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Mais que um cartão
postal
Penedo, ilustre personagem de nossas origens
Fernanda Couzemenco
Fotos: Guinaldo Nicolaevsky
Do alto dos seus 136 m de altitude
e 19 ha de área, o morro do Penedo é mais do que o
cartão postal bonito e imponente da baía de Vitória.
É também testemunha e vitrine dos avanços e
recuos do oceano nos últimos 22,5 mil anos e um monumento
em potencial para atração turística e educação
ambiental, atividades ainda incipientes no local.
Segundo o zelador e único
morador do Penedo, Agnaldo de Moura, o morro é visitado anualmente
por até 4 mil pessoas, entre esportistas, estudantes e famílias,
na maioria. As principais atrações são a pesca
de linha, os 3,5 mil metros de trilhas no entorno da pedra (percorridas
em uma hora de caminhada), as trilhas de escalada com diferentes
níveis de dificuldade, e a maravilhosa vista de Vitória
e Vila Velha que se tem do cume.
O acesso ao Penedo é bastante
fácil (veja box), mas a infraestrutura para recepção
de turistas é muito precária, resumindo-se basicamente
à hospitalidade do zelador. O projeto de implantação
do Parque Municipal do Morro do Penedo, criado em 1994, é
de autoria da organização não-governamental
Movimento Vida Nova Vila Velha (Movive) e prevê a construção
de dois mirantes, museu, recuperação vegetal, entre
outras obras.
No momento, a ong busca patrocínio
para a elaboração do Plano de Manejo, orçado
em R$ 80 mil. O parque já poderia estar funcionando
se os R$ 500 mil definidos como condicionante para ampliação
do píer da Companhia Vale do Rio Doce tivessem sido aplicados
no Penedo, local diretamente impactado pelas obras, e não
na Lagoa do Cocal, como preferiu a administração municipal
passada. Eram recursos mais do que suficientes, avalia a presidente
do Movive, Cristina Puppin.
Pesquisadores defendem preservação
Mas, como todo personagem ilustre,
o Penedo também é epicentro de polêmicas e ironias,
algumas divertidas, outras nem tanto. Figura no brasão da
cidade de Vitória, mesmo estando em território de
Vila Velha. E, apesar de tombado como monumento natural pelo Conselho
Estadual de Cultura e pela Prefeitura de Vitória, e declarado
parque municipal de Vila Velha, tem se transformado em uma ilha
cercada de portos e lixo por todos os lados.
Segundo Agnaldo, são cerca
de quatro toneladas de lixo/mês. Uma parceria entre a Prefeitura
de Vitória, a construtora Queiroz Galvão (responsável
pela limpeza pública no município) e o Consórcio
Portuário de Vila Velha (CPVV) vai permitir em breve que
o lixo seja coletado e transportado para local adequado, em vez
de enfeiar a entrada do Penedo.
Além disso, Agnaldo, que também
é presidente da Associação dos Catraieiros
da Baía de Vitória, lidera um projeto de limpeza da
baía, a ser desenvolvido em conjunto com as ongs Ecoplan
e Movive e o Consórcio dos Rios Santa Maria da Vitória
e Jucu. Para isso, a associação de catraieiros deve
ser ampliada para Associação dos Amigos da Baía
de Vitória, incluindo os usuários e amigos. Sozinho
ninguém tem voz.
Precisamos nos unir e impedir que o desenvolvimento seja apenas
econômico. Precisamos preservar o que temos de bonito e desenvolver
o ecoturismo de forma limpa e sustentável, anima-se
Agnaldo.
As palavras do zelador fazem coro
à avaliação de pesquisadores de dentro e fora
do Estado, como o antropólogo capixaba Celso Perota. Perota
defende a importância de se preservar não só
o Penedo, mas também o manguezal do rio Aribiri, a leste
do morro. A maior parte dos restos indígenas das tribos
que habitaram a região da Grande Vitória estão
ao longo do leito do Aribiri, conta o antropólogo.
Outro ferrenho defensor do Penedo é o geólogo e professor
honorário do Instituto de Estudos Avançados da Universidade
de São Paulo (IEA - USP), Aziz AbSaber, que faz do
cartão postal capixaba personagem constante em suas palestras
pelo Brasil. O Penedo precisa ser preservado, estudado e conhecido
por pesquisadores, estudantes, moradores e turistas. Ele conta uma
história muito importante, que ainda poucos conhecem,
conclamou AbSaber, em entrevista por telefone à SÉCULO.
Apesar do aparente consenso sobre
a necessidade de preservação ambiental e cultural
do Penedo, o morro tem visto se concretizarem apenas os projetos
econômicos ao seu redor. O mais recente foi a instalação
de dois guindastes ao sul, para ampliação do porto
da CVRD.
