Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
Principal
Arquivo
Expediente
Download
Fale Conosco
Seções
Fatos e Lendas do Sertão
De história e folclore
Livre Pensar
Crônica
CAPIXABAS DE SUCESSO


‘Espalhem minhas cinzas por Vila Velha’


Lucas Izoton, cobra criada
Amor do empresário pela cidade que
o viu nascer tem caráter perene

O encontro foi pontualmente na porta de entrada de sua fábrica, dispensando informações que a recepcionista iria repassar para que eu chegasse até o seu escritório. Ao transpor a mesma porta, restou-me a certeza de que se tratava de uma pessoa simples, de jeito humilde e sem muita cerimônia. Lucas Izoton é assim: direto e com ausência de afetação. Entramos. E só depois que entramos é que o empresário surgiu, com pendência de horário e preocupado com o tempo que a entrevista iria tomar. Achou melhor dar as cartas e sugeriu que a conversa fosse gravada – iria tomar menos tempo, em sua opinião. Para isso, já tinha em mãos gravador e fita. “Pode ficar com a fita, será mais rápido”, assegurou. Engano. A entrevista rendeu e, ao final, o empresário teve que sair correndo para um novo compromisso.

O jeito com que manuseava o próprio gravador demonstrou intimidade com entrevistas. Começou a falar enumerando os principais assuntos de sua vida, com a naturalidade de quem não tem o que esconder. Vez ou outra, eu interrompia para saber mais detalhes sobre determinado assunto. A naturalidade continuava e novas revelações eram feitas sem a menor cerimônia.

Essa característica sempre esteve presente no terceiro filho de quatro irmãos cuja família morou na rua Antônio Ataíde, no centro de Vila Velha. “De Vila Velha eu não saio nem depois de morto. O meu desejo é que eu seja cremado e que minhas cinzas sejam espalhadas por aqui”, detalha Lucas Izoton. Essa filosofia é levada tão a sério que influenciou o slogan do Movimento Vida Nova Vila Velha (Movive), uma ong criada com amigos em 1997. Hoje, as 350 pessoas que integram essa ong também afirmam que não saem de Vila Velha nem depois da morte.

Infância consciente

A casa onde Lucas Izoton foi criado, na rua Antônio Ataíde, tinha uma peculiaridade: ficava de frente para o grupo escolar Vasco Fernandes Coutinho e dava fundos para o Colégio Marista. O engraçado foi que Lucas, depois de estudar dois anos no Vasco Coutinho, demorou a entrar pelo portão principal do Colégio Marista, preferindo utilizar uma cerca situada entre sua casa e a instituição de ensino. O menino achava divertido passar por baixo da cerca para assistir às aulas. A mesma praticidade foi copiada pelos irmãos maristas que também souberam aproveitar a tal cerca para tomar café e colocar os assuntos em dia com os pais de Lucas Izoton.

O prazer com os estudos e o gosto pela leitura renderam ao menino Lucas uma bolsa no Colégio Marista. Aos 10 anos de idade, sentindo a dificuldade financeira da família, percebeu que somente com esforço é que iria crescer na vida. O pai era taxista e a mãe vendia, ou melhor, vende até hoje produtos da marca Avon. Outra percepção que Lucas teve desde a infância é que não tinha habilidades para o esporte.
No entanto, o talento para gerenciar uma marca de sport wear seria descoberto
mais tarde, com a criação da empresa Cobra D’água.

Para conseguir uns trocados, Lucas lavava o carro do pai (que estaria com 75 anos se fosse vivo), vendia refresco na feira e utilizava os dons artísticos para confeccionar bolsas, carteiras e sandálias. “Essas experiências foram importantes para mim porque me fizeram apreciar o mundo dos negócios desde adolescente. Diria que minha infância serviu para que eu tivesse um pouco mais de responsabilidade, tendo bem cedo uma consciência profissional. Isso ajudou muito minha vida de empresário. Não tive uma adolescência tão extensa como têm hoje minhas duas filhas, mas tenho consciência de que o aprendizado foi interessante”, analisa Lucas, com seus 46 anos de idade.

