Terça, 21 Mai 2024

​IA na educação: alarme necessário

O avanço tecnológico é uma realidade inegável, permeando todos os aspectos de nossas vidas, inclusive a educação. No entanto, como em qualquer avanço, é essencial avaliar suas implicações e como ele se alinha aos valores educacionais fundamentais. A recente decisão do governo de São Paulo de adotar o ChatGPT, um chatbot de inteligência artificial, para a produção de aulas digitais em todas as escolas públicas do estado, traz à tona uma série de questões sobre o futuro da educação.

A iniciativa visa agilizar a produção de material didático para os milhões de alunos da rede estadual, substituindo parte do trabalho dos professores curriculistas pela geração automatizada de conteúdo. Essa mudança representa uma significativa transição na forma como o conhecimento é transmitido e como os educadores interagem com o processo educacional.

Ao delegar a elaboração inicial das aulas ao ChatGPT, o governo de São Paulo espera aumentar a produtividade dos professores, reduzindo o tempo necessário para a preparação do material. No entanto, essa abordagem levanta sérias preocupações sobre a qualidade e a personalização do ensino.

Em primeiro lugar, a educação não é apenas sobre a transmissão de informações, mas também sobre a construção de relacionamentos e o desenvolvimento de habilidades interpessoais. Os professores desempenham um papel fundamental nesse aspecto, oferecendo suporte emocional e orientação individualizada aos alunos. A substituição parcial de professores por tecnologia pode resultar na perda desse elemento humano essencial no processo de aprendizagem.

Além disso, a qualidade do conteúdo gerado pelo ChatGPT pode ser questionável. Embora a inteligência artificial tenha avançado significativamente, ainda há limitações em sua capacidade de compreender nuances e adaptar-se às necessidades individuais dos alunos. A falta de personalização pode resultar em aulas genéricas e desinteressantes, que não atendem às necessidades específicas de cada estudante.

Outra preocupação é o impacto na autonomia e no profissionalismo dos professores. Ao tornar os docentes responsáveis por "avaliar e ajustar" o material gerado pela IA, o governo corre o risco de transformar os professores em meros editores de conteúdo, limitando sua capacidade de inovar e personalizar o ensino de acordo com suas próprias experiências e conhecimentos.

Em cidades ao redor do mundo, iniciativas semelhantes ao uso de inteligência artificial na produção de material educacional têm sido exploradas, com resultados diversos e algumas consequências notáveis. Em alguns lugares, como na China, sistemas de IA são utilizados para tutoria e auxílio no aprendizado, resultando em uma ampla cobertura de conteúdo educacional para uma população estudantil massiva. Críticos apontam para possíveis efeitos negativos, como a diminuição do contato humano e a falta de personalização no ensino.

Por outro lado, em países como a Finlândia, onde a abordagem educacional é tradicionalmente centrada no aluno, o uso de IA tem sido cauteloso e focado em complementar, em vez de substituir, o papel do professor. Essas experiências sugerem que o sucesso do uso de IA na educação depende não apenas da tecnologia em si, mas também da maneira como é implementada e integrada ao contexto educacional local.

É fundamental ressaltar que qualquer adoção de tecnologia na educação seja cuidadosamente planejada e avaliada, levando em consideração não apenas a eficiência, mas também os princípios pedagógicos e os melhores interesses dos alunos. A educação não é uma mercadoria que pode ser produzida em massa, mas um processo complexo que requer sensibilidade, criatividade e dedicação por parte dos educadores.

Neste momento de rápidas transformações tecnológicas, é fundamental que governos e instituições educacionais façam escolhas conscientes e responsáveis sobre o papel da tecnologia na educação. O futuro da nossa sociedade depende da qualidade da educação que oferecemos às gerações e devemos garantir que essa educação seja enriquecedora, inclusiva e verdadeiramente humana.

Flávia Fernandes é jornalista, professora e autêntica "navegadora do conhecimento IA"
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