santo Antônio

Este capixaba de Vitória, nascido em 1921, teve uma paixão esportiva bastante forte: o Santo Antônio Futebol Clube. Chegou à vida do clube, fundado em 1919, graças a amigos que já tinham vínculo com ele, como Ivan Garcia, Antônio Cruz e Lélio Peneaux, dentre outros. Lembra-se de que essa aproximação “foi acontecendo”, até se concretizar em atividade regular no ano de 1951.

Eleito presidente várias vezes – nem se lembra mais quantas nem em que anos –, e também presidente do Conselho Deliberativo, ele dirigiu o Santo Antônio na época áurea deste. Como em 1953, quando o time principal foi campeão capixaba com zero ponto perdido, um fato inédito no futebol brasileiro.

Daquele feito, mantém em casa um registro: um exemplar do jornal “O Diário” do fim de semana seguinte à decisão do segundo turno, e que traz dados quase definitivos do torneio. O time de Rubens Gomes sofreu apenas dois gols e marcou 22. Goleou o Caxias por 7 a 0 e o Rio Branco por 8 a 1. Teve o artilheiro do campeonato (o atacante Tom) e os dois goleiros menos vazados: Adjalma, que sofreu os dois gols e o reserva Carlinhos, que entrou numa única partida e não sofreu gols. Tinha, além disso, alguns dos melhores jogadores das décadas de 1940 e 1950 e da história do futebol do Espírito Santo em todos os tempos.


Nesta época, explica ele, o futebol era “quase amador”. Muitos jogadores trabalhavam em empresas ligadas a dirigentes e treinavam em horários determinados. Outros recebiam salários que chegavam a, no máximo, dois mínimos de então e que eram a base de pagamento. Este foi o caso de craques que fizeram a história do futebol capixaba, como o volante Francisco, o Chico, o atacante Ciro, além de Ilson Lima, Cecê, J. Pedro, Neide, La Greca, Lola, Celso e outros mais. Alguns, como o goleiro Adjalma, não ganhavam nada porque já trabalhavam fora (no caso deste, numa fábrica de sabão). Mas, depois de vitórias, levavam para casa o dinheiro do bicho dos jogadores que não necessitavam disso. Eles davam o dinheiro aos mais pobres.


Rubens recorda-se de que o grande adversário do Santo Antônio naquela época era o Rio Branco. Mas havia um fato curioso: “Nós sempre tínhamos dificuldade de ganhar do Vitória. Isso não tem explicação. São certos tabus do futebol”, acredita ele. Com os rio-branquenses era diferente. O Santo Antônio perdia, mas também ganhava, e bem. Além dos 8 a 1 de 1953, ainda conseguiu um 6 a 1 numa segunda partida de decisão de Campeonato Capixaba.

A sede que o clube teve no bairro que lhe dá o nome era um antigo grupo escolar. Os dirigentes, Rubens Gomes à frente, deram um terreno que possuíam e conseguiram o prédio da escola. “Fizemos muitas obras no local”, lembra-se o ex-presidente, e a sede começou a funcionar. Durante muito tempo, lá eram realizadas as domingueiras, bailes aos quais compareciam sócios e não sócios e que marcaram muito a vida no bairro. “O Santo Antônio tinha uma estrutura muito boa”, recorda-se ele.

O dinheiro para a sede e para o Estádio Rubens Gomes, este construído no bairro de Santa Inês, em Vila Velha, foi conseguido com contribuição de sócios e doações de admiradores. Rubens não diz isso, mas quem o conhece sabe que muitas dessas doações ele mesmo fez, às vezes contra a vontade da família e escondido desta. O estádio, por exemplo, foi erguido em um terreno comprado pela diretoria e graças à venda de 200 cadeiras cativas.

Quando o velho dirigente resolveu se retirar do futebol, em 1961, o Conselho Deliberativo do Santo Antônio, por unanimidade, colocou seu nome no portão de entrada. A denominação jamais foi mudada.

Rubens não deixou o futebol por desilusão ou coisa parecida. Da mesma forma como entrou, só porque alguns de seus amigos estavam lá, teve um motivo singelo para deixar a cena: “Descansei”, resume, com uma única palavra.