Ao tocar no nome da mãe, Genoveva Izoton Vieira, de 77 anos, os olhos de Lucas Izoton brilham numa espécie de respeito e admiração. Tanto é assim que, para provar que trabalho não faz mal a ninguém, cita como exemplo sua própria mãe. “Mamãe tem 4 pontes de safena e caminha até oito quilômetros por dia. Essa sobrevida dela é por conta do trabalho. Ela vende Avon até hoje e atua em ongs. O trabalho não mata ninguém, o que mata é a falta dele. Existe uma estatística que mostra que, em média, as pessoas morrem dois anos e meio depois que se aposentam totalmente. Então, eu não quero me aposentar nunca. Quero continuar trabalhando”.

Não falta fôlego para isso. Além de dirigir a marca de moda jovem Cobra D’água, Lucas Izoton participa de diferentes entidades. Ele é presidente do Sindicato das Indústrias de Confecção do Espírito Santo (Sinconfec), conselheiro da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), conselheiro da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), fundador de nove ongs, dentre as quais se destacam o Movive e a Associação Brasileira dos Amigos dos Passos de Anchieta (Abapa). Esta última foi criada após o empreendedor percorrer o famoso e místico caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. As lições de vida aprendidas no trajeto renderam um livro, O caminho mágico, escrito com a emoção de quem teve um sonho e cumpriu todas as suas metas.
Em constante atividade, Lucas Izoton está em fase de produção. Atualmente ele está escrevendo dois livros ainda sem título. Numa publicação ele irá contar a experiência vivida na Terra Santa, em Israel. Com mais três amigos, ele reviveu os passos de Jesus Cristo, na idade adulta. Foram 260 quilômetros a pé, com mochilas nas costas, em pleno deserto, revivendo os pontos da vida de pregação de Jesus. Tudo num completo espírito de aventura, enfrentando desafios naturais e conhecendo melhor as próprias limitações.

A outra publicação ainda é segredo mas logo será de conhecimento geral, como manda o estilo de vida de Izoton.

O dom da escrita foi descoberto com o prazer da leitura. Ainda no Marista, Lucas Izoton ganhou um prêmio por ter sido o aluno que mais utilizou a biblioteca ao longo de um ano. Assim, seu primeiro livro escrito foi O vôo da cobra, lançado em 2000. Nas linhas, uma autobiografia mesclando um pouco de sua vida com a da marca Cobra D’água. O relato desse livro pode ser a grande motivação da vida de Lucas Izoton, além da crença em Deus. “Acredito muito em Deus e acho que a primeira condição para que alguém tenha sucesso na vida é ter uma crença muito forte numa divindade. No meu caso, como sou cristão, acredito num Deus cujo filho encarnado nessa Terra é Jesus Cristo. Respeito todas as religiões e aprecio a filosofia budista”.

Aprendendo com os erros

Antes de obter sucesso com a Cobra D’água, Lucas Izoton andou pelos caminhos das pedras, com altos e baixos, superados com a vontade de vencer. Acostumado a desenvolver muitas atividades, o engenheiro formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) viu seu mundo cair em 1982, numa grande crise que o país viveu. Depois de trabalhar em três empresas de engenharia, seu primeiro negócio, em parceria com o irmão, veio em 1979, no Rio de Janeiro. Um fato curioso é que, em 1978, último ano de sua faculdade, Lucas Izoton conseguiu a façanha de acumular quatro empregos. O malabarismo de funções consistia em dar aulas no pré-vestibular do Colégio Marista, mais aulas em Colatina, estagiar na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), além de atuar como monitor na cadeira de pesquisa operacional da Ufes. Num tom irônico, ele afirma que, nas “horas vagas”, ainda dava tempo para vender carros, telefones e coisas que atraem o consumismo. “Quando a gente quer, arruma tempo. Sempre fui muito esforçado e isso talvez seja a minha grande característica. O meu comprometimento, a minha persistência e dedicação fazem com que realize coisas tidas como impossíveis. Através da iniciativa, eu consigo a concretização”.

Lucas Izoton não se importa de falar dos fracassos. A falência em 1982 não serviu como vergonha e, sim, como uma motivação para a vitória. Ele é do tipo que diz “levanta, sacode a poeira e dê a volta por cima”. No malsucedido ano, seus três negócios foram por água abaixo: o trabalho numa empresa de engenharia onde tinha participação nos lucros, a confecção com o irmão no Rio de Janeiro e a produção agrícola em um sítio. Por azar ou por sorte, depende de que lado está a análise, ele perdeu tudo o que tinha e ficou três anos pagando dívidas. “Em 1985 descobri que estava zerado. Então percebi como estava feliz por não estar no negativo como em 1982. Daí tirei a lição de que é bom ser um zero. Só quem teve a sensação de ser negativo durante muito tempo é que sabe como é bom ser um zero”.