Na minha opinião, não
foi uma boa idéia. Visualmente ficou ruim, opina Celso
Perota, resumindo o sentimento de boa parte da população
e amantes do Penedo. Da fato, os guindastes acabaram com parte da
vista que se tinha do alto. Um dos mirantes do projeto do
Parque proporcionaria uma vista até a Ilha das Caieiras,
mas agora não sabemos se será possível contruí-lo,
lamenta Cristina Puppin.
Temos que evitar que o poder
econômico acabe com tudo. Daqui a pouco não teremos
mais manguezal do Aribiri, apenas retroárea de porto,
alerta Agnaldo de Moura, lembrando que o complexo do Penedo era
formado por quatro pedras principais, das quais só restaram
o próprio Penedo, a Urca e parte de uma terceira, e que o
próprio Penedo já teve 23 ha de área, em vez
dos 19 ha atuais, e duas nascentes de água. Todos precisamos
nos unir, conclama.
Zelador, guardião e amante
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O colatinense Agnaldo
de Moura, 49, há 21 anos mora no Penedo. A proposta da
insólita moradia partiu da então proprietária
da área, Leizir Lucas Batista Avanza, que procurava um
zelador para o morro. Na época, Agnaldo era pescador
e morava próximo à face leste do Penedo, na foz
do Aribiri. |
| Ele foi substituir
um refugiado grego, que fazia o trabalho de vigia, mas foi embora
para os Estados Unidos, mesmo depois de ter constituído
família em Vitória com uma prostituta de nome
Marina, da antiga boate Escandinave. O grego construíra
uma casa de pedra, hoje abandonada, mas que, segundo o projeto
do parque, deve se tornar museu. |
Agnaldo também constituiu
família, mas vive separado da mãe de sua filha Valquíria,
de 7 anos, que o visita nos finais de semana. Como companheiros
diários, conta com três rottweileres, o silêncio
e a tranqüilidade do Penedo.
Tranqüilidade que raramente
é quebrada. Uma dessas vezes ocorreu no final dos anos 80,
quando três fugitivos do Instituto de Recuperação
Social e da Casa de Detenção, instalados em uma ilha
atrás do Penedo, invadiram o paraíso de Agnaldo, lhe
pedindo comida, roupas e uma carona até a Beira-mar, para
fugirem da polícia. Dei a comida e a roupa e emprestei
meu barco. Não os levei para não ser confundido com
bandido. Depois nadei até a avenida (são 250 m de
travessia) e peguei o barco de volta, recorda Agnaldo, divertido.
Outra fonte de renda é o transporte
de passageiros de Vitória até Paul, em Vila Velha.
O presidente da Associação de Catraieiros conta que
cerca de 600 pessoas utilizam diariamente o transporte, garantindo
o sustento de 16 catraieiros. A vida simples que leva, Agnaldo diz
não trocar por nada. Alguns dizem que sou louco, outros
que sou privilegiado, com o que concordo.
Gosto de ficar sozinho, de meditar.
Não troco isso aqui por nada, por cobertura na Praia da Costa,
ou em lugar algum, afirma.
Ajudando a entender a dinâmica
das marés
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O geólogo
e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados
da Universidade de São Paulo (IEA - USP) Aziz AbSaber
utiliza freqüentemente o Penedo como melhor exemplo para
falar sobre as mudanças no nível do mar ocorridas
nos últimos 22,5 mil anos. As manchas brancas e as fissuras
horizontais próximas à base do |
| Penedo são
as provas visuais dessas transformações, citadas
pelo pesquisador. |
AbSaber conta que há
22,5 mil anos existia um rio, batizado por ele de Rio Palio de Vitória,
onde hoje é a baía de Vitória, em frente ao
Penedo. O mar, nessa época, estava a 100 m da posição
atual.
Dez mil anos depois, durante o período
Ótimo Climático, quando as temperaturas do planeta
foram bem mais altas do que as atuais, o mar avançou, extinguindo
o Rio Palio de Vitória (e outros rios palios do Brasil) e
chegando a 3,5 m acima dos níveis atuais, deixando como marcas
desse período as manchas brancas na face oeste do Penedo.
Outras marcas do último avanço
do mar são as chamadas ranhuras de abrasão, fendas
horizontais na base do Penedo, próximas à lâmina
dágua. Segundo AbSaber, as maiores do Brasil,
com cerca de 80 cm de largura. Não há outras
como essas em todo o litoral brasileiro, entusiasma-se.
Finalmente, há 5 ou 6 mil
anos o mar recuou novamente, chegando a níveis próximos
dos atuais. É possível que avance de novo? Considerando
principalmente o efeito estufa que vivenciamos atualmente, é
bem provável que sim. Mas prefiro não fazer
previsões sobre isso, acautela-se AbSaber, que
conta com mais detalhes essas e outras histórias em seu último
livro, O litoral brasileiro, lançado em dezembro pela Editora
Metavídeo.
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