|
Espalhem minhas cinzas por Vila Velha

Lucas Izoton, cobra criada
Amor do empresário pela
cidade que
o viu nascer tem caráter perene
O encontro foi pontualmente na porta
de entrada de sua fábrica, dispensando informações
que a recepcionista iria repassar para que eu chegasse até
o seu escritório. Ao transpor a mesma porta, restou-me a
certeza de que se tratava de uma pessoa simples, de jeito humilde
e sem muita cerimônia. Lucas Izoton é assim: direto
e com ausência de afetação. Entramos. E só
depois que entramos é que o empresário surgiu, com
pendência de horário e preocupado com o tempo que a
entrevista iria tomar. Achou melhor dar as cartas e sugeriu que
a conversa fosse gravada iria tomar menos tempo, em sua opinião.
Para isso, já tinha em mãos gravador e fita. Pode
ficar com a fita, será mais rápido, assegurou.
Engano. A entrevista rendeu e, ao final, o empresário teve
que sair correndo para um novo compromisso.
O jeito com que manuseava o próprio
gravador demonstrou intimidade com entrevistas. Começou a
falar enumerando os principais assuntos de sua vida, com a naturalidade
de quem não tem o que esconder. Vez ou outra, eu interrompia
para saber mais detalhes sobre determinado assunto. A naturalidade
continuava e novas revelações eram feitas sem a menor
cerimônia.
Essa característica sempre
esteve presente no terceiro filho de quatro irmãos cuja família
morou na rua Antônio Ataíde, no centro de Vila Velha.
De Vila Velha eu não saio nem depois de morto. O meu
desejo é que eu seja cremado e que minhas cinzas sejam espalhadas
por aqui, detalha Lucas Izoton. Essa filosofia é levada
tão a sério que influenciou o slogan do Movimento
Vida Nova Vila Velha (Movive), uma ong criada com amigos em 1997.
Hoje, as 350 pessoas que integram essa ong também afirmam
que não saem de Vila Velha nem depois da morte.
Infância consciente
A casa onde Lucas Izoton foi criado,
na rua Antônio Ataíde, tinha uma peculiaridade: ficava
de frente para o grupo escolar Vasco Fernandes Coutinho e dava fundos
para o Colégio Marista. O engraçado foi que Lucas,
depois de estudar dois anos no Vasco Coutinho, demorou a entrar
pelo portão principal do Colégio Marista, preferindo
utilizar uma cerca situada entre sua casa e a instituição
de ensino. O menino achava divertido passar por baixo da cerca para
assistir às aulas. A mesma praticidade foi copiada pelos
irmãos maristas que também souberam aproveitar a tal
cerca para tomar café e colocar os assuntos em dia com os
pais de Lucas Izoton.
O prazer com os estudos e o gosto
pela leitura renderam ao menino Lucas uma bolsa no Colégio
Marista. Aos 10 anos de idade, sentindo a dificuldade financeira
da família, percebeu que somente com esforço é
que iria crescer na vida. O pai era taxista e a mãe vendia,
ou melhor, vende até hoje produtos da marca Avon. Outra percepção
que Lucas teve desde a infância é que não tinha
habilidades para o esporte.
No entanto, o talento para gerenciar uma marca de sport wear seria
descoberto
mais tarde, com a criação da empresa Cobra Dágua.
Para conseguir uns trocados, Lucas
lavava o carro do pai (que estaria com 75 anos se fosse vivo), vendia
refresco na feira e utilizava os dons artísticos para confeccionar
bolsas, carteiras e sandálias. Essas experiências
foram importantes para mim porque me fizeram apreciar o mundo dos
negócios desde adolescente. Diria que minha infância
serviu para que eu tivesse um pouco mais de responsabilidade, tendo
bem cedo uma consciência profissional. Isso ajudou muito minha
vida de empresário. Não tive uma adolescência
tão extensa como têm hoje minhas duas filhas, mas tenho
consciência de que o aprendizado foi interessante, analisa
Lucas, com seus 46 anos de idade.
Ao tocar no nome da mãe, Genoveva
Izoton Vieira, de 77 anos, os olhos de Lucas Izoton brilham numa
espécie de respeito e admiração. Tanto é
assim que, para provar que trabalho não faz mal a ninguém,
cita como exemplo sua própria mãe. Mamãe
tem 4 pontes de safena e caminha até oito quilômetros
por dia. Essa sobrevida dela é por conta do trabalho. Ela
vende Avon até hoje e atua em ongs. O trabalho não
mata ninguém, o que mata é a falta dele. Existe uma
estatística que mostra que, em média, as pessoas morrem
dois anos e meio depois que se aposentam totalmente. Então,
eu não quero me aposentar nunca. Quero continuar trabalhando.