A experiência de aprender com os erros e fracassos foi levada tão a sério que mereceu um capítulo no livro O vôo da cobra. Ao relatar as dificuldades, o olhar de Lucas Izoton parece dizer: “Meu Deus, já passei por tudo isso e hoje estou aqui”. Um pouco de silêncio e o momento fica suspenso no ar, chamando atenção pelos obstáculos superados. Para demonstrar que isso é comum no mundo dos negócios, o empresário cita que os grandes empreendedores da história já tiveram, em média, três fracassos ao longo da vida. “Eu tive os três de vez”, brinca Izoton, não sem acrescentar: “Hoje rio de tudo que passei. Mas na época foi muito
pesado”.
Há um homem e sua história à minha frente. Há um poço de experiências empresariais, daquelas que demonstram que um homem pode errar, fracassar. Ele só não pode desistir. “Tem que levantar a cabeça, analisar a causa dos erros e tocar a vida para a frente. Ninguém acerta da primeira vez. A gente só acerta quando vai tentando e consertando. Na minha empresa, fico mais chateado quando a equipe não decide do que quando ela erra. Quem não decidiu, já errou e, quem decide, tem boa chance de acertar”, ensina o senhor do caminho das pedras.

A cobra deixa seu rastro

A certeza que Lucas Izoton possuía era a de trabalhar no ramo das confecções. Mesmo depois do fracasso, ele aproveitou o ano de 1986 para recomeçar os negócios numa estamparia, com familiares. Dois anos depois, a marca Cobra D’água foi lançada em nível nacional. O nome do novo empreendimento surgiu de um amigo, hoje dentista de Lucas Izoton. O empresário gostou do nome por significar intrinsecamente o cobra da água, o vencedor. Ele estava certo. A ousadia, ferramenta fundamental no mundo dos negócios, superou as expectativas e, atualmente, a Cobra D’água emprega 600 profissionais diretos e indiretos e possui 3,5 mil clientes ativos. Desses clientes, fazem parte lojistas multimarcas localizados em 1,4 mil cidades brasileiras, nos 27 estados.
“Quando me perguntam qual característica pessoal provocou sucessos e fracassos em minha vida, logo respondo: foi a ousadia. O grande desafio do empreendedor é ser equilibrado na ousadia. Hoje evito correr riscos muito altos e tenho tudo calculado.

Sou muito sonhador mas transformo meus sonhos em metas claras e específicas”, descreve Izoton. Para ele, o empreendedor deve trabalhar com pessoas melhores do que ele próprio. “Quando a pessoa é fraca e insegura, prefere trabalhar com pessoas fracas para haver o controle. Quero trabalhar com pessoas bem melhores do que eu para que, então, sejam tomadas as decisões”. A declaração pode servir ao mesmo tempo como ensinamento e um elogio para quem trabalha na Cobra D’água, cuja missão é “satisfazer, encantar e surpreender clientes com produtos e serviços ousados na linha de sport wear”.

Em todo o país são 10 lojas da marca que já caminha rumo ao mercado internacional. Para isso, a Cobra D’água atua no Consórcio Vitória Export (Convix) junto com outras empresas de pequeno e médio portes. Num espírito de união faz a força, a criatividade da moda capixaba é levada para o exterior. No alvo das exportações estão os países que integram o Mercosul, América Latina, Caribe, Portugal, Espanha e Austrália. “Quando os pequenos e médios se juntam, eles se tornam grandes”, filosofa Izoton, que admira ditados, provérbios e pensamentos de historiadores, empreendedores, escritores e poetas. Para constatar isso, basta ler seus dois livros já lançados. O início dos capítulos remete a filosofias que levam à reflexão. É como se o autor antecipasse em poucas linhas o que será relatado nas páginas seguintes. Uma forma prática e até poética de expor o conhecimento descrito.

