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Honra e glória
do Santo Antônio

Rubens Gomes
Álvaro José Silva
Diante de mim, numa cadeira de rodas,
está um homem que, dentre inúmeras outras coisas,
foi um dos cartolas honestos do futebol capixaba. Talvez o mais
honesto. Segundo aqueles que o conheceram de perto, esta honestidade
ele levou pela vida afora, nas atividades profissionais e na política
partidária. Chegou a custar-lhe, inclusive, várias
prisões políticas após 1964, quando se instalou
no Brasil uma ditadura militar que ele combateu por vários
motivos. Mas principalmente por princípio.
Até pouco tempo atrás, Rubens José Vervloet
Gomes era uma pessoa ativa. Um problema cerebral grave levou-o à
mesa de cirurgia e, depois, à paraplegia. Hoje, sente enorme
dificuldade em falar, às vezes necessitando de ajuda para
ser entendido, e sua memória o trai seguidamente, sobretudo
quando se trata de recordar datas. Está encurvado, não
sorri e conserva apenas o traço inconfundível de uma
personalidade forte, em certas ocasiões irascível,
e que marcou sua vida de 80 anos completados no dia 23 de setembro
do ano passado.
Santo Antônio
Este capixaba de Vitória,
nascido em 1921, teve uma paixão esportiva bastante forte:
o Santo Antônio Futebol Clube. Chegou à vida do clube,
fundado em 1919, graças a amigos que já tinham vínculo
com ele, como Ivan Garcia, Antônio Cruz e Lélio Peneaux,
dentre outros. Lembra-se de que essa aproximação foi
acontecendo, até se concretizar em atividade regular
no ano de 1951.
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Eleito presidente
várias vezes nem se lembra mais quantas nem em
que anos , e também presidente do Conselho Deliberativo,
ele dirigiu o Santo Antônio na época áurea
deste. Como em 1953, quando o time principal foi campeão
capixaba com zero ponto perdido, um fato inédito no futebol
brasileiro. |
Daquele feito, mantém em casa
um registro: um exemplar do jornal O Diário do
fim de semana seguinte à decisão do segundo turno,
e que traz dados quase definitivos do torneio. O time de Rubens
Gomes sofreu apenas dois gols e marcou 22. Goleou o Caxias por 7
a 0 e o Rio Branco por 8 a 1. Teve o artilheiro do campeonato (o
atacante Tom) e os dois goleiros menos vazados: Adjalma, que sofreu
os dois gols e o reserva Carlinhos, que entrou numa única
partida e não sofreu gols. Tinha, além disso, alguns
dos melhores jogadores das décadas de 1940 e 1950 e da história
do futebol do Espírito Santo em todos os tempos.
Nesta época, explica ele, o futebol era quase amador.
Muitos jogadores trabalhavam em empresas ligadas a dirigentes e
treinavam em horários determinados. Outros recebiam salários
que chegavam a, no máximo, dois mínimos de então
e que eram a base de pagamento. Este foi o caso de craques que fizeram
a história do futebol capixaba, como o volante Francisco,
o Chico, o atacante Ciro, além de Ilson Lima, Cecê,
J. Pedro, Neide, La Greca, Lola, Celso e outros mais. Alguns, como
o goleiro Adjalma, não ganhavam nada porque já trabalhavam
fora (no caso deste, numa fábrica de sabão). Mas,
depois de vitórias, levavam para casa o dinheiro do bicho
dos jogadores que não necessitavam disso. Eles davam o dinheiro
aos mais pobres.
Rubens recorda-se de que o grande adversário do Santo Antônio
naquela época era o Rio Branco. Mas havia um fato curioso:
Nós sempre tínhamos dificuldade de ganhar do
Vitória. Isso não tem explicação. São
certos tabus do futebol, acredita ele. Com os rio-branquenses
era diferente. O Santo Antônio perdia, mas também ganhava,
e bem. Além dos 8 a 1 de 1953, ainda conseguiu um 6 a 1 numa
segunda partida de decisão de Campeonato Capixaba.
A sede que o clube teve no bairro
que lhe dá o nome era um antigo grupo escolar. Os dirigentes,
Rubens Gomes à frente, deram um terreno que possuíam
e conseguiram o prédio da escola. Fizemos muitas obras
no local, lembra-se o ex-presidente, e a sede começou
a funcionar. Durante muito tempo, lá eram realizadas as domingueiras,
bailes aos quais compareciam sócios e não sócios
e que marcaram muito a vida no bairro. O Santo Antônio
tinha uma estrutura muito boa, recorda-se ele.
O dinheiro para a sede e para o Estádio
Rubens Gomes, este construído no bairro de Santa Inês,
em Vila Velha, foi conseguido com contribuição de
sócios e doações de admiradores. Rubens não
diz isso, mas quem o conhece sabe que muitas dessas doações
ele mesmo fez, às vezes contra a vontade da família
e escondido desta. O estádio, por exemplo, foi erguido em
um terreno comprado pela diretoria e graças à venda
de 200 cadeiras cativas.