Não falta fôlego para
isso. Além de dirigir a marca de moda jovem Cobra Dágua,
Lucas Izoton participa de diferentes entidades. Ele é presidente
do Sindicato das Indústrias de Confecção do
Espírito Santo (Sinconfec), conselheiro da Federação
das Indústrias do Espírito Santo (Findes), conselheiro
da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest),
fundador de nove ongs, dentre as quais se destacam o Movive e a
Associação Brasileira dos Amigos dos Passos de Anchieta
(Abapa). Esta última foi criada após o empreendedor
percorrer o famoso e místico caminho de Santiago de Compostela,
na Espanha. As lições de vida aprendidas no trajeto
renderam um livro, O caminho mágico, escrito com a emoção
de quem teve um sonho e cumpriu todas as suas metas.
Em constante atividade, Lucas Izoton está em fase de produção.
Atualmente ele está escrevendo dois livros ainda sem título.
Numa publicação ele irá contar a experiência
vivida na Terra Santa, em Israel. Com mais três amigos, ele
reviveu os passos de Jesus Cristo, na idade adulta. Foram 260 quilômetros
a pé, com mochilas nas costas, em pleno deserto, revivendo
os pontos da vida de pregação de Jesus. Tudo num completo
espírito de aventura, enfrentando desafios naturais e conhecendo
melhor as próprias limitações.
A outra publicação
ainda é segredo mas logo será de conhecimento geral,
como manda o estilo de vida de Izoton.
O dom da escrita foi descoberto com
o prazer da leitura. Ainda no Marista, Lucas Izoton ganhou um prêmio
por ter sido o aluno que mais utilizou a biblioteca ao longo de
um ano. Assim, seu primeiro livro escrito foi O vôo da cobra,
lançado em 2000. Nas linhas, uma autobiografia mesclando
um pouco de sua vida com a da marca Cobra Dágua. O
relato desse livro pode ser a grande motivação da
vida de Lucas Izoton, além da crença em Deus. Acredito
muito em Deus e acho que a primeira condição para
que alguém tenha sucesso na vida é ter uma crença
muito forte numa divindade. No meu caso, como sou cristão,
acredito num Deus cujo filho encarnado nessa Terra é Jesus
Cristo. Respeito todas as religiões e aprecio a filosofia
budista.
Aprendendo com os erros
Antes de obter sucesso com a Cobra
Dágua, Lucas Izoton andou pelos caminhos das pedras,
com altos e baixos, superados com a vontade de vencer. Acostumado
a desenvolver muitas atividades, o engenheiro formado pela Universidade
Federal do Espírito Santo (Ufes) viu seu mundo cair em 1982,
numa grande crise que o país viveu. Depois de trabalhar em
três empresas de engenharia, seu primeiro negócio,
em parceria com o irmão, veio em 1979, no Rio de Janeiro.
Um fato curioso é que, em 1978, último ano de sua
faculdade, Lucas Izoton conseguiu a façanha de acumular quatro
empregos. O malabarismo de funções consistia em dar
aulas no pré-vestibular do Colégio Marista, mais aulas
em Colatina, estagiar na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), além
de atuar como monitor na cadeira de pesquisa operacional da Ufes.
Num tom irônico, ele afirma que, nas horas vagas,
ainda dava tempo para vender carros, telefones e coisas que atraem
o consumismo. Quando a gente quer, arruma tempo. Sempre fui
muito esforçado e isso talvez seja a minha grande característica.
O meu comprometimento, a minha persistência e dedicação
fazem com que realize coisas tidas como impossíveis. Através
da iniciativa, eu consigo a concretização.
Lucas Izoton não se importa
de falar dos fracassos. A falência em 1982 não serviu
como vergonha e, sim, como uma motivação para a vitória.
Ele é do tipo que diz levanta, sacode a poeira e dê
a volta por cima. No malsucedido ano, seus três negócios
foram por água abaixo: o trabalho numa empresa de engenharia
onde tinha participação nos lucros, a confecção
com o irmão no Rio de Janeiro e a produção
agrícola em um sítio. Por azar ou por sorte, depende
de que lado está a análise, ele perdeu tudo o que
tinha e ficou três anos pagando dívidas. Em 1985
descobri que estava zerado. Então percebi como estava feliz
por não estar no negativo como em 1982. Daí tirei
a lição de que é bom ser um zero. Só
quem teve a sensação de ser negativo durante muito
tempo é que sabe como é bom ser um zero.