Na linha de produção anual da Cobra D’água estão 1 milhão de peças de roupa, 100 mil acessórios e 4 milhões de unidades de caderno. Além da fábrica situada no pólo industrial do bairro Santa Inês, em Vila Velha, está prevista uma nova unidade fabril para 2003. Tudo dentro do planejamento estratégico da empresa, desenvolvido até o ano de 2006. A grande jogada de marketing da Cobra D’água em nível nacional foi a divulgação na Casa dos Artistas, programa exibido no SBT. O ator Mateus Carnieri, modelo da Cobra D’água, não ganhou a competição mas divulgou muito bem os produtos. Tanto foi assim que o também ator Alexandre Frota, ao final do programa, “esqueceu-se de devolver” uma touca estilo hip-hop para o garoto propaganda. Serviço bem feito e com sucesso total.
Desviando-se das especulações, Izoton não conta quem irá vestir a marca na Casa dos Artistas II. “Só depois do dia 16 de fevereiro é que vou falar sobre isso. Só posso afirmar que estaremos na segunda versão do programa”, garante.

Como o significado da Cobra D’água é ser o campeão, o the best em todas as atividades, nada melhor do que patrocinar esportistas, atletas e artistas. O ataque do São Caetano, vice-campeão brasileiro de futebol, veste Cobra D’água, assim como as últimas cinco duplas campeãs mundiais masculinas de vôlei. Atletas amadores também são patrocinados pela marca, numa forma de apoiar e incentivar todas as vertentes do esporte. “Nas olimpíadas de Sidney, o Brasil não ganhou nenhuma medalha de ouro e, em tom de brincadeira, costumamos dizer que a Cobra D´água ganhou duas medalhas de ouro. Isso porque a dupla australiana que levou ouro no volei feminino (Cook e Potharst) foi patrocinada durante quatro anos pela Cobra D’água. A dupla americana que ganhou no vôlei de praia masculino, Brandon e Fonoiama, também foi patrocinada.

Desde cedo Lucas Izoton percebeu que não levava jeito para esportes. Ironia do destino ou não, ele acabou sendo um empreendedor de uma marca de sport wear. Ele não pratica esportes em clubes ou academias, preferindo andar de bicicleta e realizar trekking, caminhadas desafiantes em trilhas naturais. Tanto é assim que as próximas caminhadas já estão programadas: Matchu Pitchu e as cordilheiras do Nepal, belezas que serão desbravadas passo-a-passo pelo empreendedor de sucesso, em breve espaço de tempo. Ao longo da entrevista, tenho a impressão de que Lucas Izoton aprecia o trekking por saber viver um dia de cada vez, traçando metas a serem superadas e vencendo desafios que aparecem no decorrer do caminho. É a arte de caminhar sem olhar para trás, apreciando o horizonte e sabendo que o caminho é um só.

O ponto mais alto alcançado em suas caminhadas foi o Pico Chacaltaya, na Bolívia, com 5,4 mil metros de altura e, como ele sabe caminhar por entre altos e baixos, o Mar Morto foi a parte mais baixa de suas caminhadas, com seus 396 metros abaixo do nível do mar. Além do trekking, que serve para distrair as tensões do mundo dos negócios, a música internacional é outro hobby de Lucas Izoton.

“Ainda sou um nostálgico das décadas de 60 e 70. Acho que foi o período mais criativo da música internacional”, opina o fã dos Beatles e dos Rolling Stones. A leitura diária sempre acompanhou Izoton e ele faz questão de afirmar que lê durante duas horas por dia. “Dediquei um capítulo do meu livro à leitura. Quem lê, conversa com os sábios. Acho que a leitura é fundamental em qualquer atividade profissional. A qualidade do produto já é uma obrigação”.

Uma dica de sucesso deixada por Lucas Izoton é o bom relacionamento no local de trabalho. Além disso, ele oferece quatro conselhos: ter sempre uma crença muito forte em Deus, trabalhar naquilo de que se gosta, sonhar e transformar sonhos em metas e atuar com muito profissionalismo na equipe. “Não sei se conselho é bom, mas eu venci assim”, destaca.
O silêncio na sala é mantido, sinalizando o fim da entrevista. Lucas mantém os olhos fixos, como se lembrasse de alguma coisa importante do passado. Quando ele olha o relógio, percebo que sua mente está no futuro. De um salto, sai da cadeira, se informa com a secretária, se despede e caminha ligeiro para outro compromisso.

Flávia Fernandes (Especial para SÉCULO)
Fotos: Tadeu Bianconi

 

 

Fevereiro /2001 - Nº24

Clique Aqui e faça download da revista completa em PDF.
Século Diário
O Jornal do Espírito Santo na Internet.
Uma publicação M4 - Jornalismo, Fotografia e Fotojornalismo Ltda.

..


.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.



.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.