Quando o velho dirigente resolveu
se retirar do futebol, em 1961, o Conselho Deliberativo do Santo
Antônio, por unanimidade, colocou seu nome no portão
de entrada. A denominação jamais foi mudada.
Rubens não deixou o futebol
por desilusão ou coisa parecida. Da mesma forma como entrou,
só porque alguns de seus amigos estavam lá, teve um
motivo singelo para deixar a cena: Descansei, resume,
com uma única palavra.
Ele acha que o Santo Antônio
acabou por falta de continuidade, querendo dizer com
isso que não havia mais dirigentes para continuar a sua obra
e de outros abnegados. Foi coisa parecida. Além de um grande
prejuízo em 1963, quando de um amistoso do Santos em Vitória,
o clube viveu administrações catastróficas.
Sumiu da velha sede até mesmo um piano de cauda que havia
lá e abrilhantava as Domingueiras. Rubens não se recorda
de quem o deu ao clube. Nem tem a menor idéia de quem o roubou.
E mostra-se pouco interessado nisso: Saudade, hoje não
tenho mais, não. Passou... Diz, antes de confirmar
que entrou para o esporte por dois motivos: paixão pelo futebol
e a amizade de muitas pessoas queridas.
Hoje, só acompanha o Fluminense,
grande e antigo amor. Acha que o esporte de seu coração
está muito diferente: Antes ele tinha mais vida. Hoje,
anda muito parado. As grandes emoções desapareceram.
Mas o motivo não é o profissionalismo nem os grandes
salários, porque futebol precisa de dinheiro.
Muitas vidas
Mas quem é este homem que
passou pelo futebol capixaba quase como um meteoro, deixando atrás
de si a marca do talento e da honestidade para dirigir, num meio
onde esses atributos são raros?
O filho do imigrante português
José Joaquim Gomes e de dona Eugênia foi alto funcionário
do Banco do Brasil (chegou a chefe de Cadastro), presidente regional
da Caixa Econômica Federal em meados da década de 50,
trabalhou também na empresa de representações
M. Câmara & Cia e dirigiu no Espírito Santo o Sesc/Senac,
sendo um dos introdutores destas instituições por
aqui.
Além disso, tinha um imóvel
no Centro e abriu lá uma escola porque precisava dar
ocupação ao prédio. Fundou então
o Colégio Brasileiro, que dirigiu a partir de 1966, quando
saiu a autorização para funcionar, dada pelo MEC.
E fez isso respaldado em um preparo acadêmico raro, pois tem
nada menos que quatro cursos superiores, todos feitos no Espírito
Santo: Direito, Economia, Administração de Empresas
e Contabilidade. Hoje, a instituição se encontra arrendada
ao NEO, pertencente aos donos do Darwin.
A passagem pelo Sesc/Senac, por sinal,
é fruto de sua vida política. Getulista convicto,
foi filiado durante muitos anos ao Partido Trabalhista Brasileiro,
o PTB. Tornou-se um dos melhores amigos de Fernando Ferrari, o gaúcho
que era um dos líderes nacionais do partido e foi deputado
federal pelo Rio de Janeiro. A seu pedido, Ferrari elaborou muitas
leis que beneficiaram o Espírito Santo. Quando ele morreu,
vitimado por um acidente aéreo, acabou virando nome da avenida
que liga a Ponte da Passagem ao aeroporto de Vitória. Rubens
Gomes, autor da iniciativa, achou que a homenagem era mais do que
merecida.
A passagem pela política rendeu-lhe
algumas candidaturas (como a prefeito de Vitória) e amizades
que não mais esqueceu, além da de Ferrari. Como o
vínculo de companheirismo com o médico comunista Aldemar
de Oliveira Neves, histórico militante do PCB, o antigo partidão.
Foram relacionamentos assim que lhe renderam algumas prisões,
quando do regime militar instaurado em 1964, com a deposição
do presidente João Goulart. Me prendiam e soltavam.
Prendiam e soltavam. Não lembro mais quantas vezes foi,
fala ele, com certa indiferença.
Separado da primeira mulher, Margarida
Câmara, mãe de seus seis primeiros filhos, vive hoje
com a segunda, Ângela, mãe da sétima e última
filha e que cuida de suas necessidades no apartamento de Jardim
da Penha. Lá, recebe raras visitas. Uma das mais freqüentes
é a do mais fiel amigo que lhe restou, o dentista Thiers
Pedro Bonacossa, além de outras coisas ex-goleiro do Santo
Antônio.
Somente através dele e das
traduções das falas quase inaudíveis, foi possível
ouvir Rubens. E isto, em apenas parte do que este homem tem para
contar sobre sua vida e a do Espírito Santo em grande parte
do século XX.
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