Vitória - ES- ANO II - Nº 24 - Fevereiro - 2002
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O MAR como testemunha

Mais que um cartão postal

Penedo, ilustre personagem de nossas origens

Fernanda Couzemenco
Fotos: Guinaldo Nicolaevsky

Do alto dos seus 136 m de altitude e 19 ha de área, o morro do Penedo é mais do que o cartão postal bonito e imponente da baía de Vitória. É também testemunha e vitrine dos avanços e recuos do oceano nos últimos 22,5 mil anos e um monumento em potencial para atração turística e educação ambiental, atividades ainda incipientes no local.

Segundo o zelador e único morador do Penedo, Agnaldo de Moura, o morro é visitado anualmente por até 4 mil pessoas, entre esportistas, estudantes e famílias, na maioria. As principais atrações são a pesca de linha, os 3,5 mil metros de trilhas no entorno da pedra (percorridas em uma hora de caminhada), as trilhas de escalada com diferentes níveis de dificuldade, e a maravilhosa vista de Vitória e Vila Velha que se tem do cume.

O acesso ao Penedo é bastante fácil (veja box), mas a infraestrutura para recepção de turistas é muito precária, resumindo-se basicamente à hospitalidade do zelador. O projeto de implantação do Parque Municipal do Morro do Penedo, criado em 1994, é de autoria da organização não-governamental Movimento Vida Nova Vila Velha (Movive) e prevê a construção de dois mirantes, museu, recuperação vegetal, entre outras obras.

No momento, a ong busca patrocínio para a elaboração do Plano de Manejo, orçado em R$ 80 mil. “O parque já poderia estar funcionando se os R$ 500 mil definidos como condicionante para ampliação do píer da Companhia Vale do Rio Doce tivessem sido aplicados no Penedo, local diretamente impactado pelas obras, e não na Lagoa do Cocal, como preferiu a administração municipal passada. Eram recursos mais do que suficientes”, avalia a presidente do Movive, Cristina Puppin.

Pesquisadores defendem preservação

Mas, como todo personagem ilustre, o Penedo também é epicentro de polêmicas e ironias, algumas divertidas, outras nem tanto. Figura no brasão da cidade de Vitória, mesmo estando em território de Vila Velha. E, apesar de tombado como monumento natural pelo Conselho Estadual de Cultura e pela Prefeitura de Vitória, e declarado parque municipal de Vila Velha, tem se transformado em uma ilha cercada de portos e lixo por todos os lados.

Segundo Agnaldo, são cerca de quatro toneladas de lixo/mês. Uma parceria entre a Prefeitura de Vitória, a construtora Queiroz Galvão (responsável pela limpeza pública no município) e o Consórcio Portuário de Vila Velha (CPVV) vai permitir em breve que o lixo seja coletado e transportado para local adequado, em vez de enfeiar a entrada do Penedo.

Além disso, Agnaldo, que também é presidente da Associação dos Catraieiros da Baía de Vitória, lidera um projeto de limpeza da baía, a ser desenvolvido em conjunto com as ongs Ecoplan e Movive e o Consórcio dos Rios Santa Maria da Vitória e Jucu. Para isso, a associação de catraieiros deve ser ampliada para Associação dos Amigos da Baía de Vitória, incluindo os usuários e amigos. “Sozinho ninguém tem voz.
Precisamos nos unir e impedir que o desenvolvimento seja apenas econômico. Precisamos preservar o que temos de bonito e desenvolver o ecoturismo de forma limpa e sustentável”, anima-se Agnaldo.

As palavras do zelador fazem coro à avaliação de pesquisadores de dentro e fora do Estado, como o antropólogo capixaba Celso Perota. Perota defende a importância de se preservar não só o Penedo, mas também o manguezal do rio Aribiri, a leste do morro. “A maior parte dos restos indígenas das tribos que habitaram a região da Grande Vitória estão ao longo do leito do Aribiri”, conta o antropólogo.
Outro ferrenho defensor do Penedo é o geólogo e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA - USP), Aziz Ab’Saber, que faz do cartão postal capixaba personagem constante em suas palestras pelo Brasil. “O Penedo precisa ser preservado, estudado e conhecido por pesquisadores, estudantes, moradores e turistas. Ele conta uma história muito importante, que ainda poucos conhecem”, conclamou Ab’Saber, em entrevista por telefone à SÉCULO.

Apesar do aparente consenso sobre a necessidade de preservação ambiental e cultural do Penedo, o morro tem visto se concretizarem apenas os projetos econômicos ao seu redor. O mais recente foi a instalação de dois guindastes ao sul, para ampliação do porto da CVRD.