Ele acha que o Santo Antônio acabou “por falta de continuidade”, querendo dizer com isso que não havia mais dirigentes para continuar a sua obra e de outros abnegados. Foi coisa parecida. Além de um grande prejuízo em 1963, quando de um amistoso do Santos em Vitória, o clube viveu administrações catastróficas. Sumiu da velha sede até mesmo um piano de cauda que havia lá e abrilhantava as Domingueiras. Rubens não se recorda de quem o deu ao clube. Nem tem a menor idéia de quem o roubou. E mostra-se pouco interessado nisso: “Saudade, hoje não tenho mais, não. Passou...” Diz, antes de confirmar que entrou para o esporte por dois motivos: paixão pelo futebol e a amizade de muitas pessoas queridas.

Hoje, só acompanha o Fluminense, grande e antigo amor. Acha que o esporte de seu coração está muito diferente: “Antes ele tinha mais vida. Hoje, anda muito parado. As grandes emoções desapareceram. Mas o motivo não é o profissionalismo nem os grandes salários, porque futebol precisa de dinheiro”.

Muitas vidas

Mas quem é este homem que passou pelo futebol capixaba quase como um meteoro, deixando atrás de si a marca do talento e da honestidade para dirigir, num meio onde esses atributos são raros?

O filho do imigrante português José Joaquim Gomes e de dona Eugênia foi alto funcionário do Banco do Brasil (chegou a chefe de Cadastro), presidente regional da Caixa Econômica Federal em meados da década de 50, trabalhou também na empresa de representações M. Câmara & Cia e dirigiu no Espírito Santo o Sesc/Senac, sendo um dos introdutores destas instituições por aqui.

Além disso, tinha um imóvel no Centro e abriu lá uma escola porque precisava “dar ocupação ao prédio”. Fundou então o Colégio Brasileiro, que dirigiu a partir de 1966, quando saiu a autorização para funcionar, dada pelo MEC. E fez isso respaldado em um preparo acadêmico raro, pois tem nada menos que quatro cursos superiores, todos feitos no Espírito Santo: Direito, Economia, Administração de Empresas e Contabilidade. Hoje, a instituição se encontra arrendada ao NEO, pertencente aos donos do Darwin.

A passagem pelo Sesc/Senac, por sinal, é fruto de sua vida política. Getulista convicto, foi filiado durante muitos anos ao Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB. Tornou-se um dos melhores amigos de Fernando Ferrari, o gaúcho que era um dos líderes nacionais do partido e foi deputado federal pelo Rio de Janeiro. A seu pedido, Ferrari elaborou muitas leis que beneficiaram o Espírito Santo. Quando ele morreu, vitimado por um acidente aéreo, acabou virando nome da avenida que liga a Ponte da Passagem ao aeroporto de Vitória. Rubens Gomes, autor da iniciativa, achou que a homenagem era mais do que merecida.

A passagem pela política rendeu-lhe algumas candidaturas (como a prefeito de Vitória) e amizades que não mais esqueceu, além da de Ferrari. Como o vínculo de companheirismo com o médico comunista Aldemar de Oliveira Neves, histórico militante do PCB, o antigo partidão. Foram relacionamentos assim que lhe renderam algumas prisões, quando do regime militar instaurado em 1964, com a deposição do presidente João Goulart. “Me prendiam e soltavam. Prendiam e soltavam. Não lembro mais quantas vezes foi”, fala ele, com certa indiferença.

Separado da primeira mulher, Margarida Câmara, mãe de seus seis primeiros filhos, vive hoje com a segunda, Ângela, mãe da sétima e última filha e que cuida de suas necessidades no apartamento de Jardim da Penha. Lá, recebe raras visitas. Uma das mais freqüentes é a do mais fiel amigo que lhe restou, o dentista Thiers Pedro Bonacossa, além de outras coisas ex-goleiro do Santo Antônio.

Somente através dele e das traduções das falas quase inaudíveis, foi possível ouvir Rubens. E isto, em apenas parte do que este homem tem para contar sobre sua vida e a do Espírito Santo em grande parte do século XX.

 

Fevereiro /2001 - Nº24

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