A experiência de aprender com
os erros e fracassos foi levada tão a sério que mereceu
um capítulo no livro O vôo da cobra. Ao relatar as
dificuldades, o olhar de Lucas Izoton parece dizer: Meu Deus,
já passei por tudo isso e hoje estou aqui. Um pouco
de silêncio e o momento fica suspenso no ar, chamando atenção
pelos obstáculos superados. Para demonstrar que isso é
comum no mundo dos negócios, o empresário cita que
os grandes empreendedores da história já tiveram,
em média, três fracassos ao longo da vida. Eu
tive os três de vez, brinca Izoton, não sem acrescentar:
Hoje rio de tudo que passei. Mas na época foi muito
pesado.
Há um homem e sua história à minha frente.
Há um poço de experiências empresariais, daquelas
que demonstram que um homem pode errar, fracassar. Ele só
não pode desistir. Tem que levantar a cabeça,
analisar a causa dos erros e tocar a vida para a frente. Ninguém
acerta da primeira vez. A gente só acerta quando vai tentando
e consertando. Na minha empresa, fico mais chateado quando a equipe
não decide do que quando ela erra. Quem não decidiu,
já errou e, quem decide, tem boa chance de acertar,
ensina o senhor do caminho das pedras.
A cobra deixa seu rastro
A certeza que Lucas Izoton possuía
era a de trabalhar no ramo das confecções. Mesmo depois
do fracasso, ele aproveitou o ano de 1986 para recomeçar
os negócios numa estamparia, com familiares. Dois anos depois,
a marca Cobra Dágua foi lançada em nível
nacional. O nome do novo empreendimento surgiu de um amigo, hoje
dentista de Lucas Izoton. O empresário gostou do nome por
significar intrinsecamente o cobra da água, o vencedor. Ele
estava certo. A ousadia, ferramenta fundamental no mundo dos negócios,
superou as expectativas e, atualmente, a Cobra Dágua
emprega 600 profissionais diretos e indiretos e possui 3,5 mil clientes
ativos. Desses clientes, fazem parte lojistas multimarcas localizados
em 1,4 mil cidades brasileiras, nos 27 estados.
Quando me perguntam qual característica pessoal provocou
sucessos e fracassos em minha vida, logo respondo: foi a ousadia.
O grande desafio do empreendedor é ser equilibrado na ousadia.
Hoje evito correr riscos muito altos e tenho tudo calculado.
 |
Sou muito sonhador
mas transformo meus sonhos em metas claras e específicas,
descreve Izoton. Para ele, o empreendedor deve trabalhar com
pessoas melhores do que ele próprio. Quando a pessoa
é fraca e insegura, prefere trabalhar com pessoas fracas
para haver o controle. Quero trabalhar com pessoas bem melhores
do que eu para que, então, sejam tomadas as decisões.
A declaração pode servir ao mesmo tempo como ensinamento
e um elogio para quem trabalha na Cobra Dágua,
cuja missão é satisfazer, encantar e surpreender
clientes com produtos e serviços ousados na linha de
sport wear. |
Em todo o país são
10 lojas da marca que já caminha rumo ao mercado internacional.
Para isso, a Cobra Dágua atua no Consórcio Vitória
Export (Convix) junto com outras empresas de pequeno e médio
portes. Num espírito de união faz a força,
a criatividade da moda capixaba é levada para o exterior.
No alvo das exportações estão os países
que integram o Mercosul, América Latina, Caribe, Portugal,
Espanha e Austrália. Quando os pequenos e médios
se juntam, eles se tornam grandes, filosofa Izoton, que admira
ditados, provérbios e pensamentos de historiadores, empreendedores,
escritores e poetas. Para constatar isso, basta ler seus dois livros
já lançados. O início dos capítulos
remete a filosofias que levam à reflexão. É
como se o autor antecipasse em poucas linhas o que será relatado
nas páginas seguintes. Uma forma prática e até
poética de expor o conhecimento descrito.