“Na minha opinião, não foi uma boa idéia. Visualmente ficou ruim”, opina Celso Perota, resumindo o sentimento de boa parte da população e amantes do Penedo. Da fato, os guindastes acabaram com parte da vista que se tinha do alto. “Um dos mirantes do projeto do Parque proporcionaria uma vista até a Ilha das Caieiras, mas agora não sabemos se será possível contruí-lo”, lamenta Cristina Puppin.

“Temos que evitar que o poder econômico acabe com tudo. Daqui a pouco não teremos mais manguezal do Aribiri, apenas retroárea de porto”, alerta Agnaldo de Moura, lembrando que o complexo do Penedo era formado por quatro pedras principais, das quais só restaram o próprio Penedo, a Urca e parte de uma terceira, e que o próprio Penedo já teve 23 ha de área, em vez dos 19 ha atuais, e duas nascentes de água. “Todos precisamos nos unir”, conclama.

Zelador, guardião e amante

O colatinense Agnaldo de Moura, 49, há 21 anos mora no Penedo. A proposta da insólita moradia partiu da então proprietária da área, Leizir Lucas Batista Avanza, que procurava um zelador para o morro. Na época, Agnaldo era pescador e morava próximo à face leste do Penedo, na foz do Aribiri.
Ele foi substituir um refugiado grego, que fazia o trabalho de vigia, mas foi embora para os Estados Unidos, mesmo depois de ter constituído família em Vitória com uma prostituta de nome Marina, da antiga boate Escandinave. O grego construíra uma casa de pedra, hoje abandonada, mas que, segundo o projeto do parque, deve se tornar museu.

Agnaldo também constituiu família, mas vive separado da mãe de sua filha Valquíria, de 7 anos, que o visita nos finais de semana. Como companheiros diários, conta com três rottweileres, o silêncio e a tranqüilidade do Penedo.

Tranqüilidade que raramente é quebrada. Uma dessas vezes ocorreu no final dos anos 80, quando três fugitivos do Instituto de Recuperação Social e da Casa de Detenção, instalados em uma ilha atrás do Penedo, invadiram o paraíso de Agnaldo, lhe pedindo comida, roupas e uma carona até a Beira-mar, para fugirem da polícia. “Dei a comida e a roupa e emprestei meu barco. Não os levei para não ser confundido com bandido. Depois nadei até a avenida (são 250 m de travessia) e peguei o barco de volta”, recorda Agnaldo, divertido.

Outra fonte de renda é o transporte de passageiros de Vitória até Paul, em Vila Velha. O presidente da Associação de Catraieiros conta que cerca de 600 pessoas utilizam diariamente o transporte, garantindo o sustento de 16 catraieiros. A vida simples que leva, Agnaldo diz não trocar por nada. “Alguns dizem que sou louco, outros que sou privilegiado, com o que concordo.

Gosto de ficar sozinho, de meditar. Não troco isso aqui por nada, por cobertura na Praia da Costa, ou em lugar algum”, afirma.

Ajudando a entender a dinâmica das marés

O geólogo e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA - USP) Aziz Ab’Saber utiliza freqüentemente o Penedo como melhor exemplo para falar sobre as mudanças no nível do mar ocorridas nos últimos 22,5 mil anos. As manchas brancas e as fissuras horizontais próximas à base do
Penedo são as provas visuais dessas transformações, citadas pelo pesquisador.

Ab’Saber conta que há 22,5 mil anos existia um rio, batizado por ele de Rio Palio de Vitória, onde hoje é a baía de Vitória, em frente ao Penedo. O mar, nessa época, estava a 100 m da posição atual.

Dez mil anos depois, durante o período Ótimo Climático, quando as temperaturas do planeta foram bem mais altas do que as atuais, o mar avançou, extinguindo o Rio Palio de Vitória (e outros rios palios do Brasil) e chegando a 3,5 m acima dos níveis atuais, deixando como marcas desse período as manchas brancas na face oeste do Penedo.

Outras marcas do último avanço do mar são as chamadas ranhuras de abrasão, fendas horizontais na base do Penedo, próximas à lâmina d’água. Segundo Ab’Saber, as maiores do Brasil, com cerca de 80 cm de largura. “Não há outras como essas em todo o litoral brasileiro”, entusiasma-se.

Finalmente, há 5 ou 6 mil anos o mar recuou novamente, chegando a níveis próximos dos atuais. É possível que avance de novo? Considerando principalmente o efeito estufa que vivenciamos atualmente, é bem provável que sim. “Mas prefiro não fazer previsões sobre isso”, acautela-se Ab’Saber, que conta com mais detalhes essas e outras histórias em seu último livro, O litoral brasileiro, lançado em dezembro pela Editora Metavídeo.


 

Fevereiro /2001 - Nº24

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