Na linha de produção
anual da Cobra Dágua estão 1 milhão de
peças de roupa, 100 mil acessórios e 4 milhões
de unidades de caderno. Além da fábrica situada no
pólo industrial do bairro Santa Inês, em Vila Velha,
está prevista uma nova unidade fabril para 2003. Tudo dentro
do planejamento estratégico da empresa, desenvolvido até
o ano de 2006. A grande jogada de marketing da Cobra Dágua
em nível nacional foi a divulgação na Casa
dos Artistas, programa exibido no SBT. O ator Mateus Carnieri, modelo
da Cobra Dágua, não ganhou a competição
mas divulgou muito bem os produtos. Tanto foi assim que o também
ator Alexandre Frota, ao final do programa, esqueceu-se de
devolver uma touca estilo hip-hop para o garoto propaganda.
Serviço bem feito e com sucesso total.
Desviando-se das especulações, Izoton não conta
quem irá vestir a marca na Casa dos Artistas II. Só
depois do dia 16 de fevereiro é que vou falar sobre isso.
Só posso afirmar que estaremos na segunda versão do
programa, garante.
Como o significado da Cobra Dágua
é ser o campeão, o the best em todas as atividades,
nada melhor do que patrocinar esportistas, atletas e artistas. O
ataque do São Caetano, vice-campeão brasileiro de
futebol, veste Cobra Dágua, assim como as últimas
cinco duplas campeãs mundiais masculinas de vôlei.
Atletas amadores também são patrocinados pela marca,
numa forma de apoiar e incentivar todas as vertentes do esporte.
Nas olimpíadas de Sidney, o Brasil não ganhou
nenhuma medalha de ouro e, em tom de brincadeira, costumamos dizer
que a Cobra D´água ganhou duas medalhas de ouro. Isso
porque a dupla australiana que levou ouro no volei feminino (Cook
e Potharst) foi patrocinada durante quatro anos pela Cobra Dágua.
A dupla americana que ganhou no vôlei de praia masculino,
Brandon e Fonoiama, também foi patrocinada.
Desde cedo Lucas Izoton percebeu
que não levava jeito para esportes. Ironia do destino ou
não, ele acabou sendo um empreendedor de uma marca de sport
wear. Ele não pratica esportes em clubes ou academias, preferindo
andar de bicicleta e realizar trekking, caminhadas desafiantes em
trilhas naturais. Tanto é assim que as próximas caminhadas
já estão programadas: Matchu Pitchu e as cordilheiras
do Nepal, belezas que serão desbravadas passo-a-passo pelo
empreendedor de sucesso, em breve espaço de tempo. Ao longo
da entrevista, tenho a impressão de que Lucas Izoton aprecia
o trekking por saber viver um dia de cada vez, traçando metas
a serem superadas e vencendo desafios que aparecem no decorrer do
caminho. É a arte de caminhar sem olhar para trás,
apreciando o horizonte e sabendo que o caminho é um só.
 |
O ponto mais alto
alcançado em suas caminhadas foi o Pico Chacaltaya, na
Bolívia, com 5,4 mil metros de altura e, como ele sabe
caminhar por entre altos e baixos, o Mar Morto foi a parte mais
baixa de suas caminhadas, com seus 396 metros abaixo do nível
do mar. Além do trekking, que serve para distrair as
tensões do mundo dos negócios, a música
internacional é outro hobby de Lucas Izoton. |
Ainda sou um nostálgico
das décadas de 60 e 70. Acho que foi o período mais
criativo da música internacional, opina o fã
dos Beatles e dos Rolling Stones. A leitura diária sempre
acompanhou Izoton e ele faz questão de afirmar que lê
durante duas horas por dia. Dediquei um capítulo do
meu livro à leitura. Quem lê, conversa com os sábios.
Acho que a leitura é fundamental em qualquer atividade profissional.
A qualidade do produto já é uma obrigação.
Uma dica de sucesso deixada por Lucas
Izoton é o bom relacionamento no local de trabalho. Além
disso, ele oferece quatro conselhos: ter sempre uma crença
muito forte em Deus, trabalhar naquilo de que se gosta, sonhar e
transformar sonhos em metas e atuar com muito profissionalismo na
equipe. Não sei se conselho é bom, mas eu venci
assim, destaca.
O silêncio na sala é mantido, sinalizando o fim da
entrevista. Lucas mantém os olhos fixos, como se lembrasse
de alguma coisa importante do passado. Quando ele olha o relógio,
percebo que sua mente está no futuro. De um salto, sai da
cadeira, se informa com a secretária, se despede e caminha
ligeiro para outro compromisso.
Flávia Fernandes (Especial
para SÉCULO)
Fotos: Tadeu Bianconi
|